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sábado, 4 de junho de 2016
Ser forte para ser delicado
A delicadeza, sem força, é um carinho sem tônus, que não
confronta.
A força, sem delicadeza, é um tônus reativo, que não cuida.
A força delicada é um tônus que acolhe.
A delicadeza forte é um carinho que protege.
Quem são os homens que, hoje, arriscam ser delicados, sem
abrir mão da sua força?
Quem são os homens que, hoje, sustentam ser fortes,
revestindo-se de delicadeza?
Conseguir massagear a dor do mundo com mãos que não se acovardam,
nem a apertam até sufocar.
Conseguir massagear a própria dor com mãos que entram firmes
e sensíveis no próprio coração.
Respirar o ódio que atravessa as estranhas, para que ele
esquente o sangue da compaixão, em vez de estourar as veias da sensibilidade.
Insuflar no corpo macio a vitalidade que nos motiva a seguir
em frente e fazer o que precisa ser feito, sem preguiça ou lentidão.
Ter o vigor para manter-se imóvel diante do chacoalhão do
vento, e doce para recebe-lo como um presente de Deus.
Curar o que nos aflige com uma mão que corta e outra que
afaga.
Ter firmeza para ouvir o grito sem desabar, e empatia para
entrar em ressonância com a voz que nos atravessa.
Mover-se com os músculos de um guerreiro e as articulações
de um dançarino.
Trazer na voz o tom grave que desce até o centro da terra e
o timbre agudo que sobe até os céus.
Ter delicadeza para sorrir e força para nada expressar se
não “eu estou aqui”.
Ter força para cuidar de todos e delicadeza para cuidar de si.
Ser delicado para abrir as portas de casa e força para
sustentar a solidão.
Ser forte para sustentar os ideais e delicado para
ampliá-los com a escuta dos demais.
Legitimar a própria existência por reconhecer a poesia
delicada da vida em cada segundo de ser quem se é, e ter força para sustentar o
seu valor tanto no palco da aprovação alheia, quanto quando estamos sozinhos, olhando
apenas para o espelho de nossa alma.
Ser feliz, arrebatado por toda a delicadeza e força de
viver.
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SER Sutil
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Escuta os gritos
de Paris.
Os gritos de quem agoniza
no chão.
Escuta os tiros
como gritos
de quem atira
- e os escuta também.
Escuta o grito
aterrorizado
de um mundo
que anseia por se sentir
seguro.
Escuta os gritos
do outro mundo,
que comemora
o sangue,
e que grita por algo
também.
Escuta os gritos
que não se
ouvem,
das vítimas e algozes
em lugares que não se vê.
Sem a mídia
como megafone,
eles gritam baixo
- mas, ainda assim,
gritam também.
Escuta os gritos
Marianos,
Diamantinos,
de rios, peixes e pessoas,
e tantos outros seres.
Gritos que ficam
invisíveis
quando só escutamos
os gritos de Paris.
Mas escuta os gritos
de Paris também,
Pois escuta não se
escolhe
- só se amplia -
quando escolhemos
não "o nosso",
e sim
"o bem".
Escuta o grito de
raiva,
medo,
preguiça,
sonhos,
que vem de
Dentro.
Pois é ele quem
ressoa
com o grito de
alguém.
Escuta e acolhe
esse grito profundo,
que lá fora,
transformado,
ele grita
a compaixão
que não se cala,
não se curva,
nem se vinga,
mas grita,
com coragem
o silêncio pacífico
que abençoa
o mundo.
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O que ainda não sei chamar de meu,
SER Inspirador,
SER Sutil,
SER Verdade
domingo, 18 de outubro de 2015
Celebrando o meu maior presente de aniversário!
Daqui a pouco, em 27 de outubro, eu completo 34 anos. Um
aniversário especial, pois comemora duas grandes viradas de vida. Uma aconteceu
neste ano: minha mudança com minha esposa, Rafaela, para Santo Antônio do
Pinhal - ainda que continuemos a passar em média 3 dias por semana em São
Paulo. A outra aconteceu há exatamente 10 anos, quando, próximo do meu
aniversário de 24 anos, fui iniciado em meditação por um monge de Ananda Marga
(Caminho da Bem-Aventurança), uma linha do Tantra Yoga que não foca no sexo
como prática espiritual, e sim na expansão da consciência por meio do amor
devocional, da investigação interna e do serviço ao mundo.
Seu nome de monge era Dada Diipajinanananda, um neozelandês
alto, de olhos profundos, e muito silencioso. Quando ele deixou o Brasil, eu havia
recebido a primeira e a segunda lições de meditação (são seis). Depois, recebi
a terceira da monja americana Didi Anandamitra, que muitos conhecem no Brasil
como Susan Andrews, fundadora e diretora do Instituto Visão Futuro. Em seguida,
pedi ao monje Dada Jinanananda, um dinâmico monge do Congo que inspira muitos
jovens aqui no Brasil a se engajar tanto na prática espiritual quanto na luta
por transformação social, para que fosse meu orientador de meditação, e ele me
deu as três lições finais.
Por isso, em primeiro lugar, quero honrar esses três
orientadores, que me deram de presente a joia preciosa das lições de meditação,
que pratico quase que invariavelmente duas vezes ao dia. Dessas sentadas, às
vezes indescritivelmente deliciosas, às vezes assustadoramente desafiadoras, eu
retirei muito mais do que poderia imaginar. Não apenas os benefícios
normalmente associados à meditação, como concentração, foco e relaxamento, mas
também estabilidade e aprofundamento emocional, clareza de quem sou e do meu
propósito nesta vida, insights profundos e transformadores sobre meu passado e
meus traumas, e também sobre o que oferecer para o mundo como serviço – e como,
quando e onde.
A meditação me empoderou no meu processo de auto-cura e,
acima de tudo, abriu a porta para um conjunto de experiências que eu jamais
havia tido com qualquer outra experiência humana (mesmo em práticas
espirituais). É difícil descrever essas experiências, mas elas quase tornam a
palavra Amor como uma palavra pequena, que mal contém o que por dentro se está
sentindo. Elas revelam uma busca que transcende o tempo e o espaço, e mesmo a
noção de Eu. Elas tornam real a percepção de que a grande meta da minha
existência eterna não é senão ser Um com Tudo que Existe, na forma do mais
sublime Amor (vou usar a palavra por ser, ainda assim, a que mais se aproxima),
e agradecer esse Amor vivendo todas as tonalidades da vida, das minhas
luminosas às mais sombrias, como ofertas que coloco no altar do Amado. E esse Amado
é o próprio Amor em suas três formas: a que está além da compreensão; a que se
manifesta na criação que somos e que nos rodeia; e a que encarna na forma de
uma entidade que possamos amar (o Deus, o mestre, o guru etc).
Portanto, quero, também, agradecer a esse Amor, que teve a
generosidade de me abrir esse conjunto de experiências, pois sem que isso me
tivesse sido permitido, minhas seis lições não teriam valido de nada. Esse Amor
já havia se apresentado como um grande mistério que eu perseguia, para em
seguida aparecer na forma de meu Guru de meditação, Anandamurtii, e agora se
revela, cada vez mais, como toda a vida do planeta Terra, e de todo o Universo,
com tudo de mais lindo e medonho que existe neles.
Agradeço, em especial, a Anandamurtii, meu Baba (Amado),
pois todos os mestres que se colocam como pontos de concentração para onde
podemos direcionar nosso Amor Devocional o fazem por profundo serviço amoroso
ao outro, e não, como comumente pensamos no Ocidente, por desejo de serem
adorados e servidos. O mestre se coloca como uma tela de projeção de todos os
nossos padrões de relação conscientes e inconscientes com nossos pais e nossas
autoridades internalizadas para que, pouco a pouco, possamos ir limpando essas
projeções e, no final, mergulhar não na personalidade do mestre, mas no Amor
Transcendental que se esconde atrás Dele.
A unidade com o mestre só acontece quando justamente
alcançamos um grau de inclusão interna de tudo que existe, chegando ao
entendimento de que não há nada do que se defender, ou para atacar. Tudo o que
o mestre poderia nos trazer, de bom ou ruim, já existe integrado dentro de nós
e, portanto, toda a tentativa de sustentar a fronteira do dentro e do fora, do
eu e do outro, dissolve-se, não por perda de si, mas por expansão de si. Esse é
um dos motivos pelos quais muitos mestres espirituais podem ser contraditórios
e polêmicos com seus discípulos: quando são mestres verdadeiros, fazem isso
para que que o discípulo experimente e transcenda todo o espectro da dualidade,
desde a ponta mais luminosa à mais sombria. Para que o discípulo não se ligue
ao mestre por atração ou por aversão, mas por reconhecimento da Unidade. Uma
vez alcançado esse estado, não há mais fora – tudo está dentro. O mestre não é
um líder autoritário que nos comanda arbitrariamente, mas antes um líder
servidor que se destitui do desejo de ser querido pelos outros para se tornar
um alvo de concentração no qual podemos gastar toda a nossa munição de
projeções do ego, até não restar mais nenhuma história a ser contada sobre
aquele alvo, e a experiência da Unidade se revele. E, a partir dela, podemos
expandir essa experiência para tudo e todos.
Somente seres com total desapego de seus próprios egos
poderiam coloca-los a serviço de tão grandiosa e árdua tarefa. De serem amados,
odiados, duvidados, seguidos cegamente, temidos, desejados, até que todos esses
fantasmas sejam destilados e reste apenas o reconhecimento do Inominável que,
uma vez visto no mestre, é visto em si e em tudo mais. Tudo passa a ser apenas
um instrumento para a refulgência do mais eterno e brilhante Amor.
Não posso afirmar que, nesses dez anos, todas as minhas
defesas caíram, mas posso dizer que as que caíram já foram suficientes para que
eu experimentasse um nível de paz e de conforto com a vida tão deslumbrantes,
que eu não trocaria por qualquer outra experiência no mundo. Mas foram dez anos
exatamente assim: amando, odiando, duvidando, seguindo cegamente, temendo e
desejando. De briga e paz. Não com meu mestre, ou com o Amor, mas comigo mesmo.
E eu sempre achava que era com Ele, mas no fim, via que era tudo projeção
minha, e que Ele sempre esteve ali, amorosamente me olhando e esperando eu me
encontrar. Logo, muito, muito grato, Baba, por sempre ter estado a meu lado. Só
você (e eu) sabemos a jornada épica que foram esses anos, dentro e fora de mim,
e de tudo que você fez por mim, para que eu crescesse e amasse tanto - a mim e
à vida.
Por fim, quero agradecer a todos os que me apoiaram nesse
caminho. Todos os mestres que me acolheram com carinho, em especial Jesus
Cristo, que me recebeu nesse mundo e que se revelou por meio de pessoas tão
especialmente iluminadas, como minha avó Ceiça, mãe de minha mãe, que me ensinou
uma espiritualidade que ama, e não que castiga. Sei que minha saída do
catolicismo pode parecer uma ruptura com minha história e minha tradição, mas
não é. Todos os mestres são um só, e isso a mente consegue compreender. Mas o
coração precisa amar alguém, como forma de aprofundar a relação (por isso
escolhemos alguém para casar, por exemplo), e essa escolha vai além da lógica
que conseguimos alcançar – só podemos entender com a intuição o que nos faz
escolher um mestre, e não outro, como nosso objeto de devoção. Meu coração
escolheu Anandamurtii, mas Jesus Cristo, e todos os que são, para mim,
instrumentos verdadeiros de seu amor, como minha avó e minha tia Célia, terão
sempre minha profunda gratidão.
Agradeço minha mãe, Maria Teresa, um ser liberto e que me
ensinou a liberdade. Se não fosse ela, eu não teria jamais me permitido trilhar
o meu caminho espiritual, e teria seguido num caminho que poderia ser bonito,
mas não meu. Ela foi e continua sendo o testemunho de servir ao Amor Maior em
qualquer forma com que ele se expresse, sem preconceitos, mas com muita
seriedade e, graças a Deus, bom humor.
Agradeço a todos os amigos e irmãos espirituais, com quem
compartilhei inúmeros momentos lindíssimos de prática, em que criamos juntos um
campo de elevação, em que nos sentimos juntos tocando os pés do divino,
enquanto cantávamos, meditávamos, contemplávamos a natureza, compartilhávamos
histórias espirituais, conversávamos sobre o que realmente importa ou
simplesmente compartilhávamos da doce presença um do outro. Nesse sentido,
agradeço especialmente a minha esposa, amante e parceira espiritual, Rafaela, e
a meus queridos companheiros da Comunidade Ser. Vocês são meus parceiros numa
jornada numa antes trilhada – a de viver a senda espiritual de autoconhecimento
e serviço ao mundo de forma coletiva, e materializando-a em projetos
transformadores que fazem crescer a nós e aos outros.
E agradeço a todos os outros monges e orientadores, de
Ananda Marga e de outros caminhos, que sempre me presentearam com joias de
sabedoria e de inspiração, a ponto de eu me sentir o homem mais sortudo desse
mundo, como um peregrino da alma que, a cada passo, encontra um sábio diferente
que lhe abre mais uma porta. Um agradecimento especial a Susan Andrews, pelo
conhecimento que me passou do Tantra e da Biopsicologia, e a Peter Sage, ou Dada
Vishvarupananda, por ter sido sempre com um pai amoroso e acolhedor, humilde o
suficiente para me ensinar tudo que sabe enquanto aparenta apenas estar
aprendendo comigo, e por ser, acima de tudo, uma manifestação do que mais
admiro no caminho da Ananda Marga.
Agradeço a tudo e a todos que fizeram desses dez anos uma
década mágica de despertar e aprendizado, e rezo para que possa chegar ao final
dos próximos dez anos com a mesma humildade e persistência de um praticante muito
especial de Ananda Marga que conheci: Vishvashanti, um americano que mora na
Dinamarca. Ele me disse num retiro que após vinte anos meditando sentiu que,
agora sim, estava aprendendo a meditar! E espero que esse testemunho possa
inspirar quem estiver sentindo o desejo de mergulhar nessa épica jornada para
que o faça o quanto antes – da sua forma, em seu próprio caminho - pois,
acredite, vale a pena. Que o caminho escolhido seja o do coração, e que a
potência mais profunda e misteriosa da vida se revele a nós, e nos guie.
Namaskar!
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quinta-feira, 28 de maio de 2015
Saudade vale a pena!
fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil
Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership
Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage.
Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior
de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos,
com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.
À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua
crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que,
algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma
nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar
para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa
sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.
Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as
emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela
jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca.
Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer
digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar
dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social:
“a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no
corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou
do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem
vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele
já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são
contundentes e irrevogáveis.
Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo,
nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza,
ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo
Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo
que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o
registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a
morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um
com ele novamente.
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma
jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou
com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que
abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada
de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós,
o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.
Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um
expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor.
Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se,
e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo
e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram
inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades.
Saudades do Grande Amor.
Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que
criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta
que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão
com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar,
de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir
externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.
E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria
o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso
Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e
tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir
saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde
estamos, e para onde vamos.
E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos
mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga,
aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar
como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu
amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada
sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos
vividos juntos.
Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade
vale a pena!
sábado, 9 de maio de 2015
Ser um homem que monumenta a vida!
Após a participação num dos
encontros do Círculo de Homens que sustento com alguns amigos, escrevi o texto
“Velar o Fogo do Masculino Sagrado”, que expressa as reflexões que surgiram
desse encontro, sobre como me tornar digno do Masculino Sagrado. Essa reflexão,
depois desdobrou-se no que significa para mim Ser Digno.
Algum tempo depois, li este poema
de Manoel de Barros, que começou a me dar algumas pistas sobre esse novo tema, e
abriu um campo profundo de reflexão e percepção:
“Venho de nobres que empobreceram
Restou por fortuna a soberbia.
Com esta doença de grandezas:
Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade
quando beijou os
pés de seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, a Dúvida, os
tolos.
Charles Chaplin monumentou os
vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres
coisas do chão mijadas
de orvalho.”
Fui arrebatado pela dignidade
dessa postura – a de “monumentar” o pequeno, o insignificante, o marginal, o
esquecido, o simples, o sutil – que é oposta à da cultura que valoriza que
todos sejam O Maior e O Melhor. E esta é, certamente, uma maldição que nós,
homens, conhecemos há muitos séculos, e que alimentamos diligentemente, em
nossas famílias, na escola, no trabalho e na cultura de massa. Dignidade, em
nossa cultura, significa, muitas vezes, mostrar para a sociedade que somos cada
vez maiores e melhores.
Em nosso caso, homens, crescemos
achando que temos de ter o melhor e o maior carro; ter o maior “pau” e ser o
melhor de cama; ser o que ganha mais em nossa profissão e que é o mais
reconhecido em sua área; que tem dinheiro suficiente para comprar a maior e a
melhor casa – em outras palavras, ser um grande provedor; precisamos ser o que “comeu”
mais mulheres, e o mais forte, gostoso e atraente; precisamos ser o melhor no
futebol ou em qualquer outro esporte. E por aí vai.
Nem precisa dizer que, quando
entramos nessa narrativa de dignidade, em vez de monumentar, desprezamos as
coisas pequenas e simples como insignificantes – e ainda mais as que fogem do
padrão desse mito do maior e melhor. E é aí que assumimos a sombra de um
masculino violento, autocentrado, engolidor e atropelador das delicadezas e das
fragilidades – essas mesmas delicadezas e fragilidades que, muitas vezes, são
tão caras ao feminino. Pois assumi-las como nossas seria correr o risco de
perder a nossa “dignidade”.
E se, em épocas anteriores a
esta, todo esse discurso do “bonito, rico e viril” já era pesado, imagine
agora, que temos de também ser bons moços, gentis com as mulheres, engajados em
causas sociais, espiritualizados, e mais um bocado de coisa que nos qualifica
como “atraente e de bom coração”. Para sermos dignos, não podemos ser nada
menos que o doce e gentil Clark Kent e o corajoso protetor da humanidade Super
Homem.
Mas quando li o poema de Manoel
de Barros, entendi um aspecto muito importante do que é dignidade para mim, e
para meu masculino: trazer grandeza para todos aspectos humanos – incluindo Ser
Homem. Cada homem, com seu propósito, pode dignificar uma parte dessa
experiência humana, e torna-la bela, valorizada, monumental. Não podemos, com
nosso Masculino Idealizado, esmagar nem a sombra do velho mito – o feio, o
pobre e o frágil – nem a do novo – o duro e o materialista. E tudo mais que não
se encaixa nisso. Todo o espectro do Ser Homem precisa ser monumentado por
alguém, seja porque é algo belo, e que precisa ser visto, seja porque é algo que
gera sofrimento, mas que, se existe, existe devido a uma história, que precisa
ser monumentada em sua dignidade.
Tenho em meu coração dois
exemplos simples que, para mim, retratam essa capacidade de monumentar o que é
belo, mas não é visto, e o que gera sofrimento, mas tem uma história. O
primeiro é o filme brasileiro “Hoje Quero Voltar Sozinho”, que conta a história
de amor entre dois rapazes adolescentes – um deles cego. Sem grandes dramas, e
com muita poesia, a história traz grandeza e potência para a cegueira e o
homossexualismo – dois aspectos que o mito dominante do masculino não quer monumentar.
O outro é o livro “For Your Own Good - Hidden Cruelty in Child-Rearing and the
Roots of Violence”, de Alice Miller (Para Seu Próprio Bem – Crueldade Velada na
Criação de Crianças e as Raízes da Violência). Nesse fantástico livro, a
psicanalista suíça Alice Miller descreve as bases do que chama de “pedagogia
venenosa” e analista a infância de 3 controversas personagens da história alemã
– uma delas, Hitler.
Ao narrar, a partir de dados
históricos, a infância de Hitler, sem tentar nos convencer de que sua infância
extremamente violenta “justifica” o que ele fez, mas apenas mostrando a
contribuição que ela deu para seu caráter, ela monumenta Hitler, fazendo-o não
só humano, mas parte do espectro do que é Ser Homem. Monumentar, aqui, não é
vangloriar, concordar, enaltecer, mas apenas dizer: isso também tem
importância. Por mais que Hitler tenha sido quem foi, sua infância sofrida – e
ele, em si – têm importância.
Quando nós, como homens,
monumentamos a vida, nós lhe damos importância, em todos os seus aspectos. Se é
algo que é belo, mas estava esquecido, tiramos o pó, tornamos reluzente,
trazemos para o palco, e celebramos, como no filme que citei. Se é algo
revoltante, e que estava sendo demonizado de forma simplista e maniqueísta,
corajosamente adentramos suas entranhas, conhecemos a sua história, choramos a
dor que levou o belo a se tornar grotesco, e lhe devolvemos a humanidade, para
que aquilo não se repita. E não pela repressão, mas pelo entendimento empático
e profundo, e pelo desejo de servir a vida – como no livro mencionado.
Desde muito tempo nossos contos
de fada e, mais recentemente, vários filmes e novelas, repetem incessantemente:
homem, seja o príncipe, o rei, o líder! Se você nasceu no estábulo, certamente
é por engano. No seu nascimento, alguém seguramente trocou os bebês, ou por
algum motivo maior você foi mandado para longe, para um dia voltar e reassumir
o seu lugar. Mas seu destino é ser rei, pois não é digno do homem ser apenas o
rapaz do estábulo. Entretanto, o homem que monumenta a vida diz: sim, é digno ser
o rapaz do estábulo. Ele também conta algo de belo sobre o Masculino Sagrado.
Se os arquétipos do rei, do príncipe e do amante são tão desejados, não é
porque eles sejam necessariamente superiores, mas simplesmente porque são eles
que tem sido monumentados, de forma monopolizadora, durante séculos. Esses
arquétipos são muito importantes, com certeza (pessoalmente, eu os adoro), mas
não podem ser os únicos.
Quem de nós sentirá o chamado
natural para monumentar o que o mito masculino que não funciona mais quer
desprezar? Quem monumentará o rapaz que cheira a flor na calçada? Os amigos que
se abraçam de forma doce e singelo? O que diz “eu te amo” olhando nos olhos do
outro? Quem monumentará o mendigo? O gay? O travesti? O nerd? Ou, indo além
dessas categorias, as diferentes e originais formas de ser homem? Quem
monumentará as rodas de conversa profunda entre homens, que falam de
sentimentos e vulnerabilidade? Quem monumentará o pau pequeno? A mulher que é
taxada de velha, ou gorda, ou feia, ou deficiente, e que é igualmente uma
representante legítima do Feminino Sagrado, tanto quanto as deusas gostosas que
adoramos monumentar? Quem monumentará o homem que é amente dessas mulheres? Quem
monumentará o carro usado e antigo? A casa simples? O faxineiro? O emprego
desglamourizado e honesto? O chão de fábrica? O sonho de viver algo que não
pertença a um destino masculino já pré-determinado, de futebol, carro, mulher e
cerveja? Quem de nós sentirá o chamado para tornar grande algo pequeno, algo
humano, mas que é nosso por direito?
Também vale dizer que o novo
mito, do homem doce, emocionado e espiritualizado, também pode ser usado contra
a monumentação do espectro completo de Ser Homem. Quando nos juntamos a um
grupo espiritual e acreditamos que bons mesmos são os que falam de forma suave,
não bebem, andam de branco, são vegetarianos, comem orgânicos, choram e abraçam
todo mundo, deixamos de monumentar tudo aquilo que interpretamos como duro,
forte, ríspido. Renegamos esses aspectos como antigos, ultrapassados ou ruins,
mas eles também fazem parte de Ser Homem. Não à toa, mentores do masculino como
Robert Bly, relatam sua preocupação ao ver círculos de homens desvitalizados,
que falam de amor, porém mal conseguem segurar uma espada para expressar sua
força masculina. Também é necessário monumentar nossa virilidade, mesmo que ela
tenha se desviado em comportamentos machistas e agressivos. Não para validar
esses desvios, mas para encontrar a história atrás desses comportamentos,
onde mora algo digno de ser notado como importante.
Quando um homem Nova Era olha nos
olhos de um clássico machão, com toda a sua aparente dureza, insensibilidade e
voracidade sexual, entende a sua história e reconhece o que ele está guardando –
ainda que mal guardado – e celebra esse seu esforço, uma cura se dá no mundo, e
o que era grotesco se torna poesia. E talvez um dia essa cura faça com que essa
essência mal guardada seja melhor guardada, na forma de rituais belos e
profundos – e não de machismo - assim como hoje as guardiãs do Feminino Sagrado
encontram poesia no ciclo menstrual e o guardam com carinho, transmutando o
fato de que esse mesmo ciclo antes também era tido como grotesco. O mesmo se dá
quando um homem dentro do antigo mito masculino celebra dois homens que se
abraçam como amigos, ou que se beijam como amantes, ou que dançam com mulheres
numa roda de cura.
Logo, a pergunta é: qual é o
nosso papel na monumentação do Masculino Sagrado? Qual é esse pedaço que nos
cabe guardar como também importante, tanto quanto todos os outros? Essa é
justamente a pergunta que, agora, tem rondado minha jornada de assumir esse Masculino:
qual é a minha parte nessa história, e que me dignifica como homem, pois só
aquele que consegue enxergar o invisível é que verdadeiramente abriu os olhos?
Acredito que essa resposta só
será encontrada no meu propósito de vida – no meu destino. Sendo eu, e vivendo
a minha trilha – e não a trilha do sucesso programado – naturalmente o que devo
monumentar se revelará. Sei disso porque já experimentei um pouco da água dessa
fonte, quando, aos 21 anos, escrevi um livro-reportagem sobre pessoas que
nasceram, como eu, com fissura labiopalatal. No encontro com essas pessoas,
algumas que lidavam melhor e outras pior que eu com o fato de terem cicatriz no
rosto, ou serem fanhos, ou terem o nariz torto, descobrimos muita, muita
dignidade. Foi durante esse processo que comecei a namorar minha esposa, com
quem já estou há 12 anos, e tive coragem de entrar num coral, para fazer algo
que um fanho não-monumentado jamais faria em público: cantar. E, hoje, eu me sinto grato pela honra de poder ter monumentado essa história, e de outras pessoas como eu.
Tenho certeza que no coração de
cada homem mora uma “pobre coisa do chão mijada de orvalho”, pedindo para virar
poesia.
Qual é a sua?
Deixo, por fim, um poema de
Bertrold Bretch, que questiona, de forma muito digna, este mito do Maior e
Melhor, e monumenta os esquecidos:
Perguntas de um Operário Letrado
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
quarta-feira, 25 de março de 2015
Velar o Fogo do Masculino Sagrado
Velar o Fogo do Masculino Sagrado
Em 2014, um grupo de amigos próximos e eu resolvemos iniciar
um Círculo de Homens. Depois de várias tentativas de marcar um primeiro
encontro, enfim achamos uma data, e acabei não indo no tal encontro, pois nesse
mesmo dia fui jantar com uma pessoa que considero um grande mentor para mim.
Considerei que aquele havia sido meu Círculo.
Durante o ano, chegamos a ter, talvez, cinco encontros, que
foram muito nutridores para muitos de nós, e também geraram incômodos. Um deles
dizia respeito à nossa inexperiência em equilibrar o “papo sério” – de nossas
feridas, do sagrado etc – e o papo “engraçado” – as aventuras sexuais, as histórias
curiosas etc. Terminamos o ano num tom disperso, sem saber exatamente quando e
como o Círculo iria continuar.
Em março deste ano, vi que uma data que coincidia com nosso
pulso mensal de encontros (a terceira sexta-feira do mês) estava livre para mim,
e mandei uma mensagem para o grupo que criamos no Whats App, sugerindo que
fizéssemos o primeiro encontro do ano. Algumas pessoas confirmaram, inclusive
dois amigos que haviam acabado de entrar no grupo, e estavam bem animados para
um primeiro encontro.
Assim, na terceira sexta-feira do mês, na virada do ano
astrológico, às 18h30, desliguei-me de meus afazeres de trabalho e sentei para
meditar, como faço todos os dias, contando com que as pessoas começariam a
chegar às 19h, que era nosso horário combinado. E aí começaram uma sucessão de
frustrações, começando por um grande amigo que estava comigo lá desde a hora do
almoço, esperando para participar do Círculo, e resolveu ir embora, para
atender uma demanda familiar.
Enquanto eu meditava e, de olhos fechados, não ouvia a porta
de nosso espaço abrindo, ou a campanhia tocando, meu coração ia me dizendo que
ia haver uma debandada geral. Aquilo foi me angustiando, e eu quase ia me
irritando por antecipação. Negociava comigo mesmo, dizendo que as pessoas só
deviam estar atrasadas, como de costume. Mas, de fato, ao terminar de meditar,
já passadas as 19h, vi no Whats App que vários haviam desistido. Entretanto, a
confirmação de três amigos, mesmo sabendo que eles chegariam bem atrasados, me
fez persistir no encontro.
Nesse período, entre eu meditar e esperar esses amigos
chegaram, caiu uma ficha. Já há algumas semanas, eu refletia sobre o Círculo de
Mulheres que também acontece em nosso espaço, há mais tempo e com mais
regularidade, e sobre os vários Círculos de Mulheres que vejo acontecendo por
aí, anfitriados ou contando com a participação de pessoas próximas a mim –
inclusive minha esposa. Refletia, também, sobre a prática de uma querida amiga,
com quem tenho passado por um processo de coaching, e que, além de arrumar
lindamente o espaço onde temos nossas sessões, cuida muito bem em preparar
energeticamente o espaço, chamando a presença de todos os guias e mentores que
considera importantes para aquele trabalho.
A ficha que me caiu, então, é que nós, homens, não cuidamos
bem dos espaços. Nós podemos construir a casa, mas quem em geral a decora e
cuida de mantê-la limpa, arrumada e viva, é a mulher. E era exatamente assim
com o nosso Círculo: a gente simplesmente chegava e sentava mais ou menos em
círculo, no máximo acendendo uma vela, pedia talvez uma pizza, e conversava.
Quase nenhum cuidado com criar um ambiente convidativo, em se conectar com as
energias que queríamos que estivessem naquele trabalho. Sem trazer a beleza e a
poesia de um ritual significativo. Quantas vezes, pensei, quis trazer oráculos,
flores, velas, algo que trouxesse o sagrado para aquele momento, e não lembrei,
ou não priorizei?
Olhei para aquilo e, naquele momento, fiz um pedido para
mudar. “Quero ser um homem que cuida”, pensei. E então resolvi montar um belo
círculo com o que tinha ali. Arrumei as almofadas. Acendi a vela. Ornei-a com
imagens masculinas que estavam em nosso altar: Shiva, Buda, Jesus Cristo, Anandamurtii,
entre outros. Coloquei no centro umas flores que estavam lá, no canto da sala.
Peguei dois livros que estavam na minha mochila, e que sentia que se conectavam
com o momento. Quando terminei, senti a diferença na qualidade da energia
presente. Uma nota mais grave, e mais retumbante, estava agora sendo entoada.
Então resolvi invocar as consciências que, no meu coração,
eram referências do masculino sagrado. Cantei para muitos daqueles seres do
altar: mantras para Shiva e Buda, canções cristãs, entre outras. E a cada
canção, sentia que a roda estava mais preenchida, ainda que fisicamente só eu
estivesse ali. Logo em seguida, dois dos três amigos chegaram, e um deles tocou
também algumas músicas xamânicas, e o tom do sagrado e a energia de poder foi
crescendo e crescendo. Senti a força do cuidado, e desejei ser um homem que
cuida. Não só dos espaços, mas das relações, das pessoas e dos seres.
Nesse meio tempo, o terceiro amigo chegou, trazendo algumas esfihas,
para mim e para ele, e foi para a cozinha comer com aquele meu amigo que
resolveu ir embora para cuidar de sua demanda familiar, mas que ainda estava
ali, resolvendo últimas coisas antes de sair. Eu e os demais já estávamos
cantando e abrindo o Círculo, e eu tinha a expectativa de que ele viesse se
juntar a nós o quanto antes. Mas ele não veio. Fui até a cozinha e dei um toque
para que ele viesse. Ainda assim, ele demorou. E eu comecei a ser tomado por
uma irritação profunda. Que fez com que uma segunda e importante ficha caísse.
Enquanto um lado meu tinha um desejo enorme de ir na cozinha
e “dar uma bronca” nele, para que viesse logo, um outro lado meu não via o
menor sentido nisso. Não queria ser o pai mandão e autoritário. Estávamos ali,
inclusive, por sermos homens que queriam romper com a rigidez patriarcal. Mas,
ao mesmo tempo, eu queria muito que ele se comprometesse com aquele nosso
momento. E foi aí que me caiu a ficha: comprometimento. Nós, homens, muitas
vezes não nos comprometemos. Não é à toa que essa é uma das principais
reclamações que as mulheres nos fazem: “vocês não querem compromisso”. Não é à
toa que há tantas mulheres lutando sozinhas com seus filhos, pois, claro, nós,
homens, não nos comprometemos.
Entendi, então, que eu não queria mandar no meu amigo, nem
dar bronca. Eu queria sentir compromisso. E eu estava tão irritado porque eu
tinha raiva da minha própria falta de compromisso. Eu precisava que meu amigo
viesse porque eu não conseguia me comprometer comigo mesmo, e precisa que ele
seguisse minha ordem, para eu ter uma pseudo-sensação de compromisso. O que me
impedia de me comprometer com estar ali, num espaço importante para mim, tendo
somente as presenças invisíveis, ou apenas os dois amigos que já estavam lá? Eu
não queria assumir que o compromisso é meu, e é comigo, com o que me é caro. Eu
não queria assumir meu compromisso de velar o fogo do masculino sagrado, e
queria que os outros fizessem isso por mim.
E, ali, comecei a assumir esse compromisso: eu irei aprender
a velar o fogo sagrado do masculino. E isso, eu já havia entendi, implicava,
além de me comprometer, aprender a cuidar. Alimentado por essas reflexões,
quando abrimos a nossa roda de conversa (ainda sem meu terceiro amigo ter
entrado), compartilhei minhas sensações e reflexões, que ressoaram
profundamente nos meus dois amigos presentes, e a partir daí a roda foi se
aprofundando e ficando mais e mais forte, e fomos sentindo que algo
extremamente especial estava acontecendo naquele momento. Quando, enfim, o
terceiro amigo chegou, compartilhei com ele tudo que havia vivido e sentido, e
ele não só entendeu, mas também sentiu que aquelas eram reflexões muito
importantes para ele.
Abrimos, então, nossas caixas de pandora, e conectamos com o
que nos pareceu não apenas a nossa dor – mas a dor do masculino no mundo. Cada
um na roda trouxe percepções e experiências únicas e que não poderiam ser
reproduzidas nesse texto – ao menos não o lugar para onde tudo isso nos levou,
pois isso só estando lá. Um dos meus amigos revelou o que já estávamos sentindo
com nosso corpo: a energia daquele Círculo era vazia e fraca, pois esse é o
estado do Círculo de Homens do mundo hoje. É vazio porque não nos
comprometemos. Não aparecemos. Chegamos atrasado. E não somente no encontro do
Círculo de Homens. Mas na vida. Em nossos casamentos. Na vida de nossos filhos.
Na realização de nosso propósito de alma.
O Círculo é fraco porque não cuidamos. Fazemos de qualquer
jeito. Desrespeitamos o sagrado do que somos e do que fazemos, levando tudo
para o deboche e o escracho. Desprezando o sério e sagrado como pesado. Como
algo que não interessa ao homem. Como frescura. Somos adolescentes. E não há
nada de mais em debocharmos e sermos adolescentes. Esse é um de nossos papéis
sagrados. O problema é só ser isso. E quando não somos adolescentes, somos o
pai narcisista ou autoritário. Somos o patriarcado que lutamos tanto para
transformar. Claro que é importante não generalizar: não somos todos assim, nem
somos assim o tempo inteiro. Mas esse é o “estado da arte”, em termos gerais,
atualmente. Ou, ao menos, nós, deste grupo, sentimos assim.
“Sou um moleque”, disse ao meu grupo. “E embora eu esteja
brincando de chamar todas essas entidades, como Shiva, Buda e Jesus, para esse
Círculo, será que se eles realmente estivessem aqui, eu me sentiria digno de
estar sentando no mesmo Círculo que eles? Será que eu estou honrando minha
dignidade masculina?”. E que fique claro que essa percepção não tem peso. Não
se trata de ser um super-homem. De me cobrar excessivamente. Mas apenas de
amadurecer. De verdade. E não de faz de conta, do tipo “eu ganho dinheiro,
tenho um cargo alto no meu trabalho e seguro muita bucha, então eu sou gente
grande”. Trata-se de sair da adolescência do masculino ferido, com raiva de
tudo represente compromissos e cuidado, limites e firmeza, como se tudo isso
fosse rigidez. E também sair do patriarcado, com raiva de tudo que é espontâneo
e vivo, e que foge do controle.
A imagem que me veio foi a seguinte: é como se, em algum
momento, houvesse existido sacerdotes que velavam pelo fogo do masculino
sagrado. Homens fortes, dignos e bons. E aí, num certo ponto, alguma ferida fez
com que o fogo se apagasse e, sem perceber, continuássemos a fazer os mesmos
rituais, velando mecanicamente um fogo morto. E quanto mais sentíamos o frio do
masculino se apagou, mas sem admitir que se apagou, repetíamiios ainda mais mecânica
e rigidamente os rituais, achando que o ritual em si iria nos fazer sentir o
fogo. E quanto mais fazíamos isso, mais raivosos e rígidos ficávamos. É
horrível sentir o frio de um fogo vital que se apagou.
Assim, o patriarcado, cada vez mais um conjunto de rituais
rígidos e sem vida, foi se deteriorando. Até que questionamos o ritual sem
significado. Nos libertamos. Só que, equivocadamente, entendemos que o que nos
aprisionava era o ritual, e não a falta do fogo. Achamos que o ritual era
maligno. E decidimos que não queremos mais os rituais. Para que cuidar e se
comprometer com eles? Queremos ser “livres”. Assim, continuamos com o fogo
morto, virando agora adolescentes sem rituais e, ainda, sem fogo. Continuamos
perdidos, mas com a liberdade de gritar e reclamar que estávamos perdidos. E
quem sabe era esse o próximo passo necessário, porque que fomos, então,
descobrindo que a questão não é o ritual – é o fogo. Precisamos reacender o
fogo do masculino sagrado. E cuidar dele.
Sem raiva dos rituais, e do compromisso e cuidado que eles
pedem, e também lúcidos o suficiente para não aceitar mais rituais vazios,
queremos nos recolocar na posição de sacerdotes que velam pelo fogo do
masculino sagrado. Queremos aprender, com os mentores invisíveis, e os visíveis
– aqueles homens que nos inspiram a doce virilidade do masculino equilibrado –
como velar o sagrado. Queremos recuperar nosso respeito e nossa dignidade. De
ser homens. Sabendo que, com isso, não precisaremos depreciar o feminino nem obriga-lo
a nos reconhecer. Aquele que é digno é reconhecido naturalmente pela sua
dignidade.
E entendemos que esse é um trabalho hercúleo. Aliás,
hercúleo vem de Hércules que, não à toa, era um homem. E que matou a sua esposa
e seus filhos. E teve que passar por grandes obras e provações, até recuperar o
seu masculino equilibrado. Isso significa que, de fato, achar que cuidar e se
comprometer é algo importante e respeitoso, e não papo de homem babaca,
complicado etc, é algo difícil e demandoso. Pode parecer bobo, mas acender uma
vela e arrumar o centro de uma roda de conversa - algo tão natural para o
feminino - pode ser um bloco de uma tonelada para um masculino ferido.
Isso ficou ainda mais evidente quando, durante o encontro,
ensaiamos fazer uma dança de escoteiro proposto por um de nós. Um misto de
emoção e vergonha me tomou. Mesmo eu, tão reconhecido por ser um homem “com
muita energia feminina” (seja isso bom ou não), estar ali, de braços dados,
cantando com outros homens, me deixava embaraçado. Os softwares do masculino
patriarcal me assombravam quase que como uma voz débil, de pano de fundo. E
isso nos levou a refletir o quanto que, além da dificuldade de comprometimento
e cuidado, nós, homens, temos muita dificuldade em sair do que um de nós chamou
de nossa “autonomia territorial”, para assumir e compartilhar nossa
vulnerabilidade.
Percebemos que um dos possíveis motivos de não aparecermos
no Círculo, ou de chegarmos atrasados, é uma preguiça difusa e de fundo, cuja
raiz talvez seja a antecipação de que teremos de fazer algo que é muito, muito
demandoso para nós: nos abrir, falarmos de nossos sentimos, expormos dores e
sonhos. A sério. E não de forma escrachada. E para outros homens. Mesmo nós que,
conscientemente, defendemos isso, temos, inconscientemente, essa dificuldade. É
quase um condicionamento biológico, parece. E talvez seja mesmo. Chegamos a
comentar que, se houvesse uma única mulher naquela roda, a tarefa seria muito
mais fácil. Que a presença feminina nos tira da nossa postura automática de
sempre manter um lugar de fortaleza perante outros homens. Que duro perceber
que, ao contrário das mulheres, que muitas vezes antecipam esse momento de
troca como um momento de alívio e relaxamento, nós antecipamos esse momento
como de esforço – muito esforço.
Por isso, nesse Círculo tão auspicioso, depois de todo esse
mergulho – um ano em duas horas, me pareceu – assumimos uma tarefa, que quero
estender a todos os homens que estiveram lendo esse texto, e que se sentirem
chamados. Como uma primeira tarefa de aprendizagem em nossa jornada de nos
tornarmos dignos de velar o fogo do masculino sagrado, iremos acender, com
cuidado e compromisso, uma vela, toda sexta-feira, às 19h, e deixa-la queimar
em nossos corações, em honra a nossa luz e a nossas feridas, e à luz e às
feridas do masculino desse planeta. As mulheres também são bem vindas a fazer
esse exercício, mas é muito importante que nós, homens, o façamos, para mudar
nosso padrão. E quem não puder acender uma vela física na hora, que a acenda
dentro de si. Mas que faça isso porque realmente não pode acender a vela física
– e não por preguiça ou por ser “mais fácil”.
Claro que esse é apenas um exercício, e cada um pode criar o
seu. Sendo realista, nosso compromisso é até o próximo Círculo – não queremos
uma tarefa tão grandiosa que não possamos alcançar. São nossos primeiros
passos, e queremos dá-los com cuidado. Além disso, queremos agora cuidar para os
Círculos aconteçam com beleza, e para que de fato estejamos lá – e, se não
pudermos estar, que não larguemos de lado e simplesmente mandemos uma mensagem
dizendo “não vou”. Mas que nos preocupemos em saber quem estará, para velar o
fogo em nosso lugar. Queremos saber como podemos contribuir, mesmo à distância.
Também queremos fazer outros exercícios: acampar juntos, conversar sobre nossa
ancestralidade, aprender a não ter vergonha de dançar juntos, e se abraçar. Temos
muitos sonhos. Sonhos de adolescentes que sinceramente têm vontade de crescer.
E de, um dia, serem reconhecidos como sacerdotes dignos do fogo sagrado que nutre
a beleza de Ser Homem. E de Ser Masculino, sejamos nós homens ou mulheres.
Vamos juntos?
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Devoção – a relação sustentável definitiva
Por Gustavo Prudente
Nós, seres humanos, estamos o
tempo todo buscando nosso “abrigo mais seguro”, como diria o filósofo indiano
Prabhat Rainjan Sarkar. Um lugar de felicidade que seja o mais duradouro, ou
sustentável, possível. Nessa caminhada, encontramos diferentes níveis de
bem-estar e segurança em portos-seguros como o dinheiro, a família, a relação
amorosa, os amigos, o trabalho, a realização de um propósito maior de vida e a
espiritualidade.
Como somos seres que basicamente
se relacionam (até mesmo de olhos fechados “conversamos” com nossa consciência
ou com referências internas nossas, como Deus), nós buscamos também a relação
que seja mais segura e que nos seja por mais tempo fonte de prazer e
felicidade. Sabemos que, em geral, colegas são fontes mais sustentáveis de
felicidade que meros desconhecidos, amigos mais que colegas, amigos íntimos
e/ou família mais que amigos. Mas mesmo essas relações não se mostram fonte
constante, eternamente durável, de felicidade, pois dificilmente admiramos e
nos nutrimos de nossas relações, mesmo as mais íntimas, o tempo inteiro. Além
disso, cada relação nos nutre em algo específico, e dificilmente nos
relacionamos com algo ou alguém que supre todas as nossas necessidades.
Haveria uma relação capaz de nos
nutrir constante e plenamente, sendo fonte eterna de felicidade? Uma relação
mais que 100% sustentável, pois contribui para a sustentabilidade de outras
relações que travamos com as pessoas ao nosso redor?
Minha experiência de vida me
levou até agora a acreditar que sim. Existe uma relação sustentável definitiva,
que se estabelece por meio da devoção, ou seja, de devotar amor pleno e
incondicional à vida ou à consciência maior que nos rodeia. E este amor, para
existir em relação, precisa ser canalizado para algo ou alguém que represente a
vida ou a consciência, para que assim esses conceitos tão abstratos possam ser amados
de forma concreta e personalizada. Devoção significa amar uma figura com forma
e nome como portal para acessarmos a fonte maior da vida, processo que é
exemplificado muito bem na cultura oriental por meio do arquétipo dos mestres.
Falar em devoção em nossa cultura
ocidental é sempre muito delicado porque ela facilmente pode ser confundida com
submissão ou fé cega. Nesses casos, não há amor (característica essencial da
devoção), mas no máximo paixão, ou qualquer outro sentimento que ajude a
preencher uma dor ou vazio subjacente que surge quando não estamos amando ou
sendo amados (pois estar submisso ou seguindo cegamente algo ou alguém nos
ajuda a “abafar” esse sentimento de dor e vazio com um pseudo sentimento de
amor, por obtermos aprovação daquele que nos domina ou a quem seguimos). Nesse
caso, o que existe não é devoção, mas a busca por atrair a aprovação ou evitar
a desaprovação.
Na devoção, existe um sentimento
de amor tão profundo e verdadeiro, que a única ação possível é a gratidão.
Damos o melhor de nós mesmos para o outro porque estamos tão felizes que a
única forma de agradecer é fazer algo pelo outro. Quando o outro é um amigo, um
filho ou uma namorada, agradecer pode significar fazer pequenos gestos de
carinho ou se esforçar para ajudar o outro em suas dificuldades. No caso desse
outro ser a vida ou a consciência maior, ou seja, um outro que já tem tudo em
si, a única alternativa restante é... cuidar da vida, que implica cuidar do
planeta e de todas as relações que nele nutrimos. Por gratidão.
Assim, o devoto é aquele que se
sente amado por algo ou alguém que já possui tudo em si, a quem nada falta, e
devolve esse amor cuidando desse todo da melhor forma possível. Como esse todo
inclui os rios da minha cidade, eu empreendo ações ecológicas para proteger e
limpar os rios. Como esse todo inclui minha família, eu nutro relações
saudáveis e de respeito com ela. Como esse todo inclui meus desafetos, eu
exercito constantemente a prática do perdão. Tudo isso sem a intenção de ser
bom ou de ser admirado. Apenas por gratidão. Por ser a única forma de amar um
todo que nos ama com eterna abundância.
Nem entro aqui no mérito de se
esse todo é o que chamamos de Deus, ou se ele existe. Estou falando do nível
mais básico de condicionamento interno, psíquico e biológico. Sabemos hoje que
nosso cérebro reage de forma muito parecida a eventos vividos e eventos
imaginados, então se estamos nos relacionando com um ser real ou não, tanto
faz. O que importa é que, para nosso cérebro, estamos constantemente (até de
olhos fechados) nos relacionando com um ser que nos ama e que é por nós amado,
plenamente. E essa relação, fonte de nutrição constante, torna-se, portanto,
fonte de uma sustentabilidade perene, que pode ser replicada em diferentes
níveis com as pessoas “em carne e osso” a nossa volta.
E como nossas crenças sobre a
vida influenciam diretamente tanto nosso potencial criativo, quanto nossa
motivação para empreender nossos sonhos e as estratégias que desenvolvemos para
realizar essas conquistas, ter uma figura interna, que eternamente nos apóia e
motiva, nos ajuda a reforçar constantemente a sensação de que, sim, nós somos
capazes. De que nós vamos conseguir. De que a vida é abundante e de que todos
os recursos já estão aqui, ao nosso redor. De que o presente é um presente (ou
seja, uma fonte abundante de gratas surpresas). Sabemos disso porque há algo em
nós que nos apóia e nos diz que, sim, não estamos loucos: a vida é naturalmente
sustentável.
Por isso, sugiro um experimento:
sente-se de olhos fechados diariamente e crie uma relação com algo ou alguém
que represente, para você, o todo. Não basta ser alguém que você “ama muito”.
Imagine que você pudesse personalizar ou materializar a totalidade da
existência, ou do universo. Como ou quem seria essa personificação? Pode ser
uma figura religiosa ou algo ou alguém bem inesperado. Seja como for,
enamore-se dessa figura e comece a criar uma relação com ela, conversando com
ela inclusive. Ouça o que ela diz e responda, se for o caso. Se esse exercício for
feito diariamente, depois de sessenta dias, gostaria de ouvir a sua história. Gostaria
de saber se seu cotidiano está ou não ao menos um pouco mais sustentável, seja
nos aspectos mais sutis – nas suas relações interpessoais, por exemplo - ou nos
aspectos mais práticos – por exemplo, a maneira como você cuida do seu lixo.
Minha aposta é que a devoção fará de você um ser humano muito mais
(naturalmente) sustentável.
Gustavo Prudente é laboratório-vivo de
sustentabilidade no projeto Senhor Sustentável (www.senhorsustentavel.org) e membro
da Comunidade SER – Sustentabilidade, Educação e Arte. gustavobprudente@gmail.com
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Hoje termina uma jornada de 2 meses e meio fora de São Paulo
e de 1 mês em Aracaju, minha terra natal. Sinto que tal qual a jornada de 70
dias que fiz pelos EUA entre ano retrasado e passado, esta também foi uma
viagem talhada sob medida pela vida para que eu abrisse mais meu coração,
aproximasse-me mais de mim mesmo e limpasse os canais para o pleno fluir da
minha vida e de tudo que está emergindo nela, incluindo carreira e filhos.
Não tenho atração por ficar expondo minha vida íntima nas
redes sociais, mas sinto que de vez em quando a vida me traz algum presente ou
insight tão importante, que a minha vontade é compartilhar com o mundo inteiro.
Talvez aí more uma influência do meu instinto de escritor, que naturalmente me
chama para compartilhar com mais pessoas as narrativas que acontecem dentro e
fora de mim.
Por isso, queria compartilhar e agradecer a vida e a todos
os seres com quem a tenho partilhado, pelos momentos vividos nestes dois meses,
no texto-poema que segue abaixo. Algumas partes só serão entendidas por quem
conhece os fatos aos quais elas se referem, mas talvez mesmo elas possam ser
compreendidas com o coração. Nem todos estão nomeados aqui em palavras, mas
estão todos registrados nas entrelinhas do texto e do meu coração.
Aos ancestrais que me
guiam
Se importante é aquilo que portamos no coração
Que fiquem para sempre registrados
Nas estrelas
Esses momentos:
Ver você, meu irmão,
Casando com sua alma gêmea,
Do lugar mais belo que eu poderia
Imaginar:
O pé do altar,
Onde tive a honra de os receber
Ao lado de minha companheira.
Mergulhar na sua história,
Meu amor,
E aprender uma parte
Da sua língua,
Aquela que passeia
Pelo Sena
E namora aos pés
Do lago das uvas.
Comungar, com sua família,
De uma história
Muito antiga,
Cujos portais só se
Abrem
Pela honra ao que
Passou.
Entender que a
Europa
É também a minha
Terra
Porque nela vivemos
Vidas
E o Natal que
Juntos
Comungamos.
Mergulhar num kiirtan
Tão doce e verdadeiro
Que qualquer lugar
Do mundo
Pareceria menor
E menos bonito
Que aquele salão pequeno,
Num inverno gelado, de dias curtos
Do interior de uma Suécia distante.
E num desses momentos
Sentir que rodamos juntos
Você, meu amor, apoiando minha voz cansada
Numa madrugada
Sem ninguém.
E num desses encontros
Sentir que Deus preparou
Um momento só nosso
E da alma que
Nos espera.
Comungar com os amigos
Que moram longe
De seus amores e projetos
De seus filhos e gravidezes
Sentir-me acolhido,
E na véspera de um adeus,
Num momento pequeno
E mágico,
Sentir no meu corpo
Como um lágrima
O meu próprio filho
Passando através
De mim.
Degustar da vida
Com você,
Meu raio de sol,
No sabor de uma massa
Caprichada
Um chocolate inesquecível
Um passeio engraçado,
Verde,
Antigo,
Amoroso,
Doce,
Sutil,
Musical,
Terminando sempre,
Claro,
Com um sorvete
De pistache,
Em uma Roma
De terraços
Tão charmosos
Quanto nosso amor.
Passear pelas mágicas
Montanhas
Da uma Suíça
Inesquecível,
Num dia improvável
De luz e sol,
Num jantar improvável
De bons amigos,
Numa conversa de trem
Mirando a beleza sem fim,
Falando sobre o que
Importa
Com você, meu irmão,
Que sempre
Amarei
Jantar com você,
Mainha,
E beber do seu
Brilhantismo,
Nutrir-me de sua
Genialidade,
Digerir a sua
Generosidade
E sair mais forte
Para voltar para casa.
Não pense que não notei
O pão comprado logo cedo
A sopa feita com carinho
A água de côco sempre fresca
O sorriso de avó coruja
A partilha da sabedoria
A taopica quentinha
A novela compartilhada
O quarto cedido
O espaço oferecido
Para eu ser quem sou.
Também não pense que não notei,
Martoca,
Sua humilde presença,
Cuidando da minha,
Zelando por mim,
Sendo você,
Tão autêntica e brilhante,
Guiando meus passos
Ao me fazer pensar e rir
E ser a parceira
Bruxinha do bem
Da minha mãe.
Viver a vida com vocês,
Meu irmão, minha cunhada,
Presenças amadas,
Junto com minha esposa,
Como Irmãos de vida,
De Alma,
Recebendo de Deus
E compartilhando juntos
Nossos dons,
Em casa,
No curso,
Na sorveteria,
No papo gostoso
Antes de sair do carro.
Amor.
Maya sentada comigo
Juntinho na rede
Ela correndo do monstro
Que agora eu era
Pulando no ombro
E me ajudando,
Tão linda,
A controlar o tempo
Do meu olhar
Anfitrião.
Theo imitando
Tarzan
Como faz o tio Guga
Seu cabelo de mel
Brilhando ao sol
Seu sorriso de dentes
Poucos
Sorrindo como a ninfa
Pureza
Batendo engraçado
No chão
No tambor
Na mesa
E sempre pedindo
Ké – ké – ké
Dá – dá – dá
Para qualquer
Gordinharia
Que se veja
Sentir você, minha amada,
Ainda aqui ao meu lado,
Partilhando comigo
Das dores
E das delícias
E fazendo desta família
Uma família que também é
Sua.
A flor do propósito
Abrindo novas
Pétalas
Nos chamados
Da Alma,
Que caem tanto,
Como frutas maduras,
Que ao mesmo tempo
Que agradeço,
Pergunto com quem
Compartilharei
O que não cesta
Já não mais cabe.
Agradeço, Senhor,
A felicidade
E a abundância.
São tantos parceiros
Que tecem comigo
O que sou
E o que somos
Que é como se eu
Morasse
Numa galáxia brilhante
E tão próxima,
Onde sou uma
De muitas estrelas
Com quem partilho
A luz.
Encontrar vocês,
Meus amigos,
Meus irmãos,
Não apenas em Serra Grande
Mas na simplicidade do cotidiano
E na grandeza da alma
Do seu nobre coração guerreiro,
Amado Thomas,
Do seu bondoso coração
Feiticeiro,
Amada Narjara,
E na combinação de tudo isso,
Nos olhos sorridentes
De Luan,
Brilhando como a Lua
Na tarde em que Cristo
Nos penetrou,
Sob a guarda da
Deusa Kali
Com suas alegres
Quatro patas.
Sentar com você,
Meu pai,
Naquela mesma varanda
E sentir que aos poucos
Me preparo
Para sermos Um
Mais e mais,
No Amor.
Almoçar com vocês,
Vovô Antônio e vovó Gilda,
E ver que uma estrela brilha
Mesmo no corpo que fraqueja
Com a luz de Deus,
Da devoção que nunca cessa,
E da entrega que você, meu avô,
Respira.
E ouvir, ouvir e ouvir,
Sem nunca querer parar,
As histórias doces,
Alegres, difíceis,
Belas, intensas,
Conhecidas, surpreendentes,
Fortes, leves,
De quem conheço
E de quem jamais
Conheci,
Que falam de mim
E de para onde vou,
As suas histórias,
Meu avô José Augusto
E minha avó Maria da Conceição
Meu vovô Augusto
Minha Nana Ceiça
Minha Vovoruska,
E guardar como jóias
Seus olhos marotos, voinha,
Seus olhos brilhantes, voinho,
E saber que eu sempre,
Sempre,
Os portarei no meu
Coração.
Que minhas palavras
Possam honrar
A sabedoria que vocês me trouxeram
No livro que escreverei.
Que minhas palavras
Possam honrar
A sabedoria de todos vocês,
Ancestrais,
Na forma de homens, mulheres,
Amigos, irmãos,
Pais e avós,
Colegas, clientes,
Parceiros, Seres,
E que eu possa
Ser grato
E agradecer sempre
Porque continuamos juntos
Nos próximos passos
Desta jornada.
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