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sábado, 4 de junho de 2016

Ser forte para ser delicado





A delicadeza, sem força, é um carinho sem tônus, que não confronta.

A força, sem delicadeza, é um tônus reativo, que não cuida.

A força delicada é um tônus que acolhe.

A delicadeza forte é um carinho que protege.

Quem são os homens que, hoje, arriscam ser delicados, sem abrir mão da sua força?

Quem são os homens que, hoje, sustentam ser fortes, revestindo-se de delicadeza?

Conseguir massagear a dor do mundo com mãos que não se acovardam, nem a apertam até sufocar.

Conseguir massagear a própria dor com mãos que entram firmes e sensíveis no próprio coração.

Respirar o ódio que atravessa as estranhas, para que ele esquente o sangue da compaixão, em vez de estourar as veias da sensibilidade.

Insuflar no corpo macio a vitalidade que nos motiva a seguir em frente e fazer o que precisa ser feito, sem preguiça ou lentidão.

Ter o vigor para manter-se imóvel diante do chacoalhão do vento, e doce para recebe-lo como um presente de Deus.

Curar o que nos aflige com uma mão que corta e outra que afaga.

Ter firmeza para ouvir o grito sem desabar, e empatia para entrar em ressonância com a voz que nos atravessa.

Mover-se com os músculos de um guerreiro e as articulações de um dançarino.

Trazer na voz o tom grave que desce até o centro da terra e o timbre agudo que sobe até os céus.

Ter delicadeza para sorrir e força para nada expressar se não “eu estou aqui”.

Ter força para cuidar de todos e delicadeza para cuidar de si.

Ser delicado para abrir as portas de casa e força para sustentar a solidão.

Ser forte para sustentar os ideais e delicado para ampliá-los com a escuta dos demais.

Legitimar a própria existência por reconhecer a poesia delicada da vida em cada segundo de ser quem se é, e ter força para sustentar o seu valor tanto no palco da aprovação alheia, quanto quando estamos sozinhos, olhando apenas para o espelho de nossa alma.

Ser feliz, arrebatado por toda a delicadeza e força de viver.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015




Escuta os gritos

de Paris.

Os gritos de quem agoniza

no chão.

Escuta os tiros

como gritos

de quem atira

- e os escuta também.

Escuta o grito

aterrorizado

de um mundo

que anseia por se sentir

seguro.

Escuta os gritos

do outro mundo,

que comemora

o sangue,

e que grita por algo

também.

Escuta os gritos

que não se

ouvem,

das vítimas e algozes

em lugares que não se vê.

Sem a mídia

como megafone,

eles gritam baixo

- mas, ainda assim,

gritam também.

Escuta os gritos

Marianos,

Diamantinos,

de rios, peixes e pessoas,

e tantos outros seres.

Gritos que ficam

invisíveis

quando só escutamos

os gritos de Paris.

Mas escuta os gritos

de Paris também,

Pois escuta não se

escolhe

- só se amplia -

quando escolhemos

não "o nosso",

e sim

"o bem".

Escuta o grito de

raiva,

medo,

preguiça,

sonhos,

que vem de

Dentro.

Pois é ele quem

ressoa

com o grito de

alguém.

Escuta e acolhe

esse grito profundo,

que lá fora,

transformado,

ele grita

a compaixão

que não se cala,

não se curva,

nem se vinga,

mas grita,

com coragem

o silêncio pacífico

que abençoa

o mundo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Celebrando o meu maior presente de aniversário!



Daqui a pouco, em 27 de outubro, eu completo 34 anos. Um aniversário especial, pois comemora duas grandes viradas de vida. Uma aconteceu neste ano: minha mudança com minha esposa, Rafaela, para Santo Antônio do Pinhal - ainda que continuemos a passar em média 3 dias por semana em São Paulo. A outra aconteceu há exatamente 10 anos, quando, próximo do meu aniversário de 24 anos, fui iniciado em meditação por um monge de Ananda Marga (Caminho da Bem-Aventurança), uma linha do Tantra Yoga que não foca no sexo como prática espiritual, e sim na expansão da consciência por meio do amor devocional, da investigação interna e do serviço ao mundo.

Seu nome de monge era Dada Diipajinanananda, um neozelandês alto, de olhos profundos, e muito silencioso. Quando ele deixou o Brasil, eu havia recebido a primeira e a segunda lições de meditação (são seis). Depois, recebi a terceira da monja americana Didi Anandamitra, que muitos conhecem no Brasil como Susan Andrews, fundadora e diretora do Instituto Visão Futuro. Em seguida, pedi ao monje Dada Jinanananda, um dinâmico monge do Congo que inspira muitos jovens aqui no Brasil a se engajar tanto na prática espiritual quanto na luta por transformação social, para que fosse meu orientador de meditação, e ele me deu as três lições finais.

Por isso, em primeiro lugar, quero honrar esses três orientadores, que me deram de presente a joia preciosa das lições de meditação, que pratico quase que invariavelmente duas vezes ao dia. Dessas sentadas, às vezes indescritivelmente deliciosas, às vezes assustadoramente desafiadoras, eu retirei muito mais do que poderia imaginar. Não apenas os benefícios normalmente associados à meditação, como concentração, foco e relaxamento, mas também estabilidade e aprofundamento emocional, clareza de quem sou e do meu propósito nesta vida, insights profundos e transformadores sobre meu passado e meus traumas, e também sobre o que oferecer para o mundo como serviço – e como, quando e onde.

A meditação me empoderou no meu processo de auto-cura e, acima de tudo, abriu a porta para um conjunto de experiências que eu jamais havia tido com qualquer outra experiência humana (mesmo em práticas espirituais). É difícil descrever essas experiências, mas elas quase tornam a palavra Amor como uma palavra pequena, que mal contém o que por dentro se está sentindo. Elas revelam uma busca que transcende o tempo e o espaço, e mesmo a noção de Eu. Elas tornam real a percepção de que a grande meta da minha existência eterna não é senão ser Um com Tudo que Existe, na forma do mais sublime Amor (vou usar a palavra por ser, ainda assim, a que mais se aproxima), e agradecer esse Amor vivendo todas as tonalidades da vida, das minhas luminosas às mais sombrias, como ofertas que coloco no altar do Amado. E esse Amado é o próprio Amor em suas três formas: a que está além da compreensão; a que se manifesta na criação que somos e que nos rodeia; e a que encarna na forma de uma entidade que possamos amar (o Deus, o mestre, o guru etc).

Portanto, quero, também, agradecer a esse Amor, que teve a generosidade de me abrir esse conjunto de experiências, pois sem que isso me tivesse sido permitido, minhas seis lições não teriam valido de nada. Esse Amor já havia se apresentado como um grande mistério que eu perseguia, para em seguida aparecer na forma de meu Guru de meditação, Anandamurtii, e agora se revela, cada vez mais, como toda a vida do planeta Terra, e de todo o Universo, com tudo de mais lindo e medonho que existe neles.

Agradeço, em especial, a Anandamurtii, meu Baba (Amado), pois todos os mestres que se colocam como pontos de concentração para onde podemos direcionar nosso Amor Devocional o fazem por profundo serviço amoroso ao outro, e não, como comumente pensamos no Ocidente, por desejo de serem adorados e servidos. O mestre se coloca como uma tela de projeção de todos os nossos padrões de relação conscientes e inconscientes com nossos pais e nossas autoridades internalizadas para que, pouco a pouco, possamos ir limpando essas projeções e, no final, mergulhar não na personalidade do mestre, mas no Amor Transcendental que se esconde atrás Dele.

A unidade com o mestre só acontece quando justamente alcançamos um grau de inclusão interna de tudo que existe, chegando ao entendimento de que não há nada do que se defender, ou para atacar. Tudo o que o mestre poderia nos trazer, de bom ou ruim, já existe integrado dentro de nós e, portanto, toda a tentativa de sustentar a fronteira do dentro e do fora, do eu e do outro, dissolve-se, não por perda de si, mas por expansão de si. Esse é um dos motivos pelos quais muitos mestres espirituais podem ser contraditórios e polêmicos com seus discípulos: quando são mestres verdadeiros, fazem isso para que que o discípulo experimente e transcenda todo o espectro da dualidade, desde a ponta mais luminosa à mais sombria. Para que o discípulo não se ligue ao mestre por atração ou por aversão, mas por reconhecimento da Unidade. Uma vez alcançado esse estado, não há mais fora – tudo está dentro. O mestre não é um líder autoritário que nos comanda arbitrariamente, mas antes um líder servidor que se destitui do desejo de ser querido pelos outros para se tornar um alvo de concentração no qual podemos gastar toda a nossa munição de projeções do ego, até não restar mais nenhuma história a ser contada sobre aquele alvo, e a experiência da Unidade se revele. E, a partir dela, podemos expandir essa experiência para tudo e todos.

Somente seres com total desapego de seus próprios egos poderiam coloca-los a serviço de tão grandiosa e árdua tarefa. De serem amados, odiados, duvidados, seguidos cegamente, temidos, desejados, até que todos esses fantasmas sejam destilados e reste apenas o reconhecimento do Inominável que, uma vez visto no mestre, é visto em si e em tudo mais. Tudo passa a ser apenas um instrumento para a refulgência do mais eterno e brilhante Amor.

Não posso afirmar que, nesses dez anos, todas as minhas defesas caíram, mas posso dizer que as que caíram já foram suficientes para que eu experimentasse um nível de paz e de conforto com a vida tão deslumbrantes, que eu não trocaria por qualquer outra experiência no mundo. Mas foram dez anos exatamente assim: amando, odiando, duvidando, seguindo cegamente, temendo e desejando. De briga e paz. Não com meu mestre, ou com o Amor, mas comigo mesmo. E eu sempre achava que era com Ele, mas no fim, via que era tudo projeção minha, e que Ele sempre esteve ali, amorosamente me olhando e esperando eu me encontrar. Logo, muito, muito grato, Baba, por sempre ter estado a meu lado. Só você (e eu) sabemos a jornada épica que foram esses anos, dentro e fora de mim, e de tudo que você fez por mim, para que eu crescesse e amasse tanto - a mim e à vida.

Por fim, quero agradecer a todos os que me apoiaram nesse caminho. Todos os mestres que me acolheram com carinho, em especial Jesus Cristo, que me recebeu nesse mundo e que se revelou por meio de pessoas tão especialmente iluminadas, como minha avó Ceiça, mãe de minha mãe, que me ensinou uma espiritualidade que ama, e não que castiga. Sei que minha saída do catolicismo pode parecer uma ruptura com minha história e minha tradição, mas não é. Todos os mestres são um só, e isso a mente consegue compreender. Mas o coração precisa amar alguém, como forma de aprofundar a relação (por isso escolhemos alguém para casar, por exemplo), e essa escolha vai além da lógica que conseguimos alcançar – só podemos entender com a intuição o que nos faz escolher um mestre, e não outro, como nosso objeto de devoção. Meu coração escolheu Anandamurtii, mas Jesus Cristo, e todos os que são, para mim, instrumentos verdadeiros de seu amor, como minha avó e minha tia Célia, terão sempre minha profunda gratidão.

Agradeço minha mãe, Maria Teresa, um ser liberto e que me ensinou a liberdade. Se não fosse ela, eu não teria jamais me permitido trilhar o meu caminho espiritual, e teria seguido num caminho que poderia ser bonito, mas não meu. Ela foi e continua sendo o testemunho de servir ao Amor Maior em qualquer forma com que ele se expresse, sem preconceitos, mas com muita seriedade e, graças a Deus, bom humor.

Agradeço a todos os amigos e irmãos espirituais, com quem compartilhei inúmeros momentos lindíssimos de prática, em que criamos juntos um campo de elevação, em que nos sentimos juntos tocando os pés do divino, enquanto cantávamos, meditávamos, contemplávamos a natureza, compartilhávamos histórias espirituais, conversávamos sobre o que realmente importa ou simplesmente compartilhávamos da doce presença um do outro. Nesse sentido, agradeço especialmente a minha esposa, amante e parceira espiritual, Rafaela, e a meus queridos companheiros da Comunidade Ser. Vocês são meus parceiros numa jornada numa antes trilhada – a de viver a senda espiritual de autoconhecimento e serviço ao mundo de forma coletiva, e materializando-a em projetos transformadores que fazem crescer a nós e aos outros.

E agradeço a todos os outros monges e orientadores, de Ananda Marga e de outros caminhos, que sempre me presentearam com joias de sabedoria e de inspiração, a ponto de eu me sentir o homem mais sortudo desse mundo, como um peregrino da alma que, a cada passo, encontra um sábio diferente que lhe abre mais uma porta. Um agradecimento especial a Susan Andrews, pelo conhecimento que me passou do Tantra e da Biopsicologia, e a Peter Sage, ou Dada Vishvarupananda, por ter sido sempre com um pai amoroso e acolhedor, humilde o suficiente para me ensinar tudo que sabe enquanto aparenta apenas estar aprendendo comigo, e por ser, acima de tudo, uma manifestação do que mais admiro no caminho da Ananda Marga.

Agradeço a tudo e a todos que fizeram desses dez anos uma década mágica de despertar e aprendizado, e rezo para que possa chegar ao final dos próximos dez anos com a mesma humildade e persistência de um praticante muito especial de Ananda Marga que conheci: Vishvashanti, um americano que mora na Dinamarca. Ele me disse num retiro que após vinte anos meditando sentiu que, agora sim, estava aprendendo a meditar! E espero que esse testemunho possa inspirar quem estiver sentindo o desejo de mergulhar nessa épica jornada para que o faça o quanto antes – da sua forma, em seu próprio caminho - pois, acredite, vale a pena. Que o caminho escolhido seja o do coração, e que a potência mais profunda e misteriosa da vida se revele a nós, e nos guie. Namaskar!



quinta-feira, 28 de maio de 2015

Saudade vale a pena!





fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil


Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage. Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos, com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.

À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que, algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.

Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca. Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!

 
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social: “a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são contundentes e irrevogáveis.

Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo, nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza, ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um com ele novamente.
 
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós, o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.

Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor. Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se, e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades. Saudades do Grande Amor.

Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar, de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.



E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde estamos, e para onde vamos.

E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga, aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos vividos juntos.

Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade vale a pena!
 
 

sábado, 9 de maio de 2015

Ser um homem que monumenta a vida!

 

 
Após a participação num dos encontros do Círculo de Homens que sustento com alguns amigos, escrevi o texto “Velar o Fogo do Masculino Sagrado”, que expressa as reflexões que surgiram desse encontro, sobre como me tornar digno do Masculino Sagrado. Essa reflexão, depois desdobrou-se no que significa para mim Ser Digno.

Algum tempo depois, li este poema de Manoel de Barros, que começou a me dar algumas pistas sobre esse novo tema, e abriu um campo profundo de reflexão e percepção:

 “Venho de nobres que empobreceram

Restou por fortuna a soberbia.

Com esta doença de grandezas:

Hei de monumentar os insetos!

(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os

pés de seus discípulos.

São Francisco monumentou as aves.

Vieira, os peixes.

Shakespeare, o Amor, a Dúvida, os tolos.

Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)

Com esta mania de grandeza:

Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas

de orvalho.”

Fui arrebatado pela dignidade dessa postura – a de “monumentar” o pequeno, o insignificante, o marginal, o esquecido, o simples, o sutil – que é oposta à da cultura que valoriza que todos sejam O Maior e O Melhor. E esta é, certamente, uma maldição que nós, homens, conhecemos há muitos séculos, e que alimentamos diligentemente, em nossas famílias, na escola, no trabalho e na cultura de massa. Dignidade, em nossa cultura, significa, muitas vezes, mostrar para a sociedade que somos cada vez maiores e melhores.

Em nosso caso, homens, crescemos achando que temos de ter o melhor e o maior carro; ter o maior “pau” e ser o melhor de cama; ser o que ganha mais em nossa profissão e que é o mais reconhecido em sua área; que tem dinheiro suficiente para comprar a maior e a melhor casa – em outras palavras, ser um grande provedor; precisamos ser o que “comeu” mais mulheres, e o mais forte, gostoso e atraente; precisamos ser o melhor no futebol ou em qualquer outro esporte. E por aí vai.

Nem precisa dizer que, quando entramos nessa narrativa de dignidade, em vez de monumentar, desprezamos as coisas pequenas e simples como insignificantes – e ainda mais as que fogem do padrão desse mito do maior e melhor. E é aí que assumimos a sombra de um masculino violento, autocentrado, engolidor e atropelador das delicadezas e das fragilidades – essas mesmas delicadezas e fragilidades que, muitas vezes, são tão caras ao feminino. Pois assumi-las como nossas seria correr o risco de perder a nossa “dignidade”.

E se, em épocas anteriores a esta, todo esse discurso do “bonito, rico e viril” já era pesado, imagine agora, que temos de também ser bons moços, gentis com as mulheres, engajados em causas sociais, espiritualizados, e mais um bocado de coisa que nos qualifica como “atraente e de bom coração”. Para sermos dignos, não podemos ser nada menos que o doce e gentil Clark Kent e o corajoso protetor da humanidade Super Homem.

Mas quando li o poema de Manoel de Barros, entendi um aspecto muito importante do que é dignidade para mim, e para meu masculino: trazer grandeza para todos aspectos humanos – incluindo Ser Homem. Cada homem, com seu propósito, pode dignificar uma parte dessa experiência humana, e torna-la bela, valorizada, monumental. Não podemos, com nosso Masculino Idealizado, esmagar nem a sombra do velho mito – o feio, o pobre e o frágil – nem a do novo – o duro e o materialista. E tudo mais que não se encaixa nisso. Todo o espectro do Ser Homem precisa ser monumentado por alguém, seja porque é algo belo, e que precisa ser visto, seja porque é algo que gera sofrimento, mas que, se existe, existe devido a uma história, que precisa ser monumentada em sua dignidade.

Tenho em meu coração dois exemplos simples que, para mim, retratam essa capacidade de monumentar o que é belo, mas não é visto, e o que gera sofrimento, mas tem uma história. O primeiro é o filme brasileiro “Hoje Quero Voltar Sozinho”, que conta a história de amor entre dois rapazes adolescentes – um deles cego. Sem grandes dramas, e com muita poesia, a história traz grandeza e potência para a cegueira e o homossexualismo – dois aspectos que o mito dominante do masculino não quer monumentar. O outro é o livro “For Your Own Good - Hidden Cruelty in Child-Rearing and the Roots of Violence”, de Alice Miller (Para Seu Próprio Bem – Crueldade Velada na Criação de Crianças e as Raízes da Violência). Nesse fantástico livro, a psicanalista suíça Alice Miller descreve as bases do que chama de “pedagogia venenosa” e analista a infância de 3 controversas personagens da história alemã – uma delas, Hitler.

Ao narrar, a partir de dados históricos, a infância de Hitler, sem tentar nos convencer de que sua infância extremamente violenta “justifica” o que ele fez, mas apenas mostrando a contribuição que ela deu para seu caráter, ela monumenta Hitler, fazendo-o não só humano, mas parte do espectro do que é Ser Homem. Monumentar, aqui, não é vangloriar, concordar, enaltecer, mas apenas dizer: isso também tem importância. Por mais que Hitler tenha sido quem foi, sua infância sofrida – e ele, em si – têm importância.

Quando nós, como homens, monumentamos a vida, nós lhe damos importância, em todos os seus aspectos. Se é algo que é belo, mas estava esquecido, tiramos o pó, tornamos reluzente, trazemos para o palco, e celebramos, como no filme que citei. Se é algo revoltante, e que estava sendo demonizado de forma simplista e maniqueísta, corajosamente adentramos suas entranhas, conhecemos a sua história, choramos a dor que levou o belo a se tornar grotesco, e lhe devolvemos a humanidade, para que aquilo não se repita. E não pela repressão, mas pelo entendimento empático e profundo, e pelo desejo de servir a vida – como no livro mencionado.

Desde muito tempo nossos contos de fada e, mais recentemente, vários filmes e novelas, repetem incessantemente: homem, seja o príncipe, o rei, o líder! Se você nasceu no estábulo, certamente é por engano. No seu nascimento, alguém seguramente trocou os bebês, ou por algum motivo maior você foi mandado para longe, para um dia voltar e reassumir o seu lugar. Mas seu destino é ser rei, pois não é digno do homem ser apenas o rapaz do estábulo. Entretanto, o homem que monumenta a vida diz: sim, é digno ser o rapaz do estábulo. Ele também conta algo de belo sobre o Masculino Sagrado. Se os arquétipos do rei, do príncipe e do amante são tão desejados, não é porque eles sejam necessariamente superiores, mas simplesmente porque são eles que tem sido monumentados, de forma monopolizadora, durante séculos. Esses arquétipos são muito importantes, com certeza (pessoalmente, eu os adoro), mas não podem ser os únicos.

Quem de nós sentirá o chamado natural para monumentar o que o mito masculino que não funciona mais quer desprezar? Quem monumentará o rapaz que cheira a flor na calçada? Os amigos que se abraçam de forma doce e singelo? O que diz “eu te amo” olhando nos olhos do outro? Quem monumentará o mendigo? O gay? O travesti? O nerd? Ou, indo além dessas categorias, as diferentes e originais formas de ser homem? Quem monumentará as rodas de conversa profunda entre homens, que falam de sentimentos e vulnerabilidade? Quem monumentará o pau pequeno? A mulher que é taxada de velha, ou gorda, ou feia, ou deficiente, e que é igualmente uma representante legítima do Feminino Sagrado, tanto quanto as deusas gostosas que adoramos monumentar? Quem monumentará o homem que é amente dessas mulheres? Quem monumentará o carro usado e antigo? A casa simples? O faxineiro? O emprego desglamourizado e honesto? O chão de fábrica? O sonho de viver algo que não pertença a um destino masculino já pré-determinado, de futebol, carro, mulher e cerveja? Quem de nós sentirá o chamado para tornar grande algo pequeno, algo humano, mas que é nosso por direito?

Também vale dizer que o novo mito, do homem doce, emocionado e espiritualizado, também pode ser usado contra a monumentação do espectro completo de Ser Homem. Quando nos juntamos a um grupo espiritual e acreditamos que bons mesmos são os que falam de forma suave, não bebem, andam de branco, são vegetarianos, comem orgânicos, choram e abraçam todo mundo, deixamos de monumentar tudo aquilo que interpretamos como duro, forte, ríspido. Renegamos esses aspectos como antigos, ultrapassados ou ruins, mas eles também fazem parte de Ser Homem. Não à toa, mentores do masculino como Robert Bly, relatam sua preocupação ao ver círculos de homens desvitalizados, que falam de amor, porém mal conseguem segurar uma espada para expressar sua força masculina. Também é necessário monumentar nossa virilidade, mesmo que ela tenha se desviado em comportamentos machistas e agressivos. Não para validar esses desvios, mas para encontrar a história atrás desses comportamentos, onde mora algo digno de ser notado como importante.

Quando um homem Nova Era olha nos olhos de um clássico machão, com toda a sua aparente dureza, insensibilidade e voracidade sexual, entende a sua história e reconhece o que ele está guardando – ainda que mal guardado – e celebra esse seu esforço, uma cura se dá no mundo, e o que era grotesco se torna poesia. E talvez um dia essa cura faça com que essa essência mal guardada seja melhor guardada, na forma de rituais belos e profundos – e não de machismo - assim como hoje as guardiãs do Feminino Sagrado encontram poesia no ciclo menstrual e o guardam com carinho, transmutando o fato de que esse mesmo ciclo antes também era tido como grotesco. O mesmo se dá quando um homem dentro do antigo mito masculino celebra dois homens que se abraçam como amigos, ou que se beijam como amantes, ou que dançam com mulheres numa roda de cura.

Logo, a pergunta é: qual é o nosso papel na monumentação do Masculino Sagrado? Qual é esse pedaço que nos cabe guardar como também importante, tanto quanto todos os outros? Essa é justamente a pergunta que, agora, tem rondado minha jornada de assumir esse Masculino: qual é a minha parte nessa história, e que me dignifica como homem, pois só aquele que consegue enxergar o invisível é que verdadeiramente abriu os olhos?

Acredito que essa resposta só será encontrada no meu propósito de vida – no meu destino. Sendo eu, e vivendo a minha trilha – e não a trilha do sucesso programado – naturalmente o que devo monumentar se revelará. Sei disso porque já experimentei um pouco da água dessa fonte, quando, aos 21 anos, escrevi um livro-reportagem sobre pessoas que nasceram, como eu, com fissura labiopalatal. No encontro com essas pessoas, algumas que lidavam melhor e outras pior que eu com o fato de terem cicatriz no rosto, ou serem fanhos, ou terem o nariz torto, descobrimos muita, muita dignidade. Foi durante esse processo que comecei a namorar minha esposa, com quem já estou há 12 anos, e tive coragem de entrar num coral, para fazer algo que um fanho não-monumentado jamais faria em público: cantar. E, hoje, eu me sinto grato pela honra de poder ter monumentado essa história, e de outras pessoas como eu.

Tenho certeza que no coração de cada homem mora uma “pobre coisa do chão mijada de orvalho”, pedindo para virar poesia.

Qual é a sua?

Deixo, por fim, um poema de Bertrold Bretch, que questiona, de forma muito digna, este mito do Maior e Melhor, e monumenta os esquecidos:

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Velar o Fogo do Masculino Sagrado

 

Velar o Fogo do Masculino Sagrado


 

Em 2014, um grupo de amigos próximos e eu resolvemos iniciar um Círculo de Homens. Depois de várias tentativas de marcar um primeiro encontro, enfim achamos uma data, e acabei não indo no tal encontro, pois nesse mesmo dia fui jantar com uma pessoa que considero um grande mentor para mim. Considerei que aquele havia sido meu Círculo.

Durante o ano, chegamos a ter, talvez, cinco encontros, que foram muito nutridores para muitos de nós, e também geraram incômodos. Um deles dizia respeito à nossa inexperiência em equilibrar o “papo sério” – de nossas feridas, do sagrado etc – e o papo “engraçado” – as aventuras sexuais, as histórias curiosas etc. Terminamos o ano num tom disperso, sem saber exatamente quando e como o Círculo iria continuar.

Em março deste ano, vi que uma data que coincidia com nosso pulso mensal de encontros (a terceira sexta-feira do mês) estava livre para mim, e mandei uma mensagem para o grupo que criamos no Whats App, sugerindo que fizéssemos o primeiro encontro do ano. Algumas pessoas confirmaram, inclusive dois amigos que haviam acabado de entrar no grupo, e estavam bem animados para um primeiro encontro.

Assim, na terceira sexta-feira do mês, na virada do ano astrológico, às 18h30, desliguei-me de meus afazeres de trabalho e sentei para meditar, como faço todos os dias, contando com que as pessoas começariam a chegar às 19h, que era nosso horário combinado. E aí começaram uma sucessão de frustrações, começando por um grande amigo que estava comigo lá desde a hora do almoço, esperando para participar do Círculo, e resolveu ir embora, para atender uma demanda familiar.

Enquanto eu meditava e, de olhos fechados, não ouvia a porta de nosso espaço abrindo, ou a campanhia tocando, meu coração ia me dizendo que ia haver uma debandada geral. Aquilo foi me angustiando, e eu quase ia me irritando por antecipação. Negociava comigo mesmo, dizendo que as pessoas só deviam estar atrasadas, como de costume. Mas, de fato, ao terminar de meditar, já passadas as 19h, vi no Whats App que vários haviam desistido. Entretanto, a confirmação de três amigos, mesmo sabendo que eles chegariam bem atrasados, me fez persistir no encontro.

Nesse período, entre eu meditar e esperar esses amigos chegaram, caiu uma ficha. Já há algumas semanas, eu refletia sobre o Círculo de Mulheres que também acontece em nosso espaço, há mais tempo e com mais regularidade, e sobre os vários Círculos de Mulheres que vejo acontecendo por aí, anfitriados ou contando com a participação de pessoas próximas a mim – inclusive minha esposa. Refletia, também, sobre a prática de uma querida amiga, com quem tenho passado por um processo de coaching, e que, além de arrumar lindamente o espaço onde temos nossas sessões, cuida muito bem em preparar energeticamente o espaço, chamando a presença de todos os guias e mentores que considera importantes para aquele trabalho.

A ficha que me caiu, então, é que nós, homens, não cuidamos bem dos espaços. Nós podemos construir a casa, mas quem em geral a decora e cuida de mantê-la limpa, arrumada e viva, é a mulher. E era exatamente assim com o nosso Círculo: a gente simplesmente chegava e sentava mais ou menos em círculo, no máximo acendendo uma vela, pedia talvez uma pizza, e conversava. Quase nenhum cuidado com criar um ambiente convidativo, em se conectar com as energias que queríamos que estivessem naquele trabalho. Sem trazer a beleza e a poesia de um ritual significativo. Quantas vezes, pensei, quis trazer oráculos, flores, velas, algo que trouxesse o sagrado para aquele momento, e não lembrei, ou não priorizei?

Olhei para aquilo e, naquele momento, fiz um pedido para mudar. “Quero ser um homem que cuida”, pensei. E então resolvi montar um belo círculo com o que tinha ali. Arrumei as almofadas. Acendi a vela. Ornei-a com imagens masculinas que estavam em nosso altar: Shiva, Buda, Jesus Cristo, Anandamurtii, entre outros. Coloquei no centro umas flores que estavam lá, no canto da sala. Peguei dois livros que estavam na minha mochila, e que sentia que se conectavam com o momento. Quando terminei, senti a diferença na qualidade da energia presente. Uma nota mais grave, e mais retumbante, estava agora sendo entoada.

Então resolvi invocar as consciências que, no meu coração, eram referências do masculino sagrado. Cantei para muitos daqueles seres do altar: mantras para Shiva e Buda, canções cristãs, entre outras. E a cada canção, sentia que a roda estava mais preenchida, ainda que fisicamente só eu estivesse ali. Logo em seguida, dois dos três amigos chegaram, e um deles tocou também algumas músicas xamânicas, e o tom do sagrado e a energia de poder foi crescendo e crescendo. Senti a força do cuidado, e desejei ser um homem que cuida. Não só dos espaços, mas das relações, das pessoas e dos seres.

Nesse meio tempo, o terceiro amigo chegou, trazendo algumas esfihas, para mim e para ele, e foi para a cozinha comer com aquele meu amigo que resolveu ir embora para cuidar de sua demanda familiar, mas que ainda estava ali, resolvendo últimas coisas antes de sair. Eu e os demais já estávamos cantando e abrindo o Círculo, e eu tinha a expectativa de que ele viesse se juntar a nós o quanto antes. Mas ele não veio. Fui até a cozinha e dei um toque para que ele viesse. Ainda assim, ele demorou. E eu comecei a ser tomado por uma irritação profunda. Que fez com que uma segunda e importante ficha caísse.

Enquanto um lado meu tinha um desejo enorme de ir na cozinha e “dar uma bronca” nele, para que viesse logo, um outro lado meu não via o menor sentido nisso. Não queria ser o pai mandão e autoritário. Estávamos ali, inclusive, por sermos homens que queriam romper com a rigidez patriarcal. Mas, ao mesmo tempo, eu queria muito que ele se comprometesse com aquele nosso momento. E foi aí que me caiu a ficha: comprometimento. Nós, homens, muitas vezes não nos comprometemos. Não é à toa que essa é uma das principais reclamações que as mulheres nos fazem: “vocês não querem compromisso”. Não é à toa que há tantas mulheres lutando sozinhas com seus filhos, pois, claro, nós, homens, não nos comprometemos.

Entendi, então, que eu não queria mandar no meu amigo, nem dar bronca. Eu queria sentir compromisso. E eu estava tão irritado porque eu tinha raiva da minha própria falta de compromisso. Eu precisava que meu amigo viesse porque eu não conseguia me comprometer comigo mesmo, e precisa que ele seguisse minha ordem, para eu ter uma pseudo-sensação de compromisso. O que me impedia de me comprometer com estar ali, num espaço importante para mim, tendo somente as presenças invisíveis, ou apenas os dois amigos que já estavam lá? Eu não queria assumir que o compromisso é meu, e é comigo, com o que me é caro. Eu não queria assumir meu compromisso de velar o fogo do masculino sagrado, e queria que os outros fizessem isso por mim.

E, ali, comecei a assumir esse compromisso: eu irei aprender a velar o fogo sagrado do masculino. E isso, eu já havia entendi, implicava, além de me comprometer, aprender a cuidar. Alimentado por essas reflexões, quando abrimos a nossa roda de conversa (ainda sem meu terceiro amigo ter entrado), compartilhei minhas sensações e reflexões, que ressoaram profundamente nos meus dois amigos presentes, e a partir daí a roda foi se aprofundando e ficando mais e mais forte, e fomos sentindo que algo extremamente especial estava acontecendo naquele momento. Quando, enfim, o terceiro amigo chegou, compartilhei com ele tudo que havia vivido e sentido, e ele não só entendeu, mas também sentiu que aquelas eram reflexões muito importantes para ele.

Abrimos, então, nossas caixas de pandora, e conectamos com o que nos pareceu não apenas a nossa dor – mas a dor do masculino no mundo. Cada um na roda trouxe percepções e experiências únicas e que não poderiam ser reproduzidas nesse texto – ao menos não o lugar para onde tudo isso nos levou, pois isso só estando lá. Um dos meus amigos revelou o que já estávamos sentindo com nosso corpo: a energia daquele Círculo era vazia e fraca, pois esse é o estado do Círculo de Homens do mundo hoje. É vazio porque não nos comprometemos. Não aparecemos. Chegamos atrasado. E não somente no encontro do Círculo de Homens. Mas na vida. Em nossos casamentos. Na vida de nossos filhos. Na realização de nosso propósito de alma.

O Círculo é fraco porque não cuidamos. Fazemos de qualquer jeito. Desrespeitamos o sagrado do que somos e do que fazemos, levando tudo para o deboche e o escracho. Desprezando o sério e sagrado como pesado. Como algo que não interessa ao homem. Como frescura. Somos adolescentes. E não há nada de mais em debocharmos e sermos adolescentes. Esse é um de nossos papéis sagrados. O problema é só ser isso. E quando não somos adolescentes, somos o pai narcisista ou autoritário. Somos o patriarcado que lutamos tanto para transformar. Claro que é importante não generalizar: não somos todos assim, nem somos assim o tempo inteiro. Mas esse é o “estado da arte”, em termos gerais, atualmente. Ou, ao menos, nós, deste grupo, sentimos assim.

“Sou um moleque”, disse ao meu grupo. “E embora eu esteja brincando de chamar todas essas entidades, como Shiva, Buda e Jesus, para esse Círculo, será que se eles realmente estivessem aqui, eu me sentiria digno de estar sentando no mesmo Círculo que eles? Será que eu estou honrando minha dignidade masculina?”. E que fique claro que essa percepção não tem peso. Não se trata de ser um super-homem. De me cobrar excessivamente. Mas apenas de amadurecer. De verdade. E não de faz de conta, do tipo “eu ganho dinheiro, tenho um cargo alto no meu trabalho e seguro muita bucha, então eu sou gente grande”. Trata-se de sair da adolescência do masculino ferido, com raiva de tudo represente compromissos e cuidado, limites e firmeza, como se tudo isso fosse rigidez. E também sair do patriarcado, com raiva de tudo que é espontâneo e vivo, e que foge do controle.

A imagem que me veio foi a seguinte: é como se, em algum momento, houvesse existido sacerdotes que velavam pelo fogo do masculino sagrado. Homens fortes, dignos e bons. E aí, num certo ponto, alguma ferida fez com que o fogo se apagasse e, sem perceber, continuássemos a fazer os mesmos rituais, velando mecanicamente um fogo morto. E quanto mais sentíamos o frio do masculino se apagou, mas sem admitir que se apagou, repetíamiios ainda mais mecânica e rigidamente os rituais, achando que o ritual em si iria nos fazer sentir o fogo. E quanto mais fazíamos isso, mais raivosos e rígidos ficávamos. É horrível sentir o frio de um fogo vital que se apagou.

Assim, o patriarcado, cada vez mais um conjunto de rituais rígidos e sem vida, foi se deteriorando. Até que questionamos o ritual sem significado. Nos libertamos. Só que, equivocadamente, entendemos que o que nos aprisionava era o ritual, e não a falta do fogo. Achamos que o ritual era maligno. E decidimos que não queremos mais os rituais. Para que cuidar e se comprometer com eles? Queremos ser “livres”. Assim, continuamos com o fogo morto, virando agora adolescentes sem rituais e, ainda, sem fogo. Continuamos perdidos, mas com a liberdade de gritar e reclamar que estávamos perdidos. E quem sabe era esse o próximo passo necessário, porque que fomos, então, descobrindo que a questão não é o ritual – é o fogo. Precisamos reacender o fogo do masculino sagrado. E cuidar dele.

Sem raiva dos rituais, e do compromisso e cuidado que eles pedem, e também lúcidos o suficiente para não aceitar mais rituais vazios, queremos nos recolocar na posição de sacerdotes que velam pelo fogo do masculino sagrado. Queremos aprender, com os mentores invisíveis, e os visíveis – aqueles homens que nos inspiram a doce virilidade do masculino equilibrado – como velar o sagrado. Queremos recuperar nosso respeito e nossa dignidade. De ser homens. Sabendo que, com isso, não precisaremos depreciar o feminino nem obriga-lo a nos reconhecer. Aquele que é digno é reconhecido naturalmente pela sua dignidade.

E entendemos que esse é um trabalho hercúleo. Aliás, hercúleo vem de Hércules que, não à toa, era um homem. E que matou a sua esposa e seus filhos. E teve que passar por grandes obras e provações, até recuperar o seu masculino equilibrado. Isso significa que, de fato, achar que cuidar e se comprometer é algo importante e respeitoso, e não papo de homem babaca, complicado etc, é algo difícil e demandoso. Pode parecer bobo, mas acender uma vela e arrumar o centro de uma roda de conversa - algo tão natural para o feminino - pode ser um bloco de uma tonelada para um masculino ferido.

Isso ficou ainda mais evidente quando, durante o encontro, ensaiamos fazer uma dança de escoteiro proposto por um de nós. Um misto de emoção e vergonha me tomou. Mesmo eu, tão reconhecido por ser um homem “com muita energia feminina” (seja isso bom ou não), estar ali, de braços dados, cantando com outros homens, me deixava embaraçado. Os softwares do masculino patriarcal me assombravam quase que como uma voz débil, de pano de fundo. E isso nos levou a refletir o quanto que, além da dificuldade de comprometimento e cuidado, nós, homens, temos muita dificuldade em sair do que um de nós chamou de nossa “autonomia territorial”, para assumir e compartilhar nossa vulnerabilidade.

Percebemos que um dos possíveis motivos de não aparecermos no Círculo, ou de chegarmos atrasados, é uma preguiça difusa e de fundo, cuja raiz talvez seja a antecipação de que teremos de fazer algo que é muito, muito demandoso para nós: nos abrir, falarmos de nossos sentimos, expormos dores e sonhos. A sério. E não de forma escrachada. E para outros homens. Mesmo nós que, conscientemente, defendemos isso, temos, inconscientemente, essa dificuldade. É quase um condicionamento biológico, parece. E talvez seja mesmo. Chegamos a comentar que, se houvesse uma única mulher naquela roda, a tarefa seria muito mais fácil. Que a presença feminina nos tira da nossa postura automática de sempre manter um lugar de fortaleza perante outros homens. Que duro perceber que, ao contrário das mulheres, que muitas vezes antecipam esse momento de troca como um momento de alívio e relaxamento, nós antecipamos esse momento como de esforço – muito esforço.

Por isso, nesse Círculo tão auspicioso, depois de todo esse mergulho – um ano em duas horas, me pareceu – assumimos uma tarefa, que quero estender a todos os homens que estiveram lendo esse texto, e que se sentirem chamados. Como uma primeira tarefa de aprendizagem em nossa jornada de nos tornarmos dignos de velar o fogo do masculino sagrado, iremos acender, com cuidado e compromisso, uma vela, toda sexta-feira, às 19h, e deixa-la queimar em nossos corações, em honra a nossa luz e a nossas feridas, e à luz e às feridas do masculino desse planeta. As mulheres também são bem vindas a fazer esse exercício, mas é muito importante que nós, homens, o façamos, para mudar nosso padrão. E quem não puder acender uma vela física na hora, que a acenda dentro de si. Mas que faça isso porque realmente não pode acender a vela física – e não por preguiça ou por ser “mais fácil”.

Claro que esse é apenas um exercício, e cada um pode criar o seu. Sendo realista, nosso compromisso é até o próximo Círculo – não queremos uma tarefa tão grandiosa que não possamos alcançar. São nossos primeiros passos, e queremos dá-los com cuidado. Além disso, queremos agora cuidar para os Círculos aconteçam com beleza, e para que de fato estejamos lá – e, se não pudermos estar, que não larguemos de lado e simplesmente mandemos uma mensagem dizendo “não vou”. Mas que nos preocupemos em saber quem estará, para velar o fogo em nosso lugar. Queremos saber como podemos contribuir, mesmo à distância. Também queremos fazer outros exercícios: acampar juntos, conversar sobre nossa ancestralidade, aprender a não ter vergonha de dançar juntos, e se abraçar. Temos muitos sonhos. Sonhos de adolescentes que sinceramente têm vontade de crescer. E de, um dia, serem reconhecidos como sacerdotes dignos do fogo sagrado que nutre a beleza de Ser Homem. E de Ser Masculino, sejamos nós homens ou mulheres.

Vamos juntos?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


Devoção – a relação sustentável definitiva

Por Gustavo Prudente

Nós, seres humanos, estamos o tempo todo buscando nosso “abrigo mais seguro”, como diria o filósofo indiano Prabhat Rainjan Sarkar. Um lugar de felicidade que seja o mais duradouro, ou sustentável, possível. Nessa caminhada, encontramos diferentes níveis de bem-estar e segurança em portos-seguros como o dinheiro, a família, a relação amorosa, os amigos, o trabalho, a realização de um propósito maior de vida e a espiritualidade.

Como somos seres que basicamente se relacionam (até mesmo de olhos fechados “conversamos” com nossa consciência ou com referências internas nossas, como Deus), nós buscamos também a relação que seja mais segura e que nos seja por mais tempo fonte de prazer e felicidade. Sabemos que, em geral, colegas são fontes mais sustentáveis de felicidade que meros desconhecidos, amigos mais que colegas, amigos íntimos e/ou família mais que amigos. Mas mesmo essas relações não se mostram fonte constante, eternamente durável, de felicidade, pois dificilmente admiramos e nos nutrimos de nossas relações, mesmo as mais íntimas, o tempo inteiro. Além disso, cada relação nos nutre em algo específico, e dificilmente nos relacionamos com algo ou alguém que supre todas as nossas necessidades.

Haveria uma relação capaz de nos nutrir constante e plenamente, sendo fonte eterna de felicidade? Uma relação mais que 100% sustentável, pois contribui para a sustentabilidade de outras relações que travamos com as pessoas ao nosso redor?

Minha experiência de vida me levou até agora a acreditar que sim. Existe uma relação sustentável definitiva, que se estabelece por meio da devoção, ou seja, de devotar amor pleno e incondicional à vida ou à consciência maior que nos rodeia. E este amor, para existir em relação, precisa ser canalizado para algo ou alguém que represente a vida ou a consciência, para que assim esses conceitos tão abstratos possam ser amados de forma concreta e personalizada. Devoção significa amar uma figura com forma e nome como portal para acessarmos a fonte maior da vida, processo que é exemplificado muito bem na cultura oriental por meio do arquétipo dos mestres.

Falar em devoção em nossa cultura ocidental é sempre muito delicado porque ela facilmente pode ser confundida com submissão ou fé cega. Nesses casos, não há amor (característica essencial da devoção), mas no máximo paixão, ou qualquer outro sentimento que ajude a preencher uma dor ou vazio subjacente que surge quando não estamos amando ou sendo amados (pois estar submisso ou seguindo cegamente algo ou alguém nos ajuda a “abafar” esse sentimento de dor e vazio com um pseudo sentimento de amor, por obtermos aprovação daquele que nos domina ou a quem seguimos). Nesse caso, o que existe não é devoção, mas a busca por atrair a aprovação ou evitar a desaprovação.

Na devoção, existe um sentimento de amor tão profundo e verdadeiro, que a única ação possível é a gratidão. Damos o melhor de nós mesmos para o outro porque estamos tão felizes que a única forma de agradecer é fazer algo pelo outro. Quando o outro é um amigo, um filho ou uma namorada, agradecer pode significar fazer pequenos gestos de carinho ou se esforçar para ajudar o outro em suas dificuldades. No caso desse outro ser a vida ou a consciência maior, ou seja, um outro que já tem tudo em si, a única alternativa restante é... cuidar da vida, que implica cuidar do planeta e de todas as relações que nele nutrimos. Por gratidão.

Assim, o devoto é aquele que se sente amado por algo ou alguém que já possui tudo em si, a quem nada falta, e devolve esse amor cuidando desse todo da melhor forma possível. Como esse todo inclui os rios da minha cidade, eu empreendo ações ecológicas para proteger e limpar os rios. Como esse todo inclui minha família, eu nutro relações saudáveis e de respeito com ela. Como esse todo inclui meus desafetos, eu exercito constantemente a prática do perdão. Tudo isso sem a intenção de ser bom ou de ser admirado. Apenas por gratidão. Por ser a única forma de amar um todo que nos ama com eterna abundância.

Nem entro aqui no mérito de se esse todo é o que chamamos de Deus, ou se ele existe. Estou falando do nível mais básico de condicionamento interno, psíquico e biológico. Sabemos hoje que nosso cérebro reage de forma muito parecida a eventos vividos e eventos imaginados, então se estamos nos relacionando com um ser real ou não, tanto faz. O que importa é que, para nosso cérebro, estamos constantemente (até de olhos fechados) nos relacionando com um ser que nos ama e que é por nós amado, plenamente. E essa relação, fonte de nutrição constante, torna-se, portanto, fonte de uma sustentabilidade perene, que pode ser replicada em diferentes níveis com as pessoas “em carne e osso” a nossa volta.

E como nossas crenças sobre a vida influenciam diretamente tanto nosso potencial criativo, quanto nossa motivação para empreender nossos sonhos e as estratégias que desenvolvemos para realizar essas conquistas, ter uma figura interna, que eternamente nos apóia e motiva, nos ajuda a reforçar constantemente a sensação de que, sim, nós somos capazes. De que nós vamos conseguir. De que a vida é abundante e de que todos os recursos já estão aqui, ao nosso redor. De que o presente é um presente (ou seja, uma fonte abundante de gratas surpresas). Sabemos disso porque há algo em nós que nos apóia e nos diz que, sim, não estamos loucos: a vida é naturalmente sustentável.

Por isso, sugiro um experimento: sente-se de olhos fechados diariamente e crie uma relação com algo ou alguém que represente, para você, o todo. Não basta ser alguém que você “ama muito”. Imagine que você pudesse personalizar ou materializar a totalidade da existência, ou do universo. Como ou quem seria essa personificação? Pode ser uma figura religiosa ou algo ou alguém bem inesperado. Seja como for, enamore-se dessa figura e comece a criar uma relação com ela, conversando com ela inclusive. Ouça o que ela diz e responda, se for o caso. Se esse exercício for feito diariamente, depois de sessenta dias, gostaria de ouvir a sua história. Gostaria de saber se seu cotidiano está ou não ao menos um pouco mais sustentável, seja nos aspectos mais sutis – nas suas relações interpessoais, por exemplo - ou nos aspectos mais práticos – por exemplo, a maneira como você cuida do seu lixo. Minha aposta é que a devoção fará de você um ser humano muito mais (naturalmente) sustentável.

Gustavo Prudente é laboratório-vivo de sustentabilidade no projeto Senhor Sustentável (www.senhorsustentavel.org) e membro da Comunidade SER – Sustentabilidade, Educação e Arte. gustavobprudente@gmail.com

Hoje termina uma jornada de 2 meses e meio fora de São Paulo e de 1 mês em Aracaju, minha terra natal. Sinto que tal qual a jornada de 70 dias que fiz pelos EUA entre ano retrasado e passado, esta também foi uma viagem talhada sob medida pela vida para que eu abrisse mais meu coração, aproximasse-me mais de mim mesmo e limpasse os canais para o pleno fluir da minha vida e de tudo que está emergindo nela, incluindo carreira e filhos.

Não tenho atração por ficar expondo minha vida íntima nas redes sociais, mas sinto que de vez em quando a vida me traz algum presente ou insight tão importante, que a minha vontade é compartilhar com o mundo inteiro. Talvez aí more uma influência do meu instinto de escritor, que naturalmente me chama para compartilhar com mais pessoas as narrativas que acontecem dentro e fora de mim.

Por isso, queria compartilhar e agradecer a vida e a todos os seres com quem a tenho partilhado, pelos momentos vividos nestes dois meses, no texto-poema que segue abaixo. Algumas partes só serão entendidas por quem conhece os fatos aos quais elas se referem, mas talvez mesmo elas possam ser compreendidas com o coração. Nem todos estão nomeados aqui em palavras, mas estão todos registrados nas entrelinhas do texto e do meu coração.

 

Aos ancestrais que me guiam

 

Se importante é aquilo que portamos no coração

Que fiquem para sempre registrados

Nas estrelas

Esses momentos:

 

Ver você, meu irmão,

Casando com sua alma gêmea,

Do lugar mais belo que eu poderia

Imaginar:

O pé do altar,

Onde tive a honra de os receber

Ao lado de minha companheira.

 

Mergulhar na sua história,

Meu amor,

E aprender uma parte

Da sua língua,

Aquela que passeia

Pelo Sena

E namora aos pés

Do lago das uvas.

 

Comungar, com sua família,

De uma história

Muito antiga,

Cujos portais só se

Abrem

Pela honra ao que

Passou.

 

Entender que a

Europa

É também a minha

Terra

Porque nela vivemos

Vidas

E o Natal que

Juntos

Comungamos.

 

Mergulhar num kiirtan

Tão doce e verdadeiro

Que qualquer lugar

Do mundo

Pareceria menor

E menos bonito

Que aquele salão pequeno,

Num inverno gelado, de dias curtos

Do interior de uma Suécia distante.

 

E num desses momentos

Sentir que rodamos juntos

Você, meu amor, apoiando minha voz cansada

Numa madrugada

Sem ninguém.

 

E num desses encontros

Sentir que Deus preparou

Um momento só nosso

E da alma que

Nos espera.

 

Comungar com os amigos

Que moram longe

De seus amores e projetos

De seus filhos e gravidezes

Sentir-me acolhido,

E na véspera de um adeus,

Num momento pequeno

E mágico,

Sentir no meu corpo

Como um lágrima

O meu próprio filho

Passando através

De mim.

 

Degustar da vida

Com você,

Meu raio de sol,

No sabor de uma massa

Caprichada

Um chocolate inesquecível

Um passeio engraçado,

Verde,

Antigo,

Amoroso,

Doce,

Sutil,

Musical,

Terminando sempre,

Claro,

Com um sorvete

De pistache,

Em uma Roma

De terraços

Tão charmosos

Quanto nosso amor.

 

Passear pelas mágicas

Montanhas

Da uma Suíça

Inesquecível,

Num dia improvável

De luz e sol,

Num jantar improvável

De bons amigos,

Numa conversa de trem

Mirando a beleza sem fim,

Falando sobre o que

Importa

Com você, meu irmão,

Que sempre

Amarei

 

Jantar com você,

Mainha,

E beber do seu

Brilhantismo,

Nutrir-me de sua

Genialidade,

Digerir a sua

Generosidade

E sair mais forte

Para voltar para casa.

 

Não pense que não notei

O pão comprado logo cedo

A sopa feita com carinho

A água de côco sempre fresca

O sorriso de avó coruja

A partilha da sabedoria

A taopica quentinha

A novela compartilhada

O quarto cedido

O espaço oferecido

Para eu ser quem sou.

 

Também não pense que não notei,

Martoca,

Sua humilde presença,

Cuidando da minha,

Zelando por mim,

Sendo você,

Tão autêntica e brilhante,

Guiando meus passos

Ao me fazer pensar e rir

E ser a parceira

Bruxinha do bem

Da minha mãe.

 

Viver a vida com vocês,

Meu irmão, minha cunhada,

Presenças amadas,

Junto com minha esposa,

Como Irmãos de vida,

De Alma,

Recebendo de Deus

E compartilhando juntos

Nossos dons,

Em casa,

No curso,

Na sorveteria,

No papo gostoso

Antes de sair do carro.

Amor.

 

Maya sentada comigo

Juntinho na rede

Ela correndo do monstro

Que agora eu era

Pulando no ombro

E me ajudando,

Tão linda,

A controlar o tempo

Do meu olhar

Anfitrião.

 

Theo imitando

Tarzan

Como faz o tio Guga

Seu cabelo de mel

Brilhando ao sol

Seu sorriso de dentes

Poucos

Sorrindo como a ninfa

Pureza

Batendo engraçado

No chão

No tambor

Na mesa

E sempre pedindo

Ké – ké – ké

Dá – dá – dá

Para qualquer

Gordinharia

Que se veja

 

Sentir você, minha amada,

Ainda aqui ao meu lado,

Partilhando comigo

Das dores

E das delícias

E fazendo desta família

Uma família que também é

Sua.

 

A flor do propósito

Abrindo novas

Pétalas

Nos chamados

Da Alma,

Que caem tanto,

Como frutas maduras,

Que ao mesmo tempo

Que agradeço,

Pergunto com quem

Compartilharei

O que não cesta

Já não mais cabe.

Agradeço, Senhor,

A felicidade

E a abundância.

 

São tantos parceiros

Que tecem comigo

O que sou

E o que somos

Que é como se eu

Morasse

Numa galáxia brilhante

E tão próxima,

Onde sou uma

De muitas estrelas

Com quem partilho

A luz.

 

Encontrar vocês,

Meus amigos,

Meus irmãos,

Não apenas em Serra Grande

Mas na simplicidade do cotidiano

E na grandeza da alma

Do seu nobre coração guerreiro,

Amado Thomas,

Do seu bondoso coração

Feiticeiro,

Amada Narjara,

E na combinação de tudo isso,

Nos olhos sorridentes

De Luan,

Brilhando como a Lua

Na tarde em que Cristo

Nos penetrou,

Sob a guarda da

Deusa Kali

Com suas alegres

Quatro patas.

 

Sentar com você,

Meu pai,

Naquela mesma varanda

E sentir que aos poucos

Me preparo

Para sermos Um

Mais e mais,

No Amor.

 

Almoçar com vocês,

Vovô Antônio e vovó Gilda,

E ver que uma estrela brilha

Mesmo no corpo que fraqueja

Com a luz de Deus,

Da devoção que nunca cessa,

E da entrega que você, meu avô,

Respira.

 

E ouvir, ouvir e ouvir,

Sem nunca querer parar,

As histórias doces,

Alegres, difíceis,

Belas, intensas,

Conhecidas, surpreendentes,

Fortes, leves,

De quem conheço

E de quem jamais

Conheci,

Que falam de mim

E de para onde vou,

As suas histórias,

Meu avô José Augusto

E minha avó Maria da Conceição

Meu vovô Augusto

Minha Nana Ceiça

Minha Vovoruska,

E guardar como jóias

Seus olhos marotos, voinha,

Seus olhos brilhantes, voinho,

E saber que eu sempre,

Sempre,

Os portarei no meu

Coração.

 

Que minhas palavras

Possam honrar

A sabedoria que vocês me trouxeram

No livro que escreverei.

 

Que minhas palavras

Possam honrar

A sabedoria de todos vocês,

Ancestrais,

Na forma de homens, mulheres,

Amigos, irmãos,

Pais e avós,

Colegas, clientes,

Parceiros, Seres,

E que eu possa

Ser grato

E agradecer sempre

Porque continuamos juntos

Nos próximos passos

Desta jornada.