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domingo, 18 de outubro de 2015
Celebrando o meu maior presente de aniversário!
Daqui a pouco, em 27 de outubro, eu completo 34 anos. Um
aniversário especial, pois comemora duas grandes viradas de vida. Uma aconteceu
neste ano: minha mudança com minha esposa, Rafaela, para Santo Antônio do
Pinhal - ainda que continuemos a passar em média 3 dias por semana em São
Paulo. A outra aconteceu há exatamente 10 anos, quando, próximo do meu
aniversário de 24 anos, fui iniciado em meditação por um monge de Ananda Marga
(Caminho da Bem-Aventurança), uma linha do Tantra Yoga que não foca no sexo
como prática espiritual, e sim na expansão da consciência por meio do amor
devocional, da investigação interna e do serviço ao mundo.
Seu nome de monge era Dada Diipajinanananda, um neozelandês
alto, de olhos profundos, e muito silencioso. Quando ele deixou o Brasil, eu havia
recebido a primeira e a segunda lições de meditação (são seis). Depois, recebi
a terceira da monja americana Didi Anandamitra, que muitos conhecem no Brasil
como Susan Andrews, fundadora e diretora do Instituto Visão Futuro. Em seguida,
pedi ao monje Dada Jinanananda, um dinâmico monge do Congo que inspira muitos
jovens aqui no Brasil a se engajar tanto na prática espiritual quanto na luta
por transformação social, para que fosse meu orientador de meditação, e ele me
deu as três lições finais.
Por isso, em primeiro lugar, quero honrar esses três
orientadores, que me deram de presente a joia preciosa das lições de meditação,
que pratico quase que invariavelmente duas vezes ao dia. Dessas sentadas, às
vezes indescritivelmente deliciosas, às vezes assustadoramente desafiadoras, eu
retirei muito mais do que poderia imaginar. Não apenas os benefícios
normalmente associados à meditação, como concentração, foco e relaxamento, mas
também estabilidade e aprofundamento emocional, clareza de quem sou e do meu
propósito nesta vida, insights profundos e transformadores sobre meu passado e
meus traumas, e também sobre o que oferecer para o mundo como serviço – e como,
quando e onde.
A meditação me empoderou no meu processo de auto-cura e,
acima de tudo, abriu a porta para um conjunto de experiências que eu jamais
havia tido com qualquer outra experiência humana (mesmo em práticas
espirituais). É difícil descrever essas experiências, mas elas quase tornam a
palavra Amor como uma palavra pequena, que mal contém o que por dentro se está
sentindo. Elas revelam uma busca que transcende o tempo e o espaço, e mesmo a
noção de Eu. Elas tornam real a percepção de que a grande meta da minha
existência eterna não é senão ser Um com Tudo que Existe, na forma do mais
sublime Amor (vou usar a palavra por ser, ainda assim, a que mais se aproxima),
e agradecer esse Amor vivendo todas as tonalidades da vida, das minhas
luminosas às mais sombrias, como ofertas que coloco no altar do Amado. E esse Amado
é o próprio Amor em suas três formas: a que está além da compreensão; a que se
manifesta na criação que somos e que nos rodeia; e a que encarna na forma de
uma entidade que possamos amar (o Deus, o mestre, o guru etc).
Portanto, quero, também, agradecer a esse Amor, que teve a
generosidade de me abrir esse conjunto de experiências, pois sem que isso me
tivesse sido permitido, minhas seis lições não teriam valido de nada. Esse Amor
já havia se apresentado como um grande mistério que eu perseguia, para em
seguida aparecer na forma de meu Guru de meditação, Anandamurtii, e agora se
revela, cada vez mais, como toda a vida do planeta Terra, e de todo o Universo,
com tudo de mais lindo e medonho que existe neles.
Agradeço, em especial, a Anandamurtii, meu Baba (Amado),
pois todos os mestres que se colocam como pontos de concentração para onde
podemos direcionar nosso Amor Devocional o fazem por profundo serviço amoroso
ao outro, e não, como comumente pensamos no Ocidente, por desejo de serem
adorados e servidos. O mestre se coloca como uma tela de projeção de todos os
nossos padrões de relação conscientes e inconscientes com nossos pais e nossas
autoridades internalizadas para que, pouco a pouco, possamos ir limpando essas
projeções e, no final, mergulhar não na personalidade do mestre, mas no Amor
Transcendental que se esconde atrás Dele.
A unidade com o mestre só acontece quando justamente
alcançamos um grau de inclusão interna de tudo que existe, chegando ao
entendimento de que não há nada do que se defender, ou para atacar. Tudo o que
o mestre poderia nos trazer, de bom ou ruim, já existe integrado dentro de nós
e, portanto, toda a tentativa de sustentar a fronteira do dentro e do fora, do
eu e do outro, dissolve-se, não por perda de si, mas por expansão de si. Esse é
um dos motivos pelos quais muitos mestres espirituais podem ser contraditórios
e polêmicos com seus discípulos: quando são mestres verdadeiros, fazem isso
para que que o discípulo experimente e transcenda todo o espectro da dualidade,
desde a ponta mais luminosa à mais sombria. Para que o discípulo não se ligue
ao mestre por atração ou por aversão, mas por reconhecimento da Unidade. Uma
vez alcançado esse estado, não há mais fora – tudo está dentro. O mestre não é
um líder autoritário que nos comanda arbitrariamente, mas antes um líder
servidor que se destitui do desejo de ser querido pelos outros para se tornar
um alvo de concentração no qual podemos gastar toda a nossa munição de
projeções do ego, até não restar mais nenhuma história a ser contada sobre
aquele alvo, e a experiência da Unidade se revele. E, a partir dela, podemos
expandir essa experiência para tudo e todos.
Somente seres com total desapego de seus próprios egos
poderiam coloca-los a serviço de tão grandiosa e árdua tarefa. De serem amados,
odiados, duvidados, seguidos cegamente, temidos, desejados, até que todos esses
fantasmas sejam destilados e reste apenas o reconhecimento do Inominável que,
uma vez visto no mestre, é visto em si e em tudo mais. Tudo passa a ser apenas
um instrumento para a refulgência do mais eterno e brilhante Amor.
Não posso afirmar que, nesses dez anos, todas as minhas
defesas caíram, mas posso dizer que as que caíram já foram suficientes para que
eu experimentasse um nível de paz e de conforto com a vida tão deslumbrantes,
que eu não trocaria por qualquer outra experiência no mundo. Mas foram dez anos
exatamente assim: amando, odiando, duvidando, seguindo cegamente, temendo e
desejando. De briga e paz. Não com meu mestre, ou com o Amor, mas comigo mesmo.
E eu sempre achava que era com Ele, mas no fim, via que era tudo projeção
minha, e que Ele sempre esteve ali, amorosamente me olhando e esperando eu me
encontrar. Logo, muito, muito grato, Baba, por sempre ter estado a meu lado. Só
você (e eu) sabemos a jornada épica que foram esses anos, dentro e fora de mim,
e de tudo que você fez por mim, para que eu crescesse e amasse tanto - a mim e
à vida.
Por fim, quero agradecer a todos os que me apoiaram nesse
caminho. Todos os mestres que me acolheram com carinho, em especial Jesus
Cristo, que me recebeu nesse mundo e que se revelou por meio de pessoas tão
especialmente iluminadas, como minha avó Ceiça, mãe de minha mãe, que me ensinou
uma espiritualidade que ama, e não que castiga. Sei que minha saída do
catolicismo pode parecer uma ruptura com minha história e minha tradição, mas
não é. Todos os mestres são um só, e isso a mente consegue compreender. Mas o
coração precisa amar alguém, como forma de aprofundar a relação (por isso
escolhemos alguém para casar, por exemplo), e essa escolha vai além da lógica
que conseguimos alcançar – só podemos entender com a intuição o que nos faz
escolher um mestre, e não outro, como nosso objeto de devoção. Meu coração
escolheu Anandamurtii, mas Jesus Cristo, e todos os que são, para mim,
instrumentos verdadeiros de seu amor, como minha avó e minha tia Célia, terão
sempre minha profunda gratidão.
Agradeço minha mãe, Maria Teresa, um ser liberto e que me
ensinou a liberdade. Se não fosse ela, eu não teria jamais me permitido trilhar
o meu caminho espiritual, e teria seguido num caminho que poderia ser bonito,
mas não meu. Ela foi e continua sendo o testemunho de servir ao Amor Maior em
qualquer forma com que ele se expresse, sem preconceitos, mas com muita
seriedade e, graças a Deus, bom humor.
Agradeço a todos os amigos e irmãos espirituais, com quem
compartilhei inúmeros momentos lindíssimos de prática, em que criamos juntos um
campo de elevação, em que nos sentimos juntos tocando os pés do divino,
enquanto cantávamos, meditávamos, contemplávamos a natureza, compartilhávamos
histórias espirituais, conversávamos sobre o que realmente importa ou
simplesmente compartilhávamos da doce presença um do outro. Nesse sentido,
agradeço especialmente a minha esposa, amante e parceira espiritual, Rafaela, e
a meus queridos companheiros da Comunidade Ser. Vocês são meus parceiros numa
jornada numa antes trilhada – a de viver a senda espiritual de autoconhecimento
e serviço ao mundo de forma coletiva, e materializando-a em projetos
transformadores que fazem crescer a nós e aos outros.
E agradeço a todos os outros monges e orientadores, de
Ananda Marga e de outros caminhos, que sempre me presentearam com joias de
sabedoria e de inspiração, a ponto de eu me sentir o homem mais sortudo desse
mundo, como um peregrino da alma que, a cada passo, encontra um sábio diferente
que lhe abre mais uma porta. Um agradecimento especial a Susan Andrews, pelo
conhecimento que me passou do Tantra e da Biopsicologia, e a Peter Sage, ou Dada
Vishvarupananda, por ter sido sempre com um pai amoroso e acolhedor, humilde o
suficiente para me ensinar tudo que sabe enquanto aparenta apenas estar
aprendendo comigo, e por ser, acima de tudo, uma manifestação do que mais
admiro no caminho da Ananda Marga.
Agradeço a tudo e a todos que fizeram desses dez anos uma
década mágica de despertar e aprendizado, e rezo para que possa chegar ao final
dos próximos dez anos com a mesma humildade e persistência de um praticante muito
especial de Ananda Marga que conheci: Vishvashanti, um americano que mora na
Dinamarca. Ele me disse num retiro que após vinte anos meditando sentiu que,
agora sim, estava aprendendo a meditar! E espero que esse testemunho possa
inspirar quem estiver sentindo o desejo de mergulhar nessa épica jornada para
que o faça o quanto antes – da sua forma, em seu próprio caminho - pois,
acredite, vale a pena. Que o caminho escolhido seja o do coração, e que a
potência mais profunda e misteriosa da vida se revele a nós, e nos guie.
Namaskar!
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sábado, 9 de maio de 2015
Ser um homem que monumenta a vida!
Após a participação num dos
encontros do Círculo de Homens que sustento com alguns amigos, escrevi o texto
“Velar o Fogo do Masculino Sagrado”, que expressa as reflexões que surgiram
desse encontro, sobre como me tornar digno do Masculino Sagrado. Essa reflexão,
depois desdobrou-se no que significa para mim Ser Digno.
Algum tempo depois, li este poema
de Manoel de Barros, que começou a me dar algumas pistas sobre esse novo tema, e
abriu um campo profundo de reflexão e percepção:
“Venho de nobres que empobreceram
Restou por fortuna a soberbia.
Com esta doença de grandezas:
Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade
quando beijou os
pés de seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, a Dúvida, os
tolos.
Charles Chaplin monumentou os
vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres
coisas do chão mijadas
de orvalho.”
Fui arrebatado pela dignidade
dessa postura – a de “monumentar” o pequeno, o insignificante, o marginal, o
esquecido, o simples, o sutil – que é oposta à da cultura que valoriza que
todos sejam O Maior e O Melhor. E esta é, certamente, uma maldição que nós,
homens, conhecemos há muitos séculos, e que alimentamos diligentemente, em
nossas famílias, na escola, no trabalho e na cultura de massa. Dignidade, em
nossa cultura, significa, muitas vezes, mostrar para a sociedade que somos cada
vez maiores e melhores.
Em nosso caso, homens, crescemos
achando que temos de ter o melhor e o maior carro; ter o maior “pau” e ser o
melhor de cama; ser o que ganha mais em nossa profissão e que é o mais
reconhecido em sua área; que tem dinheiro suficiente para comprar a maior e a
melhor casa – em outras palavras, ser um grande provedor; precisamos ser o que “comeu”
mais mulheres, e o mais forte, gostoso e atraente; precisamos ser o melhor no
futebol ou em qualquer outro esporte. E por aí vai.
Nem precisa dizer que, quando
entramos nessa narrativa de dignidade, em vez de monumentar, desprezamos as
coisas pequenas e simples como insignificantes – e ainda mais as que fogem do
padrão desse mito do maior e melhor. E é aí que assumimos a sombra de um
masculino violento, autocentrado, engolidor e atropelador das delicadezas e das
fragilidades – essas mesmas delicadezas e fragilidades que, muitas vezes, são
tão caras ao feminino. Pois assumi-las como nossas seria correr o risco de
perder a nossa “dignidade”.
E se, em épocas anteriores a
esta, todo esse discurso do “bonito, rico e viril” já era pesado, imagine
agora, que temos de também ser bons moços, gentis com as mulheres, engajados em
causas sociais, espiritualizados, e mais um bocado de coisa que nos qualifica
como “atraente e de bom coração”. Para sermos dignos, não podemos ser nada
menos que o doce e gentil Clark Kent e o corajoso protetor da humanidade Super
Homem.
Mas quando li o poema de Manoel
de Barros, entendi um aspecto muito importante do que é dignidade para mim, e
para meu masculino: trazer grandeza para todos aspectos humanos – incluindo Ser
Homem. Cada homem, com seu propósito, pode dignificar uma parte dessa
experiência humana, e torna-la bela, valorizada, monumental. Não podemos, com
nosso Masculino Idealizado, esmagar nem a sombra do velho mito – o feio, o
pobre e o frágil – nem a do novo – o duro e o materialista. E tudo mais que não
se encaixa nisso. Todo o espectro do Ser Homem precisa ser monumentado por
alguém, seja porque é algo belo, e que precisa ser visto, seja porque é algo que
gera sofrimento, mas que, se existe, existe devido a uma história, que precisa
ser monumentada em sua dignidade.
Tenho em meu coração dois
exemplos simples que, para mim, retratam essa capacidade de monumentar o que é
belo, mas não é visto, e o que gera sofrimento, mas tem uma história. O
primeiro é o filme brasileiro “Hoje Quero Voltar Sozinho”, que conta a história
de amor entre dois rapazes adolescentes – um deles cego. Sem grandes dramas, e
com muita poesia, a história traz grandeza e potência para a cegueira e o
homossexualismo – dois aspectos que o mito dominante do masculino não quer monumentar.
O outro é o livro “For Your Own Good - Hidden Cruelty in Child-Rearing and the
Roots of Violence”, de Alice Miller (Para Seu Próprio Bem – Crueldade Velada na
Criação de Crianças e as Raízes da Violência). Nesse fantástico livro, a
psicanalista suíça Alice Miller descreve as bases do que chama de “pedagogia
venenosa” e analista a infância de 3 controversas personagens da história alemã
– uma delas, Hitler.
Ao narrar, a partir de dados
históricos, a infância de Hitler, sem tentar nos convencer de que sua infância
extremamente violenta “justifica” o que ele fez, mas apenas mostrando a
contribuição que ela deu para seu caráter, ela monumenta Hitler, fazendo-o não
só humano, mas parte do espectro do que é Ser Homem. Monumentar, aqui, não é
vangloriar, concordar, enaltecer, mas apenas dizer: isso também tem
importância. Por mais que Hitler tenha sido quem foi, sua infância sofrida – e
ele, em si – têm importância.
Quando nós, como homens,
monumentamos a vida, nós lhe damos importância, em todos os seus aspectos. Se é
algo que é belo, mas estava esquecido, tiramos o pó, tornamos reluzente,
trazemos para o palco, e celebramos, como no filme que citei. Se é algo
revoltante, e que estava sendo demonizado de forma simplista e maniqueísta,
corajosamente adentramos suas entranhas, conhecemos a sua história, choramos a
dor que levou o belo a se tornar grotesco, e lhe devolvemos a humanidade, para
que aquilo não se repita. E não pela repressão, mas pelo entendimento empático
e profundo, e pelo desejo de servir a vida – como no livro mencionado.
Desde muito tempo nossos contos
de fada e, mais recentemente, vários filmes e novelas, repetem incessantemente:
homem, seja o príncipe, o rei, o líder! Se você nasceu no estábulo, certamente
é por engano. No seu nascimento, alguém seguramente trocou os bebês, ou por
algum motivo maior você foi mandado para longe, para um dia voltar e reassumir
o seu lugar. Mas seu destino é ser rei, pois não é digno do homem ser apenas o
rapaz do estábulo. Entretanto, o homem que monumenta a vida diz: sim, é digno ser
o rapaz do estábulo. Ele também conta algo de belo sobre o Masculino Sagrado.
Se os arquétipos do rei, do príncipe e do amante são tão desejados, não é
porque eles sejam necessariamente superiores, mas simplesmente porque são eles
que tem sido monumentados, de forma monopolizadora, durante séculos. Esses
arquétipos são muito importantes, com certeza (pessoalmente, eu os adoro), mas
não podem ser os únicos.
Quem de nós sentirá o chamado
natural para monumentar o que o mito masculino que não funciona mais quer
desprezar? Quem monumentará o rapaz que cheira a flor na calçada? Os amigos que
se abraçam de forma doce e singelo? O que diz “eu te amo” olhando nos olhos do
outro? Quem monumentará o mendigo? O gay? O travesti? O nerd? Ou, indo além
dessas categorias, as diferentes e originais formas de ser homem? Quem
monumentará as rodas de conversa profunda entre homens, que falam de
sentimentos e vulnerabilidade? Quem monumentará o pau pequeno? A mulher que é
taxada de velha, ou gorda, ou feia, ou deficiente, e que é igualmente uma
representante legítima do Feminino Sagrado, tanto quanto as deusas gostosas que
adoramos monumentar? Quem monumentará o homem que é amente dessas mulheres? Quem
monumentará o carro usado e antigo? A casa simples? O faxineiro? O emprego
desglamourizado e honesto? O chão de fábrica? O sonho de viver algo que não
pertença a um destino masculino já pré-determinado, de futebol, carro, mulher e
cerveja? Quem de nós sentirá o chamado para tornar grande algo pequeno, algo
humano, mas que é nosso por direito?
Também vale dizer que o novo
mito, do homem doce, emocionado e espiritualizado, também pode ser usado contra
a monumentação do espectro completo de Ser Homem. Quando nos juntamos a um
grupo espiritual e acreditamos que bons mesmos são os que falam de forma suave,
não bebem, andam de branco, são vegetarianos, comem orgânicos, choram e abraçam
todo mundo, deixamos de monumentar tudo aquilo que interpretamos como duro,
forte, ríspido. Renegamos esses aspectos como antigos, ultrapassados ou ruins,
mas eles também fazem parte de Ser Homem. Não à toa, mentores do masculino como
Robert Bly, relatam sua preocupação ao ver círculos de homens desvitalizados,
que falam de amor, porém mal conseguem segurar uma espada para expressar sua
força masculina. Também é necessário monumentar nossa virilidade, mesmo que ela
tenha se desviado em comportamentos machistas e agressivos. Não para validar
esses desvios, mas para encontrar a história atrás desses comportamentos,
onde mora algo digno de ser notado como importante.
Quando um homem Nova Era olha nos
olhos de um clássico machão, com toda a sua aparente dureza, insensibilidade e
voracidade sexual, entende a sua história e reconhece o que ele está guardando –
ainda que mal guardado – e celebra esse seu esforço, uma cura se dá no mundo, e
o que era grotesco se torna poesia. E talvez um dia essa cura faça com que essa
essência mal guardada seja melhor guardada, na forma de rituais belos e
profundos – e não de machismo - assim como hoje as guardiãs do Feminino Sagrado
encontram poesia no ciclo menstrual e o guardam com carinho, transmutando o
fato de que esse mesmo ciclo antes também era tido como grotesco. O mesmo se dá
quando um homem dentro do antigo mito masculino celebra dois homens que se
abraçam como amigos, ou que se beijam como amantes, ou que dançam com mulheres
numa roda de cura.
Logo, a pergunta é: qual é o
nosso papel na monumentação do Masculino Sagrado? Qual é esse pedaço que nos
cabe guardar como também importante, tanto quanto todos os outros? Essa é
justamente a pergunta que, agora, tem rondado minha jornada de assumir esse Masculino:
qual é a minha parte nessa história, e que me dignifica como homem, pois só
aquele que consegue enxergar o invisível é que verdadeiramente abriu os olhos?
Acredito que essa resposta só
será encontrada no meu propósito de vida – no meu destino. Sendo eu, e vivendo
a minha trilha – e não a trilha do sucesso programado – naturalmente o que devo
monumentar se revelará. Sei disso porque já experimentei um pouco da água dessa
fonte, quando, aos 21 anos, escrevi um livro-reportagem sobre pessoas que
nasceram, como eu, com fissura labiopalatal. No encontro com essas pessoas,
algumas que lidavam melhor e outras pior que eu com o fato de terem cicatriz no
rosto, ou serem fanhos, ou terem o nariz torto, descobrimos muita, muita
dignidade. Foi durante esse processo que comecei a namorar minha esposa, com
quem já estou há 12 anos, e tive coragem de entrar num coral, para fazer algo
que um fanho não-monumentado jamais faria em público: cantar. E, hoje, eu me sinto grato pela honra de poder ter monumentado essa história, e de outras pessoas como eu.
Tenho certeza que no coração de
cada homem mora uma “pobre coisa do chão mijada de orvalho”, pedindo para virar
poesia.
Qual é a sua?
Deixo, por fim, um poema de
Bertrold Bretch, que questiona, de forma muito digna, este mito do Maior e
Melhor, e monumenta os esquecidos:
Perguntas de um Operário Letrado
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
quarta-feira, 25 de março de 2015
Velar o Fogo do Masculino Sagrado
Velar o Fogo do Masculino Sagrado
Em 2014, um grupo de amigos próximos e eu resolvemos iniciar
um Círculo de Homens. Depois de várias tentativas de marcar um primeiro
encontro, enfim achamos uma data, e acabei não indo no tal encontro, pois nesse
mesmo dia fui jantar com uma pessoa que considero um grande mentor para mim.
Considerei que aquele havia sido meu Círculo.
Durante o ano, chegamos a ter, talvez, cinco encontros, que
foram muito nutridores para muitos de nós, e também geraram incômodos. Um deles
dizia respeito à nossa inexperiência em equilibrar o “papo sério” – de nossas
feridas, do sagrado etc – e o papo “engraçado” – as aventuras sexuais, as histórias
curiosas etc. Terminamos o ano num tom disperso, sem saber exatamente quando e
como o Círculo iria continuar.
Em março deste ano, vi que uma data que coincidia com nosso
pulso mensal de encontros (a terceira sexta-feira do mês) estava livre para mim,
e mandei uma mensagem para o grupo que criamos no Whats App, sugerindo que
fizéssemos o primeiro encontro do ano. Algumas pessoas confirmaram, inclusive
dois amigos que haviam acabado de entrar no grupo, e estavam bem animados para
um primeiro encontro.
Assim, na terceira sexta-feira do mês, na virada do ano
astrológico, às 18h30, desliguei-me de meus afazeres de trabalho e sentei para
meditar, como faço todos os dias, contando com que as pessoas começariam a
chegar às 19h, que era nosso horário combinado. E aí começaram uma sucessão de
frustrações, começando por um grande amigo que estava comigo lá desde a hora do
almoço, esperando para participar do Círculo, e resolveu ir embora, para
atender uma demanda familiar.
Enquanto eu meditava e, de olhos fechados, não ouvia a porta
de nosso espaço abrindo, ou a campanhia tocando, meu coração ia me dizendo que
ia haver uma debandada geral. Aquilo foi me angustiando, e eu quase ia me
irritando por antecipação. Negociava comigo mesmo, dizendo que as pessoas só
deviam estar atrasadas, como de costume. Mas, de fato, ao terminar de meditar,
já passadas as 19h, vi no Whats App que vários haviam desistido. Entretanto, a
confirmação de três amigos, mesmo sabendo que eles chegariam bem atrasados, me
fez persistir no encontro.
Nesse período, entre eu meditar e esperar esses amigos
chegaram, caiu uma ficha. Já há algumas semanas, eu refletia sobre o Círculo de
Mulheres que também acontece em nosso espaço, há mais tempo e com mais
regularidade, e sobre os vários Círculos de Mulheres que vejo acontecendo por
aí, anfitriados ou contando com a participação de pessoas próximas a mim –
inclusive minha esposa. Refletia, também, sobre a prática de uma querida amiga,
com quem tenho passado por um processo de coaching, e que, além de arrumar
lindamente o espaço onde temos nossas sessões, cuida muito bem em preparar
energeticamente o espaço, chamando a presença de todos os guias e mentores que
considera importantes para aquele trabalho.
A ficha que me caiu, então, é que nós, homens, não cuidamos
bem dos espaços. Nós podemos construir a casa, mas quem em geral a decora e
cuida de mantê-la limpa, arrumada e viva, é a mulher. E era exatamente assim
com o nosso Círculo: a gente simplesmente chegava e sentava mais ou menos em
círculo, no máximo acendendo uma vela, pedia talvez uma pizza, e conversava.
Quase nenhum cuidado com criar um ambiente convidativo, em se conectar com as
energias que queríamos que estivessem naquele trabalho. Sem trazer a beleza e a
poesia de um ritual significativo. Quantas vezes, pensei, quis trazer oráculos,
flores, velas, algo que trouxesse o sagrado para aquele momento, e não lembrei,
ou não priorizei?
Olhei para aquilo e, naquele momento, fiz um pedido para
mudar. “Quero ser um homem que cuida”, pensei. E então resolvi montar um belo
círculo com o que tinha ali. Arrumei as almofadas. Acendi a vela. Ornei-a com
imagens masculinas que estavam em nosso altar: Shiva, Buda, Jesus Cristo, Anandamurtii,
entre outros. Coloquei no centro umas flores que estavam lá, no canto da sala.
Peguei dois livros que estavam na minha mochila, e que sentia que se conectavam
com o momento. Quando terminei, senti a diferença na qualidade da energia
presente. Uma nota mais grave, e mais retumbante, estava agora sendo entoada.
Então resolvi invocar as consciências que, no meu coração,
eram referências do masculino sagrado. Cantei para muitos daqueles seres do
altar: mantras para Shiva e Buda, canções cristãs, entre outras. E a cada
canção, sentia que a roda estava mais preenchida, ainda que fisicamente só eu
estivesse ali. Logo em seguida, dois dos três amigos chegaram, e um deles tocou
também algumas músicas xamânicas, e o tom do sagrado e a energia de poder foi
crescendo e crescendo. Senti a força do cuidado, e desejei ser um homem que
cuida. Não só dos espaços, mas das relações, das pessoas e dos seres.
Nesse meio tempo, o terceiro amigo chegou, trazendo algumas esfihas,
para mim e para ele, e foi para a cozinha comer com aquele meu amigo que
resolveu ir embora para cuidar de sua demanda familiar, mas que ainda estava
ali, resolvendo últimas coisas antes de sair. Eu e os demais já estávamos
cantando e abrindo o Círculo, e eu tinha a expectativa de que ele viesse se
juntar a nós o quanto antes. Mas ele não veio. Fui até a cozinha e dei um toque
para que ele viesse. Ainda assim, ele demorou. E eu comecei a ser tomado por
uma irritação profunda. Que fez com que uma segunda e importante ficha caísse.
Enquanto um lado meu tinha um desejo enorme de ir na cozinha
e “dar uma bronca” nele, para que viesse logo, um outro lado meu não via o
menor sentido nisso. Não queria ser o pai mandão e autoritário. Estávamos ali,
inclusive, por sermos homens que queriam romper com a rigidez patriarcal. Mas,
ao mesmo tempo, eu queria muito que ele se comprometesse com aquele nosso
momento. E foi aí que me caiu a ficha: comprometimento. Nós, homens, muitas
vezes não nos comprometemos. Não é à toa que essa é uma das principais
reclamações que as mulheres nos fazem: “vocês não querem compromisso”. Não é à
toa que há tantas mulheres lutando sozinhas com seus filhos, pois, claro, nós,
homens, não nos comprometemos.
Entendi, então, que eu não queria mandar no meu amigo, nem
dar bronca. Eu queria sentir compromisso. E eu estava tão irritado porque eu
tinha raiva da minha própria falta de compromisso. Eu precisava que meu amigo
viesse porque eu não conseguia me comprometer comigo mesmo, e precisa que ele
seguisse minha ordem, para eu ter uma pseudo-sensação de compromisso. O que me
impedia de me comprometer com estar ali, num espaço importante para mim, tendo
somente as presenças invisíveis, ou apenas os dois amigos que já estavam lá? Eu
não queria assumir que o compromisso é meu, e é comigo, com o que me é caro. Eu
não queria assumir meu compromisso de velar o fogo do masculino sagrado, e
queria que os outros fizessem isso por mim.
E, ali, comecei a assumir esse compromisso: eu irei aprender
a velar o fogo sagrado do masculino. E isso, eu já havia entendi, implicava,
além de me comprometer, aprender a cuidar. Alimentado por essas reflexões,
quando abrimos a nossa roda de conversa (ainda sem meu terceiro amigo ter
entrado), compartilhei minhas sensações e reflexões, que ressoaram
profundamente nos meus dois amigos presentes, e a partir daí a roda foi se
aprofundando e ficando mais e mais forte, e fomos sentindo que algo
extremamente especial estava acontecendo naquele momento. Quando, enfim, o
terceiro amigo chegou, compartilhei com ele tudo que havia vivido e sentido, e
ele não só entendeu, mas também sentiu que aquelas eram reflexões muito
importantes para ele.
Abrimos, então, nossas caixas de pandora, e conectamos com o
que nos pareceu não apenas a nossa dor – mas a dor do masculino no mundo. Cada
um na roda trouxe percepções e experiências únicas e que não poderiam ser
reproduzidas nesse texto – ao menos não o lugar para onde tudo isso nos levou,
pois isso só estando lá. Um dos meus amigos revelou o que já estávamos sentindo
com nosso corpo: a energia daquele Círculo era vazia e fraca, pois esse é o
estado do Círculo de Homens do mundo hoje. É vazio porque não nos
comprometemos. Não aparecemos. Chegamos atrasado. E não somente no encontro do
Círculo de Homens. Mas na vida. Em nossos casamentos. Na vida de nossos filhos.
Na realização de nosso propósito de alma.
O Círculo é fraco porque não cuidamos. Fazemos de qualquer
jeito. Desrespeitamos o sagrado do que somos e do que fazemos, levando tudo
para o deboche e o escracho. Desprezando o sério e sagrado como pesado. Como
algo que não interessa ao homem. Como frescura. Somos adolescentes. E não há
nada de mais em debocharmos e sermos adolescentes. Esse é um de nossos papéis
sagrados. O problema é só ser isso. E quando não somos adolescentes, somos o
pai narcisista ou autoritário. Somos o patriarcado que lutamos tanto para
transformar. Claro que é importante não generalizar: não somos todos assim, nem
somos assim o tempo inteiro. Mas esse é o “estado da arte”, em termos gerais,
atualmente. Ou, ao menos, nós, deste grupo, sentimos assim.
“Sou um moleque”, disse ao meu grupo. “E embora eu esteja
brincando de chamar todas essas entidades, como Shiva, Buda e Jesus, para esse
Círculo, será que se eles realmente estivessem aqui, eu me sentiria digno de
estar sentando no mesmo Círculo que eles? Será que eu estou honrando minha
dignidade masculina?”. E que fique claro que essa percepção não tem peso. Não
se trata de ser um super-homem. De me cobrar excessivamente. Mas apenas de
amadurecer. De verdade. E não de faz de conta, do tipo “eu ganho dinheiro,
tenho um cargo alto no meu trabalho e seguro muita bucha, então eu sou gente
grande”. Trata-se de sair da adolescência do masculino ferido, com raiva de
tudo represente compromissos e cuidado, limites e firmeza, como se tudo isso
fosse rigidez. E também sair do patriarcado, com raiva de tudo que é espontâneo
e vivo, e que foge do controle.
A imagem que me veio foi a seguinte: é como se, em algum
momento, houvesse existido sacerdotes que velavam pelo fogo do masculino
sagrado. Homens fortes, dignos e bons. E aí, num certo ponto, alguma ferida fez
com que o fogo se apagasse e, sem perceber, continuássemos a fazer os mesmos
rituais, velando mecanicamente um fogo morto. E quanto mais sentíamos o frio do
masculino se apagou, mas sem admitir que se apagou, repetíamiios ainda mais mecânica
e rigidamente os rituais, achando que o ritual em si iria nos fazer sentir o
fogo. E quanto mais fazíamos isso, mais raivosos e rígidos ficávamos. É
horrível sentir o frio de um fogo vital que se apagou.
Assim, o patriarcado, cada vez mais um conjunto de rituais
rígidos e sem vida, foi se deteriorando. Até que questionamos o ritual sem
significado. Nos libertamos. Só que, equivocadamente, entendemos que o que nos
aprisionava era o ritual, e não a falta do fogo. Achamos que o ritual era
maligno. E decidimos que não queremos mais os rituais. Para que cuidar e se
comprometer com eles? Queremos ser “livres”. Assim, continuamos com o fogo
morto, virando agora adolescentes sem rituais e, ainda, sem fogo. Continuamos
perdidos, mas com a liberdade de gritar e reclamar que estávamos perdidos. E
quem sabe era esse o próximo passo necessário, porque que fomos, então,
descobrindo que a questão não é o ritual – é o fogo. Precisamos reacender o
fogo do masculino sagrado. E cuidar dele.
Sem raiva dos rituais, e do compromisso e cuidado que eles
pedem, e também lúcidos o suficiente para não aceitar mais rituais vazios,
queremos nos recolocar na posição de sacerdotes que velam pelo fogo do
masculino sagrado. Queremos aprender, com os mentores invisíveis, e os visíveis
– aqueles homens que nos inspiram a doce virilidade do masculino equilibrado –
como velar o sagrado. Queremos recuperar nosso respeito e nossa dignidade. De
ser homens. Sabendo que, com isso, não precisaremos depreciar o feminino nem obriga-lo
a nos reconhecer. Aquele que é digno é reconhecido naturalmente pela sua
dignidade.
E entendemos que esse é um trabalho hercúleo. Aliás,
hercúleo vem de Hércules que, não à toa, era um homem. E que matou a sua esposa
e seus filhos. E teve que passar por grandes obras e provações, até recuperar o
seu masculino equilibrado. Isso significa que, de fato, achar que cuidar e se
comprometer é algo importante e respeitoso, e não papo de homem babaca,
complicado etc, é algo difícil e demandoso. Pode parecer bobo, mas acender uma
vela e arrumar o centro de uma roda de conversa - algo tão natural para o
feminino - pode ser um bloco de uma tonelada para um masculino ferido.
Isso ficou ainda mais evidente quando, durante o encontro,
ensaiamos fazer uma dança de escoteiro proposto por um de nós. Um misto de
emoção e vergonha me tomou. Mesmo eu, tão reconhecido por ser um homem “com
muita energia feminina” (seja isso bom ou não), estar ali, de braços dados,
cantando com outros homens, me deixava embaraçado. Os softwares do masculino
patriarcal me assombravam quase que como uma voz débil, de pano de fundo. E
isso nos levou a refletir o quanto que, além da dificuldade de comprometimento
e cuidado, nós, homens, temos muita dificuldade em sair do que um de nós chamou
de nossa “autonomia territorial”, para assumir e compartilhar nossa
vulnerabilidade.
Percebemos que um dos possíveis motivos de não aparecermos
no Círculo, ou de chegarmos atrasados, é uma preguiça difusa e de fundo, cuja
raiz talvez seja a antecipação de que teremos de fazer algo que é muito, muito
demandoso para nós: nos abrir, falarmos de nossos sentimos, expormos dores e
sonhos. A sério. E não de forma escrachada. E para outros homens. Mesmo nós que,
conscientemente, defendemos isso, temos, inconscientemente, essa dificuldade. É
quase um condicionamento biológico, parece. E talvez seja mesmo. Chegamos a
comentar que, se houvesse uma única mulher naquela roda, a tarefa seria muito
mais fácil. Que a presença feminina nos tira da nossa postura automática de
sempre manter um lugar de fortaleza perante outros homens. Que duro perceber
que, ao contrário das mulheres, que muitas vezes antecipam esse momento de
troca como um momento de alívio e relaxamento, nós antecipamos esse momento
como de esforço – muito esforço.
Por isso, nesse Círculo tão auspicioso, depois de todo esse
mergulho – um ano em duas horas, me pareceu – assumimos uma tarefa, que quero
estender a todos os homens que estiveram lendo esse texto, e que se sentirem
chamados. Como uma primeira tarefa de aprendizagem em nossa jornada de nos
tornarmos dignos de velar o fogo do masculino sagrado, iremos acender, com
cuidado e compromisso, uma vela, toda sexta-feira, às 19h, e deixa-la queimar
em nossos corações, em honra a nossa luz e a nossas feridas, e à luz e às
feridas do masculino desse planeta. As mulheres também são bem vindas a fazer
esse exercício, mas é muito importante que nós, homens, o façamos, para mudar
nosso padrão. E quem não puder acender uma vela física na hora, que a acenda
dentro de si. Mas que faça isso porque realmente não pode acender a vela física
– e não por preguiça ou por ser “mais fácil”.
Claro que esse é apenas um exercício, e cada um pode criar o
seu. Sendo realista, nosso compromisso é até o próximo Círculo – não queremos
uma tarefa tão grandiosa que não possamos alcançar. São nossos primeiros
passos, e queremos dá-los com cuidado. Além disso, queremos agora cuidar para os
Círculos aconteçam com beleza, e para que de fato estejamos lá – e, se não
pudermos estar, que não larguemos de lado e simplesmente mandemos uma mensagem
dizendo “não vou”. Mas que nos preocupemos em saber quem estará, para velar o
fogo em nosso lugar. Queremos saber como podemos contribuir, mesmo à distância.
Também queremos fazer outros exercícios: acampar juntos, conversar sobre nossa
ancestralidade, aprender a não ter vergonha de dançar juntos, e se abraçar. Temos
muitos sonhos. Sonhos de adolescentes que sinceramente têm vontade de crescer.
E de, um dia, serem reconhecidos como sacerdotes dignos do fogo sagrado que nutre
a beleza de Ser Homem. E de Ser Masculino, sejamos nós homens ou mulheres.
Vamos juntos?
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
A força do coração
foto tirada em Davao, Flipinas, jurante a jornada
Enquanto volto para o Brasil,
após 35 dias fora e de tantos acontecimentos internos e externos que mexeram
comigo, relembro as reflexões que compartilhei logo que parti. Naquele momento,
a pergunta que emergiu em mim dizia respeito a como criar estruturas mais
fortes e poderosas para permitir que a consciência se expressasse de forma mais
vigorosa e generosa em mim. E percebo que estou retornando não com uma resposta
final, mas com uma vasta colheita de percepções que sinto vontade de
compartilhar. Algumas colheitas já estão em mim, outras estou começando a regar,
e outras, ainda, quero plantar no momento oportuno. A mais importante, agora, é
a realização, num outro nível de qualidade, muito mais profundo, da força do
meu coração.
Por diferentes motivos, durante
minha vida, aprendi a trabalhar com, mas ainda assim temer, minha
vulnerabilidade. Os pontos fracos da minha personalidade e da minha psique com
as quais eu não consigo lidar tendem a se defender do medo da exposição, de
forma pouco sustentável, das seguintes formas:
1. Prazer
compulsivo: associando prazer a algum pensamento ou ação compulsiva, eu
consigo abafar algum aspecto interno com o qual não consigo lidar;
2. Superstição:
ritualizando algum tipo de comportamento ou pensamento, e o associando a um
resultado que quero alcançar ou abafar, eu evito o medo de que o que me assusta
pareça que vai de fato acontecer;
3. Atitude
contrafóbica: exagerando e expondo o meu medo, de forma catártica, abrindo
as porteiras de meus contornos e limites saudáveis para pessoas que não estão
preparadas para contribuir com meus processos internos e de vida, eu crio uma
relação fantasiosa e condicional de que serei compensado, pela minha coragem,
abertura e entrega, com a cura ou a proteção contra aquilo que me assusta;
4. Complexo
de inferioridade: abrindo mão de perceber e sustentar o que sinto e
acredito num certo contexto, para concordar com alguma autoridade interna ou
externa que, na minha fantasia, sabe o que é melhor para mim e pode me punir
com a exposição ou destruição da minha parte frágil, caso eu não aja
“corretamente” (de acordo com o que “correto” se apresente para esse tirano
interno ou externamente projetado);
5. Submissão:
indo mais fundo no complexo de inferioridade, quando eu simplesmente atribuo
prazer ao abuso do meu tirano interno ou externo, como forma de me render a ele,
achando felicidade, ainda que pequena e ilusória, naquilo que me causa dor e
medo, para poder ter o alívio – ainda que momentâneo – de desistir e ceder ao
cansaço da luta constante.
6. Arrogância:
usando qualquer ilusão de poder que eu sinto que tenho, seja no campo
financeiro, intelectual, de controle emocional ou de percepção espiritual, para
tentar ter a sensação (e, às vezes conseguir) de que as pessoas se curvam a
meus pés e fazem o que quero – em especial, que elas me servem em minhas
necessidades não atendidas e fragilidades, quando eu preciso – para, assim, ter
o alívio fugaz de continuar protegendo minha vulnerabilidade e estar no
controle.
Essas estratégias, originalmente,
não foram desenvolvidas com má intenção, mas como a defesa que eu tinha diante
de situações que me pareceram mais assustadoras ou abusadoras do que minha
capacidade para lidar com elas. O resultado imediato foi – e continua sendo –
alívio momentâneo, mas o resultado em médio e longo prazo, pouco sustentável, é
uma frustração imensa por não conseguir dar saltos maiores no meu
desenvolvimento interno e externo, por não conseguir sustentar coisas que sei
que são poderosas para mim, mas que poderiam, para meu inconsciente,
destruir-me ou à minha imagem. Não me refiro aqui a saltos maiores que vêm do
ego superexigente e que não se contenta com o que tem, mas dos saltos
verdadeiros que o coração quer dar naturalmente, que já está, de fato, tentando
dar, mas que não consegue completar, gerando a sensação de energia reprimida e
potencial não utilizado.
Nada disso é muito dramático, na
verdade, pois graças a Deus eu tenho uma vida muito equilibrada e feliz, mas
como sinto que a consciência tenta se expandir sempre, trata-se de território
não explorado e que não pode ser evitado, caso eu queira continuar evoluindo na
minha autorealização e na minha capacidade de servir. E, também com a graça
Divina, nesta jornada eu recebi muitas peças do quebra-cabeça, tanto no sentido
do que preciso explorar mais quanto do como fazer essa exploração, e as peças,
agora, enquanto escrevo, começam a se juntar, e sinto que podem trazer, talvez,
insights para as jornadas de alguns que leem esse texto.
Alguns desses insights são:
1. Abrir
mão da gratificação pessoal em curto prazo: o medo da vulnerabilidade traz
um desejo de que as coisas tragam para mim um resultado positivo imediato, na
forma de prazer interno, de reconhecimento pessoal ou do impacto das minhas
ações. Quando o resultado não vem, existe uma sensação de fracasso e
frustração. Mas, na verdade, quando estou conectado com meu propósito, eu posso
sustentar posições, erros e experimentações pelo tempo que for necessário, sem
medo do caos, da desaprovação ou da emergência do meu lado sombrio, confiando
que o resultado das ações não está nas minhas mãos e que o sofrimento de agora,
quando pleno de significado, pode estar plantando uma felicidade ainda maior no
futuro. Embora eu já soubesse disso intelectualmente, ganhei novas percepções
profundas sobre esse aspecto e, principalmente, exercitei essa musculatura,
tornando-me mais forte para essa sustentação.
2. Preservar
minha energia e meus contornos: pelo medo de estar sozinho com minha
vulnerabilidade, uma parte minha evitava dizer não para qualquer troca social
ou relação interpessoal, com medo de desagradar o outro. Eu evitava me recolher
para ficar sozinho ou adotar uma postura de menos toque e troca corporal. A
desaprovação e a solidão eram sensações que potencializavam o terror de estar
com minha sombra e minhas fragilidades, e assim eu me mantinha constantemente
poroso ao outro, para me sentir protegido. Entretanto, à medida que eu me
relaciono de forma cada vez mais íntima com a Consciência Maior, na forma da
Entidade Mais Amada para mim, mais esse espaço interno fica confortável, e
consigo preservar momentos de silêncio e solitude, nutrindo-me, inclusive, da
minha vulnerabilidade. E à medida que percebo de forma mais clara que não sou
essencial para o outro, e que é o Amado Interno de cada um que trará o
preenchimento e os resultados desejados, eu consigo aceitar não ter que abrir
todos os meus poros para servir e me relacionar constantemente, como se o outro
fosse inevitavelmente se corromper, perder-se ou sofrer se eu não estiver
presente. Isso traz, junto, uma profunda segurança nas pessoas, na vida e em
nosso destino, e um profundo relaxamento, por só precisar dar conta daquilo que
é meu, daquilo que meu coração pede agora – e não mais.
3. Sustentar
a troca amorosa: como contraponto da percepção interior, ficou claro que a
estratégia oposta e complementar para evitar a dor da vulnerabilidade, é ficar
no conforto do meu espaço interno, num lugar em que o toque físico e a troca
são considerados invasivos, imaturos ou desnecessários. Como estar no próprio
espaço pode ser muito gostoso, como quando moramos sozinho e nos acostumamos a
ter tudo de nosso jeito, existe um lugar que se torna intolerante às trocas. Minha
percepção é que o prazer interno gerado pelo silêncio e pela solitude é, entre
outras coisas, um prazer narcísico, e como não desejamos sair do prazer, nos
protegemos do que pode ferir o espelho. Foi interessante, pois essa percepção
surgiu à medida que eu me via adotando o comportamento mais discreto que vivenciei
em alguns grupos e culturas com os quais tive contato, no Brasil e durante essa
viagem, e percebia a luz desse comportamento (que levou ao insight acima) e,
também, a sua sombra, que sinto que emerge quando ele deixa de ser uma escolha
e passa ser uma imposição interna ou cultural.
O que senti em
mim, e que também ajudou a clarear o que parcialmente me incomodava nesse
comportamento, é que, se por um lado, há uma sensação de sutileza e conforto em
estar no próprio espaço, pode existir também maior intolerância e julgamento ao
desconhecido que pode surgir da interação, fazendo com que exista um sabor
depreciativo, às vezes muito sutil e implícito, na relação com o que está fora.
Seja numa versão mais espiritual, que passa a julgar ou condenar, ainda que
muito sorrateiramente, o “mundano”, seja numa versão mais mundana, que expressa
irritações com os outros e com como as coisas são feitas pelos outros.
O mundo e outro
jamais serão capazes de dar contorno necessário para que possamos descansar
para sempre em nosso espaço interno, e isso gera muita frustração. Como
consequência, alguns de nós criam e se escondem em claustros pessoais (nossas
casas, nossas vidas íntimas impenetráveis, nossas práticas espirituais
solitárias, nossa vida social restrita) e coletivos (nossos clubes, comunidades
fechadas, entre outros). Lembrando que não necessariamente a escolha da
solitude ou de viver mais recluso venha desse lugar, mas, em alguns casos, esse
pode ser o fundamento basal desse tipo de escolha.
Mas, abrindo mão
desse conforto e do prazer que ele traz, para encarar as informações geradas
pela troca – espirituais, mundanas, dolorosas, prazerosas, não importa – como
bem vindas e como fonte de expansão do coração, a troca física e emocional
passa a ser também bem vinda, junto com toda a vulnerabilidade que ela causa. Ao
viver de forma mais plena essa dicotomia – da solitude e da troca amorosa –
percebi, junto com minha decisão de me preservar mais, a minha intenção clara
de sustentar o toque, o abraço e a conversa profunda e íntima sobre qualquer
tema, em qualquer contexto – tomando o cuidado, claro, de dialogar com culturas
que sejam diferentes, e não de invadi-las ou julgá-las. Não se trata de querer
mudar o outro, mas de sustentar o que é importante para mim.
4. Usar
o poder para contribuir, e não para exigir: lembro-me de alguns momentos
durante minha estada num hotel nas Filipinas, já no final da viagem, cujo
objetivo era apenas relaxar e me divertir. Por isso, dei-me o presente de
escolher um lugar onde eu pudesse ter todos os confortos que eu queria. E assim
que o lugar começou a frustrar minhas expectativas: o telefone quebrado, a
internet que não funcionava, a comida que não veio do jeito que pedi, eu logo
me vi na posição do cliente exigente, duro e reclamão. Porque, claro, eu estava
pagando, então eu tinha direito. E esse lugar me mostrou de forma muito
pungente como o poder pode despertar meu lado tirano, que deseja que todos
sirvam minhas necessidades e não exponham minhas fragilidades.
Ficou claro
que um lado meu topava servir quando eu estava sendo pago ou fazendo trabalho
voluntário. Pois no trabalho voluntário há a compaixão, e no trabalho pago há o
compromisso com entregar o melhor para o cliente. Mas se eu estou pagando, quem
tem as regras do jogo sou eu. Que história é essa de me contrariar? Se eu estou
pagando, eu não tenho que ajudar ou ser bonzinho – eu tenho que ser ajudado. Os
outros têm de ser bons comigo. Hora da revanche! Eu não tenho que passar por
cima de alguns limites pessoais para servir os outros? Eu não tive que baixar
minha cabeça para atender necessidades dos outros? Pois agora é a vez dos
outros fazerem isso por mim!
E, dessa
percepção verdadeira e dolorosa, veio a realização clara de que, sim, eu estou
aqui para servir, em todo momento, em todo lugar. Mesmo quando isso me faz
sentir vulnerável. Mesmo quando estou pagando. Mesmo quando eu tenho poder.
Mesmo quando a bola está comigo. Não importa quão poderoso eu seja: eu não
estou aqui para abafar os erros e as fragilidades, e sim para jogar luz sobre
elas, para que possamos criar um mundo mais belo e feliz a cada segundo. E isso
implica sustentar a minha força amorosa como agende de transformação do mundo,
de sustentar essa força perante a vulnerabilidade minha e do mundo, e, também,
de atender cada vez mais minhas necessidades – mesmo quando estou servindo
voluntária ou remuneradamente – para que não haja nada a ser pago depois.
Nenhuma vingança oculta. Usar o poder para contribuir, e não para exigir. E foi
isso que fez com que, no final, eu conseguisse dar os feedbacks que precisava
de uma forma que criou conexão com os funcionários do hotel. Senti que saímos
com brilhos nos olhos de nossa breve, mas significativa, interação. E agora
quero mais disso.
5. Sustentar
e desenvolver minha força física e energética: já há algum tempo venho
falando, em diversos contextos, sobre sustentar o ponto basal de nossa
consciência em pontos mais sutis e expansivos, como o coração. Isso significa
buscar fazer com que, literalmente, cada pensamento e emoção sejam sentidos,
fisicamente, na altura do coração. Não se trata de reprimir ou negar os demais
sentimentos e pensamentos, mas de reconhecer que sempre estamos olhando as
coisas por algum filtro. Podemos aceitar nossa sombra, nosso ódio e nosso medo
a partir do filtro do amor, tanto quanto podemos receber o amor a partir do
filtro do ódio. Justamente, quanto mais sutil e expansivo o ponto basal, mais
dentro dele cabem todos os tipos de sentimentos e emoções. Os pontos basais
mais sutis não temem nada, e conseguem aceitar incondicionalmente e transmutar
todos os aspectos de nossa personalidade. Isso é o que eu já sabia. Agora,
percebi também a necessidade de desenvolver um tônus físico e energético para
sustentar esse ponto basal em mais situações, em especial em contextos mais
associados à energia masculina.
A luta pela
sobrevivência física, a guerra, a tirania, a repressão, a tortura física,
mental, emocional e espiritual, para dar alguns exemplos, fazem parte do drama
humano, em especial no aspecto do masculino desequilibrado e, em vez de fugir
dessas grandes fontes de vulnerabilidade, quero me sentir cada vez mais seguro
para abraça-las e contribuir para transmuta-las. E essa viagem me deu muitos
exemplos disso, pois tanto no Haiti, quanto nas Filipinas, entrei em contato
com pessoas e povos que precisam se readequar e escrever uma nova história a
partir de calamidades muito graves, como terremotos, tufões e ditaduras
violentas e sanguinárias. Impossível abraçar essas histórias e recriá-las de
forma positiva e empoderadora sem sustentar profundamente a força do coração.
E eu percebi que
se, por um lado, não quero desenvolver um complexo contrafóbico de mártir, de
me lançar em situações perigosas, por outro eu não quero viver como se eu fosse
apenas meu “eu individual”: eu sou o mundo todo. Negar ou se abster do que está
acontecendo no mundo é fechar os olhos não para o que está “acontecendo lá
fora”, mas para uma parte de mim. É deixar de me conhecer. E sinto que meu jeito
de me conhecer e me engajar com o que descubro não vem tanto pela leitura dos
jornais e pelo debate filosófico e macropolítico – ele vem, principalmente, por
interagir e cocriar com as diversas partes de mim mesmo – as diversas partes do
mundo. Para isso, preciso aumentar minha capacidade física e energética de ser,
lutar e empreender, a partir do coração. Até mesmo para lidar com coisas
menores, mas ainda assim significativas, no meu processo de lidar com minha
vulnerabilidade, como o medo de morrer sozinho numa viagem de avião ou de não
conseguir sustentar meu tônus como homem perante as mulheres e outros homens.
6. Abraçar
e expressar a minha sensualidade e a sensualidade da vida: como garoto que
cresceu com uma deficiência física, que tornava minha fala incompreensível e
minha aparência pouco atraente, cresci negando a sexualidade e a sensualidade
plena na minha vida, pois tocar nesses pontos me deixava extremamente
vulnerável. Aos poucos, fui curando a conexão e a expressão da sexualidade, mas
só nessa viagem percebi o quão profundamente eu negava minha sensualidade.
Sensualidade, aqui, entendida em seu aspecto amplo: a física, que gera
confiança para se embelezar, vestir-se, tatuar-se e se enfeitar para expressar
o prazer com o próprio corpo e com a própria aparência; a sexual, que gera empoderamento
e conforto com a sedução e a capacidade de ter prazer com as mulheres que
considero mais atraentes para mim, culminando na relação plenamente sensual com
minha esposa a partir de um lugar de atração plena, e não de gratidão por
alguém se sentir atraído por mim; a social, fazendo tudo que faço de forma
poética, inspiradora e prazerosa; e a espiritual, assumindo mais o aspecto Amado-Amante
na relação com Deus, descrito por tantos santos místicos, como São João da
Cruz, que em seu clássico “A Noite Escura da Alma” diz, para expressar sua
relação de amor com o Divino: “o meu amado beijou o meio seio”. É viver a vida
como se, com cada gesto – do trabalho que faço, à comida que como, ao amor que
compartilho com minha esposa – eu estivesse me preparando para a grande noite
de núpcias com meu Amor Maior. Como se cada sorriso fosse o perfume que coloco
para Ele. Cada ato de bondade, a melhor roupa. Cada momento de felicidade, o
banquete que preparo para nosso jantar.
7. Abraçar
o guerreiro que mora em mim: li uma vez no incrível livro “João de Ferro”
que, em algumas culturas, antes de usar a espada o homem precisa aprender a
dançar. Logo, junto com a percepção da necessidade de desenvolver minha força
física e energética e de abraçar e expressar a sensualidade, nasce a garra para
ser e viver o meu guerreiro. Um guerreiro forte, assertivo e luminoso, que não
tem medo de desagradar, que deixa suas crenças e posições claras, mas que não
faz isso com complexo de superioridade, imposição, ou julgando e reprimindo o
outro. Faz com o coração e o olhar limpos, com a certeza de estar construindo o
que é importante para si e para o outro, e aberto para se deixar tocar,
aprender e refazer suas certezas, a partir do que a vida traz. Antes, o medo
era de que meu guerreiro despertasse uma fúria (de Deus ou dos outros) que me
destruísse, e a estratégia, portanto, era ou negar e abrir mão desse guerreiro
ou expressá-lo de forma violenta. Agora, quero deixar ele se expressar e
aprender com ele, com como ele pode ser cada vez mais veículo de amor e luz,
mesmo que eu tropece um pouco até estar mais apropriado dele. Isso está me
fazendo com que, desde já, eu assuma com firmeza posições que, antes, eu titubeava
para afirmar.
Todos esses insights, juntos,
tornaram claro para mim o quanto meu movimento, agora, é de fazer o que faço,
assumindo a força do meu coração. Uma força que é muito poderosa, e também
muito amorosa. E que é essa força que vai potencializar o que já está aqui, o
que já estou fazendo, e que apenas estava precisando de mais espaço. Não para eu
poder ser maior, mas para poder ser pleno. Para poder cumprir o destino que me
colocou aqui, e dar vazão, por inteiro, ao desejo de iluminar meu espaço
interno e servir o mundo. Que venham os próximos passos da jornada!
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014
A partido do natural
Sou colecionador de livros infantis e, onde vou, sempre pesquiso um que seja realmente especial e compro. O mais recente, adquirido na minha passagem pelos Estados Unidos, foi “The Tao of Pooh” – “O Tao do Ursinho Puff”. Sim, é isso mesmo. Um autor, praticante do taoísmo, arriscou fazer a ponte entre os ensinamentos Taoístas e as atitudes do famoso ursinho, em suas histórias. Escrito de forma muito cativante, como se ele estivesse conversando com o próprio urso, já nas primeiras páginas o livro traz reflexões belas e interessantes, e algumas delas me inspiraram a pensar sobre a questão das ditas “minorias”, como o público LGBT.
Coloco “minorias” entre aspas
porque não acredito que exista nada fora que não exista dentro. Dentro de mim
mora o feminino e o masculino, a cor negra, amarela, branca e vermelha, a
limitação física e mental, a genialidade e a potência corporal, o amor e a
atração por pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto. O que chamamos de minorias
são apenas os pontos de maior expressão de características que moram em todos
nós, em diferentes graus. Porque nós somos tudo. E é a não aceitação do todo
aqui dentro que me faz querer destruir as partes lá fora que me lembram a
existência dessas partes em mim.
E é interessante, porque
justamente ao tentar “minorizar” e eliminar, justamente cristalizamos e
fortalecemos o que não toleramos. Eu cresci aprendendo a ser homofóbico – não
no sentido de agredir fisicamente mas, tão cruel quanto, de ridicularizar, de
considerar inferior e de excluir qualquer possibilidade de que a atração por
uma pessoa do mesmo sexo pudesse acontecer comigo ou qualquer pessoa da minha
família. No começo da faculdade, eu não me sentia confortável em compartilhar
em certos círculos que eu tinha amigos gays. Era uma tentativa de me libertar
do meu preconceito, mas pela metade: eu me sentia muito confortável com esses
amigos, mas não me sentia confortável com a possibilidade de ser julgado por ser
próximo deles.
E o resultado dessa cultura
homofóbica que me influenciou é que, na minha mente, e na de muita gente,
qualquer possibilidade de atração por alguém do mesmo sexo, mesmo que em
princípio não fosse uma atração sexual, virou sinônimo de que, no fundo, a
pessoa “é gay”. Qualquer proximidade maior que pudesse representar prazer em
estar com alguém do mesmo sexo era experimentada quase como um vírus que havia
entrado em nosso corpo e, uma vez identificado, iria se alastrar e não haveria
mais volta. E nossa vida seria destruída.
Logo, é claro, eu e um bocado de
gente teve que incorporar esse dilema em nosso processo de descoberta sexual,
porque eu não conseguia diferenciar prazer físico e afetivo de atração sexual.
Com isso, era difícil identificar o que era verdadeiramente meu, e o que era
uma crença adquirida, sobre minha sexualidade. Acredito que a grande maioria
dos homens sente isso, só que muitos evitam essa confusão não ficando
fisicamente perto de outros homens.
Essa não foi minha escolha. Eu
amo muitos homens – amigos, irmãos, parceiros – e gosto de beijá-los,
abraça-los e até deitar no colo deles. Imaginem então como ficou a minha
cabeça, que de um lado sentia a homossexualidade como algo muito natural e, por
outro, tinha medo de pensar se atrás daquele momento tão gostoso com um amigo não
estava a revelação definitiva e irrevogável da minha homossexualidade – e, por
isso, acabava ficando com raiva da homossexualidade existir e “não me permitir
viver em paz”. E isso veio muito mais da cultura homofóbica, que cria monstros
desnecessários na relação entre homens, que do homossexualismo em si, que é
apenas mais uma forma de afeto entre homens – e não a única.
Mas, graças à vida, a uma família
evolutiva e a ótimos processos de autodesenvolvimento pelos quais passei, eu
fui evoluindo em diversos sentidos – inclusive nesse. E o primeiro salto foi
perceber que eu não sou nenhuma categoria. Eu sou o que sou. O que meu corpo me
pede, aqui e agora. E que, no meu caso, neste momento, é viver minha energia
sexual com as mulheres – ou, melhor ainda, com minha mulher. Mas poderia ser
diferente. E tudo bem. Com isso, passei a gostar mais e mais de ver as pessoas
serem quem são. Seja o que for. E que isso vai muito além de “ser” ou “não ser”
gay. Diz respeito a seguirmos o que é natural para nós – a cada momento. Pois o
que é natural hoje pode não fazer mais sentido amanhã, e vice-versa.
E acho que é exatamente porque o
natural é tão múltiplo e mutável que, cada vez mais, lutamos para entender
todas as categorias de sexualidade que estão surgindo. Até a sigla LGBT não
está mais contendo todas as possibilidades de expressão da afetividade e do
desejo sexual. Simplesmente porque a verdade e o natural não estão nas
categorias. Está no que o corpo pede. Não só o corpo humano – mas o corpo dos
animais, da natureza, do nosso organismo social, do universo e da vida como um
todo.
As categorias podem servir, no
máximo, para nos ajudar a libertar algo que o corpo está pedindo. Quando eu
disse “eu te amo” pela primeira vez para minha esposa, algo que já estava no
meu corpo se libertou, e ganhou mais força. Eu pude ser mais eu. Quando as
pessoas que amam indivíduos do mesmo sexo deixaram de se ver como “bichas” ou “sapatões”
e passaram a se ver como pessoas com identidades sexuais próprias e valiosas, e
deram a isso o título de “homossexuais” ou “gays”, elas também se libertaram e,
junto com elas, libertou-se o potencial de normalidade e beleza dessa forma de
expressão da sexualidade. O único porém é que, uma vez cumprida a função de
libertar o que estava tentando se expressar, a categoria “estaciona” – ela fica
onde estava, enquanto o corpo, seus desejos e suas possibilidades de expressão
continuam evoluindo. Até que a categoria já não sirva mais para honrar o que
está ali agora.
Portanto, a categoria que ontem
libertou, hoje pode aprisionar. Pois o corpo já está pedindo mais coisas. E aí
vamos criando novas categorias, que deem contam do novo que está emergindo em
nós. Homosexualismo, bissexualismo, transexualismo, trânsgenero, homoafetivo, e
por aí vai. E, enquanto esse processo for libertador, ele precisa ser
legitimado e valorizado. E, quando ele for repressor, impositivo, tentar
maquiar verdades ou gerar estereótipos, deve ser desmascarado. De todo modo, o
que importa é dar espaço para que as pessoas – não só no campo da sexualidade,
mas em qualquer campo – tenham cada vez mais espaço para expressar quem são
naturalmente.
E é aí que entra o Tao do Ursinho
Puff. Como afirma o autor do livro, Benjamin Hoff, “de acordo com Lao-tse,
quanto mais o ser humano interferiu no equilíbrio natural e governado pelas
leis universais, mais a harmonia se retirou para longe. Quanto mais forçamos,
mais problemas geramos. Seja pesado ou leve, molhado ou seco, rápido ou lento,
tudo tem sua própria natureza intrínseca, que não pode ser violada sem causar
problemas. Quando regras arbitrárias e abstratas são impostas de fora para
dentro, o conflito é inevitável. Somente aí a vida passa a ter um gosto ruim.
(...) Ao trabalhar em harmonia com as circunstâncias da vida, o entendimento
Taoísta permite que transformemos em positivo o que outros podem perceber como
negativo. Do ponto de vista Taoísta, o gosto ruim e amargo da vida surge da
mente interventora e não-apreciativa. A vida em si, quando entendida e
utilizada pelo que ela é, é doce”.
Em outras palavras: o
desequilíbrio vem quando impomos categorias às pessoas que não libertam aquilo
que é natural para elas. O problema com conceitos como “macho” e “bicha” não
está tanto no teor de preconceito, mas no quanto eles escravizam e proíbem o ser
de expressar por inteiro suas leis naturais, como sugerido por Lao-Tsé. Se
estamos tentando obrigar os outros a se encaixar numa certa categoria, está
óbvio que a “lei” ou “verdade” que estamos tentando vender é arbitrária e
imposta de fora para dentro, e que o conflito será inevitável.
Talvez as pessoas possam se
deixar repreender por algum tempo (mesmo que isso signifique séculos), mas
inevitavelmente, a verdadeira lei – a que vem da vida e do corpo – irá se
impor. Não há ira divina que possa impedir esse processo. Nem a aterradora
destruição de Sodoma e Gomorra e sua perpetuação como ameaça divina, durante
séculos de dominação religiosa, foi capaz de impedir os indivíduos que amam
pessoas do mesmo sexo de, no final, vencerem e terem cada vez mais espaço para
expressar o que lhes é natural. Nem toda a repressão e medo da homosexualidade que
encontrei durante a descoberta da sexualidade foi capaz de me impedir de
encontrar (e me encontrar) com minha sexualidade e com o amor da minha vida.
Não porque eu estava seguindo algum preceito cultural homofóbico – mas
simplesmente porque isso é quem eu sou.
Como não aprendemos a respeitar o
natural e usar o nosso construto social, linguístico e simbólico para
libertá-lo – em vez de aprisiona-lo – nós acabamos perdendo essa harmonia e
esse equilíbrio de que fala Hoff em seu livro. Como temos dificuldade em
evoluir, o que implica dar nome para o que não foi ainda nomeado, dar espaço
para o que antes não existia e que ainda não entendemos, preferimos tentar
“congelar” a vida naquilo que já descobrimos e que, uma vez, no passado, funcionou.
E achamos que se todos forem e fizerem isso para sempre, tudo vai ficar bem...
Não à toa nossa noção de paraíso é, tantas vezes, a imagem de um lugar em que
nada nunca muda. Socorro!
Nessa cultura desconectada do
natural, não queremos que nossa expressão sexual mude, assim como não queremos,
por exemplo, que a medicina mude. Testemunhei curioso e atônito a batalha
travada por minha incrível mãe, Maria Teresa, enquanto ela se afastava da
medicina dita “tradicional” e incorporava inovações em seu jeito de praticar a
cura que, muito tempo depois, passaram (ou começam) a ser aceitas como
legítimas. Formas que, na prática, são tão eficientes, que têm atraído muita
gente que antes desacreditava desse novo jeito, e que agora não encontra mais
resposta no “tradicional”. Como militante de uma educação mais livre e
democrática, fico também atônito com a reação agressiva a qualquer tentativa de
que a estrutura formal de educação mude – resiste-se tanto aos movimentos de
desescolarização quanto a se falar de emoções na sala de aula. O que choca não
é o fato da mudança não acontecer – pois ela poderia ser um sintoma de que o
que está sendo proposto não é natural – e sim o nível de violência aberta ou
velada, pessoal e institucional, impedindo que a mudança aconteça, mesmo quando
muitos sinais mostram que ela é necessária. Mesmo quando as manifestações das
pessoas, nas redes sociais, nas ruas, nas conversas de bar, estão gritando que
há uma lei natural não sendo respeitada.
O que conforta é saber que,
silenciosa ou abertamente, tudo está mudando. Porque quando algo é natural no
processo evolutivo, ele se torna inevitável. Logo, a questão não está em saber
“se” o natural vai acontecer. Ele vai. Nunca esteve em nossas mãos impedir que
a homossexualidade se estabelecesse como opção legítima. Sempre foi e sempre
vai ser, e cada vez mais, pois a realidade do corpo e da vida (e não dos nossos
preconceitos morais e religiosos) têm mostrado que é assim. Que este é o
natural de milhões de pessoas ao redor do planeta. O que muda é “como” isso vai
acontecer: com uma percepção e aceitação mais rápida e fluida do que é, ou com
muita resistência, conflito, ataques histéricos e descabidos como o de Levy
Fidelix, sofrimento – e, como a história mostra, mortes. E se quisermos supor
que existe algo mais natural que essas diversas expressões sexuais que temos
hoje, não precisamos brigar – isso vai se impor, no momento certo. Se for
natural.
Portanto, minha busca tem sido a
de dar espaço para o natural, em todos os campos da vida, mesmo quando ele
choca com os valores e os conceitos que eu já havia construído antes. E para
isso, é preciso muito discernimento. Nem tudo que é novo é “natural”. Podemos
propagar algo bem diferente da cultura atual, algo inovador e chocante, e no
fundo isso não ressoar em ninguém, pois no fundo é apenas uma categoria
“diferente” que está tentando ser vendida, sem que ela responda ao que está, de
fato, querendo emergir. É apenas uma organização interessante de ideias, para
chamar atenção, gerar catarse emocional, satisfazer o desejo de rebeldia, ou
algo que o valha. Da mesma forma, nem tudo que é natural é “novo”. Respeitar o
natural não é negar a tradição. Mas a verdadeira tradição se perpetua
naturalmente porque é uma lei universal enraizada no corpo e na vida, e não em
nossas frágeis e datas crenças.
Por outro lado, temos de levar em
conta que nem sempre algo que não ressoa no coletivo não é natural. Às vezes
algo não encontra eco de imediato porque não estamos preparados para escutar,
ou porque o sistema social reprime e não oferece espaços para que a mensagem
seja escutada em larga escala, e como legítima – o que acontece frequentemente
em nossa cultura de mídia de massa, que antes ditava solitariamente o que podia
ser comunicado e agora, com o fenômeno da internet e das redes sociais, não determina
tudo o que pode ser dito, mas busca legitimar alguns discursos e deslegitimar outros,
e vencer pelo tamanho. A mídia de massa ainda chega em mais pessoas que os
guetos internéticos, infelizmente.
Também precisamos levar em conta
que o risco que existe em congelarmos o natural numa nova categoria, num
primeiro momento mais ampla e inclusiva, e que o impede de continuar crescendo.
Esse é um debate que ocorre, inclusive, entre alguns grupos de defesa das
“minorias”, quando sentem que a categoria “negro”, “gay” ou “deficiente” começa
a gerar mais estereótipo que esclarecimento. De certa forma, isso aconteceu
comigo, pois se um lado meu acreditava na lei imposta pela cultura dominante,
do “não devo ser gay”, outro lado já havia criado uma outra lei, também imposta
por uma cultura emergente, que dizia que “se eu não me abrir para ter uma
experiência homossexual, é porque eu sou preconceituoso ou conservador”. E
ambas as crenças não me libertavam para eu ser quem sou.
O natural está menos nessa ideia
de “minorias” e “maiorias”, de certos e errados, que ainda é baseado em
categorias, e tem mais a ver com o que pensamos, sentimos e fazemos quando
estamos em nosso estado de fluidez, de alegria e conexão com o que nos é
profundamente significativo. Para alguns, um casamento heterossexual monogâmico
pode ser o resultado natural de quando se está nesse estado. Para outros, um
relacionamento bissexual e aberto pode ser esse resultado. Mas se desconectados
desse estado verdadeiro de fluxo, ambos os cenários podem ser categorias buscadas
“de fora para dentro” e gerar conflito interno e externo, por nos impedir de
seguir a nossa lei universal para obedecer a uma lei “abstrata e arbitrária”, e
que pode ser criada por qualquer grupo, não importa se de esquerda ou direita,
da cultura da violência ou da cultura de paz. Todos estamos vendendo conceitos
que se propõem a dizer o que é natural independente do que nosso corpo sente.
Tocado por tudo isso, tenho
buscando aprofundar minha busca por aceitar e libertar o que é natural – e,
para isso, tenho conscientemente feitos de exercícios de reflexão interna, de
diálogos significativos e de experiências que me tiram da zona de conforto. No
campo da homossexualidade, isso significa, por exemplo, conversar com amigos
gays sobre coisas que ainda eram tabus para mim, como ser “passivo” durante o
ato sexual entre dois homens. Ouvindo intencionalmente como é isso para eles, e
que beleza e prazer eles encontram nisso, pude deixar de lado o preconceito
oculto que me fazia aceitar o homossexualismo como algo que eu respeito, desde
que eu não veja por inteiro, ou de achar que quem é ativo “é mais macho”, para
de verdade apreciar outras formas de amar que não estavam no meu escopo, encontrando,
inclusive, como essas formas se expressam em mim, dentro da minha realidade.
Significa também ir assistir
filmes de amor em que o casal central são pessoas do mesmo sexo e não sentir
que estou assistindo um “filme gay”, mas sim um filme de amor. É conversar
abertamente com amigos sobre as diferentes expressões de nossa sexualidade,
buscando legitimar as expressões próprias e empatizar com as expressões dos
outros, sem tentar chegar em certos e errados, em julgar um como mais puritano e
outro mais libertino. E, à medida que as categorias congeladas vão se
dissipando, e dando lugar a novos conceitos, que respeitam o orgânico e o
natural, uma apreciação da singularidade de cada ser, e das diversas formas da
felicidade se expressar, surge. E isso traz, internamente, muita felicidade
também, pois é uma delícia poder ser quem se é e, ao mesmo tempo, apreciar e
celebrar a beleza do outro. E, melhor ainda, por não estarmos presos a
conceitos, é delicioso deixar-nos surpreender por formas de beleza que nunca
havíamos experimentado antes.
Assim, ao mesmo tempo em que é
muito importante lutar para colocar limites nos crimes homofóbicos, é
igualmente essencial fazer o que idealizou Buckminster Fuller: em vez de lutar
contra a realidade que queremos mudar, lutar a favor da queremos estabelecer, e
deixar a outra morrer de inanição. Isso significa, para mim, deixar de colocar
energia nessas leis abstratas e arbitrárias, que tentam se legitimar como
“universais” porque algum dia algum deus, filósofo, cientista ou qualquer
figura legitimadora falou que “é assim”, e botar mais energia em nomear e viver
em consonância com as leis universais, essas que estão enraizadas no fluxo
natural do corpo e da vida – o que minha mãe chama de “zona de energia
correta”.
É importante se dar conta que
brigar contra as leis impostas é uma forma de dar energia para elas. Em geral,
brigamos tentando fazer valer outras leis, opostas às que estamos combatendo,
que podem até serem reflexo das leis universais. Mas, a própria energia de
raiva e de agressividade com que combatemos é sintoma da nossa dificuldade de
nos enraizar no que é natural, e só aumentamos o problema. Quando uma lei é
realmente natural, ela impera, e não o que temer. Não há espaço para debate
agressivo, não porque é “proibido”, mas porque a verdade já está no corpo – não
há nada para ser vencido, mas apenas para ser clareado. O debate, portanto,
ocorre não para derrotar ou convencer mas, para juntos, darmos nome para o que
já está aqui – um nome que faça sentido para todos, ou para a maioria. E,
novamente, não porque “acreditamos” naquilo. Mas simplesmente porque é. E
quando é, nosso corpo sabe. Quando nos alinhamos com o que é, ganhamos uma
força incrível para sustentar o que nos faz sentido (pois “o que é”, “o que nos
faz sentido” e “a força” são, na realidade, diferentes nomes para uma mesma
coisa).
E como nomear o que “é” pode ser complexo
e demorado, já que tateamos o emergente a partir das categorias e conceitos que
temos agora, dentro de nossa vivência pessoal, familiar e social, o debate
democrático tem importância vital. Ele nos dá a oportunidade de ver novas
camadas do que já está ali, à medida que nossas convergências e divergências
vão alargando nossa percepção do que é natural não só para mim, mas para o
outro, para um grupo, para uma nação. A lei universal, que já é, vai se tornado
clara à medida que vamos sentindo, nomeando e honrando o que é natural para
todos. Isso implica mais a assertividade, firmeza e dignidade de caráter do que
a agressividade e violência. Em princípio, mesmo um debate com muita
divergência pode ser amoroso e nutridor. Não precisamos xingar e destruir o
outro – mesmo que ele esteja sendo preconceituoso. Mas, a depender do nível de
repressão para que o natural emerja, precisamos sim ser vigorosa e
corajosamente assertivos em sustentar o que estamos vendo. O que está aqui. E
não o que deveria estar. A lei natural. E não a abstrata e arbitrária.
Entregando inclusive nossa vida em favor da verdade. Pois onde o natural
impera, impera também a verdade e a vida.
Isso, claro, é bem diferente do
debate político agressivo que temos hoje, e que encontra um de seus extremos no
discurso homofóbico. Esse debate é apenas a representação visível da tentativa
desesperada de fazer uma verdade artificial e construída, baseada em crenças
datadas, fazer valer sobre o que, de fato, é a demanda do corpo e da vida. E
isso se estende para muitas outras áreas do diálogo político. Se boa parte da
verdade vendida pelos partidos e candidatos fosse natural, não precisaria de
tanta parafernália de marketing, de tanta mentira, de tanta repressão, enfim,
de tanto esforço, para se fazer valer. E não haveria problema em deixar outros
candidatos e partidos, menores, terem mais espaço. Pois se os candidatos com
maior poder estão honrando a lei universal, o que temer? E se os demais
candidatos, com proposta alternativas, estão falando bobagem – algo que não
ressoa com o natural, o que temer? E se estamos todos trabalhando para permitir
a plena expressão daquilo que é natural e bom para todos e, portanto, tanto faz
quem ganha e quem perde, o que temer?
Portanto, a fúria de Levy Fidelix
e da massa homofóbica é, de fato, o desespero de uma classe desconectada de seu
fluxo natural, assustada com o ruir de suas verdades frágeis e inventadas, e que
está perdendo para aquilo que não se pode vencer: a lei natural e universal da
vida e do ser humano. Daquilo que é espontâneo e verdadeiro. E que, quando não reconhecido
e não honrado, gera dor, conflito, repressão, rebeldia e sofrimento, para todos
os lados. Mas quando reconhecido, honrado e amado, tal como é, torna a vida
extremamente doce, como os potes de mel que o Ursinho Puff tanto adora.
The Tao of Pooh, Benjamin Hoff
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