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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Saudade vale a pena!





fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil


Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage. Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos, com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.

À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que, algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.

Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca. Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!

 
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social: “a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são contundentes e irrevogáveis.

Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo, nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza, ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um com ele novamente.
 
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós, o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.

Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor. Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se, e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades. Saudades do Grande Amor.

Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar, de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.



E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde estamos, e para onde vamos.

E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga, aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos vividos juntos.

Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade vale a pena!
 
 

sábado, 9 de maio de 2015

Ser um homem que monumenta a vida!

 

 
Após a participação num dos encontros do Círculo de Homens que sustento com alguns amigos, escrevi o texto “Velar o Fogo do Masculino Sagrado”, que expressa as reflexões que surgiram desse encontro, sobre como me tornar digno do Masculino Sagrado. Essa reflexão, depois desdobrou-se no que significa para mim Ser Digno.

Algum tempo depois, li este poema de Manoel de Barros, que começou a me dar algumas pistas sobre esse novo tema, e abriu um campo profundo de reflexão e percepção:

 “Venho de nobres que empobreceram

Restou por fortuna a soberbia.

Com esta doença de grandezas:

Hei de monumentar os insetos!

(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os

pés de seus discípulos.

São Francisco monumentou as aves.

Vieira, os peixes.

Shakespeare, o Amor, a Dúvida, os tolos.

Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)

Com esta mania de grandeza:

Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas

de orvalho.”

Fui arrebatado pela dignidade dessa postura – a de “monumentar” o pequeno, o insignificante, o marginal, o esquecido, o simples, o sutil – que é oposta à da cultura que valoriza que todos sejam O Maior e O Melhor. E esta é, certamente, uma maldição que nós, homens, conhecemos há muitos séculos, e que alimentamos diligentemente, em nossas famílias, na escola, no trabalho e na cultura de massa. Dignidade, em nossa cultura, significa, muitas vezes, mostrar para a sociedade que somos cada vez maiores e melhores.

Em nosso caso, homens, crescemos achando que temos de ter o melhor e o maior carro; ter o maior “pau” e ser o melhor de cama; ser o que ganha mais em nossa profissão e que é o mais reconhecido em sua área; que tem dinheiro suficiente para comprar a maior e a melhor casa – em outras palavras, ser um grande provedor; precisamos ser o que “comeu” mais mulheres, e o mais forte, gostoso e atraente; precisamos ser o melhor no futebol ou em qualquer outro esporte. E por aí vai.

Nem precisa dizer que, quando entramos nessa narrativa de dignidade, em vez de monumentar, desprezamos as coisas pequenas e simples como insignificantes – e ainda mais as que fogem do padrão desse mito do maior e melhor. E é aí que assumimos a sombra de um masculino violento, autocentrado, engolidor e atropelador das delicadezas e das fragilidades – essas mesmas delicadezas e fragilidades que, muitas vezes, são tão caras ao feminino. Pois assumi-las como nossas seria correr o risco de perder a nossa “dignidade”.

E se, em épocas anteriores a esta, todo esse discurso do “bonito, rico e viril” já era pesado, imagine agora, que temos de também ser bons moços, gentis com as mulheres, engajados em causas sociais, espiritualizados, e mais um bocado de coisa que nos qualifica como “atraente e de bom coração”. Para sermos dignos, não podemos ser nada menos que o doce e gentil Clark Kent e o corajoso protetor da humanidade Super Homem.

Mas quando li o poema de Manoel de Barros, entendi um aspecto muito importante do que é dignidade para mim, e para meu masculino: trazer grandeza para todos aspectos humanos – incluindo Ser Homem. Cada homem, com seu propósito, pode dignificar uma parte dessa experiência humana, e torna-la bela, valorizada, monumental. Não podemos, com nosso Masculino Idealizado, esmagar nem a sombra do velho mito – o feio, o pobre e o frágil – nem a do novo – o duro e o materialista. E tudo mais que não se encaixa nisso. Todo o espectro do Ser Homem precisa ser monumentado por alguém, seja porque é algo belo, e que precisa ser visto, seja porque é algo que gera sofrimento, mas que, se existe, existe devido a uma história, que precisa ser monumentada em sua dignidade.

Tenho em meu coração dois exemplos simples que, para mim, retratam essa capacidade de monumentar o que é belo, mas não é visto, e o que gera sofrimento, mas tem uma história. O primeiro é o filme brasileiro “Hoje Quero Voltar Sozinho”, que conta a história de amor entre dois rapazes adolescentes – um deles cego. Sem grandes dramas, e com muita poesia, a história traz grandeza e potência para a cegueira e o homossexualismo – dois aspectos que o mito dominante do masculino não quer monumentar. O outro é o livro “For Your Own Good - Hidden Cruelty in Child-Rearing and the Roots of Violence”, de Alice Miller (Para Seu Próprio Bem – Crueldade Velada na Criação de Crianças e as Raízes da Violência). Nesse fantástico livro, a psicanalista suíça Alice Miller descreve as bases do que chama de “pedagogia venenosa” e analista a infância de 3 controversas personagens da história alemã – uma delas, Hitler.

Ao narrar, a partir de dados históricos, a infância de Hitler, sem tentar nos convencer de que sua infância extremamente violenta “justifica” o que ele fez, mas apenas mostrando a contribuição que ela deu para seu caráter, ela monumenta Hitler, fazendo-o não só humano, mas parte do espectro do que é Ser Homem. Monumentar, aqui, não é vangloriar, concordar, enaltecer, mas apenas dizer: isso também tem importância. Por mais que Hitler tenha sido quem foi, sua infância sofrida – e ele, em si – têm importância.

Quando nós, como homens, monumentamos a vida, nós lhe damos importância, em todos os seus aspectos. Se é algo que é belo, mas estava esquecido, tiramos o pó, tornamos reluzente, trazemos para o palco, e celebramos, como no filme que citei. Se é algo revoltante, e que estava sendo demonizado de forma simplista e maniqueísta, corajosamente adentramos suas entranhas, conhecemos a sua história, choramos a dor que levou o belo a se tornar grotesco, e lhe devolvemos a humanidade, para que aquilo não se repita. E não pela repressão, mas pelo entendimento empático e profundo, e pelo desejo de servir a vida – como no livro mencionado.

Desde muito tempo nossos contos de fada e, mais recentemente, vários filmes e novelas, repetem incessantemente: homem, seja o príncipe, o rei, o líder! Se você nasceu no estábulo, certamente é por engano. No seu nascimento, alguém seguramente trocou os bebês, ou por algum motivo maior você foi mandado para longe, para um dia voltar e reassumir o seu lugar. Mas seu destino é ser rei, pois não é digno do homem ser apenas o rapaz do estábulo. Entretanto, o homem que monumenta a vida diz: sim, é digno ser o rapaz do estábulo. Ele também conta algo de belo sobre o Masculino Sagrado. Se os arquétipos do rei, do príncipe e do amante são tão desejados, não é porque eles sejam necessariamente superiores, mas simplesmente porque são eles que tem sido monumentados, de forma monopolizadora, durante séculos. Esses arquétipos são muito importantes, com certeza (pessoalmente, eu os adoro), mas não podem ser os únicos.

Quem de nós sentirá o chamado natural para monumentar o que o mito masculino que não funciona mais quer desprezar? Quem monumentará o rapaz que cheira a flor na calçada? Os amigos que se abraçam de forma doce e singelo? O que diz “eu te amo” olhando nos olhos do outro? Quem monumentará o mendigo? O gay? O travesti? O nerd? Ou, indo além dessas categorias, as diferentes e originais formas de ser homem? Quem monumentará as rodas de conversa profunda entre homens, que falam de sentimentos e vulnerabilidade? Quem monumentará o pau pequeno? A mulher que é taxada de velha, ou gorda, ou feia, ou deficiente, e que é igualmente uma representante legítima do Feminino Sagrado, tanto quanto as deusas gostosas que adoramos monumentar? Quem monumentará o homem que é amente dessas mulheres? Quem monumentará o carro usado e antigo? A casa simples? O faxineiro? O emprego desglamourizado e honesto? O chão de fábrica? O sonho de viver algo que não pertença a um destino masculino já pré-determinado, de futebol, carro, mulher e cerveja? Quem de nós sentirá o chamado para tornar grande algo pequeno, algo humano, mas que é nosso por direito?

Também vale dizer que o novo mito, do homem doce, emocionado e espiritualizado, também pode ser usado contra a monumentação do espectro completo de Ser Homem. Quando nos juntamos a um grupo espiritual e acreditamos que bons mesmos são os que falam de forma suave, não bebem, andam de branco, são vegetarianos, comem orgânicos, choram e abraçam todo mundo, deixamos de monumentar tudo aquilo que interpretamos como duro, forte, ríspido. Renegamos esses aspectos como antigos, ultrapassados ou ruins, mas eles também fazem parte de Ser Homem. Não à toa, mentores do masculino como Robert Bly, relatam sua preocupação ao ver círculos de homens desvitalizados, que falam de amor, porém mal conseguem segurar uma espada para expressar sua força masculina. Também é necessário monumentar nossa virilidade, mesmo que ela tenha se desviado em comportamentos machistas e agressivos. Não para validar esses desvios, mas para encontrar a história atrás desses comportamentos, onde mora algo digno de ser notado como importante.

Quando um homem Nova Era olha nos olhos de um clássico machão, com toda a sua aparente dureza, insensibilidade e voracidade sexual, entende a sua história e reconhece o que ele está guardando – ainda que mal guardado – e celebra esse seu esforço, uma cura se dá no mundo, e o que era grotesco se torna poesia. E talvez um dia essa cura faça com que essa essência mal guardada seja melhor guardada, na forma de rituais belos e profundos – e não de machismo - assim como hoje as guardiãs do Feminino Sagrado encontram poesia no ciclo menstrual e o guardam com carinho, transmutando o fato de que esse mesmo ciclo antes também era tido como grotesco. O mesmo se dá quando um homem dentro do antigo mito masculino celebra dois homens que se abraçam como amigos, ou que se beijam como amantes, ou que dançam com mulheres numa roda de cura.

Logo, a pergunta é: qual é o nosso papel na monumentação do Masculino Sagrado? Qual é esse pedaço que nos cabe guardar como também importante, tanto quanto todos os outros? Essa é justamente a pergunta que, agora, tem rondado minha jornada de assumir esse Masculino: qual é a minha parte nessa história, e que me dignifica como homem, pois só aquele que consegue enxergar o invisível é que verdadeiramente abriu os olhos?

Acredito que essa resposta só será encontrada no meu propósito de vida – no meu destino. Sendo eu, e vivendo a minha trilha – e não a trilha do sucesso programado – naturalmente o que devo monumentar se revelará. Sei disso porque já experimentei um pouco da água dessa fonte, quando, aos 21 anos, escrevi um livro-reportagem sobre pessoas que nasceram, como eu, com fissura labiopalatal. No encontro com essas pessoas, algumas que lidavam melhor e outras pior que eu com o fato de terem cicatriz no rosto, ou serem fanhos, ou terem o nariz torto, descobrimos muita, muita dignidade. Foi durante esse processo que comecei a namorar minha esposa, com quem já estou há 12 anos, e tive coragem de entrar num coral, para fazer algo que um fanho não-monumentado jamais faria em público: cantar. E, hoje, eu me sinto grato pela honra de poder ter monumentado essa história, e de outras pessoas como eu.

Tenho certeza que no coração de cada homem mora uma “pobre coisa do chão mijada de orvalho”, pedindo para virar poesia.

Qual é a sua?

Deixo, por fim, um poema de Bertrold Bretch, que questiona, de forma muito digna, este mito do Maior e Melhor, e monumenta os esquecidos:

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Velar o Fogo do Masculino Sagrado

 

Velar o Fogo do Masculino Sagrado


 

Em 2014, um grupo de amigos próximos e eu resolvemos iniciar um Círculo de Homens. Depois de várias tentativas de marcar um primeiro encontro, enfim achamos uma data, e acabei não indo no tal encontro, pois nesse mesmo dia fui jantar com uma pessoa que considero um grande mentor para mim. Considerei que aquele havia sido meu Círculo.

Durante o ano, chegamos a ter, talvez, cinco encontros, que foram muito nutridores para muitos de nós, e também geraram incômodos. Um deles dizia respeito à nossa inexperiência em equilibrar o “papo sério” – de nossas feridas, do sagrado etc – e o papo “engraçado” – as aventuras sexuais, as histórias curiosas etc. Terminamos o ano num tom disperso, sem saber exatamente quando e como o Círculo iria continuar.

Em março deste ano, vi que uma data que coincidia com nosso pulso mensal de encontros (a terceira sexta-feira do mês) estava livre para mim, e mandei uma mensagem para o grupo que criamos no Whats App, sugerindo que fizéssemos o primeiro encontro do ano. Algumas pessoas confirmaram, inclusive dois amigos que haviam acabado de entrar no grupo, e estavam bem animados para um primeiro encontro.

Assim, na terceira sexta-feira do mês, na virada do ano astrológico, às 18h30, desliguei-me de meus afazeres de trabalho e sentei para meditar, como faço todos os dias, contando com que as pessoas começariam a chegar às 19h, que era nosso horário combinado. E aí começaram uma sucessão de frustrações, começando por um grande amigo que estava comigo lá desde a hora do almoço, esperando para participar do Círculo, e resolveu ir embora, para atender uma demanda familiar.

Enquanto eu meditava e, de olhos fechados, não ouvia a porta de nosso espaço abrindo, ou a campanhia tocando, meu coração ia me dizendo que ia haver uma debandada geral. Aquilo foi me angustiando, e eu quase ia me irritando por antecipação. Negociava comigo mesmo, dizendo que as pessoas só deviam estar atrasadas, como de costume. Mas, de fato, ao terminar de meditar, já passadas as 19h, vi no Whats App que vários haviam desistido. Entretanto, a confirmação de três amigos, mesmo sabendo que eles chegariam bem atrasados, me fez persistir no encontro.

Nesse período, entre eu meditar e esperar esses amigos chegaram, caiu uma ficha. Já há algumas semanas, eu refletia sobre o Círculo de Mulheres que também acontece em nosso espaço, há mais tempo e com mais regularidade, e sobre os vários Círculos de Mulheres que vejo acontecendo por aí, anfitriados ou contando com a participação de pessoas próximas a mim – inclusive minha esposa. Refletia, também, sobre a prática de uma querida amiga, com quem tenho passado por um processo de coaching, e que, além de arrumar lindamente o espaço onde temos nossas sessões, cuida muito bem em preparar energeticamente o espaço, chamando a presença de todos os guias e mentores que considera importantes para aquele trabalho.

A ficha que me caiu, então, é que nós, homens, não cuidamos bem dos espaços. Nós podemos construir a casa, mas quem em geral a decora e cuida de mantê-la limpa, arrumada e viva, é a mulher. E era exatamente assim com o nosso Círculo: a gente simplesmente chegava e sentava mais ou menos em círculo, no máximo acendendo uma vela, pedia talvez uma pizza, e conversava. Quase nenhum cuidado com criar um ambiente convidativo, em se conectar com as energias que queríamos que estivessem naquele trabalho. Sem trazer a beleza e a poesia de um ritual significativo. Quantas vezes, pensei, quis trazer oráculos, flores, velas, algo que trouxesse o sagrado para aquele momento, e não lembrei, ou não priorizei?

Olhei para aquilo e, naquele momento, fiz um pedido para mudar. “Quero ser um homem que cuida”, pensei. E então resolvi montar um belo círculo com o que tinha ali. Arrumei as almofadas. Acendi a vela. Ornei-a com imagens masculinas que estavam em nosso altar: Shiva, Buda, Jesus Cristo, Anandamurtii, entre outros. Coloquei no centro umas flores que estavam lá, no canto da sala. Peguei dois livros que estavam na minha mochila, e que sentia que se conectavam com o momento. Quando terminei, senti a diferença na qualidade da energia presente. Uma nota mais grave, e mais retumbante, estava agora sendo entoada.

Então resolvi invocar as consciências que, no meu coração, eram referências do masculino sagrado. Cantei para muitos daqueles seres do altar: mantras para Shiva e Buda, canções cristãs, entre outras. E a cada canção, sentia que a roda estava mais preenchida, ainda que fisicamente só eu estivesse ali. Logo em seguida, dois dos três amigos chegaram, e um deles tocou também algumas músicas xamânicas, e o tom do sagrado e a energia de poder foi crescendo e crescendo. Senti a força do cuidado, e desejei ser um homem que cuida. Não só dos espaços, mas das relações, das pessoas e dos seres.

Nesse meio tempo, o terceiro amigo chegou, trazendo algumas esfihas, para mim e para ele, e foi para a cozinha comer com aquele meu amigo que resolveu ir embora para cuidar de sua demanda familiar, mas que ainda estava ali, resolvendo últimas coisas antes de sair. Eu e os demais já estávamos cantando e abrindo o Círculo, e eu tinha a expectativa de que ele viesse se juntar a nós o quanto antes. Mas ele não veio. Fui até a cozinha e dei um toque para que ele viesse. Ainda assim, ele demorou. E eu comecei a ser tomado por uma irritação profunda. Que fez com que uma segunda e importante ficha caísse.

Enquanto um lado meu tinha um desejo enorme de ir na cozinha e “dar uma bronca” nele, para que viesse logo, um outro lado meu não via o menor sentido nisso. Não queria ser o pai mandão e autoritário. Estávamos ali, inclusive, por sermos homens que queriam romper com a rigidez patriarcal. Mas, ao mesmo tempo, eu queria muito que ele se comprometesse com aquele nosso momento. E foi aí que me caiu a ficha: comprometimento. Nós, homens, muitas vezes não nos comprometemos. Não é à toa que essa é uma das principais reclamações que as mulheres nos fazem: “vocês não querem compromisso”. Não é à toa que há tantas mulheres lutando sozinhas com seus filhos, pois, claro, nós, homens, não nos comprometemos.

Entendi, então, que eu não queria mandar no meu amigo, nem dar bronca. Eu queria sentir compromisso. E eu estava tão irritado porque eu tinha raiva da minha própria falta de compromisso. Eu precisava que meu amigo viesse porque eu não conseguia me comprometer comigo mesmo, e precisa que ele seguisse minha ordem, para eu ter uma pseudo-sensação de compromisso. O que me impedia de me comprometer com estar ali, num espaço importante para mim, tendo somente as presenças invisíveis, ou apenas os dois amigos que já estavam lá? Eu não queria assumir que o compromisso é meu, e é comigo, com o que me é caro. Eu não queria assumir meu compromisso de velar o fogo do masculino sagrado, e queria que os outros fizessem isso por mim.

E, ali, comecei a assumir esse compromisso: eu irei aprender a velar o fogo sagrado do masculino. E isso, eu já havia entendi, implicava, além de me comprometer, aprender a cuidar. Alimentado por essas reflexões, quando abrimos a nossa roda de conversa (ainda sem meu terceiro amigo ter entrado), compartilhei minhas sensações e reflexões, que ressoaram profundamente nos meus dois amigos presentes, e a partir daí a roda foi se aprofundando e ficando mais e mais forte, e fomos sentindo que algo extremamente especial estava acontecendo naquele momento. Quando, enfim, o terceiro amigo chegou, compartilhei com ele tudo que havia vivido e sentido, e ele não só entendeu, mas também sentiu que aquelas eram reflexões muito importantes para ele.

Abrimos, então, nossas caixas de pandora, e conectamos com o que nos pareceu não apenas a nossa dor – mas a dor do masculino no mundo. Cada um na roda trouxe percepções e experiências únicas e que não poderiam ser reproduzidas nesse texto – ao menos não o lugar para onde tudo isso nos levou, pois isso só estando lá. Um dos meus amigos revelou o que já estávamos sentindo com nosso corpo: a energia daquele Círculo era vazia e fraca, pois esse é o estado do Círculo de Homens do mundo hoje. É vazio porque não nos comprometemos. Não aparecemos. Chegamos atrasado. E não somente no encontro do Círculo de Homens. Mas na vida. Em nossos casamentos. Na vida de nossos filhos. Na realização de nosso propósito de alma.

O Círculo é fraco porque não cuidamos. Fazemos de qualquer jeito. Desrespeitamos o sagrado do que somos e do que fazemos, levando tudo para o deboche e o escracho. Desprezando o sério e sagrado como pesado. Como algo que não interessa ao homem. Como frescura. Somos adolescentes. E não há nada de mais em debocharmos e sermos adolescentes. Esse é um de nossos papéis sagrados. O problema é só ser isso. E quando não somos adolescentes, somos o pai narcisista ou autoritário. Somos o patriarcado que lutamos tanto para transformar. Claro que é importante não generalizar: não somos todos assim, nem somos assim o tempo inteiro. Mas esse é o “estado da arte”, em termos gerais, atualmente. Ou, ao menos, nós, deste grupo, sentimos assim.

“Sou um moleque”, disse ao meu grupo. “E embora eu esteja brincando de chamar todas essas entidades, como Shiva, Buda e Jesus, para esse Círculo, será que se eles realmente estivessem aqui, eu me sentiria digno de estar sentando no mesmo Círculo que eles? Será que eu estou honrando minha dignidade masculina?”. E que fique claro que essa percepção não tem peso. Não se trata de ser um super-homem. De me cobrar excessivamente. Mas apenas de amadurecer. De verdade. E não de faz de conta, do tipo “eu ganho dinheiro, tenho um cargo alto no meu trabalho e seguro muita bucha, então eu sou gente grande”. Trata-se de sair da adolescência do masculino ferido, com raiva de tudo represente compromissos e cuidado, limites e firmeza, como se tudo isso fosse rigidez. E também sair do patriarcado, com raiva de tudo que é espontâneo e vivo, e que foge do controle.

A imagem que me veio foi a seguinte: é como se, em algum momento, houvesse existido sacerdotes que velavam pelo fogo do masculino sagrado. Homens fortes, dignos e bons. E aí, num certo ponto, alguma ferida fez com que o fogo se apagasse e, sem perceber, continuássemos a fazer os mesmos rituais, velando mecanicamente um fogo morto. E quanto mais sentíamos o frio do masculino se apagou, mas sem admitir que se apagou, repetíamiios ainda mais mecânica e rigidamente os rituais, achando que o ritual em si iria nos fazer sentir o fogo. E quanto mais fazíamos isso, mais raivosos e rígidos ficávamos. É horrível sentir o frio de um fogo vital que se apagou.

Assim, o patriarcado, cada vez mais um conjunto de rituais rígidos e sem vida, foi se deteriorando. Até que questionamos o ritual sem significado. Nos libertamos. Só que, equivocadamente, entendemos que o que nos aprisionava era o ritual, e não a falta do fogo. Achamos que o ritual era maligno. E decidimos que não queremos mais os rituais. Para que cuidar e se comprometer com eles? Queremos ser “livres”. Assim, continuamos com o fogo morto, virando agora adolescentes sem rituais e, ainda, sem fogo. Continuamos perdidos, mas com a liberdade de gritar e reclamar que estávamos perdidos. E quem sabe era esse o próximo passo necessário, porque que fomos, então, descobrindo que a questão não é o ritual – é o fogo. Precisamos reacender o fogo do masculino sagrado. E cuidar dele.

Sem raiva dos rituais, e do compromisso e cuidado que eles pedem, e também lúcidos o suficiente para não aceitar mais rituais vazios, queremos nos recolocar na posição de sacerdotes que velam pelo fogo do masculino sagrado. Queremos aprender, com os mentores invisíveis, e os visíveis – aqueles homens que nos inspiram a doce virilidade do masculino equilibrado – como velar o sagrado. Queremos recuperar nosso respeito e nossa dignidade. De ser homens. Sabendo que, com isso, não precisaremos depreciar o feminino nem obriga-lo a nos reconhecer. Aquele que é digno é reconhecido naturalmente pela sua dignidade.

E entendemos que esse é um trabalho hercúleo. Aliás, hercúleo vem de Hércules que, não à toa, era um homem. E que matou a sua esposa e seus filhos. E teve que passar por grandes obras e provações, até recuperar o seu masculino equilibrado. Isso significa que, de fato, achar que cuidar e se comprometer é algo importante e respeitoso, e não papo de homem babaca, complicado etc, é algo difícil e demandoso. Pode parecer bobo, mas acender uma vela e arrumar o centro de uma roda de conversa - algo tão natural para o feminino - pode ser um bloco de uma tonelada para um masculino ferido.

Isso ficou ainda mais evidente quando, durante o encontro, ensaiamos fazer uma dança de escoteiro proposto por um de nós. Um misto de emoção e vergonha me tomou. Mesmo eu, tão reconhecido por ser um homem “com muita energia feminina” (seja isso bom ou não), estar ali, de braços dados, cantando com outros homens, me deixava embaraçado. Os softwares do masculino patriarcal me assombravam quase que como uma voz débil, de pano de fundo. E isso nos levou a refletir o quanto que, além da dificuldade de comprometimento e cuidado, nós, homens, temos muita dificuldade em sair do que um de nós chamou de nossa “autonomia territorial”, para assumir e compartilhar nossa vulnerabilidade.

Percebemos que um dos possíveis motivos de não aparecermos no Círculo, ou de chegarmos atrasados, é uma preguiça difusa e de fundo, cuja raiz talvez seja a antecipação de que teremos de fazer algo que é muito, muito demandoso para nós: nos abrir, falarmos de nossos sentimos, expormos dores e sonhos. A sério. E não de forma escrachada. E para outros homens. Mesmo nós que, conscientemente, defendemos isso, temos, inconscientemente, essa dificuldade. É quase um condicionamento biológico, parece. E talvez seja mesmo. Chegamos a comentar que, se houvesse uma única mulher naquela roda, a tarefa seria muito mais fácil. Que a presença feminina nos tira da nossa postura automática de sempre manter um lugar de fortaleza perante outros homens. Que duro perceber que, ao contrário das mulheres, que muitas vezes antecipam esse momento de troca como um momento de alívio e relaxamento, nós antecipamos esse momento como de esforço – muito esforço.

Por isso, nesse Círculo tão auspicioso, depois de todo esse mergulho – um ano em duas horas, me pareceu – assumimos uma tarefa, que quero estender a todos os homens que estiveram lendo esse texto, e que se sentirem chamados. Como uma primeira tarefa de aprendizagem em nossa jornada de nos tornarmos dignos de velar o fogo do masculino sagrado, iremos acender, com cuidado e compromisso, uma vela, toda sexta-feira, às 19h, e deixa-la queimar em nossos corações, em honra a nossa luz e a nossas feridas, e à luz e às feridas do masculino desse planeta. As mulheres também são bem vindas a fazer esse exercício, mas é muito importante que nós, homens, o façamos, para mudar nosso padrão. E quem não puder acender uma vela física na hora, que a acenda dentro de si. Mas que faça isso porque realmente não pode acender a vela física – e não por preguiça ou por ser “mais fácil”.

Claro que esse é apenas um exercício, e cada um pode criar o seu. Sendo realista, nosso compromisso é até o próximo Círculo – não queremos uma tarefa tão grandiosa que não possamos alcançar. São nossos primeiros passos, e queremos dá-los com cuidado. Além disso, queremos agora cuidar para os Círculos aconteçam com beleza, e para que de fato estejamos lá – e, se não pudermos estar, que não larguemos de lado e simplesmente mandemos uma mensagem dizendo “não vou”. Mas que nos preocupemos em saber quem estará, para velar o fogo em nosso lugar. Queremos saber como podemos contribuir, mesmo à distância. Também queremos fazer outros exercícios: acampar juntos, conversar sobre nossa ancestralidade, aprender a não ter vergonha de dançar juntos, e se abraçar. Temos muitos sonhos. Sonhos de adolescentes que sinceramente têm vontade de crescer. E de, um dia, serem reconhecidos como sacerdotes dignos do fogo sagrado que nutre a beleza de Ser Homem. E de Ser Masculino, sejamos nós homens ou mulheres.

Vamos juntos?

domingo, 9 de novembro de 2014

Oração

Entro na sala de meditação da minha casa.
Agradeço o violão encostado na parede.
Agradeço a graça de tocar a sua música.
De ser banhado com melodias,
E não com o ronco dormente
Das ruas congestionadas.
 
Toco e canto acompanhado por minha esposa.
Agradeço a graça de ter uma companheira.
Agradeço o vínculo verdadeiro,
E a benção de ser recebido com o
Coração vazio e a
Alma clara,
E não com as cobranças de uma relação
Baseada no medo, na projeção e na carência.
 
Sento para meditar.
Agradeço o dom do silêncio.
Agradeço por poder me alimentar dele,
Tanto quanto do pão, da sopa e do suco.
Por ser invadido e limpo pelo
Oco criativo da alma,
E não pelos estímulos do consumo desenfreado.
 
Encontro, em mim, um Deus divino, imutável.
Agradeço o presente da devoção.
Agradeço poder amar mais que o coração suporta.
Ser iluminado pelo todo que habita em mim,
E sentir que estou seguro e amparado,
Que sou importante por existir,
Em vez de lutar ansioso pela sobrevivência,
Tentando inutilmente ser maior e melhor, a cada dia,
Para provar que importo.
 
Uma lágrima escorre do meu olho.
Agradeço a beleza do encontro.
Agradeço poder me unir ao eterno, a mim e ao outro.
Poder levantar-me do meu silêncio para, mãos em prece,
Entregar-me inteiro a meu criador, e ao universo, e assim
Retornar a um dia a dia mágico,
E não me debater em agonia,
Por ter de voltar ao sacrifício
De uma vida sem sentido.
 
Levanto-me, e meus olhos encontram o sol.
Agradeço o dia.
Agradeço o tempo, com todos os seus matizes.
O sol que aquece minha face é tão reconfortante,
Quanto a chuva que alimenta os rios de minha sede,
E o cinza que me tira da euforia, e me traz mais perto
De mim.
Que alegria poder celebrar a natureza,
Em vez de lutar contra ela,
Como se fosse um inimigo constante e imprevisível.
 
Olhos fechados, vejo e sinto imagens de sofrimento pelo mundo.
Agradeço os que não me deixam sossegar.
Agradeço os que apontam minhas incoerências de quem tem tudo,
Enquanto outros quase não têm.
Aqueles que apontam meus privilégios, meus apegos,
Me mantêm acordado e vigilante para querer ser feliz
Servindo o próximo e compartilhando a abundância,
Caindo, se possível, cada vez menos,
Na felicidade autoindulgente e aristocrata
De quem não sai do próprio umbigo.
 
Repouso no meu espírito.
Agradeço o conhecimento, a sabedoria e a entrega.
Agradeço poder ter recursos para me mexer – aqui dentro e lá fora.
Saber que pelo diálogo, pela palavra, pela arte, pelo exemplo,
Ou por qualquer outro dom que me for dado,
Posso crescer na minha capacidade de ser quem sou
E de ser parceiro do outro e do mundo, para serem quem são.
Respiro aliviado por não estar impotente, nem indiferente,
Diante do que sei que pode e deve mudar.
 
Escrevo esta oração.
Agradeço a palavra do ser humano.
Agradeço a inspiração divina.
Sentir essa união entre terra e céu,
Entre um e todo,
E a nossa capacidade de partilhar o dom,
É tão mais gostoso
Que padecer eternamente
Da falta de beleza que nos rouba
A graça de viver este momento.
 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A força do coração


foto tirada em Davao, Flipinas, jurante a jornada
 
Enquanto volto para o Brasil, após 35 dias fora e de tantos acontecimentos internos e externos que mexeram comigo, relembro as reflexões que compartilhei logo que parti. Naquele momento, a pergunta que emergiu em mim dizia respeito a como criar estruturas mais fortes e poderosas para permitir que a consciência se expressasse de forma mais vigorosa e generosa em mim. E percebo que estou retornando não com uma resposta final, mas com uma vasta colheita de percepções que sinto vontade de compartilhar. Algumas colheitas já estão em mim, outras estou começando a regar, e outras, ainda, quero plantar no momento oportuno. A mais importante, agora, é a realização, num outro nível de qualidade, muito mais profundo, da força do meu coração.

Por diferentes motivos, durante minha vida, aprendi a trabalhar com, mas ainda assim temer, minha vulnerabilidade. Os pontos fracos da minha personalidade e da minha psique com as quais eu não consigo lidar tendem a se defender do medo da exposição, de forma pouco sustentável, das seguintes formas:

1.       Prazer compulsivo: associando prazer a algum pensamento ou ação compulsiva, eu consigo abafar algum aspecto interno com o qual não consigo lidar;

 

2.       Superstição: ritualizando algum tipo de comportamento ou pensamento, e o associando a um resultado que quero alcançar ou abafar, eu evito o medo de que o que me assusta pareça que vai de fato acontecer;

 

3.       Atitude contrafóbica: exagerando e expondo o meu medo, de forma catártica, abrindo as porteiras de meus contornos e limites saudáveis para pessoas que não estão preparadas para contribuir com meus processos internos e de vida, eu crio uma relação fantasiosa e condicional de que serei compensado, pela minha coragem, abertura e entrega, com a cura ou a proteção contra aquilo que me assusta;

 

4.       Complexo de inferioridade: abrindo mão de perceber e sustentar o que sinto e acredito num certo contexto, para concordar com alguma autoridade interna ou externa que, na minha fantasia, sabe o que é melhor para mim e pode me punir com a exposição ou destruição da minha parte frágil, caso eu não aja “corretamente” (de acordo com o que “correto” se apresente para esse tirano interno ou externamente projetado);

 

5.       Submissão: indo mais fundo no complexo de inferioridade, quando eu simplesmente atribuo prazer ao abuso do meu tirano interno ou externo, como forma de me render a ele, achando felicidade, ainda que pequena e ilusória, naquilo que me causa dor e medo, para poder ter o alívio – ainda que momentâneo – de desistir e ceder ao cansaço da luta constante.

 

6.       Arrogância: usando qualquer ilusão de poder que eu sinto que tenho, seja no campo financeiro, intelectual, de controle emocional ou de percepção espiritual, para tentar ter a sensação (e, às vezes conseguir) de que as pessoas se curvam a meus pés e fazem o que quero – em especial, que elas me servem em minhas necessidades não atendidas e fragilidades, quando eu preciso – para, assim, ter o alívio fugaz de continuar protegendo minha vulnerabilidade e estar no controle.

 

Essas estratégias, originalmente, não foram desenvolvidas com má intenção, mas como a defesa que eu tinha diante de situações que me pareceram mais assustadoras ou abusadoras do que minha capacidade para lidar com elas. O resultado imediato foi – e continua sendo – alívio momentâneo, mas o resultado em médio e longo prazo, pouco sustentável, é uma frustração imensa por não conseguir dar saltos maiores no meu desenvolvimento interno e externo, por não conseguir sustentar coisas que sei que são poderosas para mim, mas que poderiam, para meu inconsciente, destruir-me ou à minha imagem. Não me refiro aqui a saltos maiores que vêm do ego superexigente e que não se contenta com o que tem, mas dos saltos verdadeiros que o coração quer dar naturalmente, que já está, de fato, tentando dar, mas que não consegue completar, gerando a sensação de energia reprimida e potencial não utilizado.

Nada disso é muito dramático, na verdade, pois graças a Deus eu tenho uma vida muito equilibrada e feliz, mas como sinto que a consciência tenta se expandir sempre, trata-se de território não explorado e que não pode ser evitado, caso eu queira continuar evoluindo na minha autorealização e na minha capacidade de servir. E, também com a graça Divina, nesta jornada eu recebi muitas peças do quebra-cabeça, tanto no sentido do que preciso explorar mais quanto do como fazer essa exploração, e as peças, agora, enquanto escrevo, começam a se juntar, e sinto que podem trazer, talvez, insights para as jornadas de alguns que leem esse texto.

Alguns desses insights são:

1.       Abrir mão da gratificação pessoal em curto prazo: o medo da vulnerabilidade traz um desejo de que as coisas tragam para mim um resultado positivo imediato, na forma de prazer interno, de reconhecimento pessoal ou do impacto das minhas ações. Quando o resultado não vem, existe uma sensação de fracasso e frustração. Mas, na verdade, quando estou conectado com meu propósito, eu posso sustentar posições, erros e experimentações pelo tempo que for necessário, sem medo do caos, da desaprovação ou da emergência do meu lado sombrio, confiando que o resultado das ações não está nas minhas mãos e que o sofrimento de agora, quando pleno de significado, pode estar plantando uma felicidade ainda maior no futuro. Embora eu já soubesse disso intelectualmente, ganhei novas percepções profundas sobre esse aspecto e, principalmente, exercitei essa musculatura, tornando-me mais forte para essa sustentação.

 

2.       Preservar minha energia e meus contornos: pelo medo de estar sozinho com minha vulnerabilidade, uma parte minha evitava dizer não para qualquer troca social ou relação interpessoal, com medo de desagradar o outro. Eu evitava me recolher para ficar sozinho ou adotar uma postura de menos toque e troca corporal. A desaprovação e a solidão eram sensações que potencializavam o terror de estar com minha sombra e minhas fragilidades, e assim eu me mantinha constantemente poroso ao outro, para me sentir protegido. Entretanto, à medida que eu me relaciono de forma cada vez mais íntima com a Consciência Maior, na forma da Entidade Mais Amada para mim, mais esse espaço interno fica confortável, e consigo preservar momentos de silêncio e solitude, nutrindo-me, inclusive, da minha vulnerabilidade. E à medida que percebo de forma mais clara que não sou essencial para o outro, e que é o Amado Interno de cada um que trará o preenchimento e os resultados desejados, eu consigo aceitar não ter que abrir todos os meus poros para servir e me relacionar constantemente, como se o outro fosse inevitavelmente se corromper, perder-se ou sofrer se eu não estiver presente. Isso traz, junto, uma profunda segurança nas pessoas, na vida e em nosso destino, e um profundo relaxamento, por só precisar dar conta daquilo que é meu, daquilo que meu coração pede agora – e não mais.

 

3.       Sustentar a troca amorosa: como contraponto da percepção interior, ficou claro que a estratégia oposta e complementar para evitar a dor da vulnerabilidade, é ficar no conforto do meu espaço interno, num lugar em que o toque físico e a troca são considerados invasivos, imaturos ou desnecessários. Como estar no próprio espaço pode ser muito gostoso, como quando moramos sozinho e nos acostumamos a ter tudo de nosso jeito, existe um lugar que se torna intolerante às trocas. Minha percepção é que o prazer interno gerado pelo silêncio e pela solitude é, entre outras coisas, um prazer narcísico, e como não desejamos sair do prazer, nos protegemos do que pode ferir o espelho. Foi interessante, pois essa percepção surgiu à medida que eu me via adotando o comportamento mais discreto que vivenciei em alguns grupos e culturas com os quais tive contato, no Brasil e durante essa viagem, e percebia a luz desse comportamento (que levou ao insight acima) e, também, a sua sombra, que sinto que emerge quando ele deixa de ser uma escolha e passa ser uma imposição interna ou cultural.

 

O que senti em mim, e que também ajudou a clarear o que parcialmente me incomodava nesse comportamento, é que, se por um lado, há uma sensação de sutileza e conforto em estar no próprio espaço, pode existir também maior intolerância e julgamento ao desconhecido que pode surgir da interação, fazendo com que exista um sabor depreciativo, às vezes muito sutil e implícito, na relação com o que está fora. Seja numa versão mais espiritual, que passa a julgar ou condenar, ainda que muito sorrateiramente, o “mundano”, seja numa versão mais mundana, que expressa irritações com os outros e com como as coisas são feitas pelos outros.

 

O mundo e outro jamais serão capazes de dar contorno necessário para que possamos descansar para sempre em nosso espaço interno, e isso gera muita frustração. Como consequência, alguns de nós criam e se escondem em claustros pessoais (nossas casas, nossas vidas íntimas impenetráveis, nossas práticas espirituais solitárias, nossa vida social restrita) e coletivos (nossos clubes, comunidades fechadas, entre outros). Lembrando que não necessariamente a escolha da solitude ou de viver mais recluso venha desse lugar, mas, em alguns casos, esse pode ser o fundamento basal desse tipo de escolha.  

 

Mas, abrindo mão desse conforto e do prazer que ele traz, para encarar as informações geradas pela troca – espirituais, mundanas, dolorosas, prazerosas, não importa – como bem vindas e como fonte de expansão do coração, a troca física e emocional passa a ser também bem vinda, junto com toda a vulnerabilidade que ela causa. Ao viver de forma mais plena essa dicotomia – da solitude e da troca amorosa – percebi, junto com minha decisão de me preservar mais, a minha intenção clara de sustentar o toque, o abraço e a conversa profunda e íntima sobre qualquer tema, em qualquer contexto – tomando o cuidado, claro, de dialogar com culturas que sejam diferentes, e não de invadi-las ou julgá-las. Não se trata de querer mudar o outro, mas de sustentar o que é importante para mim.

 

4.       Usar o poder para contribuir, e não para exigir: lembro-me de alguns momentos durante minha estada num hotel nas Filipinas, já no final da viagem, cujo objetivo era apenas relaxar e me divertir. Por isso, dei-me o presente de escolher um lugar onde eu pudesse ter todos os confortos que eu queria. E assim que o lugar começou a frustrar minhas expectativas: o telefone quebrado, a internet que não funcionava, a comida que não veio do jeito que pedi, eu logo me vi na posição do cliente exigente, duro e reclamão. Porque, claro, eu estava pagando, então eu tinha direito. E esse lugar me mostrou de forma muito pungente como o poder pode despertar meu lado tirano, que deseja que todos sirvam minhas necessidades e não exponham minhas fragilidades.

Ficou claro que um lado meu topava servir quando eu estava sendo pago ou fazendo trabalho voluntário. Pois no trabalho voluntário há a compaixão, e no trabalho pago há o compromisso com entregar o melhor para o cliente. Mas se eu estou pagando, quem tem as regras do jogo sou eu. Que história é essa de me contrariar? Se eu estou pagando, eu não tenho que ajudar ou ser bonzinho – eu tenho que ser ajudado. Os outros têm de ser bons comigo. Hora da revanche! Eu não tenho que passar por cima de alguns limites pessoais para servir os outros? Eu não tive que baixar minha cabeça para atender necessidades dos outros? Pois agora é a vez dos outros fazerem isso por mim!

E, dessa percepção verdadeira e dolorosa, veio a realização clara de que, sim, eu estou aqui para servir, em todo momento, em todo lugar. Mesmo quando isso me faz sentir vulnerável. Mesmo quando estou pagando. Mesmo quando eu tenho poder. Mesmo quando a bola está comigo. Não importa quão poderoso eu seja: eu não estou aqui para abafar os erros e as fragilidades, e sim para jogar luz sobre elas, para que possamos criar um mundo mais belo e feliz a cada segundo. E isso implica sustentar a minha força amorosa como agende de transformação do mundo, de sustentar essa força perante a vulnerabilidade minha e do mundo, e, também, de atender cada vez mais minhas necessidades – mesmo quando estou servindo voluntária ou remuneradamente – para que não haja nada a ser pago depois. Nenhuma vingança oculta. Usar o poder para contribuir, e não para exigir. E foi isso que fez com que, no final, eu conseguisse dar os feedbacks que precisava de uma forma que criou conexão com os funcionários do hotel. Senti que saímos com brilhos nos olhos de nossa breve, mas significativa, interação. E agora quero mais disso.

5.       Sustentar e desenvolver minha força física e energética: já há algum tempo venho falando, em diversos contextos, sobre sustentar o ponto basal de nossa consciência em pontos mais sutis e expansivos, como o coração. Isso significa buscar fazer com que, literalmente, cada pensamento e emoção sejam sentidos, fisicamente, na altura do coração. Não se trata de reprimir ou negar os demais sentimentos e pensamentos, mas de reconhecer que sempre estamos olhando as coisas por algum filtro. Podemos aceitar nossa sombra, nosso ódio e nosso medo a partir do filtro do amor, tanto quanto podemos receber o amor a partir do filtro do ódio. Justamente, quanto mais sutil e expansivo o ponto basal, mais dentro dele cabem todos os tipos de sentimentos e emoções. Os pontos basais mais sutis não temem nada, e conseguem aceitar incondicionalmente e transmutar todos os aspectos de nossa personalidade. Isso é o que eu já sabia. Agora, percebi também a necessidade de desenvolver um tônus físico e energético para sustentar esse ponto basal em mais situações, em especial em contextos mais associados à energia masculina.

 

A luta pela sobrevivência física, a guerra, a tirania, a repressão, a tortura física, mental, emocional e espiritual, para dar alguns exemplos, fazem parte do drama humano, em especial no aspecto do masculino desequilibrado e, em vez de fugir dessas grandes fontes de vulnerabilidade, quero me sentir cada vez mais seguro para abraça-las e contribuir para transmuta-las. E essa viagem me deu muitos exemplos disso, pois tanto no Haiti, quanto nas Filipinas, entrei em contato com pessoas e povos que precisam se readequar e escrever uma nova história a partir de calamidades muito graves, como terremotos, tufões e ditaduras violentas e sanguinárias. Impossível abraçar essas histórias e recriá-las de forma positiva e empoderadora sem sustentar profundamente a força do coração.

 

E eu percebi que se, por um lado, não quero desenvolver um complexo contrafóbico de mártir, de me lançar em situações perigosas, por outro eu não quero viver como se eu fosse apenas meu “eu individual”: eu sou o mundo todo. Negar ou se abster do que está acontecendo no mundo é fechar os olhos não para o que está “acontecendo lá fora”, mas para uma parte de mim. É deixar de me conhecer. E sinto que meu jeito de me conhecer e me engajar com o que descubro não vem tanto pela leitura dos jornais e pelo debate filosófico e macropolítico – ele vem, principalmente, por interagir e cocriar com as diversas partes de mim mesmo – as diversas partes do mundo. Para isso, preciso aumentar minha capacidade física e energética de ser, lutar e empreender, a partir do coração. Até mesmo para lidar com coisas menores, mas ainda assim significativas, no meu processo de lidar com minha vulnerabilidade, como o medo de morrer sozinho numa viagem de avião ou de não conseguir sustentar meu tônus como homem perante as mulheres e outros homens.

 

6.       Abraçar e expressar a minha sensualidade e a sensualidade da vida: como garoto que cresceu com uma deficiência física, que tornava minha fala incompreensível e minha aparência pouco atraente, cresci negando a sexualidade e a sensualidade plena na minha vida, pois tocar nesses pontos me deixava extremamente vulnerável. Aos poucos, fui curando a conexão e a expressão da sexualidade, mas só nessa viagem percebi o quão profundamente eu negava minha sensualidade. Sensualidade, aqui, entendida em seu aspecto amplo: a física, que gera confiança para se embelezar, vestir-se, tatuar-se e se enfeitar para expressar o prazer com o próprio corpo e com a própria aparência; a sexual, que gera empoderamento e conforto com a sedução e a capacidade de ter prazer com as mulheres que considero mais atraentes para mim, culminando na relação plenamente sensual com minha esposa a partir de um lugar de atração plena, e não de gratidão por alguém se sentir atraído por mim; a social, fazendo tudo que faço de forma poética, inspiradora e prazerosa; e a espiritual, assumindo mais o aspecto Amado-Amante na relação com Deus, descrito por tantos santos místicos, como São João da Cruz, que em seu clássico “A Noite Escura da Alma” diz, para expressar sua relação de amor com o Divino: “o meu amado beijou o meio seio”. É viver a vida como se, com cada gesto – do trabalho que faço, à comida que como, ao amor que compartilho com minha esposa – eu estivesse me preparando para a grande noite de núpcias com meu Amor Maior. Como se cada sorriso fosse o perfume que coloco para Ele. Cada ato de bondade, a melhor roupa. Cada momento de felicidade, o banquete que preparo para nosso jantar.

 

7.       Abraçar o guerreiro que mora em mim: li uma vez no incrível livro “João de Ferro” que, em algumas culturas, antes de usar a espada o homem precisa aprender a dançar. Logo, junto com a percepção da necessidade de desenvolver minha força física e energética e de abraçar e expressar a sensualidade, nasce a garra para ser e viver o meu guerreiro. Um guerreiro forte, assertivo e luminoso, que não tem medo de desagradar, que deixa suas crenças e posições claras, mas que não faz isso com complexo de superioridade, imposição, ou julgando e reprimindo o outro. Faz com o coração e o olhar limpos, com a certeza de estar construindo o que é importante para si e para o outro, e aberto para se deixar tocar, aprender e refazer suas certezas, a partir do que a vida traz. Antes, o medo era de que meu guerreiro despertasse uma fúria (de Deus ou dos outros) que me destruísse, e a estratégia, portanto, era ou negar e abrir mão desse guerreiro ou expressá-lo de forma violenta. Agora, quero deixar ele se expressar e aprender com ele, com como ele pode ser cada vez mais veículo de amor e luz, mesmo que eu tropece um pouco até estar mais apropriado dele. Isso está me fazendo com que, desde já, eu assuma com firmeza posições que, antes, eu titubeava para afirmar.

Todos esses insights, juntos, tornaram claro para mim o quanto meu movimento, agora, é de fazer o que faço, assumindo a força do meu coração. Uma força que é muito poderosa, e também muito amorosa. E que é essa força que vai potencializar o que já está aqui, o que já estou fazendo, e que apenas estava precisando de mais espaço. Não para eu poder ser maior, mas para poder ser pleno. Para poder cumprir o destino que me colocou aqui, e dar vazão, por inteiro, ao desejo de iluminar meu espaço interno e servir o mundo. Que venham os próximos passos da jornada!