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sábado, 4 de junho de 2016
Ser forte para ser delicado
A delicadeza, sem força, é um carinho sem tônus, que não
confronta.
A força, sem delicadeza, é um tônus reativo, que não cuida.
A força delicada é um tônus que acolhe.
A delicadeza forte é um carinho que protege.
Quem são os homens que, hoje, arriscam ser delicados, sem
abrir mão da sua força?
Quem são os homens que, hoje, sustentam ser fortes,
revestindo-se de delicadeza?
Conseguir massagear a dor do mundo com mãos que não se acovardam,
nem a apertam até sufocar.
Conseguir massagear a própria dor com mãos que entram firmes
e sensíveis no próprio coração.
Respirar o ódio que atravessa as estranhas, para que ele
esquente o sangue da compaixão, em vez de estourar as veias da sensibilidade.
Insuflar no corpo macio a vitalidade que nos motiva a seguir
em frente e fazer o que precisa ser feito, sem preguiça ou lentidão.
Ter o vigor para manter-se imóvel diante do chacoalhão do
vento, e doce para recebe-lo como um presente de Deus.
Curar o que nos aflige com uma mão que corta e outra que
afaga.
Ter firmeza para ouvir o grito sem desabar, e empatia para
entrar em ressonância com a voz que nos atravessa.
Mover-se com os músculos de um guerreiro e as articulações
de um dançarino.
Trazer na voz o tom grave que desce até o centro da terra e
o timbre agudo que sobe até os céus.
Ter delicadeza para sorrir e força para nada expressar se
não “eu estou aqui”.
Ter força para cuidar de todos e delicadeza para cuidar de si.
Ser delicado para abrir as portas de casa e força para
sustentar a solidão.
Ser forte para sustentar os ideais e delicado para
ampliá-los com a escuta dos demais.
Legitimar a própria existência por reconhecer a poesia
delicada da vida em cada segundo de ser quem se é, e ter força para sustentar o
seu valor tanto no palco da aprovação alheia, quanto quando estamos sozinhos, olhando
apenas para o espelho de nossa alma.
Ser feliz, arrebatado por toda a delicadeza e força de
viver.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Escuta os gritos
de Paris.
Os gritos de quem agoniza
no chão.
Escuta os tiros
como gritos
de quem atira
- e os escuta também.
Escuta o grito
aterrorizado
de um mundo
que anseia por se sentir
seguro.
Escuta os gritos
do outro mundo,
que comemora
o sangue,
e que grita por algo
também.
Escuta os gritos
que não se
ouvem,
das vítimas e algozes
em lugares que não se vê.
Sem a mídia
como megafone,
eles gritam baixo
- mas, ainda assim,
gritam também.
Escuta os gritos
Marianos,
Diamantinos,
de rios, peixes e pessoas,
e tantos outros seres.
Gritos que ficam
invisíveis
quando só escutamos
os gritos de Paris.
Mas escuta os gritos
de Paris também,
Pois escuta não se
escolhe
- só se amplia -
quando escolhemos
não "o nosso",
e sim
"o bem".
Escuta o grito de
raiva,
medo,
preguiça,
sonhos,
que vem de
Dentro.
Pois é ele quem
ressoa
com o grito de
alguém.
Escuta e acolhe
esse grito profundo,
que lá fora,
transformado,
ele grita
a compaixão
que não se cala,
não se curva,
nem se vinga,
mas grita,
com coragem
o silêncio pacífico
que abençoa
o mundo.
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O que ainda não sei chamar de meu,
SER Inspirador,
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domingo, 18 de outubro de 2015
Celebrando o meu maior presente de aniversário!
Daqui a pouco, em 27 de outubro, eu completo 34 anos. Um
aniversário especial, pois comemora duas grandes viradas de vida. Uma aconteceu
neste ano: minha mudança com minha esposa, Rafaela, para Santo Antônio do
Pinhal - ainda que continuemos a passar em média 3 dias por semana em São
Paulo. A outra aconteceu há exatamente 10 anos, quando, próximo do meu
aniversário de 24 anos, fui iniciado em meditação por um monge de Ananda Marga
(Caminho da Bem-Aventurança), uma linha do Tantra Yoga que não foca no sexo
como prática espiritual, e sim na expansão da consciência por meio do amor
devocional, da investigação interna e do serviço ao mundo.
Seu nome de monge era Dada Diipajinanananda, um neozelandês
alto, de olhos profundos, e muito silencioso. Quando ele deixou o Brasil, eu havia
recebido a primeira e a segunda lições de meditação (são seis). Depois, recebi
a terceira da monja americana Didi Anandamitra, que muitos conhecem no Brasil
como Susan Andrews, fundadora e diretora do Instituto Visão Futuro. Em seguida,
pedi ao monje Dada Jinanananda, um dinâmico monge do Congo que inspira muitos
jovens aqui no Brasil a se engajar tanto na prática espiritual quanto na luta
por transformação social, para que fosse meu orientador de meditação, e ele me
deu as três lições finais.
Por isso, em primeiro lugar, quero honrar esses três
orientadores, que me deram de presente a joia preciosa das lições de meditação,
que pratico quase que invariavelmente duas vezes ao dia. Dessas sentadas, às
vezes indescritivelmente deliciosas, às vezes assustadoramente desafiadoras, eu
retirei muito mais do que poderia imaginar. Não apenas os benefícios
normalmente associados à meditação, como concentração, foco e relaxamento, mas
também estabilidade e aprofundamento emocional, clareza de quem sou e do meu
propósito nesta vida, insights profundos e transformadores sobre meu passado e
meus traumas, e também sobre o que oferecer para o mundo como serviço – e como,
quando e onde.
A meditação me empoderou no meu processo de auto-cura e,
acima de tudo, abriu a porta para um conjunto de experiências que eu jamais
havia tido com qualquer outra experiência humana (mesmo em práticas
espirituais). É difícil descrever essas experiências, mas elas quase tornam a
palavra Amor como uma palavra pequena, que mal contém o que por dentro se está
sentindo. Elas revelam uma busca que transcende o tempo e o espaço, e mesmo a
noção de Eu. Elas tornam real a percepção de que a grande meta da minha
existência eterna não é senão ser Um com Tudo que Existe, na forma do mais
sublime Amor (vou usar a palavra por ser, ainda assim, a que mais se aproxima),
e agradecer esse Amor vivendo todas as tonalidades da vida, das minhas
luminosas às mais sombrias, como ofertas que coloco no altar do Amado. E esse Amado
é o próprio Amor em suas três formas: a que está além da compreensão; a que se
manifesta na criação que somos e que nos rodeia; e a que encarna na forma de
uma entidade que possamos amar (o Deus, o mestre, o guru etc).
Portanto, quero, também, agradecer a esse Amor, que teve a
generosidade de me abrir esse conjunto de experiências, pois sem que isso me
tivesse sido permitido, minhas seis lições não teriam valido de nada. Esse Amor
já havia se apresentado como um grande mistério que eu perseguia, para em
seguida aparecer na forma de meu Guru de meditação, Anandamurtii, e agora se
revela, cada vez mais, como toda a vida do planeta Terra, e de todo o Universo,
com tudo de mais lindo e medonho que existe neles.
Agradeço, em especial, a Anandamurtii, meu Baba (Amado),
pois todos os mestres que se colocam como pontos de concentração para onde
podemos direcionar nosso Amor Devocional o fazem por profundo serviço amoroso
ao outro, e não, como comumente pensamos no Ocidente, por desejo de serem
adorados e servidos. O mestre se coloca como uma tela de projeção de todos os
nossos padrões de relação conscientes e inconscientes com nossos pais e nossas
autoridades internalizadas para que, pouco a pouco, possamos ir limpando essas
projeções e, no final, mergulhar não na personalidade do mestre, mas no Amor
Transcendental que se esconde atrás Dele.
A unidade com o mestre só acontece quando justamente
alcançamos um grau de inclusão interna de tudo que existe, chegando ao
entendimento de que não há nada do que se defender, ou para atacar. Tudo o que
o mestre poderia nos trazer, de bom ou ruim, já existe integrado dentro de nós
e, portanto, toda a tentativa de sustentar a fronteira do dentro e do fora, do
eu e do outro, dissolve-se, não por perda de si, mas por expansão de si. Esse é
um dos motivos pelos quais muitos mestres espirituais podem ser contraditórios
e polêmicos com seus discípulos: quando são mestres verdadeiros, fazem isso
para que que o discípulo experimente e transcenda todo o espectro da dualidade,
desde a ponta mais luminosa à mais sombria. Para que o discípulo não se ligue
ao mestre por atração ou por aversão, mas por reconhecimento da Unidade. Uma
vez alcançado esse estado, não há mais fora – tudo está dentro. O mestre não é
um líder autoritário que nos comanda arbitrariamente, mas antes um líder
servidor que se destitui do desejo de ser querido pelos outros para se tornar
um alvo de concentração no qual podemos gastar toda a nossa munição de
projeções do ego, até não restar mais nenhuma história a ser contada sobre
aquele alvo, e a experiência da Unidade se revele. E, a partir dela, podemos
expandir essa experiência para tudo e todos.
Somente seres com total desapego de seus próprios egos
poderiam coloca-los a serviço de tão grandiosa e árdua tarefa. De serem amados,
odiados, duvidados, seguidos cegamente, temidos, desejados, até que todos esses
fantasmas sejam destilados e reste apenas o reconhecimento do Inominável que,
uma vez visto no mestre, é visto em si e em tudo mais. Tudo passa a ser apenas
um instrumento para a refulgência do mais eterno e brilhante Amor.
Não posso afirmar que, nesses dez anos, todas as minhas
defesas caíram, mas posso dizer que as que caíram já foram suficientes para que
eu experimentasse um nível de paz e de conforto com a vida tão deslumbrantes,
que eu não trocaria por qualquer outra experiência no mundo. Mas foram dez anos
exatamente assim: amando, odiando, duvidando, seguindo cegamente, temendo e
desejando. De briga e paz. Não com meu mestre, ou com o Amor, mas comigo mesmo.
E eu sempre achava que era com Ele, mas no fim, via que era tudo projeção
minha, e que Ele sempre esteve ali, amorosamente me olhando e esperando eu me
encontrar. Logo, muito, muito grato, Baba, por sempre ter estado a meu lado. Só
você (e eu) sabemos a jornada épica que foram esses anos, dentro e fora de mim,
e de tudo que você fez por mim, para que eu crescesse e amasse tanto - a mim e
à vida.
Por fim, quero agradecer a todos os que me apoiaram nesse
caminho. Todos os mestres que me acolheram com carinho, em especial Jesus
Cristo, que me recebeu nesse mundo e que se revelou por meio de pessoas tão
especialmente iluminadas, como minha avó Ceiça, mãe de minha mãe, que me ensinou
uma espiritualidade que ama, e não que castiga. Sei que minha saída do
catolicismo pode parecer uma ruptura com minha história e minha tradição, mas
não é. Todos os mestres são um só, e isso a mente consegue compreender. Mas o
coração precisa amar alguém, como forma de aprofundar a relação (por isso
escolhemos alguém para casar, por exemplo), e essa escolha vai além da lógica
que conseguimos alcançar – só podemos entender com a intuição o que nos faz
escolher um mestre, e não outro, como nosso objeto de devoção. Meu coração
escolheu Anandamurtii, mas Jesus Cristo, e todos os que são, para mim,
instrumentos verdadeiros de seu amor, como minha avó e minha tia Célia, terão
sempre minha profunda gratidão.
Agradeço minha mãe, Maria Teresa, um ser liberto e que me
ensinou a liberdade. Se não fosse ela, eu não teria jamais me permitido trilhar
o meu caminho espiritual, e teria seguido num caminho que poderia ser bonito,
mas não meu. Ela foi e continua sendo o testemunho de servir ao Amor Maior em
qualquer forma com que ele se expresse, sem preconceitos, mas com muita
seriedade e, graças a Deus, bom humor.
Agradeço a todos os amigos e irmãos espirituais, com quem
compartilhei inúmeros momentos lindíssimos de prática, em que criamos juntos um
campo de elevação, em que nos sentimos juntos tocando os pés do divino,
enquanto cantávamos, meditávamos, contemplávamos a natureza, compartilhávamos
histórias espirituais, conversávamos sobre o que realmente importa ou
simplesmente compartilhávamos da doce presença um do outro. Nesse sentido,
agradeço especialmente a minha esposa, amante e parceira espiritual, Rafaela, e
a meus queridos companheiros da Comunidade Ser. Vocês são meus parceiros numa
jornada numa antes trilhada – a de viver a senda espiritual de autoconhecimento
e serviço ao mundo de forma coletiva, e materializando-a em projetos
transformadores que fazem crescer a nós e aos outros.
E agradeço a todos os outros monges e orientadores, de
Ananda Marga e de outros caminhos, que sempre me presentearam com joias de
sabedoria e de inspiração, a ponto de eu me sentir o homem mais sortudo desse
mundo, como um peregrino da alma que, a cada passo, encontra um sábio diferente
que lhe abre mais uma porta. Um agradecimento especial a Susan Andrews, pelo
conhecimento que me passou do Tantra e da Biopsicologia, e a Peter Sage, ou Dada
Vishvarupananda, por ter sido sempre com um pai amoroso e acolhedor, humilde o
suficiente para me ensinar tudo que sabe enquanto aparenta apenas estar
aprendendo comigo, e por ser, acima de tudo, uma manifestação do que mais
admiro no caminho da Ananda Marga.
Agradeço a tudo e a todos que fizeram desses dez anos uma
década mágica de despertar e aprendizado, e rezo para que possa chegar ao final
dos próximos dez anos com a mesma humildade e persistência de um praticante muito
especial de Ananda Marga que conheci: Vishvashanti, um americano que mora na
Dinamarca. Ele me disse num retiro que após vinte anos meditando sentiu que,
agora sim, estava aprendendo a meditar! E espero que esse testemunho possa
inspirar quem estiver sentindo o desejo de mergulhar nessa épica jornada para
que o faça o quanto antes – da sua forma, em seu próprio caminho - pois,
acredite, vale a pena. Que o caminho escolhido seja o do coração, e que a
potência mais profunda e misteriosa da vida se revele a nós, e nos guie.
Namaskar!
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quinta-feira, 28 de maio de 2015
Saudade vale a pena!
fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil
Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership
Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage.
Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior
de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos,
com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.
À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua
crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que,
algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma
nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar
para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa
sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.
Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as
emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela
jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca.
Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer
digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar
dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social:
“a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no
corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou
do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem
vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele
já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são
contundentes e irrevogáveis.
Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo,
nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza,
ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo
Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo
que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o
registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a
morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um
com ele novamente.
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma
jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou
com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que
abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada
de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós,
o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.
Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um
expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor.
Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se,
e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo
e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram
inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades.
Saudades do Grande Amor.
Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que
criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta
que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão
com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar,
de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir
externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.
E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria
o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso
Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e
tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir
saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde
estamos, e para onde vamos.
E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos
mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga,
aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar
como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu
amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada
sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos
vividos juntos.
Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade
vale a pena!
domingo, 9 de novembro de 2014
Oração
Entro na sala de meditação da minha casa.
Agradeço o violão encostado na parede.
Agradeço a graça de tocar a sua música.
De ser banhado com melodias,
E não com o ronco dormente
Das ruas congestionadas.
Toco e canto acompanhado por minha esposa.
Agradeço a graça de ter uma companheira.
Agradeço o vínculo verdadeiro,
E a benção de ser recebido com o
Coração vazio e a
Alma clara,
E não com as cobranças de uma relação
Baseada no medo, na projeção e na carência.
Sento para meditar.
Agradeço o dom do silêncio.
Agradeço por poder me alimentar dele,
Tanto quanto do pão, da sopa e do suco.
Por ser invadido e limpo pelo
Oco criativo da alma,
E não pelos estímulos do consumo desenfreado.
Encontro, em mim, um Deus divino, imutável.
Agradeço o presente da devoção.
Agradeço poder amar mais que o coração suporta.
Ser iluminado pelo todo que habita em mim,
E sentir que estou seguro e amparado,
Que sou importante por existir,
Em vez de lutar ansioso pela sobrevivência,
Tentando inutilmente ser maior e melhor, a cada dia,
Para provar que importo.
Uma lágrima escorre do meu olho.
Agradeço a beleza do encontro.
Agradeço poder me unir ao eterno, a mim e ao outro.
Poder levantar-me do meu silêncio para, mãos em prece,
Entregar-me inteiro a meu criador, e ao universo, e assim
Retornar a um dia a dia mágico,
E não me debater em agonia,
Por ter de voltar ao sacrifício
De uma vida sem sentido.
Levanto-me, e meus olhos encontram o sol.
Agradeço o dia.
Agradeço o tempo, com todos os seus matizes.
O sol que aquece minha face é tão reconfortante,
Quanto a chuva que alimenta os rios de minha sede,
E o cinza que me tira da euforia, e me traz mais perto
De mim.
Que alegria poder celebrar a natureza,
Em vez de lutar contra ela,
Como se fosse um inimigo constante e imprevisível.
Olhos fechados, vejo e sinto imagens de sofrimento pelo
mundo.
Agradeço os que não me deixam sossegar.
Agradeço os que apontam minhas incoerências de quem tem
tudo,
Enquanto outros quase não têm.
Aqueles que apontam meus privilégios, meus apegos,
Me mantêm acordado e vigilante para querer ser feliz
Servindo o próximo e compartilhando a abundância,
Caindo, se possível, cada vez menos,
Na felicidade autoindulgente e aristocrata
De quem não sai do próprio umbigo.
Repouso no meu espírito.
Agradeço o conhecimento, a sabedoria e a entrega.
Agradeço poder ter recursos para me mexer – aqui dentro e lá
fora.
Saber que pelo diálogo, pela palavra, pela arte, pelo
exemplo,
Ou por qualquer outro dom que me for dado,
Posso crescer na minha capacidade de ser quem sou
E de ser parceiro do outro e do mundo, para serem quem são.
Respiro aliviado por não estar impotente, nem indiferente,
Diante do que sei que pode e deve mudar.
Escrevo esta oração.
Agradeço a palavra do ser humano.
Agradeço a inspiração divina.
Sentir essa união entre terra e céu,
Entre um e todo,
E a nossa capacidade de partilhar o dom,
É tão mais gostoso
Que padecer eternamente
Da falta de beleza que nos rouba
A graça de viver este momento.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
A força do coração
foto tirada em Davao, Flipinas, jurante a jornada
Enquanto volto para o Brasil,
após 35 dias fora e de tantos acontecimentos internos e externos que mexeram
comigo, relembro as reflexões que compartilhei logo que parti. Naquele momento,
a pergunta que emergiu em mim dizia respeito a como criar estruturas mais
fortes e poderosas para permitir que a consciência se expressasse de forma mais
vigorosa e generosa em mim. E percebo que estou retornando não com uma resposta
final, mas com uma vasta colheita de percepções que sinto vontade de
compartilhar. Algumas colheitas já estão em mim, outras estou começando a regar,
e outras, ainda, quero plantar no momento oportuno. A mais importante, agora, é
a realização, num outro nível de qualidade, muito mais profundo, da força do
meu coração.
Por diferentes motivos, durante
minha vida, aprendi a trabalhar com, mas ainda assim temer, minha
vulnerabilidade. Os pontos fracos da minha personalidade e da minha psique com
as quais eu não consigo lidar tendem a se defender do medo da exposição, de
forma pouco sustentável, das seguintes formas:
1. Prazer
compulsivo: associando prazer a algum pensamento ou ação compulsiva, eu
consigo abafar algum aspecto interno com o qual não consigo lidar;
2. Superstição:
ritualizando algum tipo de comportamento ou pensamento, e o associando a um
resultado que quero alcançar ou abafar, eu evito o medo de que o que me assusta
pareça que vai de fato acontecer;
3. Atitude
contrafóbica: exagerando e expondo o meu medo, de forma catártica, abrindo
as porteiras de meus contornos e limites saudáveis para pessoas que não estão
preparadas para contribuir com meus processos internos e de vida, eu crio uma
relação fantasiosa e condicional de que serei compensado, pela minha coragem,
abertura e entrega, com a cura ou a proteção contra aquilo que me assusta;
4. Complexo
de inferioridade: abrindo mão de perceber e sustentar o que sinto e
acredito num certo contexto, para concordar com alguma autoridade interna ou
externa que, na minha fantasia, sabe o que é melhor para mim e pode me punir
com a exposição ou destruição da minha parte frágil, caso eu não aja
“corretamente” (de acordo com o que “correto” se apresente para esse tirano
interno ou externamente projetado);
5. Submissão:
indo mais fundo no complexo de inferioridade, quando eu simplesmente atribuo
prazer ao abuso do meu tirano interno ou externo, como forma de me render a ele,
achando felicidade, ainda que pequena e ilusória, naquilo que me causa dor e
medo, para poder ter o alívio – ainda que momentâneo – de desistir e ceder ao
cansaço da luta constante.
6. Arrogância:
usando qualquer ilusão de poder que eu sinto que tenho, seja no campo
financeiro, intelectual, de controle emocional ou de percepção espiritual, para
tentar ter a sensação (e, às vezes conseguir) de que as pessoas se curvam a
meus pés e fazem o que quero – em especial, que elas me servem em minhas
necessidades não atendidas e fragilidades, quando eu preciso – para, assim, ter
o alívio fugaz de continuar protegendo minha vulnerabilidade e estar no
controle.
Essas estratégias, originalmente,
não foram desenvolvidas com má intenção, mas como a defesa que eu tinha diante
de situações que me pareceram mais assustadoras ou abusadoras do que minha
capacidade para lidar com elas. O resultado imediato foi – e continua sendo –
alívio momentâneo, mas o resultado em médio e longo prazo, pouco sustentável, é
uma frustração imensa por não conseguir dar saltos maiores no meu
desenvolvimento interno e externo, por não conseguir sustentar coisas que sei
que são poderosas para mim, mas que poderiam, para meu inconsciente,
destruir-me ou à minha imagem. Não me refiro aqui a saltos maiores que vêm do
ego superexigente e que não se contenta com o que tem, mas dos saltos
verdadeiros que o coração quer dar naturalmente, que já está, de fato, tentando
dar, mas que não consegue completar, gerando a sensação de energia reprimida e
potencial não utilizado.
Nada disso é muito dramático, na
verdade, pois graças a Deus eu tenho uma vida muito equilibrada e feliz, mas
como sinto que a consciência tenta se expandir sempre, trata-se de território
não explorado e que não pode ser evitado, caso eu queira continuar evoluindo na
minha autorealização e na minha capacidade de servir. E, também com a graça
Divina, nesta jornada eu recebi muitas peças do quebra-cabeça, tanto no sentido
do que preciso explorar mais quanto do como fazer essa exploração, e as peças,
agora, enquanto escrevo, começam a se juntar, e sinto que podem trazer, talvez,
insights para as jornadas de alguns que leem esse texto.
Alguns desses insights são:
1. Abrir
mão da gratificação pessoal em curto prazo: o medo da vulnerabilidade traz
um desejo de que as coisas tragam para mim um resultado positivo imediato, na
forma de prazer interno, de reconhecimento pessoal ou do impacto das minhas
ações. Quando o resultado não vem, existe uma sensação de fracasso e
frustração. Mas, na verdade, quando estou conectado com meu propósito, eu posso
sustentar posições, erros e experimentações pelo tempo que for necessário, sem
medo do caos, da desaprovação ou da emergência do meu lado sombrio, confiando
que o resultado das ações não está nas minhas mãos e que o sofrimento de agora,
quando pleno de significado, pode estar plantando uma felicidade ainda maior no
futuro. Embora eu já soubesse disso intelectualmente, ganhei novas percepções
profundas sobre esse aspecto e, principalmente, exercitei essa musculatura,
tornando-me mais forte para essa sustentação.
2. Preservar
minha energia e meus contornos: pelo medo de estar sozinho com minha
vulnerabilidade, uma parte minha evitava dizer não para qualquer troca social
ou relação interpessoal, com medo de desagradar o outro. Eu evitava me recolher
para ficar sozinho ou adotar uma postura de menos toque e troca corporal. A
desaprovação e a solidão eram sensações que potencializavam o terror de estar
com minha sombra e minhas fragilidades, e assim eu me mantinha constantemente
poroso ao outro, para me sentir protegido. Entretanto, à medida que eu me
relaciono de forma cada vez mais íntima com a Consciência Maior, na forma da
Entidade Mais Amada para mim, mais esse espaço interno fica confortável, e
consigo preservar momentos de silêncio e solitude, nutrindo-me, inclusive, da
minha vulnerabilidade. E à medida que percebo de forma mais clara que não sou
essencial para o outro, e que é o Amado Interno de cada um que trará o
preenchimento e os resultados desejados, eu consigo aceitar não ter que abrir
todos os meus poros para servir e me relacionar constantemente, como se o outro
fosse inevitavelmente se corromper, perder-se ou sofrer se eu não estiver
presente. Isso traz, junto, uma profunda segurança nas pessoas, na vida e em
nosso destino, e um profundo relaxamento, por só precisar dar conta daquilo que
é meu, daquilo que meu coração pede agora – e não mais.
3. Sustentar
a troca amorosa: como contraponto da percepção interior, ficou claro que a
estratégia oposta e complementar para evitar a dor da vulnerabilidade, é ficar
no conforto do meu espaço interno, num lugar em que o toque físico e a troca
são considerados invasivos, imaturos ou desnecessários. Como estar no próprio
espaço pode ser muito gostoso, como quando moramos sozinho e nos acostumamos a
ter tudo de nosso jeito, existe um lugar que se torna intolerante às trocas. Minha
percepção é que o prazer interno gerado pelo silêncio e pela solitude é, entre
outras coisas, um prazer narcísico, e como não desejamos sair do prazer, nos
protegemos do que pode ferir o espelho. Foi interessante, pois essa percepção
surgiu à medida que eu me via adotando o comportamento mais discreto que vivenciei
em alguns grupos e culturas com os quais tive contato, no Brasil e durante essa
viagem, e percebia a luz desse comportamento (que levou ao insight acima) e,
também, a sua sombra, que sinto que emerge quando ele deixa de ser uma escolha
e passa ser uma imposição interna ou cultural.
O que senti em
mim, e que também ajudou a clarear o que parcialmente me incomodava nesse
comportamento, é que, se por um lado, há uma sensação de sutileza e conforto em
estar no próprio espaço, pode existir também maior intolerância e julgamento ao
desconhecido que pode surgir da interação, fazendo com que exista um sabor
depreciativo, às vezes muito sutil e implícito, na relação com o que está fora.
Seja numa versão mais espiritual, que passa a julgar ou condenar, ainda que
muito sorrateiramente, o “mundano”, seja numa versão mais mundana, que expressa
irritações com os outros e com como as coisas são feitas pelos outros.
O mundo e outro
jamais serão capazes de dar contorno necessário para que possamos descansar
para sempre em nosso espaço interno, e isso gera muita frustração. Como
consequência, alguns de nós criam e se escondem em claustros pessoais (nossas
casas, nossas vidas íntimas impenetráveis, nossas práticas espirituais
solitárias, nossa vida social restrita) e coletivos (nossos clubes, comunidades
fechadas, entre outros). Lembrando que não necessariamente a escolha da
solitude ou de viver mais recluso venha desse lugar, mas, em alguns casos, esse
pode ser o fundamento basal desse tipo de escolha.
Mas, abrindo mão
desse conforto e do prazer que ele traz, para encarar as informações geradas
pela troca – espirituais, mundanas, dolorosas, prazerosas, não importa – como
bem vindas e como fonte de expansão do coração, a troca física e emocional
passa a ser também bem vinda, junto com toda a vulnerabilidade que ela causa. Ao
viver de forma mais plena essa dicotomia – da solitude e da troca amorosa –
percebi, junto com minha decisão de me preservar mais, a minha intenção clara
de sustentar o toque, o abraço e a conversa profunda e íntima sobre qualquer
tema, em qualquer contexto – tomando o cuidado, claro, de dialogar com culturas
que sejam diferentes, e não de invadi-las ou julgá-las. Não se trata de querer
mudar o outro, mas de sustentar o que é importante para mim.
4. Usar
o poder para contribuir, e não para exigir: lembro-me de alguns momentos
durante minha estada num hotel nas Filipinas, já no final da viagem, cujo
objetivo era apenas relaxar e me divertir. Por isso, dei-me o presente de
escolher um lugar onde eu pudesse ter todos os confortos que eu queria. E assim
que o lugar começou a frustrar minhas expectativas: o telefone quebrado, a
internet que não funcionava, a comida que não veio do jeito que pedi, eu logo
me vi na posição do cliente exigente, duro e reclamão. Porque, claro, eu estava
pagando, então eu tinha direito. E esse lugar me mostrou de forma muito
pungente como o poder pode despertar meu lado tirano, que deseja que todos
sirvam minhas necessidades e não exponham minhas fragilidades.
Ficou claro
que um lado meu topava servir quando eu estava sendo pago ou fazendo trabalho
voluntário. Pois no trabalho voluntário há a compaixão, e no trabalho pago há o
compromisso com entregar o melhor para o cliente. Mas se eu estou pagando, quem
tem as regras do jogo sou eu. Que história é essa de me contrariar? Se eu estou
pagando, eu não tenho que ajudar ou ser bonzinho – eu tenho que ser ajudado. Os
outros têm de ser bons comigo. Hora da revanche! Eu não tenho que passar por
cima de alguns limites pessoais para servir os outros? Eu não tive que baixar
minha cabeça para atender necessidades dos outros? Pois agora é a vez dos
outros fazerem isso por mim!
E, dessa
percepção verdadeira e dolorosa, veio a realização clara de que, sim, eu estou
aqui para servir, em todo momento, em todo lugar. Mesmo quando isso me faz
sentir vulnerável. Mesmo quando estou pagando. Mesmo quando eu tenho poder.
Mesmo quando a bola está comigo. Não importa quão poderoso eu seja: eu não
estou aqui para abafar os erros e as fragilidades, e sim para jogar luz sobre
elas, para que possamos criar um mundo mais belo e feliz a cada segundo. E isso
implica sustentar a minha força amorosa como agende de transformação do mundo,
de sustentar essa força perante a vulnerabilidade minha e do mundo, e, também,
de atender cada vez mais minhas necessidades – mesmo quando estou servindo
voluntária ou remuneradamente – para que não haja nada a ser pago depois.
Nenhuma vingança oculta. Usar o poder para contribuir, e não para exigir. E foi
isso que fez com que, no final, eu conseguisse dar os feedbacks que precisava
de uma forma que criou conexão com os funcionários do hotel. Senti que saímos
com brilhos nos olhos de nossa breve, mas significativa, interação. E agora
quero mais disso.
5. Sustentar
e desenvolver minha força física e energética: já há algum tempo venho
falando, em diversos contextos, sobre sustentar o ponto basal de nossa
consciência em pontos mais sutis e expansivos, como o coração. Isso significa
buscar fazer com que, literalmente, cada pensamento e emoção sejam sentidos,
fisicamente, na altura do coração. Não se trata de reprimir ou negar os demais
sentimentos e pensamentos, mas de reconhecer que sempre estamos olhando as
coisas por algum filtro. Podemos aceitar nossa sombra, nosso ódio e nosso medo
a partir do filtro do amor, tanto quanto podemos receber o amor a partir do
filtro do ódio. Justamente, quanto mais sutil e expansivo o ponto basal, mais
dentro dele cabem todos os tipos de sentimentos e emoções. Os pontos basais
mais sutis não temem nada, e conseguem aceitar incondicionalmente e transmutar
todos os aspectos de nossa personalidade. Isso é o que eu já sabia. Agora,
percebi também a necessidade de desenvolver um tônus físico e energético para
sustentar esse ponto basal em mais situações, em especial em contextos mais
associados à energia masculina.
A luta pela
sobrevivência física, a guerra, a tirania, a repressão, a tortura física,
mental, emocional e espiritual, para dar alguns exemplos, fazem parte do drama
humano, em especial no aspecto do masculino desequilibrado e, em vez de fugir
dessas grandes fontes de vulnerabilidade, quero me sentir cada vez mais seguro
para abraça-las e contribuir para transmuta-las. E essa viagem me deu muitos
exemplos disso, pois tanto no Haiti, quanto nas Filipinas, entrei em contato
com pessoas e povos que precisam se readequar e escrever uma nova história a
partir de calamidades muito graves, como terremotos, tufões e ditaduras
violentas e sanguinárias. Impossível abraçar essas histórias e recriá-las de
forma positiva e empoderadora sem sustentar profundamente a força do coração.
E eu percebi que
se, por um lado, não quero desenvolver um complexo contrafóbico de mártir, de
me lançar em situações perigosas, por outro eu não quero viver como se eu fosse
apenas meu “eu individual”: eu sou o mundo todo. Negar ou se abster do que está
acontecendo no mundo é fechar os olhos não para o que está “acontecendo lá
fora”, mas para uma parte de mim. É deixar de me conhecer. E sinto que meu jeito
de me conhecer e me engajar com o que descubro não vem tanto pela leitura dos
jornais e pelo debate filosófico e macropolítico – ele vem, principalmente, por
interagir e cocriar com as diversas partes de mim mesmo – as diversas partes do
mundo. Para isso, preciso aumentar minha capacidade física e energética de ser,
lutar e empreender, a partir do coração. Até mesmo para lidar com coisas
menores, mas ainda assim significativas, no meu processo de lidar com minha
vulnerabilidade, como o medo de morrer sozinho numa viagem de avião ou de não
conseguir sustentar meu tônus como homem perante as mulheres e outros homens.
6. Abraçar
e expressar a minha sensualidade e a sensualidade da vida: como garoto que
cresceu com uma deficiência física, que tornava minha fala incompreensível e
minha aparência pouco atraente, cresci negando a sexualidade e a sensualidade
plena na minha vida, pois tocar nesses pontos me deixava extremamente
vulnerável. Aos poucos, fui curando a conexão e a expressão da sexualidade, mas
só nessa viagem percebi o quão profundamente eu negava minha sensualidade.
Sensualidade, aqui, entendida em seu aspecto amplo: a física, que gera
confiança para se embelezar, vestir-se, tatuar-se e se enfeitar para expressar
o prazer com o próprio corpo e com a própria aparência; a sexual, que gera empoderamento
e conforto com a sedução e a capacidade de ter prazer com as mulheres que
considero mais atraentes para mim, culminando na relação plenamente sensual com
minha esposa a partir de um lugar de atração plena, e não de gratidão por
alguém se sentir atraído por mim; a social, fazendo tudo que faço de forma
poética, inspiradora e prazerosa; e a espiritual, assumindo mais o aspecto Amado-Amante
na relação com Deus, descrito por tantos santos místicos, como São João da
Cruz, que em seu clássico “A Noite Escura da Alma” diz, para expressar sua
relação de amor com o Divino: “o meu amado beijou o meio seio”. É viver a vida
como se, com cada gesto – do trabalho que faço, à comida que como, ao amor que
compartilho com minha esposa – eu estivesse me preparando para a grande noite
de núpcias com meu Amor Maior. Como se cada sorriso fosse o perfume que coloco
para Ele. Cada ato de bondade, a melhor roupa. Cada momento de felicidade, o
banquete que preparo para nosso jantar.
7. Abraçar
o guerreiro que mora em mim: li uma vez no incrível livro “João de Ferro”
que, em algumas culturas, antes de usar a espada o homem precisa aprender a
dançar. Logo, junto com a percepção da necessidade de desenvolver minha força
física e energética e de abraçar e expressar a sensualidade, nasce a garra para
ser e viver o meu guerreiro. Um guerreiro forte, assertivo e luminoso, que não
tem medo de desagradar, que deixa suas crenças e posições claras, mas que não
faz isso com complexo de superioridade, imposição, ou julgando e reprimindo o
outro. Faz com o coração e o olhar limpos, com a certeza de estar construindo o
que é importante para si e para o outro, e aberto para se deixar tocar,
aprender e refazer suas certezas, a partir do que a vida traz. Antes, o medo
era de que meu guerreiro despertasse uma fúria (de Deus ou dos outros) que me
destruísse, e a estratégia, portanto, era ou negar e abrir mão desse guerreiro
ou expressá-lo de forma violenta. Agora, quero deixar ele se expressar e
aprender com ele, com como ele pode ser cada vez mais veículo de amor e luz,
mesmo que eu tropece um pouco até estar mais apropriado dele. Isso está me
fazendo com que, desde já, eu assuma com firmeza posições que, antes, eu titubeava
para afirmar.
Todos esses insights, juntos,
tornaram claro para mim o quanto meu movimento, agora, é de fazer o que faço,
assumindo a força do meu coração. Uma força que é muito poderosa, e também
muito amorosa. E que é essa força que vai potencializar o que já está aqui, o
que já estou fazendo, e que apenas estava precisando de mais espaço. Não para eu
poder ser maior, mas para poder ser pleno. Para poder cumprir o destino que me
colocou aqui, e dar vazão, por inteiro, ao desejo de iluminar meu espaço
interno e servir o mundo. Que venham os próximos passos da jornada!
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segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Eu não sou necessário para ninguém. Mas todos precisam tocar
os pés do Amor.
Eu não sou essencial na vida de ninguém. Mas o Amor é
essencial na vida de todos.
Eu não faça diferença na vida de ninguém. Mas o Amor faz
diferença na vida de cada Ser.
Ainda assim, quando eu me faço transparente para o Amor, de
alguma forma minha existência parece necessária, essencial e importante na vida
de alguém.
Ainda assim, é só o Amor, o mesmo Amor, se fazendo
necessário através de mim.
E, mesmo quando eu não me faço, ainda assim eu sou o filho
especial desse Eterno Amor, e mereço estar aqui.
Todos merecem estar aqui, brilhantes ou não, amorosos ou
não, sábios ou não, especiais ou não, ajustados ou não. Porque o Amor é
necessário, e nós somos veículos Dele.
Se há um trabalho que desejo e devo fazer, é ser cada vez
mais límpido para que, estando claro, outros possam, através de mim, ver e
tocar o Amor.
Não porque as pessoas precisem ver e tocar o Amor através de
mim, e sim porque o Amor quer resplandecer por meio de todos os Seres, em todas
as partes.
Eu sou uma dessas partes, e quero honrar o presente que
recebi.
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sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Devoção – a relação sustentável definitiva
Por Gustavo Prudente
Nós, seres humanos, estamos o
tempo todo buscando nosso “abrigo mais seguro”, como diria o filósofo indiano
Prabhat Rainjan Sarkar. Um lugar de felicidade que seja o mais duradouro, ou
sustentável, possível. Nessa caminhada, encontramos diferentes níveis de
bem-estar e segurança em portos-seguros como o dinheiro, a família, a relação
amorosa, os amigos, o trabalho, a realização de um propósito maior de vida e a
espiritualidade.
Como somos seres que basicamente
se relacionam (até mesmo de olhos fechados “conversamos” com nossa consciência
ou com referências internas nossas, como Deus), nós buscamos também a relação
que seja mais segura e que nos seja por mais tempo fonte de prazer e
felicidade. Sabemos que, em geral, colegas são fontes mais sustentáveis de
felicidade que meros desconhecidos, amigos mais que colegas, amigos íntimos
e/ou família mais que amigos. Mas mesmo essas relações não se mostram fonte
constante, eternamente durável, de felicidade, pois dificilmente admiramos e
nos nutrimos de nossas relações, mesmo as mais íntimas, o tempo inteiro. Além
disso, cada relação nos nutre em algo específico, e dificilmente nos
relacionamos com algo ou alguém que supre todas as nossas necessidades.
Haveria uma relação capaz de nos
nutrir constante e plenamente, sendo fonte eterna de felicidade? Uma relação
mais que 100% sustentável, pois contribui para a sustentabilidade de outras
relações que travamos com as pessoas ao nosso redor?
Minha experiência de vida me
levou até agora a acreditar que sim. Existe uma relação sustentável definitiva,
que se estabelece por meio da devoção, ou seja, de devotar amor pleno e
incondicional à vida ou à consciência maior que nos rodeia. E este amor, para
existir em relação, precisa ser canalizado para algo ou alguém que represente a
vida ou a consciência, para que assim esses conceitos tão abstratos possam ser amados
de forma concreta e personalizada. Devoção significa amar uma figura com forma
e nome como portal para acessarmos a fonte maior da vida, processo que é
exemplificado muito bem na cultura oriental por meio do arquétipo dos mestres.
Falar em devoção em nossa cultura
ocidental é sempre muito delicado porque ela facilmente pode ser confundida com
submissão ou fé cega. Nesses casos, não há amor (característica essencial da
devoção), mas no máximo paixão, ou qualquer outro sentimento que ajude a
preencher uma dor ou vazio subjacente que surge quando não estamos amando ou
sendo amados (pois estar submisso ou seguindo cegamente algo ou alguém nos
ajuda a “abafar” esse sentimento de dor e vazio com um pseudo sentimento de
amor, por obtermos aprovação daquele que nos domina ou a quem seguimos). Nesse
caso, o que existe não é devoção, mas a busca por atrair a aprovação ou evitar
a desaprovação.
Na devoção, existe um sentimento
de amor tão profundo e verdadeiro, que a única ação possível é a gratidão.
Damos o melhor de nós mesmos para o outro porque estamos tão felizes que a
única forma de agradecer é fazer algo pelo outro. Quando o outro é um amigo, um
filho ou uma namorada, agradecer pode significar fazer pequenos gestos de
carinho ou se esforçar para ajudar o outro em suas dificuldades. No caso desse
outro ser a vida ou a consciência maior, ou seja, um outro que já tem tudo em
si, a única alternativa restante é... cuidar da vida, que implica cuidar do
planeta e de todas as relações que nele nutrimos. Por gratidão.
Assim, o devoto é aquele que se
sente amado por algo ou alguém que já possui tudo em si, a quem nada falta, e
devolve esse amor cuidando desse todo da melhor forma possível. Como esse todo
inclui os rios da minha cidade, eu empreendo ações ecológicas para proteger e
limpar os rios. Como esse todo inclui minha família, eu nutro relações
saudáveis e de respeito com ela. Como esse todo inclui meus desafetos, eu
exercito constantemente a prática do perdão. Tudo isso sem a intenção de ser
bom ou de ser admirado. Apenas por gratidão. Por ser a única forma de amar um
todo que nos ama com eterna abundância.
Nem entro aqui no mérito de se
esse todo é o que chamamos de Deus, ou se ele existe. Estou falando do nível
mais básico de condicionamento interno, psíquico e biológico. Sabemos hoje que
nosso cérebro reage de forma muito parecida a eventos vividos e eventos
imaginados, então se estamos nos relacionando com um ser real ou não, tanto
faz. O que importa é que, para nosso cérebro, estamos constantemente (até de
olhos fechados) nos relacionando com um ser que nos ama e que é por nós amado,
plenamente. E essa relação, fonte de nutrição constante, torna-se, portanto,
fonte de uma sustentabilidade perene, que pode ser replicada em diferentes
níveis com as pessoas “em carne e osso” a nossa volta.
E como nossas crenças sobre a
vida influenciam diretamente tanto nosso potencial criativo, quanto nossa
motivação para empreender nossos sonhos e as estratégias que desenvolvemos para
realizar essas conquistas, ter uma figura interna, que eternamente nos apóia e
motiva, nos ajuda a reforçar constantemente a sensação de que, sim, nós somos
capazes. De que nós vamos conseguir. De que a vida é abundante e de que todos
os recursos já estão aqui, ao nosso redor. De que o presente é um presente (ou
seja, uma fonte abundante de gratas surpresas). Sabemos disso porque há algo em
nós que nos apóia e nos diz que, sim, não estamos loucos: a vida é naturalmente
sustentável.
Por isso, sugiro um experimento:
sente-se de olhos fechados diariamente e crie uma relação com algo ou alguém
que represente, para você, o todo. Não basta ser alguém que você “ama muito”.
Imagine que você pudesse personalizar ou materializar a totalidade da
existência, ou do universo. Como ou quem seria essa personificação? Pode ser
uma figura religiosa ou algo ou alguém bem inesperado. Seja como for,
enamore-se dessa figura e comece a criar uma relação com ela, conversando com
ela inclusive. Ouça o que ela diz e responda, se for o caso. Se esse exercício for
feito diariamente, depois de sessenta dias, gostaria de ouvir a sua história. Gostaria
de saber se seu cotidiano está ou não ao menos um pouco mais sustentável, seja
nos aspectos mais sutis – nas suas relações interpessoais, por exemplo - ou nos
aspectos mais práticos – por exemplo, a maneira como você cuida do seu lixo.
Minha aposta é que a devoção fará de você um ser humano muito mais
(naturalmente) sustentável.
Gustavo Prudente é laboratório-vivo de
sustentabilidade no projeto Senhor Sustentável (www.senhorsustentavel.org) e membro
da Comunidade SER – Sustentabilidade, Educação e Arte. gustavobprudente@gmail.com
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A arte da presença
significativa
Desde ontem está tomando forma uma pergunta que já vem
crescendo em mim há algum tempo: como anfitriar e sustentar a arte da presença
significativa? Desde que comecei a compreender no meu corpo alguns conceitos
espirituais que antes eram pura abstração, como “estar no aqui e agora”, e
experimentei em retiros e outros momentos o poder do silêncio, ficou mais claro
o quanto nem sempre a fala é o único ou melhor meio de compartilhar o que é
significativo.
Adianto que eu sou totalmente a favor da conversa. Acho a
palavra poderosíssima e um ótimo instrumento de expansão da consciência e de
elevação espiritual. Inclusive, ela ajuda a construir a presença e muitas vezes
é a escada que nos leva para aquele lugar onde não há mais nada a dizer. Por
isso, a presença para mim se coloca como um potencial a mais a ser expresso, e
não como algo “superior” ao diálogo falado.
A conexão com esse potencial ficou ainda mais forte nos
últimos tempos porque, à medida que iam aumentando os momentos de felicidade, é
como se a minha relação com as pessoas chegasse num ápice no qual a vontade era
de ir ainda mais longe na mágica do que estava acontecendo, na sensação de
êxtase no corpo, mas a boca não conseguisse achar palavras, e qualquer conversa
iniciada a partir daí parecesse forçada ou não alcançasse a profundidade do que
eu estava sentindo. E aí eu ficava sem graça, sem saber o que fazer – até com
medo de fazer ou falar alguma “bobagem” que me (nos) tirasse daquele estado tão
bonito e gostoso.
Às vezes, e em certos grupos ou contextos, esses momentos se
transformavam em (ou vinham de) experiências “explicitamente” espirituais.
Acabávamos fechando os olhos, meditando um pouco, cantando algum canto
espiritual, ou qualquer coisa do tipo. Mas isso às vezes também começou a me
parecer uma “fuga” – por não saber o que fazer, sinto que recorremos, às vezes,
para um “ritual” que nos proteja de simplesmente estar na presença livre,
fluida, sem contorno – e, portanto, assustadora, pois não sabemos para onde ela
vai e nem o que pode emergir, dentro e fora de nós, a partir dela.
Aos poucos, à medida que fui também compreendendo a
simplicidade do que, no meu corpo, é verdadeiramente espiritual, fui
conseguindo sustentar uma presença que abria espaço para sentir cada vez mais a
pureza e a beleza do momento presente. Sem precisar honrá-lo com nenhuma
palavra bonita, nenhum mantra, nenhuma sabedoria espiritual, nenhuma conversa
significativa, nada. Sem precisar chorar, tornar sagrado, ritualizar. Sem
precisar inclusive falar ou fazer nada espiritual – às vezes a situação em
questão era absolutamente mundana.
Mas, em algum lugar silencioso, simples e tranquilo, somente
estar ali, naquele lugar, ou com aquelas pessoas, era absolutamente
significativo. Dourado. Precioso. Era tudo aquilo que não é possível expressar
com palavras. Experimentei isso inúmeras vezes com minha esposa: longos
períodos sem falar ou fazer nada, apenas comungando de estarmos um com o outro.
Às vezes apenas se olhando, até uma emoção profunda e impossível de se
expressar tomasse nosso corpo.
Também senti isso com minha mãe, no mês que passei com ela
no começo deste ano – por exemplo, nas várias vezes em que sentávamos para
jantar, às vezes falando com a boca coisas pequenas, como sobre um programa de
televisão, mas com o coração falando muito mais. E vivi isso em tantos momentos
com a Comunidade SER, com amigos queridos, em trabalhos significativos, em
rodas de risada sobre qualquer besteira ou falando com amigos sobre sexo em seu
aspecto mais carnal – e, ainda assim, meu estado de presença tornava aquilo significativo
e espiritual. E, também, claro, senti nos retiros, meditações coletivas, nas
minhas práticas espirituais, na natureza e comungando das práticas de outras
pessoas. Mas é tão bom sentir que a presença significativa não está só nesses
momentos mais “oficialmente” espirituais, mas literalmente em qualquer momento.
Por isso ela é uma arte – pois se trata de refinar não o que está acontecendo,
para ficar “mais profundo” ou “mais espiritual”, mas refinar a nossa forma de
estar nisso. E isso requer a sensibilidade do artista.
E, mais recentemente, tenho sentido isso aqui no Haiti. É
tanta beleza nesse povo, e é tanto encontro bonito, que tenho experimentando
essa arte em ainda maior profundidade. Com os queridos amigos que fiz aqui e
com os quais consigo conversar livremente em inglês, são momentos em que
simplesmente as palavras já não conseguem honrar o sagrado do que estamos vivendo.
Com os demais, com os quais consigo conversar um pouco em francês, são momentos
que transcendem a barreira da linguagem. Momentos de pura presença. Presença
significativa. Nem dá para explicar muito, porque não é algo que os conceitos
consigam capturar: é presença. Vontade de nos perder na dança do que nos faz
feliz.
Agora, eu sei que ainda tenho muito que aprender sobre essa
arte. Assim como não aprendemos de berço a anfitriar conversar significativas,
não aprendemos a anfitriar a presença significativa. Eu ainda preencho muito
espaço: com fala, com ideias, com soluções prontas, com julgamentos e
preconceitos, com verdades formadas sobre muita coisa, com tentativas de me
mostrar valioso e especial, para suprimir o medo da rejeição.
Então, olha só quanto espaço aberto para aprender e refinar
uma arte! E, quem sabe, assim como nas últimas décadas a arte de anfitriar
conversas significativas tem sido sistematizada e, assim, multiplicada – e, eu
torço, vai ser matéria básica de qualquer processo de aprendizagem no futuro – pode
ser que uma dia consigamos sustentar mais conscientemente espaços para ficarmos
confortáveis e desenvolvermos a presença, mas não a presença banal, ou a ritualizada, e sim a
presença significativa, que nos permite viver no máximo de profundidade
qualquer tonalidade da vida, da mais sagrada à mais profana, e qualquer
sentimento, do mais gostoso ao mais difícil, e de estar inteiros para
testemunhar o sagrado da vida em todos – absolutamente todos – os seus
desdobramentos.
Vamos juntos desenvolver essa arte?
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quarta-feira, 27 de julho de 2011
Espiritualidade Orgânica
Estive meditando sobre a semelhança de certos comportamentos que experimento em ambientes de desenvolvimento humano e espiritual e a seção de orgânicos do supermercado. Em meu processo de vida, percebi que às vezes, no campo das emoções e do espírito, posso confundir o que parece lindo e deliciso – mas que é feito à base de agrotóxicos emocionais – e aquilo que parece meio defeituoso – mas esconde um incomparável sabor de vida e saúde.
No supermercado, a seção de “não-orgânicos” é composta de legumes e verduras altivos, super coloridos, grandes, bem formados. Um bom exemplo é a cenoura: a pobre cenourinha orgânica, perto da “comum”, é pequena e torta. As alfaces à base de agrotóxicos não têm bichinhos, e as uvas e os morangos parecem estar sempre fresquinhos. No entanto, quando como um morango orgânico, ou faço um petisco com cenoura crua sem agrotóxicos, além de ser mais saudável, a diferença de sabor é notável – o orgânico é disparadamente mais gostoso.
Por quê?
Da mesma forma, frequento e já frequentei espaços de autoconhecimento ou de desenvolvimento espiritual absolutamente atraentes. As pessoas sorriem, cheias de auto-estima, abraçam, olham nos olhos, cantam e dançam celebrando o amor. Elas trabalham suas feridas de infância, realizam curas interiores e parecem orgulhosas de seu arrebatador estilo de vida espiritual. Lugares assim são lugares limpos, tocam música calma, investem no cuidado estético apurado, e são rodeados de natureza exuberante. No entanto, diante dos olhares de irritação toda vez que algum membro da tribo desvia desse encantador comportamento, persiste em mim a sensação de que algo está errado. Uma sensação de que aquela estética do bem-etar está sendo sustentada por algum agrotóxico de violência emocional. E o que é mais interessante: essa sensação não existe em outros espaços, onde há conflito, desarmonia estética, natureza capenga, entre outros.
Por quê?
Uma possível resposta está numa dinâmica que só pode ser entendida quando amplio meu olhar para além do olhar da vitrine. Na vitrine do supermercado, basta arrumar o legume de um jeito vistoso. Na vitrine da vida, muita coisa pode parecer bela: basta achar o tom de voz certo, forçar um sorriso por algum tempo, treinar um olhar profundo ou forjar um choro de emoção. Na vitrine conseguimos ser um encantador guru moderno, propagando o amor e a espiritualidade por meio de palavras doces, meigas e amorosas, e dando sedutores abraços calorosos. Pois na vitrine a relação é pontual e superficial o suficiente para que não se precise enxergar o processo – só o resultado (que está na vitrine).
Entretanto, tudo que está na vitrine é fruto de um processo, e vai continuar a ser depois que sair da vitrine. Uma cenoura turbinada por agrotóxicos é fruto de um processo de degradação do potencial saudável do alimento, e carrega essa informação em seu belo e colorido formato. E depois de ser comprada e ingerida, ela continua seu processo de degradação – de si e daquele que a ingere, pois o processo não para só porque ela pousou linda e laranja por alguns dias num supermercado.
Um invejável grupo de pessoas rindo, brincando e dançando, parecendo absolutamente felizes, seja numa balada regada a álcool ou num centro de yoga altamente espiritualizado, também é fruto de um processo. E esse processo, que gera aquela alegria momentânea, pode variar de muito a nada amoroso. Quando decido ampliar meu olhar para além do olhar da vitrine, descubro muitas vezes processos cheios de incoerência, baseados numa felicidade plástica, artificial e forçada, que no caso de uma balada às vezes se nutre do “prazer na dor” – no alívio das tensões cotidianas e na lamentação por tudo que está errado na vida pessoal, profissional e no mundo, e no caso dos espaços de autoconhecimento e espiritualidade, se nutre do cumprimento de certos dogmas da espiritualidade ou do “ser feliz”, que não se sustentam numa relação mais profunda, e que são cosntruídos à base da repressão da espontaneidade e do verdadeiro potencial das pessoas.
Por sua vez, às vezes um ambiente aparentemente menos espiritualizado, menos inspirador, menos esteticamente cuidado, menos harmônico, é resultado de um processo orgânico, em que as pessoas simplesmente são o que são, sem forçar nada. E por incrível que pareça, esses ambientes têm um sabor delicioso para mim. Eles são suficientemente amorosos para acolher tanto a luz quanto a sombra, e direcionar todas essas energias para a positividade suprema. São esses ambientes que eu desejo construir, como líder, gestor, consultor, marido, pai, parceiro, amigo. Ambientes verdadeiros, sem frescura, sem superstição, sem dogma, sem abraços e sem sorrisos que dizem secretamente: “Atue de forma amorosa, custe o que custar”.
Nada é tão preto no branco, claro, e há ambientes em que tudo é ao mesmo tempo lindo, amoroso e verdadeiro. Também não quero valorizar a polaridade oposta. Ambientes conflituosos, em que criticamos, julgamos, não nos abraçamos, e valorizamos uma perspectiva material e individualista da vida dificilmente seriam meu ideal de vida. Mas esses ambientes são como os de felicidade artificial, só que virados do avesso: enquanto uns querem forçar a luz, outros querem forçar a sombra. Dá na mesma.
Essa polaridade oposta, que também existe nos meios em que as pessoas buscam crescer emocional e espiritualmente, valoriza a catarse. Temos de olhar para a ferida e expressá-la – e quem não faz isso é resistente, ou está em processo de negação. Não tem coragem. Mas também aí eu sinto uma grande dose de agrotóxico, porque no que eu entendo como espiritualidade orgânica, existe um acolhimento de tudo – inclusive do que chamamos de negação e resistência, que são recursos legítimos para o nosso crescimento – para que a pessoa possa ser o que é.
No que eu chamo de espiritualidade orgânica, ninguém “tem que” nada. No campo emocional e espiritual, o agrotóxico está nesse “tem que”. Porque o “tem que” serve ao interesse do outro, ele é utilitário. Eu tenho que abraçar e ser amoroso porque o contrário perturba a homeostase das pessoas que estão ao meu redor. Eu tenho que socar uma almofada e expressar a minha raiva porque o contrário rompe com o esquema mental de alguém, que aprendeu que aquilo é o certo. É aflitivo sustentar uma relação em que o outro não é perfeito. Em que ele se irrita e não é amoroso, ou, pelo contrário, é sempre bomzinho e nega seu sofrimento. Em que ele se esconde. Mas é justamente essa sustentação que é profundamente transformadora. É mais fácil forçar uma pessoa a agir de forma amorosa do que tomar tempo para desfrutar de uma relação que transmuta verdadeiramente as emoções negativas em amor. É mais fácil pressionar uma pessoa “reprimida” ou “boazinha” a mudar, a “sair de negação”, que sustentar uma relação profunda e de longo prazo com um ser inteiro, que têm em si inclusive dinâmicas difíceis e que só serão curadas em longo prazo, por meio da paciência diligente e amorosa, e não de brigar contra de suas feridas ocultas.
Meu manifesto é para que eu possa contribuir para criar, cada vez mais, ambientes de espiritualidade orgânica. Em que as pessoas não “tem que”, mas são “convidadas a”. Que tal se sorrirmos e nos abraçarmos? Que tal se trouxermos essa dor da escuridão para a luz? Que tal se cantarmos e dançarmos juntos? Que tal se nos engajarmos numa conversa profunda sobre aquilo que incomoda? E se não quisermos fazer nada disso, que tal fazer algo diferente? Está tudo bem, de um jeito ou de outro. Pois o que realmente vai trazer resultados duradouros, é viver esse processo de forma orgânica, com amor pelo que existe aqui e agora, e não exigir com uma violência sutil que nós alcancemos pseudo-resultados para expor na vitrine da felicidade.
Quero estar em ambientes de espiritualidade orgânica, em que amar significa aceitar, acolher e usar o que existe aqui e agora para atingi o melhor resultado possível, e não o resultado que eu “tenho que” atingir. Quero estar em ambientes em que o sorriso, o amor, o abraço e o carinho são frutos da percepção e da expressão do meu ser integral, e eles às vezes podem ser tortinhos e com bichinhos, talvez não seguindo as regras da linguagem corporal, nem usando a linguagem mais doce, nem emanando a mais brilhante aura, sem acompanhamento de anjos nem da luz cor violeta, mas, ainda assim, ele é verdadeiro e autêntico, porque é orgânico. Talvez quem me abrace ou converse comigo não me ache inspirador ou cheio de energia divina, mas talvez esse abraço tão chocho na vitrine sustente fora da vitrine uma relação de dias, meses ou anos, e não apenas algumas horas de vivência num centro de terapias ou alguns dias de retiro com gente encantadora e iluminada.
Pois ser encantador e iluminado por muito tempo cansa, e se eu quisesse me manter no salto talvez eu tivese que fazer alguns sacrifícios, como me manter longe de relações profundas, onde outros aspectos da minha personalidade poderiam ser revelados. Ou talvez eu precisasse criar um universo em que tudo funciona sempre a meu favor, em que nada nem ninguém me contrariam, onde sou aparentemente feliz por estar sempre, como Narciso, diante do espelho contemplando a minha própria beleza. Mas num ambiente assim, só quem está no espelho é (aparentemente) feliz. Os demais – que reprimem sua espontaneidade e seu potencial para sustentar o narcisismo alheio – são felizes só por pouco tempo, enquanto o agrotóxico daquele lindo ambiente artificial ainda não estragou sua saúde. Quando o tempo passa e os efeitos colaterais começam a aparecer, a maior parte das pessoas cai fora e vai buscar algo que, mesmo aparentemente menos bonito e amoroso, é mais verdadeiro.
Por isso, em vez de ambientes assim, em que a felicidade é intensa, mas temporária, quero escolher cada vez mais os ambientes e as relações pautados pela verdade nua e crua. A verdade só se revela com o tempo, e é construída aos poucos. Um verdadeiro relacionamento, puro, amoroso e forte, toma tempo para ser construído e não pode ser artificialmente acelerado nem pela catarse forçada e nem pela música calma, pelo sorriso doce, pelo abraço caloroso, de alguém que só está ali comigo no espaço da vitrine, e não no espaço da realidade do dia a dia, em que o doce tem de conviver com o azedo, o calmo tem de conviver com o barulho, o acerto tem de conviver com o erro, o bonito com o feio, e por aí vai. Um verdadeiro relacionamento (e a verdadeira felicidade), eu acredito, vai sendo construído à medida que acolho, digiro e transcendo todos os aspectos bons e ruins da vida, e vou crescendo, em espiral, lado a lado com os outros. Um casamento é uma metáfora perfeita disso: não dá para dizer que amo só porque me apaixonei pelo outro em sua vitrine inicial – só depois de anos de transcendência de conflitos, de encontros e desencontros, e de descobrir novas e incontáveis formas de admirar o parceiro, a um ponto em que os dois realmente se tornam uma única sinergia, podemos falar em amor verdadeiro.
Da mesma forma que acelerar o crescimento dos morangos, uvas, alfaces e cenouras está nos adoecendo, a não permissão de sermos o que somos, e a pressão para sermos amorosos, felizes e doces na vitrine dos espaços de autoconhecimento e espiritualidade pode nos tornar artificiais, sem gosto, sem resiliência, sem verdade e sem profundidade. E isso está longe de ser espiritual.
Escolho uma espiritualidade orgânica, em que menos é mais. Menos experiências pontualmente incríveis e mais estar junto, em profundidade, com tudo que isso tem de delicioso e de desafiador. Menos certezas do que e como transformar o outro e mais vontade de simplesmente estar junto, vulnerável e inteiro. Desejo menos metodologias prontas de alcançar o bem-estar supremo e mais co-criação, explorando o imprevisível, o emergente, e abarcando todas as polaridades da vida. Escolho menos queixos caídos diante dos exuberantes gurus com seus discursos inspiradores e mais experiências de se sentir igual e unido ao outro – um outro comum - como fruto de um longo processo de aproximação e vínculo, como sugerido pela raposa ao Pequeno Príncipe.
Em vez de simplesmente amar o outro, pois isso dá para fazer à distância, desejo amar com o outro, pois isso só dá para fazer junto, no dia a dia, no momento de bom humor e no momento em que tudo está um saco. E isso não significa se resignar ao lado chato da vida – a escolha de acolher o que foge à estética da felicidade torna-nos capazes de usar essa energia a favor da felicidade, como um combustível, que com o tempo vai se dissolvendo e se tornando ainda mais felicidade verdadeira. Aí, sim, posso falar de felicidade, pois não é algo que exclui aquilo que “não é feliz”, mas sim algo que automaticamente acolhe e transmuta tudo em mais e mais felicidade. A espiritualidade orgânica não é um processo de aprender a conviver com os opostos, mas sim de transmutar os opostos num único e verdadeiro estado de consciência feliz. Que por ser real, não precisa se defender do que lhe é diferente. Mas, para isso, é preciso tempo e é preciso olhar mais para o processo que para o resultado.
Por isso, escolho a partir de hoje ter menos relações distantes e pontuais de idolatria com os gurus do bem-estar e mais relações sustentáveis, de longo prazo, com meus parceiros e irmãos da vida cotidiana (sejam eles gurus ou não), pois são essas as relações que permanecem e se aprofundam por toda a eternidade.
No supermercado, a seção de “não-orgânicos” é composta de legumes e verduras altivos, super coloridos, grandes, bem formados. Um bom exemplo é a cenoura: a pobre cenourinha orgânica, perto da “comum”, é pequena e torta. As alfaces à base de agrotóxicos não têm bichinhos, e as uvas e os morangos parecem estar sempre fresquinhos. No entanto, quando como um morango orgânico, ou faço um petisco com cenoura crua sem agrotóxicos, além de ser mais saudável, a diferença de sabor é notável – o orgânico é disparadamente mais gostoso.
Por quê?
Da mesma forma, frequento e já frequentei espaços de autoconhecimento ou de desenvolvimento espiritual absolutamente atraentes. As pessoas sorriem, cheias de auto-estima, abraçam, olham nos olhos, cantam e dançam celebrando o amor. Elas trabalham suas feridas de infância, realizam curas interiores e parecem orgulhosas de seu arrebatador estilo de vida espiritual. Lugares assim são lugares limpos, tocam música calma, investem no cuidado estético apurado, e são rodeados de natureza exuberante. No entanto, diante dos olhares de irritação toda vez que algum membro da tribo desvia desse encantador comportamento, persiste em mim a sensação de que algo está errado. Uma sensação de que aquela estética do bem-etar está sendo sustentada por algum agrotóxico de violência emocional. E o que é mais interessante: essa sensação não existe em outros espaços, onde há conflito, desarmonia estética, natureza capenga, entre outros.
Por quê?
Uma possível resposta está numa dinâmica que só pode ser entendida quando amplio meu olhar para além do olhar da vitrine. Na vitrine do supermercado, basta arrumar o legume de um jeito vistoso. Na vitrine da vida, muita coisa pode parecer bela: basta achar o tom de voz certo, forçar um sorriso por algum tempo, treinar um olhar profundo ou forjar um choro de emoção. Na vitrine conseguimos ser um encantador guru moderno, propagando o amor e a espiritualidade por meio de palavras doces, meigas e amorosas, e dando sedutores abraços calorosos. Pois na vitrine a relação é pontual e superficial o suficiente para que não se precise enxergar o processo – só o resultado (que está na vitrine).
Entretanto, tudo que está na vitrine é fruto de um processo, e vai continuar a ser depois que sair da vitrine. Uma cenoura turbinada por agrotóxicos é fruto de um processo de degradação do potencial saudável do alimento, e carrega essa informação em seu belo e colorido formato. E depois de ser comprada e ingerida, ela continua seu processo de degradação – de si e daquele que a ingere, pois o processo não para só porque ela pousou linda e laranja por alguns dias num supermercado.
Um invejável grupo de pessoas rindo, brincando e dançando, parecendo absolutamente felizes, seja numa balada regada a álcool ou num centro de yoga altamente espiritualizado, também é fruto de um processo. E esse processo, que gera aquela alegria momentânea, pode variar de muito a nada amoroso. Quando decido ampliar meu olhar para além do olhar da vitrine, descubro muitas vezes processos cheios de incoerência, baseados numa felicidade plástica, artificial e forçada, que no caso de uma balada às vezes se nutre do “prazer na dor” – no alívio das tensões cotidianas e na lamentação por tudo que está errado na vida pessoal, profissional e no mundo, e no caso dos espaços de autoconhecimento e espiritualidade, se nutre do cumprimento de certos dogmas da espiritualidade ou do “ser feliz”, que não se sustentam numa relação mais profunda, e que são cosntruídos à base da repressão da espontaneidade e do verdadeiro potencial das pessoas.
Por sua vez, às vezes um ambiente aparentemente menos espiritualizado, menos inspirador, menos esteticamente cuidado, menos harmônico, é resultado de um processo orgânico, em que as pessoas simplesmente são o que são, sem forçar nada. E por incrível que pareça, esses ambientes têm um sabor delicioso para mim. Eles são suficientemente amorosos para acolher tanto a luz quanto a sombra, e direcionar todas essas energias para a positividade suprema. São esses ambientes que eu desejo construir, como líder, gestor, consultor, marido, pai, parceiro, amigo. Ambientes verdadeiros, sem frescura, sem superstição, sem dogma, sem abraços e sem sorrisos que dizem secretamente: “Atue de forma amorosa, custe o que custar”.
Nada é tão preto no branco, claro, e há ambientes em que tudo é ao mesmo tempo lindo, amoroso e verdadeiro. Também não quero valorizar a polaridade oposta. Ambientes conflituosos, em que criticamos, julgamos, não nos abraçamos, e valorizamos uma perspectiva material e individualista da vida dificilmente seriam meu ideal de vida. Mas esses ambientes são como os de felicidade artificial, só que virados do avesso: enquanto uns querem forçar a luz, outros querem forçar a sombra. Dá na mesma.
Essa polaridade oposta, que também existe nos meios em que as pessoas buscam crescer emocional e espiritualmente, valoriza a catarse. Temos de olhar para a ferida e expressá-la – e quem não faz isso é resistente, ou está em processo de negação. Não tem coragem. Mas também aí eu sinto uma grande dose de agrotóxico, porque no que eu entendo como espiritualidade orgânica, existe um acolhimento de tudo – inclusive do que chamamos de negação e resistência, que são recursos legítimos para o nosso crescimento – para que a pessoa possa ser o que é.
No que eu chamo de espiritualidade orgânica, ninguém “tem que” nada. No campo emocional e espiritual, o agrotóxico está nesse “tem que”. Porque o “tem que” serve ao interesse do outro, ele é utilitário. Eu tenho que abraçar e ser amoroso porque o contrário perturba a homeostase das pessoas que estão ao meu redor. Eu tenho que socar uma almofada e expressar a minha raiva porque o contrário rompe com o esquema mental de alguém, que aprendeu que aquilo é o certo. É aflitivo sustentar uma relação em que o outro não é perfeito. Em que ele se irrita e não é amoroso, ou, pelo contrário, é sempre bomzinho e nega seu sofrimento. Em que ele se esconde. Mas é justamente essa sustentação que é profundamente transformadora. É mais fácil forçar uma pessoa a agir de forma amorosa do que tomar tempo para desfrutar de uma relação que transmuta verdadeiramente as emoções negativas em amor. É mais fácil pressionar uma pessoa “reprimida” ou “boazinha” a mudar, a “sair de negação”, que sustentar uma relação profunda e de longo prazo com um ser inteiro, que têm em si inclusive dinâmicas difíceis e que só serão curadas em longo prazo, por meio da paciência diligente e amorosa, e não de brigar contra de suas feridas ocultas.
Meu manifesto é para que eu possa contribuir para criar, cada vez mais, ambientes de espiritualidade orgânica. Em que as pessoas não “tem que”, mas são “convidadas a”. Que tal se sorrirmos e nos abraçarmos? Que tal se trouxermos essa dor da escuridão para a luz? Que tal se cantarmos e dançarmos juntos? Que tal se nos engajarmos numa conversa profunda sobre aquilo que incomoda? E se não quisermos fazer nada disso, que tal fazer algo diferente? Está tudo bem, de um jeito ou de outro. Pois o que realmente vai trazer resultados duradouros, é viver esse processo de forma orgânica, com amor pelo que existe aqui e agora, e não exigir com uma violência sutil que nós alcancemos pseudo-resultados para expor na vitrine da felicidade.
Quero estar em ambientes de espiritualidade orgânica, em que amar significa aceitar, acolher e usar o que existe aqui e agora para atingi o melhor resultado possível, e não o resultado que eu “tenho que” atingir. Quero estar em ambientes em que o sorriso, o amor, o abraço e o carinho são frutos da percepção e da expressão do meu ser integral, e eles às vezes podem ser tortinhos e com bichinhos, talvez não seguindo as regras da linguagem corporal, nem usando a linguagem mais doce, nem emanando a mais brilhante aura, sem acompanhamento de anjos nem da luz cor violeta, mas, ainda assim, ele é verdadeiro e autêntico, porque é orgânico. Talvez quem me abrace ou converse comigo não me ache inspirador ou cheio de energia divina, mas talvez esse abraço tão chocho na vitrine sustente fora da vitrine uma relação de dias, meses ou anos, e não apenas algumas horas de vivência num centro de terapias ou alguns dias de retiro com gente encantadora e iluminada.
Pois ser encantador e iluminado por muito tempo cansa, e se eu quisesse me manter no salto talvez eu tivese que fazer alguns sacrifícios, como me manter longe de relações profundas, onde outros aspectos da minha personalidade poderiam ser revelados. Ou talvez eu precisasse criar um universo em que tudo funciona sempre a meu favor, em que nada nem ninguém me contrariam, onde sou aparentemente feliz por estar sempre, como Narciso, diante do espelho contemplando a minha própria beleza. Mas num ambiente assim, só quem está no espelho é (aparentemente) feliz. Os demais – que reprimem sua espontaneidade e seu potencial para sustentar o narcisismo alheio – são felizes só por pouco tempo, enquanto o agrotóxico daquele lindo ambiente artificial ainda não estragou sua saúde. Quando o tempo passa e os efeitos colaterais começam a aparecer, a maior parte das pessoas cai fora e vai buscar algo que, mesmo aparentemente menos bonito e amoroso, é mais verdadeiro.
Por isso, em vez de ambientes assim, em que a felicidade é intensa, mas temporária, quero escolher cada vez mais os ambientes e as relações pautados pela verdade nua e crua. A verdade só se revela com o tempo, e é construída aos poucos. Um verdadeiro relacionamento, puro, amoroso e forte, toma tempo para ser construído e não pode ser artificialmente acelerado nem pela catarse forçada e nem pela música calma, pelo sorriso doce, pelo abraço caloroso, de alguém que só está ali comigo no espaço da vitrine, e não no espaço da realidade do dia a dia, em que o doce tem de conviver com o azedo, o calmo tem de conviver com o barulho, o acerto tem de conviver com o erro, o bonito com o feio, e por aí vai. Um verdadeiro relacionamento (e a verdadeira felicidade), eu acredito, vai sendo construído à medida que acolho, digiro e transcendo todos os aspectos bons e ruins da vida, e vou crescendo, em espiral, lado a lado com os outros. Um casamento é uma metáfora perfeita disso: não dá para dizer que amo só porque me apaixonei pelo outro em sua vitrine inicial – só depois de anos de transcendência de conflitos, de encontros e desencontros, e de descobrir novas e incontáveis formas de admirar o parceiro, a um ponto em que os dois realmente se tornam uma única sinergia, podemos falar em amor verdadeiro.
Da mesma forma que acelerar o crescimento dos morangos, uvas, alfaces e cenouras está nos adoecendo, a não permissão de sermos o que somos, e a pressão para sermos amorosos, felizes e doces na vitrine dos espaços de autoconhecimento e espiritualidade pode nos tornar artificiais, sem gosto, sem resiliência, sem verdade e sem profundidade. E isso está longe de ser espiritual.
Escolho uma espiritualidade orgânica, em que menos é mais. Menos experiências pontualmente incríveis e mais estar junto, em profundidade, com tudo que isso tem de delicioso e de desafiador. Menos certezas do que e como transformar o outro e mais vontade de simplesmente estar junto, vulnerável e inteiro. Desejo menos metodologias prontas de alcançar o bem-estar supremo e mais co-criação, explorando o imprevisível, o emergente, e abarcando todas as polaridades da vida. Escolho menos queixos caídos diante dos exuberantes gurus com seus discursos inspiradores e mais experiências de se sentir igual e unido ao outro – um outro comum - como fruto de um longo processo de aproximação e vínculo, como sugerido pela raposa ao Pequeno Príncipe.
Em vez de simplesmente amar o outro, pois isso dá para fazer à distância, desejo amar com o outro, pois isso só dá para fazer junto, no dia a dia, no momento de bom humor e no momento em que tudo está um saco. E isso não significa se resignar ao lado chato da vida – a escolha de acolher o que foge à estética da felicidade torna-nos capazes de usar essa energia a favor da felicidade, como um combustível, que com o tempo vai se dissolvendo e se tornando ainda mais felicidade verdadeira. Aí, sim, posso falar de felicidade, pois não é algo que exclui aquilo que “não é feliz”, mas sim algo que automaticamente acolhe e transmuta tudo em mais e mais felicidade. A espiritualidade orgânica não é um processo de aprender a conviver com os opostos, mas sim de transmutar os opostos num único e verdadeiro estado de consciência feliz. Que por ser real, não precisa se defender do que lhe é diferente. Mas, para isso, é preciso tempo e é preciso olhar mais para o processo que para o resultado.
Por isso, escolho a partir de hoje ter menos relações distantes e pontuais de idolatria com os gurus do bem-estar e mais relações sustentáveis, de longo prazo, com meus parceiros e irmãos da vida cotidiana (sejam eles gurus ou não), pois são essas as relações que permanecem e se aprofundam por toda a eternidade.
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