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quarta-feira, 25 de março de 2015

Velar o Fogo do Masculino Sagrado

 

Velar o Fogo do Masculino Sagrado


 

Em 2014, um grupo de amigos próximos e eu resolvemos iniciar um Círculo de Homens. Depois de várias tentativas de marcar um primeiro encontro, enfim achamos uma data, e acabei não indo no tal encontro, pois nesse mesmo dia fui jantar com uma pessoa que considero um grande mentor para mim. Considerei que aquele havia sido meu Círculo.

Durante o ano, chegamos a ter, talvez, cinco encontros, que foram muito nutridores para muitos de nós, e também geraram incômodos. Um deles dizia respeito à nossa inexperiência em equilibrar o “papo sério” – de nossas feridas, do sagrado etc – e o papo “engraçado” – as aventuras sexuais, as histórias curiosas etc. Terminamos o ano num tom disperso, sem saber exatamente quando e como o Círculo iria continuar.

Em março deste ano, vi que uma data que coincidia com nosso pulso mensal de encontros (a terceira sexta-feira do mês) estava livre para mim, e mandei uma mensagem para o grupo que criamos no Whats App, sugerindo que fizéssemos o primeiro encontro do ano. Algumas pessoas confirmaram, inclusive dois amigos que haviam acabado de entrar no grupo, e estavam bem animados para um primeiro encontro.

Assim, na terceira sexta-feira do mês, na virada do ano astrológico, às 18h30, desliguei-me de meus afazeres de trabalho e sentei para meditar, como faço todos os dias, contando com que as pessoas começariam a chegar às 19h, que era nosso horário combinado. E aí começaram uma sucessão de frustrações, começando por um grande amigo que estava comigo lá desde a hora do almoço, esperando para participar do Círculo, e resolveu ir embora, para atender uma demanda familiar.

Enquanto eu meditava e, de olhos fechados, não ouvia a porta de nosso espaço abrindo, ou a campanhia tocando, meu coração ia me dizendo que ia haver uma debandada geral. Aquilo foi me angustiando, e eu quase ia me irritando por antecipação. Negociava comigo mesmo, dizendo que as pessoas só deviam estar atrasadas, como de costume. Mas, de fato, ao terminar de meditar, já passadas as 19h, vi no Whats App que vários haviam desistido. Entretanto, a confirmação de três amigos, mesmo sabendo que eles chegariam bem atrasados, me fez persistir no encontro.

Nesse período, entre eu meditar e esperar esses amigos chegaram, caiu uma ficha. Já há algumas semanas, eu refletia sobre o Círculo de Mulheres que também acontece em nosso espaço, há mais tempo e com mais regularidade, e sobre os vários Círculos de Mulheres que vejo acontecendo por aí, anfitriados ou contando com a participação de pessoas próximas a mim – inclusive minha esposa. Refletia, também, sobre a prática de uma querida amiga, com quem tenho passado por um processo de coaching, e que, além de arrumar lindamente o espaço onde temos nossas sessões, cuida muito bem em preparar energeticamente o espaço, chamando a presença de todos os guias e mentores que considera importantes para aquele trabalho.

A ficha que me caiu, então, é que nós, homens, não cuidamos bem dos espaços. Nós podemos construir a casa, mas quem em geral a decora e cuida de mantê-la limpa, arrumada e viva, é a mulher. E era exatamente assim com o nosso Círculo: a gente simplesmente chegava e sentava mais ou menos em círculo, no máximo acendendo uma vela, pedia talvez uma pizza, e conversava. Quase nenhum cuidado com criar um ambiente convidativo, em se conectar com as energias que queríamos que estivessem naquele trabalho. Sem trazer a beleza e a poesia de um ritual significativo. Quantas vezes, pensei, quis trazer oráculos, flores, velas, algo que trouxesse o sagrado para aquele momento, e não lembrei, ou não priorizei?

Olhei para aquilo e, naquele momento, fiz um pedido para mudar. “Quero ser um homem que cuida”, pensei. E então resolvi montar um belo círculo com o que tinha ali. Arrumei as almofadas. Acendi a vela. Ornei-a com imagens masculinas que estavam em nosso altar: Shiva, Buda, Jesus Cristo, Anandamurtii, entre outros. Coloquei no centro umas flores que estavam lá, no canto da sala. Peguei dois livros que estavam na minha mochila, e que sentia que se conectavam com o momento. Quando terminei, senti a diferença na qualidade da energia presente. Uma nota mais grave, e mais retumbante, estava agora sendo entoada.

Então resolvi invocar as consciências que, no meu coração, eram referências do masculino sagrado. Cantei para muitos daqueles seres do altar: mantras para Shiva e Buda, canções cristãs, entre outras. E a cada canção, sentia que a roda estava mais preenchida, ainda que fisicamente só eu estivesse ali. Logo em seguida, dois dos três amigos chegaram, e um deles tocou também algumas músicas xamânicas, e o tom do sagrado e a energia de poder foi crescendo e crescendo. Senti a força do cuidado, e desejei ser um homem que cuida. Não só dos espaços, mas das relações, das pessoas e dos seres.

Nesse meio tempo, o terceiro amigo chegou, trazendo algumas esfihas, para mim e para ele, e foi para a cozinha comer com aquele meu amigo que resolveu ir embora para cuidar de sua demanda familiar, mas que ainda estava ali, resolvendo últimas coisas antes de sair. Eu e os demais já estávamos cantando e abrindo o Círculo, e eu tinha a expectativa de que ele viesse se juntar a nós o quanto antes. Mas ele não veio. Fui até a cozinha e dei um toque para que ele viesse. Ainda assim, ele demorou. E eu comecei a ser tomado por uma irritação profunda. Que fez com que uma segunda e importante ficha caísse.

Enquanto um lado meu tinha um desejo enorme de ir na cozinha e “dar uma bronca” nele, para que viesse logo, um outro lado meu não via o menor sentido nisso. Não queria ser o pai mandão e autoritário. Estávamos ali, inclusive, por sermos homens que queriam romper com a rigidez patriarcal. Mas, ao mesmo tempo, eu queria muito que ele se comprometesse com aquele nosso momento. E foi aí que me caiu a ficha: comprometimento. Nós, homens, muitas vezes não nos comprometemos. Não é à toa que essa é uma das principais reclamações que as mulheres nos fazem: “vocês não querem compromisso”. Não é à toa que há tantas mulheres lutando sozinhas com seus filhos, pois, claro, nós, homens, não nos comprometemos.

Entendi, então, que eu não queria mandar no meu amigo, nem dar bronca. Eu queria sentir compromisso. E eu estava tão irritado porque eu tinha raiva da minha própria falta de compromisso. Eu precisava que meu amigo viesse porque eu não conseguia me comprometer comigo mesmo, e precisa que ele seguisse minha ordem, para eu ter uma pseudo-sensação de compromisso. O que me impedia de me comprometer com estar ali, num espaço importante para mim, tendo somente as presenças invisíveis, ou apenas os dois amigos que já estavam lá? Eu não queria assumir que o compromisso é meu, e é comigo, com o que me é caro. Eu não queria assumir meu compromisso de velar o fogo do masculino sagrado, e queria que os outros fizessem isso por mim.

E, ali, comecei a assumir esse compromisso: eu irei aprender a velar o fogo sagrado do masculino. E isso, eu já havia entendi, implicava, além de me comprometer, aprender a cuidar. Alimentado por essas reflexões, quando abrimos a nossa roda de conversa (ainda sem meu terceiro amigo ter entrado), compartilhei minhas sensações e reflexões, que ressoaram profundamente nos meus dois amigos presentes, e a partir daí a roda foi se aprofundando e ficando mais e mais forte, e fomos sentindo que algo extremamente especial estava acontecendo naquele momento. Quando, enfim, o terceiro amigo chegou, compartilhei com ele tudo que havia vivido e sentido, e ele não só entendeu, mas também sentiu que aquelas eram reflexões muito importantes para ele.

Abrimos, então, nossas caixas de pandora, e conectamos com o que nos pareceu não apenas a nossa dor – mas a dor do masculino no mundo. Cada um na roda trouxe percepções e experiências únicas e que não poderiam ser reproduzidas nesse texto – ao menos não o lugar para onde tudo isso nos levou, pois isso só estando lá. Um dos meus amigos revelou o que já estávamos sentindo com nosso corpo: a energia daquele Círculo era vazia e fraca, pois esse é o estado do Círculo de Homens do mundo hoje. É vazio porque não nos comprometemos. Não aparecemos. Chegamos atrasado. E não somente no encontro do Círculo de Homens. Mas na vida. Em nossos casamentos. Na vida de nossos filhos. Na realização de nosso propósito de alma.

O Círculo é fraco porque não cuidamos. Fazemos de qualquer jeito. Desrespeitamos o sagrado do que somos e do que fazemos, levando tudo para o deboche e o escracho. Desprezando o sério e sagrado como pesado. Como algo que não interessa ao homem. Como frescura. Somos adolescentes. E não há nada de mais em debocharmos e sermos adolescentes. Esse é um de nossos papéis sagrados. O problema é só ser isso. E quando não somos adolescentes, somos o pai narcisista ou autoritário. Somos o patriarcado que lutamos tanto para transformar. Claro que é importante não generalizar: não somos todos assim, nem somos assim o tempo inteiro. Mas esse é o “estado da arte”, em termos gerais, atualmente. Ou, ao menos, nós, deste grupo, sentimos assim.

“Sou um moleque”, disse ao meu grupo. “E embora eu esteja brincando de chamar todas essas entidades, como Shiva, Buda e Jesus, para esse Círculo, será que se eles realmente estivessem aqui, eu me sentiria digno de estar sentando no mesmo Círculo que eles? Será que eu estou honrando minha dignidade masculina?”. E que fique claro que essa percepção não tem peso. Não se trata de ser um super-homem. De me cobrar excessivamente. Mas apenas de amadurecer. De verdade. E não de faz de conta, do tipo “eu ganho dinheiro, tenho um cargo alto no meu trabalho e seguro muita bucha, então eu sou gente grande”. Trata-se de sair da adolescência do masculino ferido, com raiva de tudo represente compromissos e cuidado, limites e firmeza, como se tudo isso fosse rigidez. E também sair do patriarcado, com raiva de tudo que é espontâneo e vivo, e que foge do controle.

A imagem que me veio foi a seguinte: é como se, em algum momento, houvesse existido sacerdotes que velavam pelo fogo do masculino sagrado. Homens fortes, dignos e bons. E aí, num certo ponto, alguma ferida fez com que o fogo se apagasse e, sem perceber, continuássemos a fazer os mesmos rituais, velando mecanicamente um fogo morto. E quanto mais sentíamos o frio do masculino se apagou, mas sem admitir que se apagou, repetíamiios ainda mais mecânica e rigidamente os rituais, achando que o ritual em si iria nos fazer sentir o fogo. E quanto mais fazíamos isso, mais raivosos e rígidos ficávamos. É horrível sentir o frio de um fogo vital que se apagou.

Assim, o patriarcado, cada vez mais um conjunto de rituais rígidos e sem vida, foi se deteriorando. Até que questionamos o ritual sem significado. Nos libertamos. Só que, equivocadamente, entendemos que o que nos aprisionava era o ritual, e não a falta do fogo. Achamos que o ritual era maligno. E decidimos que não queremos mais os rituais. Para que cuidar e se comprometer com eles? Queremos ser “livres”. Assim, continuamos com o fogo morto, virando agora adolescentes sem rituais e, ainda, sem fogo. Continuamos perdidos, mas com a liberdade de gritar e reclamar que estávamos perdidos. E quem sabe era esse o próximo passo necessário, porque que fomos, então, descobrindo que a questão não é o ritual – é o fogo. Precisamos reacender o fogo do masculino sagrado. E cuidar dele.

Sem raiva dos rituais, e do compromisso e cuidado que eles pedem, e também lúcidos o suficiente para não aceitar mais rituais vazios, queremos nos recolocar na posição de sacerdotes que velam pelo fogo do masculino sagrado. Queremos aprender, com os mentores invisíveis, e os visíveis – aqueles homens que nos inspiram a doce virilidade do masculino equilibrado – como velar o sagrado. Queremos recuperar nosso respeito e nossa dignidade. De ser homens. Sabendo que, com isso, não precisaremos depreciar o feminino nem obriga-lo a nos reconhecer. Aquele que é digno é reconhecido naturalmente pela sua dignidade.

E entendemos que esse é um trabalho hercúleo. Aliás, hercúleo vem de Hércules que, não à toa, era um homem. E que matou a sua esposa e seus filhos. E teve que passar por grandes obras e provações, até recuperar o seu masculino equilibrado. Isso significa que, de fato, achar que cuidar e se comprometer é algo importante e respeitoso, e não papo de homem babaca, complicado etc, é algo difícil e demandoso. Pode parecer bobo, mas acender uma vela e arrumar o centro de uma roda de conversa - algo tão natural para o feminino - pode ser um bloco de uma tonelada para um masculino ferido.

Isso ficou ainda mais evidente quando, durante o encontro, ensaiamos fazer uma dança de escoteiro proposto por um de nós. Um misto de emoção e vergonha me tomou. Mesmo eu, tão reconhecido por ser um homem “com muita energia feminina” (seja isso bom ou não), estar ali, de braços dados, cantando com outros homens, me deixava embaraçado. Os softwares do masculino patriarcal me assombravam quase que como uma voz débil, de pano de fundo. E isso nos levou a refletir o quanto que, além da dificuldade de comprometimento e cuidado, nós, homens, temos muita dificuldade em sair do que um de nós chamou de nossa “autonomia territorial”, para assumir e compartilhar nossa vulnerabilidade.

Percebemos que um dos possíveis motivos de não aparecermos no Círculo, ou de chegarmos atrasados, é uma preguiça difusa e de fundo, cuja raiz talvez seja a antecipação de que teremos de fazer algo que é muito, muito demandoso para nós: nos abrir, falarmos de nossos sentimos, expormos dores e sonhos. A sério. E não de forma escrachada. E para outros homens. Mesmo nós que, conscientemente, defendemos isso, temos, inconscientemente, essa dificuldade. É quase um condicionamento biológico, parece. E talvez seja mesmo. Chegamos a comentar que, se houvesse uma única mulher naquela roda, a tarefa seria muito mais fácil. Que a presença feminina nos tira da nossa postura automática de sempre manter um lugar de fortaleza perante outros homens. Que duro perceber que, ao contrário das mulheres, que muitas vezes antecipam esse momento de troca como um momento de alívio e relaxamento, nós antecipamos esse momento como de esforço – muito esforço.

Por isso, nesse Círculo tão auspicioso, depois de todo esse mergulho – um ano em duas horas, me pareceu – assumimos uma tarefa, que quero estender a todos os homens que estiveram lendo esse texto, e que se sentirem chamados. Como uma primeira tarefa de aprendizagem em nossa jornada de nos tornarmos dignos de velar o fogo do masculino sagrado, iremos acender, com cuidado e compromisso, uma vela, toda sexta-feira, às 19h, e deixa-la queimar em nossos corações, em honra a nossa luz e a nossas feridas, e à luz e às feridas do masculino desse planeta. As mulheres também são bem vindas a fazer esse exercício, mas é muito importante que nós, homens, o façamos, para mudar nosso padrão. E quem não puder acender uma vela física na hora, que a acenda dentro de si. Mas que faça isso porque realmente não pode acender a vela física – e não por preguiça ou por ser “mais fácil”.

Claro que esse é apenas um exercício, e cada um pode criar o seu. Sendo realista, nosso compromisso é até o próximo Círculo – não queremos uma tarefa tão grandiosa que não possamos alcançar. São nossos primeiros passos, e queremos dá-los com cuidado. Além disso, queremos agora cuidar para os Círculos aconteçam com beleza, e para que de fato estejamos lá – e, se não pudermos estar, que não larguemos de lado e simplesmente mandemos uma mensagem dizendo “não vou”. Mas que nos preocupemos em saber quem estará, para velar o fogo em nosso lugar. Queremos saber como podemos contribuir, mesmo à distância. Também queremos fazer outros exercícios: acampar juntos, conversar sobre nossa ancestralidade, aprender a não ter vergonha de dançar juntos, e se abraçar. Temos muitos sonhos. Sonhos de adolescentes que sinceramente têm vontade de crescer. E de, um dia, serem reconhecidos como sacerdotes dignos do fogo sagrado que nutre a beleza de Ser Homem. E de Ser Masculino, sejamos nós homens ou mulheres.

Vamos juntos?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


Devoção – a relação sustentável definitiva

Por Gustavo Prudente

Nós, seres humanos, estamos o tempo todo buscando nosso “abrigo mais seguro”, como diria o filósofo indiano Prabhat Rainjan Sarkar. Um lugar de felicidade que seja o mais duradouro, ou sustentável, possível. Nessa caminhada, encontramos diferentes níveis de bem-estar e segurança em portos-seguros como o dinheiro, a família, a relação amorosa, os amigos, o trabalho, a realização de um propósito maior de vida e a espiritualidade.

Como somos seres que basicamente se relacionam (até mesmo de olhos fechados “conversamos” com nossa consciência ou com referências internas nossas, como Deus), nós buscamos também a relação que seja mais segura e que nos seja por mais tempo fonte de prazer e felicidade. Sabemos que, em geral, colegas são fontes mais sustentáveis de felicidade que meros desconhecidos, amigos mais que colegas, amigos íntimos e/ou família mais que amigos. Mas mesmo essas relações não se mostram fonte constante, eternamente durável, de felicidade, pois dificilmente admiramos e nos nutrimos de nossas relações, mesmo as mais íntimas, o tempo inteiro. Além disso, cada relação nos nutre em algo específico, e dificilmente nos relacionamos com algo ou alguém que supre todas as nossas necessidades.

Haveria uma relação capaz de nos nutrir constante e plenamente, sendo fonte eterna de felicidade? Uma relação mais que 100% sustentável, pois contribui para a sustentabilidade de outras relações que travamos com as pessoas ao nosso redor?

Minha experiência de vida me levou até agora a acreditar que sim. Existe uma relação sustentável definitiva, que se estabelece por meio da devoção, ou seja, de devotar amor pleno e incondicional à vida ou à consciência maior que nos rodeia. E este amor, para existir em relação, precisa ser canalizado para algo ou alguém que represente a vida ou a consciência, para que assim esses conceitos tão abstratos possam ser amados de forma concreta e personalizada. Devoção significa amar uma figura com forma e nome como portal para acessarmos a fonte maior da vida, processo que é exemplificado muito bem na cultura oriental por meio do arquétipo dos mestres.

Falar em devoção em nossa cultura ocidental é sempre muito delicado porque ela facilmente pode ser confundida com submissão ou fé cega. Nesses casos, não há amor (característica essencial da devoção), mas no máximo paixão, ou qualquer outro sentimento que ajude a preencher uma dor ou vazio subjacente que surge quando não estamos amando ou sendo amados (pois estar submisso ou seguindo cegamente algo ou alguém nos ajuda a “abafar” esse sentimento de dor e vazio com um pseudo sentimento de amor, por obtermos aprovação daquele que nos domina ou a quem seguimos). Nesse caso, o que existe não é devoção, mas a busca por atrair a aprovação ou evitar a desaprovação.

Na devoção, existe um sentimento de amor tão profundo e verdadeiro, que a única ação possível é a gratidão. Damos o melhor de nós mesmos para o outro porque estamos tão felizes que a única forma de agradecer é fazer algo pelo outro. Quando o outro é um amigo, um filho ou uma namorada, agradecer pode significar fazer pequenos gestos de carinho ou se esforçar para ajudar o outro em suas dificuldades. No caso desse outro ser a vida ou a consciência maior, ou seja, um outro que já tem tudo em si, a única alternativa restante é... cuidar da vida, que implica cuidar do planeta e de todas as relações que nele nutrimos. Por gratidão.

Assim, o devoto é aquele que se sente amado por algo ou alguém que já possui tudo em si, a quem nada falta, e devolve esse amor cuidando desse todo da melhor forma possível. Como esse todo inclui os rios da minha cidade, eu empreendo ações ecológicas para proteger e limpar os rios. Como esse todo inclui minha família, eu nutro relações saudáveis e de respeito com ela. Como esse todo inclui meus desafetos, eu exercito constantemente a prática do perdão. Tudo isso sem a intenção de ser bom ou de ser admirado. Apenas por gratidão. Por ser a única forma de amar um todo que nos ama com eterna abundância.

Nem entro aqui no mérito de se esse todo é o que chamamos de Deus, ou se ele existe. Estou falando do nível mais básico de condicionamento interno, psíquico e biológico. Sabemos hoje que nosso cérebro reage de forma muito parecida a eventos vividos e eventos imaginados, então se estamos nos relacionando com um ser real ou não, tanto faz. O que importa é que, para nosso cérebro, estamos constantemente (até de olhos fechados) nos relacionando com um ser que nos ama e que é por nós amado, plenamente. E essa relação, fonte de nutrição constante, torna-se, portanto, fonte de uma sustentabilidade perene, que pode ser replicada em diferentes níveis com as pessoas “em carne e osso” a nossa volta.

E como nossas crenças sobre a vida influenciam diretamente tanto nosso potencial criativo, quanto nossa motivação para empreender nossos sonhos e as estratégias que desenvolvemos para realizar essas conquistas, ter uma figura interna, que eternamente nos apóia e motiva, nos ajuda a reforçar constantemente a sensação de que, sim, nós somos capazes. De que nós vamos conseguir. De que a vida é abundante e de que todos os recursos já estão aqui, ao nosso redor. De que o presente é um presente (ou seja, uma fonte abundante de gratas surpresas). Sabemos disso porque há algo em nós que nos apóia e nos diz que, sim, não estamos loucos: a vida é naturalmente sustentável.

Por isso, sugiro um experimento: sente-se de olhos fechados diariamente e crie uma relação com algo ou alguém que represente, para você, o todo. Não basta ser alguém que você “ama muito”. Imagine que você pudesse personalizar ou materializar a totalidade da existência, ou do universo. Como ou quem seria essa personificação? Pode ser uma figura religiosa ou algo ou alguém bem inesperado. Seja como for, enamore-se dessa figura e comece a criar uma relação com ela, conversando com ela inclusive. Ouça o que ela diz e responda, se for o caso. Se esse exercício for feito diariamente, depois de sessenta dias, gostaria de ouvir a sua história. Gostaria de saber se seu cotidiano está ou não ao menos um pouco mais sustentável, seja nos aspectos mais sutis – nas suas relações interpessoais, por exemplo - ou nos aspectos mais práticos – por exemplo, a maneira como você cuida do seu lixo. Minha aposta é que a devoção fará de você um ser humano muito mais (naturalmente) sustentável.

Gustavo Prudente é laboratório-vivo de sustentabilidade no projeto Senhor Sustentável (www.senhorsustentavel.org) e membro da Comunidade SER – Sustentabilidade, Educação e Arte. gustavobprudente@gmail.com

Hoje termina uma jornada de 2 meses e meio fora de São Paulo e de 1 mês em Aracaju, minha terra natal. Sinto que tal qual a jornada de 70 dias que fiz pelos EUA entre ano retrasado e passado, esta também foi uma viagem talhada sob medida pela vida para que eu abrisse mais meu coração, aproximasse-me mais de mim mesmo e limpasse os canais para o pleno fluir da minha vida e de tudo que está emergindo nela, incluindo carreira e filhos.

Não tenho atração por ficar expondo minha vida íntima nas redes sociais, mas sinto que de vez em quando a vida me traz algum presente ou insight tão importante, que a minha vontade é compartilhar com o mundo inteiro. Talvez aí more uma influência do meu instinto de escritor, que naturalmente me chama para compartilhar com mais pessoas as narrativas que acontecem dentro e fora de mim.

Por isso, queria compartilhar e agradecer a vida e a todos os seres com quem a tenho partilhado, pelos momentos vividos nestes dois meses, no texto-poema que segue abaixo. Algumas partes só serão entendidas por quem conhece os fatos aos quais elas se referem, mas talvez mesmo elas possam ser compreendidas com o coração. Nem todos estão nomeados aqui em palavras, mas estão todos registrados nas entrelinhas do texto e do meu coração.

 

Aos ancestrais que me guiam

 

Se importante é aquilo que portamos no coração

Que fiquem para sempre registrados

Nas estrelas

Esses momentos:

 

Ver você, meu irmão,

Casando com sua alma gêmea,

Do lugar mais belo que eu poderia

Imaginar:

O pé do altar,

Onde tive a honra de os receber

Ao lado de minha companheira.

 

Mergulhar na sua história,

Meu amor,

E aprender uma parte

Da sua língua,

Aquela que passeia

Pelo Sena

E namora aos pés

Do lago das uvas.

 

Comungar, com sua família,

De uma história

Muito antiga,

Cujos portais só se

Abrem

Pela honra ao que

Passou.

 

Entender que a

Europa

É também a minha

Terra

Porque nela vivemos

Vidas

E o Natal que

Juntos

Comungamos.

 

Mergulhar num kiirtan

Tão doce e verdadeiro

Que qualquer lugar

Do mundo

Pareceria menor

E menos bonito

Que aquele salão pequeno,

Num inverno gelado, de dias curtos

Do interior de uma Suécia distante.

 

E num desses momentos

Sentir que rodamos juntos

Você, meu amor, apoiando minha voz cansada

Numa madrugada

Sem ninguém.

 

E num desses encontros

Sentir que Deus preparou

Um momento só nosso

E da alma que

Nos espera.

 

Comungar com os amigos

Que moram longe

De seus amores e projetos

De seus filhos e gravidezes

Sentir-me acolhido,

E na véspera de um adeus,

Num momento pequeno

E mágico,

Sentir no meu corpo

Como um lágrima

O meu próprio filho

Passando através

De mim.

 

Degustar da vida

Com você,

Meu raio de sol,

No sabor de uma massa

Caprichada

Um chocolate inesquecível

Um passeio engraçado,

Verde,

Antigo,

Amoroso,

Doce,

Sutil,

Musical,

Terminando sempre,

Claro,

Com um sorvete

De pistache,

Em uma Roma

De terraços

Tão charmosos

Quanto nosso amor.

 

Passear pelas mágicas

Montanhas

Da uma Suíça

Inesquecível,

Num dia improvável

De luz e sol,

Num jantar improvável

De bons amigos,

Numa conversa de trem

Mirando a beleza sem fim,

Falando sobre o que

Importa

Com você, meu irmão,

Que sempre

Amarei

 

Jantar com você,

Mainha,

E beber do seu

Brilhantismo,

Nutrir-me de sua

Genialidade,

Digerir a sua

Generosidade

E sair mais forte

Para voltar para casa.

 

Não pense que não notei

O pão comprado logo cedo

A sopa feita com carinho

A água de côco sempre fresca

O sorriso de avó coruja

A partilha da sabedoria

A taopica quentinha

A novela compartilhada

O quarto cedido

O espaço oferecido

Para eu ser quem sou.

 

Também não pense que não notei,

Martoca,

Sua humilde presença,

Cuidando da minha,

Zelando por mim,

Sendo você,

Tão autêntica e brilhante,

Guiando meus passos

Ao me fazer pensar e rir

E ser a parceira

Bruxinha do bem

Da minha mãe.

 

Viver a vida com vocês,

Meu irmão, minha cunhada,

Presenças amadas,

Junto com minha esposa,

Como Irmãos de vida,

De Alma,

Recebendo de Deus

E compartilhando juntos

Nossos dons,

Em casa,

No curso,

Na sorveteria,

No papo gostoso

Antes de sair do carro.

Amor.

 

Maya sentada comigo

Juntinho na rede

Ela correndo do monstro

Que agora eu era

Pulando no ombro

E me ajudando,

Tão linda,

A controlar o tempo

Do meu olhar

Anfitrião.

 

Theo imitando

Tarzan

Como faz o tio Guga

Seu cabelo de mel

Brilhando ao sol

Seu sorriso de dentes

Poucos

Sorrindo como a ninfa

Pureza

Batendo engraçado

No chão

No tambor

Na mesa

E sempre pedindo

Ké – ké – ké

Dá – dá – dá

Para qualquer

Gordinharia

Que se veja

 

Sentir você, minha amada,

Ainda aqui ao meu lado,

Partilhando comigo

Das dores

E das delícias

E fazendo desta família

Uma família que também é

Sua.

 

A flor do propósito

Abrindo novas

Pétalas

Nos chamados

Da Alma,

Que caem tanto,

Como frutas maduras,

Que ao mesmo tempo

Que agradeço,

Pergunto com quem

Compartilharei

O que não cesta

Já não mais cabe.

Agradeço, Senhor,

A felicidade

E a abundância.

 

São tantos parceiros

Que tecem comigo

O que sou

E o que somos

Que é como se eu

Morasse

Numa galáxia brilhante

E tão próxima,

Onde sou uma

De muitas estrelas

Com quem partilho

A luz.

 

Encontrar vocês,

Meus amigos,

Meus irmãos,

Não apenas em Serra Grande

Mas na simplicidade do cotidiano

E na grandeza da alma

Do seu nobre coração guerreiro,

Amado Thomas,

Do seu bondoso coração

Feiticeiro,

Amada Narjara,

E na combinação de tudo isso,

Nos olhos sorridentes

De Luan,

Brilhando como a Lua

Na tarde em que Cristo

Nos penetrou,

Sob a guarda da

Deusa Kali

Com suas alegres

Quatro patas.

 

Sentar com você,

Meu pai,

Naquela mesma varanda

E sentir que aos poucos

Me preparo

Para sermos Um

Mais e mais,

No Amor.

 

Almoçar com vocês,

Vovô Antônio e vovó Gilda,

E ver que uma estrela brilha

Mesmo no corpo que fraqueja

Com a luz de Deus,

Da devoção que nunca cessa,

E da entrega que você, meu avô,

Respira.

 

E ouvir, ouvir e ouvir,

Sem nunca querer parar,

As histórias doces,

Alegres, difíceis,

Belas, intensas,

Conhecidas, surpreendentes,

Fortes, leves,

De quem conheço

E de quem jamais

Conheci,

Que falam de mim

E de para onde vou,

As suas histórias,

Meu avô José Augusto

E minha avó Maria da Conceição

Meu vovô Augusto

Minha Nana Ceiça

Minha Vovoruska,

E guardar como jóias

Seus olhos marotos, voinha,

Seus olhos brilhantes, voinho,

E saber que eu sempre,

Sempre,

Os portarei no meu

Coração.

 

Que minhas palavras

Possam honrar

A sabedoria que vocês me trouxeram

No livro que escreverei.

 

Que minhas palavras

Possam honrar

A sabedoria de todos vocês,

Ancestrais,

Na forma de homens, mulheres,

Amigos, irmãos,

Pais e avós,

Colegas, clientes,

Parceiros, Seres,

E que eu possa

Ser grato

E agradecer sempre

Porque continuamos juntos

Nos próximos passos

Desta jornada.

O Haiti é aqui, no meu coração

 

Quero agradecer a todas as pessoas que seguiram seu coração e que me inspiraram a também seguir o meu. Quero agradecer às pessoas que estão seguindo seu coração neste momento e que fortalecem a minha busca. E quero pedir, clamar, convocar a todas as pessoas que ainda não o fizeram que, por favor, sigam o seu coração, pois ele é um rio que nos leva por paisagens deslumbrantes e que, inevitavelmente, nos faz desaguar num oceano infinito de amor, felicidade e prosperidade.

 

A cada dia que passa, sinto que cada momento, cada conversa, cada experiência, tem um significado tão profundo para mim, que parece que estou constantemente no clímax do meu filme favorito. Estou me dando conta disto mais ainda depois desta experiência no Haiti, onde por diversos momentos do dia meus olhos marejaram de felicidade e eu senti um vazio pleno e profundo no meu coração.

 

Não é a felicidade de “estar fazendo o bem” num pais mais pobre que o meu. É a felicidade de ser eu mesmo e de poder servir ao momento presente, independente do que se apresente nele. Percebo que a mesma alegria que senti aqui é a mesma de quando eu estava sentado em salas de reunião de grandes empresas discutindo outras ações bem diferentes da que realizei esta semana, mas que estão recheadas da mesmo sabor de propósito, serviço e conexão com o Amor Maior.

 

Sinto que a felicidade de me sentir alguém que serve aos “mais necessitados” é uma felicidade passageira para mim e desempoderadora para o outro. Mas a alegria de criar níveis de conexão cada vez mais profundos com todos os seres – humanos ou não – em todos os momentos da minha vida, isso me enche de êxtase. E ver como esses momentos aos poucos vão se encaixando numa profunda teia de sentidos, que se liga à vida de outras pessoas - uma teia que não sou eu que está tecendo, mas para a qual eu contribuo como uma pérola - isso é realmente fascinante. É como uma grande dança que vai se formando quando cada um ocupa seu lugar na dança: existe o deslumbre de realizar o próprio passo, o de admirar o passo do outro e o de contemplar com fascínio o regente dessa surpreendente e belíssima coreografia.

 

Aqui também é a minha casa

 

A primeira sincronicidade que experimentei nesta viagem foi a de encontrar na fila para entrar no avião para Porto Príncipe, ainda em Miami, uma brasileira que mora e trabalha no Haiti. Foi muito curioso esse inesperado encontro e suas repercussões: sem saber, ela me deu uma informação chave para o curso que eu daria logo em seguir – cuidado com as traduções, pois a maior parte das pessoas não traduz exatamente o que você fala. E, de fato, estar alerto para isso me ajudou a perceber o momento em que precisei pedir reforços para que as pessoas realmente entendessem o que eu estava falando durante o curso.

 

Além disso, foi muito interessante perceber que sem os movimentos que fiz nos últimos meses para aprender francês, para poder interagir mais com a família da minha esposa, eu jamais poderia ter tido conversas significativas – embora rápidas, pois meu vocabulário ainda é pequeno – com as pessoas daqui. O creole tem uma influência bem importante do francês, que é, de fato, a língua oficial – embora seja falado por apenas 20% da população. De todo modo, meu parco francês me ajudou a compreender coisas importantes que estavam escritas ou que estavam sendo ditas, e me permitiu criar algumas conexões que não teriam sido possíveis com a tradução.

 

Outro presente foi conhecer meus anfitriões: Dharma (Demeter), diretor dos programas da AMURT – Haiti, originalmente da Bulgária, que mora no Haiti há 10 anos, e Daniel e Tasha, um casal de americanos que está lá há pouco mais de um mês, com a intenção de ficar. Certamente esse é um daqueles encontros que já estavam pré-marcados pela vida, como se antes de encarnar a gente tivesse dito um para outro: “então a gente se encontro no Haiti, no ano tal, na data tal, certo?”. Eu e Dharma, em especial, sentimos tanto amor um pelo outro que é como se já fôssemos grandes amigos há muito, muito tempo.

 

Todos os dias, enquanto ia para a sede da AMURT – Haiti para o treinamento, e via e ouvia os habitantes de Porto Príncipe, e depois, quando chegava lá e conversava, ria e me emocionava com as pessoas, eu comecei a sentir uma sensação de lar muito profunda, que tenho sentido em poucos lugares do mundo – especialmente fora do Brasil. Na minha última noite, por fim, quando eu e Dharma fomos encontrar Augusto, diretor de programas da Viva Rio, para um bate papo no restaurante super cool Cartier Latin (com ótimo reagge ao vivo, por sinal), entendi: ele me contou que Rubem, o fundador do Viva Rio, ao chegar no Haiti se apaixonou pelo lugar e as pessoas, e hoje esta organização é uma das poucas orginalmente brasileiras que faz trabalhos em outros países, e seu fundador, que pelo que entendi tem mais de 70 anos, tem energia suficiente para passar 15 dias no Brasil e 15 no Haiti. Enquanto ouvia Augusto, é como se naquele momento a vida estivesse dando um contorno para o que eu estava sentindo: o Haiti também é a minha casa.

 

Um país de contradições

 

A primeira coisa que me perturbou, antes mesmo de chegar no Haiti, foi que todas as pessoas que eu encontrei desde que pisei nos EUA, para quem eu contava que iria para lá, perguntavam-me: “você está indo fazer trabalho humanitário?”. E eu pensei: meu Deus, que triste sentir que esse país está tão machucado que a única motivação que as outras pessoas imaginam para viajar até lá é fazer o tal “trabalho humanitário”. Em outras palavras: gente rica ajudando gente pobre. E, de fato, eu estava indo lá para dar um curso para uma ONG, e não passear numa praia bonita. Isso me deu o que pensar.

 

Em segundo lugar, foi muito perturbador perceber, ao entrar no avião que levaria a Porto Príncipe, que além de alguns haitianos, a maior parte dos passageiros eram americanos, pessoas de língua francesa e outros estrangeiros como eu, todos com “cara” de que iam fazer trabalho humanitário. O mais perturbador, na verdade, foi ver um grupo de adolescentes americanos usando uma camisa escrito “Healing Haiti” (Curando o Haiti) e claramente acompanhados por instrutores. Foi muito estranho pensar que o sofrimento dos haitianos significa um trabalho de escola para alguns adolescentes americanos. Não que não seja bom que esses jovens tenham essa experiência – mas a lógica por trás dessa realidade é quase exasperante para mim.

 

O Haiti experimenta um nível de desenvolvimento que existe em algumas partes do Brasil, mas que pessoalmente eu nunca vivi: a eletricidade é controlada – ricos, empresas, organizações governamentais e ONGs têm gerador próprio, mas a maios parte do país (mesmo em Porto Príncipe, que é a capital) só tem energia de uma certa hora da noite até uma certa hora da manhã. O sistema de água baseia-se em cisternas que são enchidas quando acabam – de vez em quando, não tem água para descarga, banho etc. As ruas têm um cheiro incômodo de gasolinas; das que eu vi, nenhuma tem farol, e muitas não são asfaltadas.  

 

Assim como em lugares mais pobres do Brasil, as ruas são tomadas por gente vendendo frutas, verduras e comidas de todo o tipo, como frango frito e cachorro-quente, a 12 centavos de dólar cada um, em média. Daniel me explica que as salsichas são feitas com o pior tipo de sobra de carne, que os EUA exporta a um preço que parece barato, mas que garante um bom lucro. Porto Príncipe não tem um cinema sequer – o único que existia foi destruído pelo grande terremoto que assolou o país alguns anos atrás. Existem alguns restaurantes, como o Cartier Latin, e grandes supermercados, onde se encontra todo o tipo de produto – alguns da agricultura local e muitos outros importados. Nesses locais, bem aclimatados com ar condicionado, é onde a burguesia haitiana e os expatriados se encontram – é quase como se fosse o shopping local. Uma pessoa com quem conversei me diz que não sabe o que acontecerá quando acabar a missão da ONU no país, pois muitos expatriados irão embora e, com eles, uma parte significativa da população que esquenta o mercado de compras e aluguéis de Porto Príncipe.

 

Em outras conversas, fiquei sabendo que desde o terremoto o Haiti virou uma loucura para as organizações não governamentais. De repente, havia dinheiro para todo mundo: algumas ONGs aumentaram seu quadro de poucas dezenas para centenas, ou de poucas centenas para mais de mil. Milhões de dólares eram manejados por essas e outras organizações, e uma boa parte do trabalho era bem operacional: receber e distribuir alimentos e mantimentos. Numa certa altura, AMURT – Haiti resolveu não aceitar mais esse tipo de trabalho e focar no que faz melhor: desenvolvimento local. A rapidez com que o dinheiro entrou nesta época é proporcional à dificuldade que foi gerada depois, para demitir boa parte desses funcionários - a maioria haitianos, que não compreendiam porque agora não tinham mais os seus empregos. As verbas diminuíram, e com o passar do tempo, as coisas começaram a voltar à rotina.

 

O Haiti tem um presidente que, segundo algumas pessoas com quem conversei, é apenas uma marionete do governo dos Estados Unidos, que teria interesse em uma série de recursos naturais do país – aparentemente, uma grande reserva de gás natural foi descoberta recentemente, que seria bem maior que a da Venezuela. Daniel me conta que, curiosamente, a embaixada americana no Haiti é a quarta maior do mundo – algo que não parece proporcional à importância política e econômica do país no cenário internacional. Na minha última noite lá, de repente fomos pegos por um tráfico absurdo. Militares de aspecto duro, portando suas metralhadoras, ordenavam agressivamente por onde as pessoas deveriam seguir, seja a pé, de moto ou de carro. Primeiro, Daniel e Tasha acreditaram ser a equipe de de segurança de Bill Clinton, que vem constantemente ao país, mas depois descobrimos ser uma visita do presidente a um local próximo de onde estamos.

 

O local onde fiquei hospedado com Daniel, Tasha e Dharma chama-se Petion Ville, um dos bairros mais chiques da cidade – o que significa que lá estão as casas da pequena classe média e da classe alta do Haiti, bem como embaixadas, órgãos governamentais etc. É lá que moram a maior parte dos expatriados fazendo “trabalho humanitário” no país. Uma pessoa me contou que morar em Petion Ville é a única maneira para ter acesso a comodidades mínimas como luz e água. Lá também estão, pelo que entendi, os “mulatos”, que compõem uma boa parte da classe alta haitiana – negros um pouco mais claros, que surgiram da mistura entre os então escravos e os colonos franceses, que foram expulsos ainda no começo do século XIX. O Haiti foi, segundo as pessoas com quem conversei, a primeira nação independente das Américas, e seus heróis constam nas folhas da moeda local.

 

Muito embora a grande maioria da população fale creole, a língua oficial é o francês e essa língua que está em todos os materiais oficiais – nos avisos dos aviões, nos papéis oficiais do governo. Uma pessoa me contou que muitos haitianos, se alguém perguntar, não admitirão que não falam francês, pois a fluência na língua oficial é associada a status. Ainda assim, existem muitas similaridades entre as duas línguas e eu consegui, em alguns momentos, estabelecer algumas conversas, inclusive com crianças, com meu parco francês.

 

Belo Haiti, belos haitianos

 

Mesmo com todas essas contradições, Porto Príncipe – e, imagino, o Haiti como um todo – tem uma beleza encantadora. Cercada de montanhas, a cidade tem uma natureza facilmente acessível a carro, e no último dia Dharma, Daniel, Tasha e eu fomos a uma cachoeira pequena e bem gostosa, onde tive a oportunidade de fazer algo que eu amo: tomar banho nu. No caminho, pela trilha, encontramos vários haitianos lavando e secando suas roupas, e outros que também tinham vindo para fazer trilha e se banhar nas cachoeiras (havia outras, mais para frente, mas não tivemos tempo de ir lá). Foi uma experiência interessante e nunca antes vivida, tomar banho nu de cachoeira e de repente ver uma dezena de haitianos chegando e me observando, até eu finalmente decidir vestir meu short e voltar a meu hábito brasileiro de mostrar quase tudo – mas não tudo.

 

Mas a joia mais preciosa que encontrei no Haiti não foram as belas paisagens: foi o povo haitiano. Eu fiquei absolutamente encantado com a vivacidade do povo, a despeito da pobreza vivida por tantos. Em um dos dias por lá pensei: será que isso acontece porque quase ninguém no Haiti assisti TV? Eu tenho a sensação de que a televisão, mesmo que transmita bons programas, é em si uma tecnologia que estimula a letargia e rouba a energia. Dharma, numa conversa, me confirma que sim, que ele também sente que a quase inexistência da cultura de massa permite que os haitianos mantenham uma vivacidade que ele não enxerga em outros países onde as pessoas são dominadas pelo que o indiano P.R. Sarkar chamou de “pseudo-cultura”. Outro amigo meu argumenta que esta vivacidade é a mesma que ele encontra nos países africanos que visita regularmente, e que é parte do “DNA” do povo africano.

 

Essa vivacidade se expressa no olhar dos haitianos que conheci, em sua doçura e, ao mesmo tempo, em sua energia forte. Segundo as pessoas com que conversei, os haitianos são, em geral, muito politizados – ouvi um relato em que, voltando de uma outra cidade para Porto Príncipe, de carro, uma pessoa testemunhou dois jovens no banco de trás pedindo para continuar ouvindo uma estação de rádio cujo programa discutia a situação política da Ucrânia – e os dois jovens discutiam animadamente sobre o assunto.

 

Claro que é sempre complicado generalizar a personalidade de um povo a partir de algumas percepções individuais, por isso aqui não falo do Haiti como um todo, mas do Haiti que eu conheci. Esse Haiti é o que me causou cansaço físico e energético, devido à poluição, falta de estrutura, instabilidade social e política, e o que me encheu meu coração de inspiração e amor, pela beleza de suas montanhas e delicadeza e força de seus habitantes.

 

Uma das histórias mais bonitas que, para mim, refletem essa delicadeza, aconteceu no meu último dia lá: após o banho de cachoeira, sentamos num lugar sombreado, já na trilha de volta, para fazer um piquenique. Num certo momento, passa por nós um homem e sua (provavelmente) filha pequena, e nos dá bom dia. Nós respondemos. Após algum tempo, os dois voltam e ficam nos olhando. Ele fala em inglês: “ela quer comer”. Meu primeiro instinto, tendo trabalhado quase dois anos como educador social num projeto cujo público principal eram crianças que trabalhavam nas ruas, foi de dizer “não”. Eu aprendi – não pela teoria, mas na prática - durante meu trabalho, que atender esse tipo de pedido alimenta um ciclo vicioso de exploração infantil, letargia, consumismo, entre outras coisas.

 

Eu fiquei quase irritado com o pedido do homem, na verdade. Mas depois apenas respirei e pensei que o homem era inocentemente “sem noção” de nos pedir comida daquele jeito tão direto. Entretanto, Dharma imediatamente atendeu o pedido do homem, e fez um enorme e gostoso sanduíche para a menina, que o recebeu com um sorriso no rosto que derreteu meu coração. O homem agradeceu e os dois partiram, felizes. E nós esquecemos do assunto.

 

No entanto, alguns vários minutos depois, eis que ressurge o homem, agora com uma montanha de pés de alface nos braços – tantos que ele quase sumia atrás. Ele se aproximou e pediu que nós recebêssemos aqueles alfaces como agradecimento. Naquele momento meus pressupostos foram por algo abaixo. A minha experiência era com a mendicância, em que muitas vezes crianças e os adultos que os acompanham (nem sempre seus pais, pois há adultos que alugam crianças para obterem mais resultados) forçam, por vezes, um ar de “coitados” que logo muda quando recebem o que querem. E, depois de receber, partem sem demonstrar qualquer vínculo com a pessoa que lhes deu algo (como se a pessoa fosse apenas um cliente).

 

Não que eu julgue esse comportamento – é uma estratégia de sobrevivência que as pessoas encontraram, dentro de um Brasil que oferece tão poucas oportunidades para um grande número de pessoas. E não que eu os esteja responsabilizando – esse é um comportamento que só existe porque encontra ressonância numa classe média e alta assistencialista e que não se responsabiliza pelo desenvolvimento das pessoas que não fazem parte de seu círculo social. Mas, ainda assim, esta é sim uma dinâmica muito comum, e que me levou a não querer estimulá-la dando comida, dinheiro ou qualquer outra coisa para crianças ou adultos acompanhados de crianças.

 

Mas este homem, ao agradecer um simples sanduíche retirando de sua própria horta um número de pés de alface que, certamente, alimentariam mais pessoas – e, acredito, ainda valeriam no mínimo o mesmo preço – quebrou a minha lógica. Ele deixou de ser o mendigo, que na minha mente é alguém mais vulnerável que eu, e criou uma relação de igual poder comigo. Dentro de mim, ele saiu do lugar da pobreza e foi para o lugar da honestidade, da bondade, da gratidão, da generosidade e da reciprocidade. Na verdade, ele se tornou mais brilhante e poderoso do que eu mesmo me considerava naquele momento. Eu bebi de sua luz, e o agradeci internamente por isso.

 

Novamente, isso não significa que todos os haitianos agiriam como aquele homem. Durante meus dias por lá, fui chamado por algumas pessoas que pediam dinheiro. Mas, curiosamente, muito menos (muito menos mesmo) do que fui chamado em Roma, durante a viagem que fiz para lá com minha esposa, no começo do ano. E Porto Príncipe é certamente muito mais pobre que Roma. Talvez tenha sido apenas minha experiência (um amigo me disse que, sim, o Haiti tem uma cultura de mendicância muito forte), mas talvez haja nos haitianos algo que se identifica mais com a simplicidade digna do que com a pobreza que inferioriza. Talvez esse seja um dos aspectos que tornou aos meus olhos esse povo – e esse lugar – tão belos.

 

Dharma

 

Eu fui para o Haiti para dar um curso de Liderança Sadvipra, uma metodologia que criei junto com meu amado amigo e mentor Peter Sage, um monge inglês que mora em Washingon DC e que vem constantemente ao Brasil. Peter é coordenador global dos projetos de desenvolvimento local AMURT – daí a ligação com a AMURT Haiti. Além disso, é um dos melhores instrutores de yoga e meditação que já conheci, um facilitador de processos de desenvolvimento humano poético, criativo, gentil e sagaz, e um conhecedor de realidades – ele já viajou e viaja há mais de 30 anos por dezenas de países, e alguns de seus destinos anuais, além do Brasil e do Haiti, são países da África, como o Kenia, da Ásia, como as Filipinas e da Europa, como a Islândia.

 

Já há alguns anos, Peter e eu conversarmos sobre fazer algo juntos, e finalmente concluímos que nosso desejo comum é o de colocar a sabedoria do Tantra Yoga, especialmente aquele sistematizado por P.R. Sarkar, para ajudar mais pessoas a desenvolver sua capacidade de liderança. O yoga é muitas vezes visto no Ocidente apenas como uma prática corporal ou, no máximo, como uma prática de meditação ou de elevação espiritual, num caráter mais religioso. Mas a filosofia completa do Yoga, como a do Tantra Yoga de Sarkar, possui um vasto espectro de conhecimentos, que vão desde ferramentas de desenvolvimento pessoal até princípios para o desenvolvimento social, político e econômico, abrangendo propostas de economia cooperativa, estrutura política descentralizada, técnicas para otimização da indústria e da agroindústria, entre outros. Portanto, assim como acontece com outras fontes de sabedoria espiritual, como a antroposofia, nós decidimos expandir o yoga para fora das escolas de yoga e leva-lo para o contexto do desenvolvimento pessoal, profissional, organizacional e social.

 

Desse desejo, nasceu o programa de Liderança Sadvipra (sadvipra é uma palavra em sânscrito e significa, em linhas gerais, buscador da verdade), para o qual desenvolvemos dois currículos: um mais curto, focado no desenvolvimento pessoal do líder, e outro mais longo, que inclui os aspectos organizacional, social e político. Resolvemos começar, nos primeiros anos, com o mais curto e, quando o campo já estiver mais fértil e sólido, implementar o segundo. Em 2013, fizemos um primeiro curso experimental no Brasil. Haiti foi o segundo e será seguido por um novo curso no Brasil e, em seguida, nos Estados Unidos e nas Filipinas.

 

Este projeto, bem como tudo que tenho feito na minha vida, é uma expressão direta e muito gratificante do meu propósito de vida: contribuir para a plena expressão de líderes do coração, que co-inspirem uma cultura sustentável no planeta. Esta frase, claro, não é apenas um slogan inspirador: cada palavra possui desdobramentos conceituais e práticos muito claros em tudo que sou e faço. Um desses desdobramentos, que também está ligado a meus valores, meus objetivos estratégicos, a minhas visões interna (quem quero ser) e externa (o mundo que quero criar), é investir em atuar com pessoas e organizações de contextos diferentes (empresas, ONGs, comunidades rurais, urbanas, governos, comunidades espirituais, redes) e de culturas e lugares diferentes. Portanto, esta viagem para o Haiti, para dar este curso, numa organização como a AMURT, sempre ressoou como uma forma potente e bela de realizar meu propósito.

 

A palavra que utilizamos na Liderança Sadvipra para falar de propósito é Dharma. Esta é uma palavra cada vez mais conhecida no Ocidente, e geralmente é traduzida como missão ou ação correta. Outra tradução, talvez a minha preferida, é “a essência natural de cada entidade”. Assim, Dharma é o que fazemos quando somos nós mesmos, espontaneamente – e isto é nossa missão. A investigação do que é e de qual é nosso Dharma é a primeira reflexão deste curso inicial de Liderança Sadvipra, no qual cada participante explorará de forma teórica, prática e no próprio corpo sete tendências fundamentais do líder sadvipra. Essas tendências nascem nos sete centros principais de energia do corpo propagados pelo yoga (os cakras) e podem ser fortalecidos pelo correto entendimento corporal e mental, bem como pela prática constante de alguns princípios. A reflexão sobre Dharma é justamente a que acontece durante a investigação do primeiro cakra.

 

Uma das belezas de vivermos nosso Dharma é a possibilidade de podermos relaxar e testemunhar as coisas acontecerem sem muito esforço, pois como nosso propósito é um lugar de espontaneidade e poder, cada pequeno passo que damos gera um mundo de sincronicidades, e traz a sensação constante de que o universo está conspirando a nosso favor. Mesmo quando recebemos desafios, se olhamos com cuidado para eles, enxergamos alguma lição fundamental que nos ajudará a avançar em nosso propósito. E assim foi com tudo nesta viagem: cada pessoa que encontrei, cada conversa que tive, parecia talhada com perfeição para que eu recebesse o que precisava neste momento da minha vida. E tudo que vivi nos últimos meses – inclusive ter focado em aprender francês – parece ter me preparado para retirar o melhor dessa experiência agora.

 

Mesmo o desafio de ter que ter dado o curso sozinho, pois no fim Peter não pôde ir, por algumas questões urgentes que precisou resolver, parece ter acontecido para que eu pudesse ter realizações muito profundas sobre mim e meu propósito. Ananta, ou Jean Pierre, um lindo e doce jovem haitiano, e um dos participantes do curso, me disse no último dia do treinamento que quando ele me viu, ele não achou que eu seria capaz de realizar esse trabalho sozinho, mas que depois da primeira hora, e ao fim do primeiro dia, ele já estava completamente convencido. Um outro participante, mais velho, disso no segundo dia que ele havia vindo ao treinamento com a certeza de que seria chato e de que ele não aprenderia muita coisa, mas que agora ele sentia que sairia de lá com uma bagagem recheada. E esse é o poder do propósito: quando estamos alinhados com o que viemos fazer aqui, nunca estamos só ou desamparados, pois a força que guia as estrelas está nos guiando também. Eu certamente dei meus pequenos passos, compartilhando tudo que sei e sou como facilitador, mas o resultado inspirador ao qual chegamos juntos ao final do curso só foi possível porque, junto com a minha força, havia a força de todo o grupo, e de todo o universo.

 

Nós éramos um grupo de 16 pessoas, contando comigo. A maioria era de haitianos que trabalham como animadores ou educadores sociais nos diversos projetos de desenvolvimento local da AMURT - Haiti. Além deles, havia alguns voluntários, como Daniel e Tasha, e Dharma, que é o coordenador geral dos projetos. A tradução era um desafio: Dharma não estava sempre conosco, e pela manhã a pessoa que fazia a tradução, embora muito querido, não era tradutor profissional, e portanto nem sempre conseguia traduzir o que era dito, ou traduzia uma outra coisa, diferente do que eu havia falado. De tarde, tínhamos Michel, um tradutor profissional e também muito querido.

 

Ainda assim, todos os pontos essenciais conseguiam ser transmitidos. O curso começou com um dia de apresentações mútuas, uma passada geral sobre o que é liderança sadvipra e sua relação com os cakras, e pela prática de algumas ferramentas de conversa significativa, como o círculo. Neste dia, a magia que viveríamos juntos já começou a aparecer: as pessoas iam abrindo sorrisos e seus olhos iam brilhando à medida em que conversávamos sobre um novo jeito de liderar, menos impositivo, mais doce e livre, em que o outro não está a serviço do líder ou da metodologia, mas ao contrário: o líder e a metodologia se adaptam às necessidades reais das pessoas. No fim do segundo dia, após a reflexão sobre Dharma (1º cakra) e como se nutrir da força de nossos grupos e comunidades de apoio (2º cakra), todos nós já estávamos absolutamente maravilhados um com os outros.

 

A roda de partilha do Dharma de cada um, no fim da primeira manhã, foi particularmente especial. À medida que cada um ia compartilhando sua frase de propósito, construída com muito carinho ao longo da manhã, os outros iam se entusiasmando e fazendo pequenos sinais com o corpo, com a voz e com o olhar. Houve até quem quisesse aplaudir o que estava sendo dito. Todos ficaram encantados com a beleza um do outro, com o brilho único que cada um trazia para esta vida e que, mesmo com eles já se conhecendo há alguns anos, não estava claro nem para si, nem para os outros. Depois dessa manhã, a palavra “Dharma” entrou no vocabulário deles e foi constantemente repetida em muitas partilhas, até o último momento do curso. Isso me trouxe de novo a certeza de que todos – absolutamente todos – têm o seu Dharma, e que estar em contato pleno com ele é estar em contato pleno com a parte mais amorosa e poderosa de nossa alma.

 

Os presentes

 

No projeto Senhor Sustentável (um dos empreendimentos que toco dentro da Comunidade SER, a organização que co-criei com outros várias incríveis pessoas), nós dizemos que “o presente é um presente”. E, de fato, quando estou plenamente aberto para o aqui e agora (o que inclui estar presente nas minhas lembranças do passado e em meus projetos para o futuro) coisas extraordinárias acontecem. E durante os dias de cursos, elas aconteceram sem parar.

 

À medida que o curso ia avançando, a sensação é de que todos nós estávamos nos apaixonando – um pelos outros e todos pelo próprio Amor, na sua forma maior. À medida que avançávamos pelo 3º cakra, aprendendo a identificar necessidades e desejos e expressá-los com nosso fogo criativo – em vez do destrutivo, e pelo 4º cakra, investigando como transcender dicotomias e abrir o coração para trabalhar com a complexidade, os testemunhos iam ficando mais pungentes e tocantes. Algumas pessoas relataram estar entendendo pela primeira vez a filosofia da organização na qual trabalham – alguns há cerca de 10 anos. Muitas relataram sua satisfação por sentir que tudo que estava sendo trabalhado tinha um profundo significado e conexão com a vida prática deles. Nós começamos a refletir sobre o Haiti que queremos, integrando eventos difíceis, como o terremoto vivido há alguns anos, como elementos que poderiam ser incorporados a uma narrativa criativa e poderosa que cada líder é capaz de cocriar com os outros e com a vida. As pessoas começaram a falar para Dharma, nos bastidores, que o treinamento deveria ser dado para a organização inteira, e que eles gostariam que nós (incluo aqui o Peter, mesmo se ele não esteve fisicamente presente) voltássemos outras vezes, para continuar o aprendizado.

 

Claro que a parte mais importante de tudo isso – o amor e a felicidade gerados por todos nós – não dá para descrever aqui. É impossível de se transmitir algo como isso em palavras. Mas talvez seja possível compartilhar um relance, em dois momentos muito significativos. No último dia, logo após o almoço, nós fizemos uma dança circular, usando o Kiirtan (mantra cantado em voz alta, com instrumentos) Baba Nam Kevalam (que significa “Tudo é expressão do Amor”). Na dança, todos abençoam uns aos outros, e ao fim todos terminaram numa espécie de êxtase – mesmo aqueles que poderiam ter algum preconceito, por praticarem uma religião específica. Ainda assim, eu comentei que eles poderiam fazer essa dança nas comunidades em que trabalham, mas traduzindo o mantra para o creole. Eles imediatamente fizeram isso, e nós combinamos de refazer a dança ao final, agora em creole.

 

Ao final, depois de um exercício para estimular que cada pessoa se colocasse como líder como instrumento da vida ou de uma força maior, dançamos cantando em creole e terminamos virados para o centro, abençoando a todos nós e ao mundo. Ao fim, espontaneamente, os haitianos puxaram um grito que é, na verdade, um grito de guerra dos praticantes de Ananda Marga (a organização criada por P.R. Sarkar), que significa “Ao Infinito Amor, Vitória!”. Nós nos abraçamos e começamos as despedidas.

 

Quando as despedias já estavam acabando, Steeve me puxou no canto, trazendo com ele uma das participantes. Durante todos os dias do treinamento, eu observei atentamente esta mulher: seus olhos doces e simples, seu ar humilde e sua vibração bondosa me conquistaram logo de cara. Steeve me disse: “ela pediu que eu viesse junto porque ela quer te falar uma coisa”. Eu concordei. Então, ela me olhou nos olhos. Ela não simplesmente olhou na direção dos meu olhos. Ela OLHOU nos meus olhos. Com doçura e firmeza. E falou algumas palavras em creole. Steeve traduziu: “Ela disse que o nome dela é Marianette. Mariannete. E que ela espera que você nunca esqueça disso”. E eu derreti. Derreti totalmente diante daquele gesto tão singelo, tão poético e tão profundamente terno.

 

Seguir em frente

 

E é claro que, agora, eu quero mais. Todos nós saímos encantados. Em todos os tempos livres, e no meu último dia, durante o passeio até a cachoeira, Dharma, Daniel, Tasha e eu já esculpimos chamados, desejos, projetos, e reconhecemos uns nos outros um enorme desejo de seguir em frente. Só que cada vez mais, fiz questão de afirmar, num passo mais respirado, colaborativo, investigativo, e conectado com o propósito do que estamos fazendo. Não quero mais me deixar levar por qualquer pressa assistencialista ou super empreendedora, baseada numa liderança heroica que já não me faz mais sentido.

 

Por isso, desde já estamos traçando juntos um caminho para empoderar líderes da AMURT e a organização como um todo para que possam cocriar uma organização mais colaborativa e sustentável. Queremos chamar uma conversa com toda a organização – não apenas com as lideranças principais. Queremos co-anfitriar um planejamento estratégico que já seja, em si, um treinamento na arte da liderança colaborativa. Queremos praticar a Liderança do Coração. Queremos contribuir para expandir o que vivemos juntos e chamar outras organizações e, aos poucos, lideranças em outras esferas para construir um Haiti mais sustentável.

 

Não posso dizer que conheci o Haiti a fundo. Entretanto, num nível mais além do que o das palavras, sinto que há um Haiti – talvez apenas o meu Haiti, mas ainda assim, ele é um lugar verdadeiro e significativo – que mora em meu coração. Um lugar cheio de Marianettes, que eu sempre guardarei dentro de mim.