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sábado, 4 de junho de 2016

Ser forte para ser delicado





A delicadeza, sem força, é um carinho sem tônus, que não confronta.

A força, sem delicadeza, é um tônus reativo, que não cuida.

A força delicada é um tônus que acolhe.

A delicadeza forte é um carinho que protege.

Quem são os homens que, hoje, arriscam ser delicados, sem abrir mão da sua força?

Quem são os homens que, hoje, sustentam ser fortes, revestindo-se de delicadeza?

Conseguir massagear a dor do mundo com mãos que não se acovardam, nem a apertam até sufocar.

Conseguir massagear a própria dor com mãos que entram firmes e sensíveis no próprio coração.

Respirar o ódio que atravessa as estranhas, para que ele esquente o sangue da compaixão, em vez de estourar as veias da sensibilidade.

Insuflar no corpo macio a vitalidade que nos motiva a seguir em frente e fazer o que precisa ser feito, sem preguiça ou lentidão.

Ter o vigor para manter-se imóvel diante do chacoalhão do vento, e doce para recebe-lo como um presente de Deus.

Curar o que nos aflige com uma mão que corta e outra que afaga.

Ter firmeza para ouvir o grito sem desabar, e empatia para entrar em ressonância com a voz que nos atravessa.

Mover-se com os músculos de um guerreiro e as articulações de um dançarino.

Trazer na voz o tom grave que desce até o centro da terra e o timbre agudo que sobe até os céus.

Ter delicadeza para sorrir e força para nada expressar se não “eu estou aqui”.

Ter força para cuidar de todos e delicadeza para cuidar de si.

Ser delicado para abrir as portas de casa e força para sustentar a solidão.

Ser forte para sustentar os ideais e delicado para ampliá-los com a escuta dos demais.

Legitimar a própria existência por reconhecer a poesia delicada da vida em cada segundo de ser quem se é, e ter força para sustentar o seu valor tanto no palco da aprovação alheia, quanto quando estamos sozinhos, olhando apenas para o espelho de nossa alma.

Ser feliz, arrebatado por toda a delicadeza e força de viver.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015




Escuta os gritos

de Paris.

Os gritos de quem agoniza

no chão.

Escuta os tiros

como gritos

de quem atira

- e os escuta também.

Escuta o grito

aterrorizado

de um mundo

que anseia por se sentir

seguro.

Escuta os gritos

do outro mundo,

que comemora

o sangue,

e que grita por algo

também.

Escuta os gritos

que não se

ouvem,

das vítimas e algozes

em lugares que não se vê.

Sem a mídia

como megafone,

eles gritam baixo

- mas, ainda assim,

gritam também.

Escuta os gritos

Marianos,

Diamantinos,

de rios, peixes e pessoas,

e tantos outros seres.

Gritos que ficam

invisíveis

quando só escutamos

os gritos de Paris.

Mas escuta os gritos

de Paris também,

Pois escuta não se

escolhe

- só se amplia -

quando escolhemos

não "o nosso",

e sim

"o bem".

Escuta o grito de

raiva,

medo,

preguiça,

sonhos,

que vem de

Dentro.

Pois é ele quem

ressoa

com o grito de

alguém.

Escuta e acolhe

esse grito profundo,

que lá fora,

transformado,

ele grita

a compaixão

que não se cala,

não se curva,

nem se vinga,

mas grita,

com coragem

o silêncio pacífico

que abençoa

o mundo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Celebrando o meu maior presente de aniversário!



Daqui a pouco, em 27 de outubro, eu completo 34 anos. Um aniversário especial, pois comemora duas grandes viradas de vida. Uma aconteceu neste ano: minha mudança com minha esposa, Rafaela, para Santo Antônio do Pinhal - ainda que continuemos a passar em média 3 dias por semana em São Paulo. A outra aconteceu há exatamente 10 anos, quando, próximo do meu aniversário de 24 anos, fui iniciado em meditação por um monge de Ananda Marga (Caminho da Bem-Aventurança), uma linha do Tantra Yoga que não foca no sexo como prática espiritual, e sim na expansão da consciência por meio do amor devocional, da investigação interna e do serviço ao mundo.

Seu nome de monge era Dada Diipajinanananda, um neozelandês alto, de olhos profundos, e muito silencioso. Quando ele deixou o Brasil, eu havia recebido a primeira e a segunda lições de meditação (são seis). Depois, recebi a terceira da monja americana Didi Anandamitra, que muitos conhecem no Brasil como Susan Andrews, fundadora e diretora do Instituto Visão Futuro. Em seguida, pedi ao monje Dada Jinanananda, um dinâmico monge do Congo que inspira muitos jovens aqui no Brasil a se engajar tanto na prática espiritual quanto na luta por transformação social, para que fosse meu orientador de meditação, e ele me deu as três lições finais.

Por isso, em primeiro lugar, quero honrar esses três orientadores, que me deram de presente a joia preciosa das lições de meditação, que pratico quase que invariavelmente duas vezes ao dia. Dessas sentadas, às vezes indescritivelmente deliciosas, às vezes assustadoramente desafiadoras, eu retirei muito mais do que poderia imaginar. Não apenas os benefícios normalmente associados à meditação, como concentração, foco e relaxamento, mas também estabilidade e aprofundamento emocional, clareza de quem sou e do meu propósito nesta vida, insights profundos e transformadores sobre meu passado e meus traumas, e também sobre o que oferecer para o mundo como serviço – e como, quando e onde.

A meditação me empoderou no meu processo de auto-cura e, acima de tudo, abriu a porta para um conjunto de experiências que eu jamais havia tido com qualquer outra experiência humana (mesmo em práticas espirituais). É difícil descrever essas experiências, mas elas quase tornam a palavra Amor como uma palavra pequena, que mal contém o que por dentro se está sentindo. Elas revelam uma busca que transcende o tempo e o espaço, e mesmo a noção de Eu. Elas tornam real a percepção de que a grande meta da minha existência eterna não é senão ser Um com Tudo que Existe, na forma do mais sublime Amor (vou usar a palavra por ser, ainda assim, a que mais se aproxima), e agradecer esse Amor vivendo todas as tonalidades da vida, das minhas luminosas às mais sombrias, como ofertas que coloco no altar do Amado. E esse Amado é o próprio Amor em suas três formas: a que está além da compreensão; a que se manifesta na criação que somos e que nos rodeia; e a que encarna na forma de uma entidade que possamos amar (o Deus, o mestre, o guru etc).

Portanto, quero, também, agradecer a esse Amor, que teve a generosidade de me abrir esse conjunto de experiências, pois sem que isso me tivesse sido permitido, minhas seis lições não teriam valido de nada. Esse Amor já havia se apresentado como um grande mistério que eu perseguia, para em seguida aparecer na forma de meu Guru de meditação, Anandamurtii, e agora se revela, cada vez mais, como toda a vida do planeta Terra, e de todo o Universo, com tudo de mais lindo e medonho que existe neles.

Agradeço, em especial, a Anandamurtii, meu Baba (Amado), pois todos os mestres que se colocam como pontos de concentração para onde podemos direcionar nosso Amor Devocional o fazem por profundo serviço amoroso ao outro, e não, como comumente pensamos no Ocidente, por desejo de serem adorados e servidos. O mestre se coloca como uma tela de projeção de todos os nossos padrões de relação conscientes e inconscientes com nossos pais e nossas autoridades internalizadas para que, pouco a pouco, possamos ir limpando essas projeções e, no final, mergulhar não na personalidade do mestre, mas no Amor Transcendental que se esconde atrás Dele.

A unidade com o mestre só acontece quando justamente alcançamos um grau de inclusão interna de tudo que existe, chegando ao entendimento de que não há nada do que se defender, ou para atacar. Tudo o que o mestre poderia nos trazer, de bom ou ruim, já existe integrado dentro de nós e, portanto, toda a tentativa de sustentar a fronteira do dentro e do fora, do eu e do outro, dissolve-se, não por perda de si, mas por expansão de si. Esse é um dos motivos pelos quais muitos mestres espirituais podem ser contraditórios e polêmicos com seus discípulos: quando são mestres verdadeiros, fazem isso para que que o discípulo experimente e transcenda todo o espectro da dualidade, desde a ponta mais luminosa à mais sombria. Para que o discípulo não se ligue ao mestre por atração ou por aversão, mas por reconhecimento da Unidade. Uma vez alcançado esse estado, não há mais fora – tudo está dentro. O mestre não é um líder autoritário que nos comanda arbitrariamente, mas antes um líder servidor que se destitui do desejo de ser querido pelos outros para se tornar um alvo de concentração no qual podemos gastar toda a nossa munição de projeções do ego, até não restar mais nenhuma história a ser contada sobre aquele alvo, e a experiência da Unidade se revele. E, a partir dela, podemos expandir essa experiência para tudo e todos.

Somente seres com total desapego de seus próprios egos poderiam coloca-los a serviço de tão grandiosa e árdua tarefa. De serem amados, odiados, duvidados, seguidos cegamente, temidos, desejados, até que todos esses fantasmas sejam destilados e reste apenas o reconhecimento do Inominável que, uma vez visto no mestre, é visto em si e em tudo mais. Tudo passa a ser apenas um instrumento para a refulgência do mais eterno e brilhante Amor.

Não posso afirmar que, nesses dez anos, todas as minhas defesas caíram, mas posso dizer que as que caíram já foram suficientes para que eu experimentasse um nível de paz e de conforto com a vida tão deslumbrantes, que eu não trocaria por qualquer outra experiência no mundo. Mas foram dez anos exatamente assim: amando, odiando, duvidando, seguindo cegamente, temendo e desejando. De briga e paz. Não com meu mestre, ou com o Amor, mas comigo mesmo. E eu sempre achava que era com Ele, mas no fim, via que era tudo projeção minha, e que Ele sempre esteve ali, amorosamente me olhando e esperando eu me encontrar. Logo, muito, muito grato, Baba, por sempre ter estado a meu lado. Só você (e eu) sabemos a jornada épica que foram esses anos, dentro e fora de mim, e de tudo que você fez por mim, para que eu crescesse e amasse tanto - a mim e à vida.

Por fim, quero agradecer a todos os que me apoiaram nesse caminho. Todos os mestres que me acolheram com carinho, em especial Jesus Cristo, que me recebeu nesse mundo e que se revelou por meio de pessoas tão especialmente iluminadas, como minha avó Ceiça, mãe de minha mãe, que me ensinou uma espiritualidade que ama, e não que castiga. Sei que minha saída do catolicismo pode parecer uma ruptura com minha história e minha tradição, mas não é. Todos os mestres são um só, e isso a mente consegue compreender. Mas o coração precisa amar alguém, como forma de aprofundar a relação (por isso escolhemos alguém para casar, por exemplo), e essa escolha vai além da lógica que conseguimos alcançar – só podemos entender com a intuição o que nos faz escolher um mestre, e não outro, como nosso objeto de devoção. Meu coração escolheu Anandamurtii, mas Jesus Cristo, e todos os que são, para mim, instrumentos verdadeiros de seu amor, como minha avó e minha tia Célia, terão sempre minha profunda gratidão.

Agradeço minha mãe, Maria Teresa, um ser liberto e que me ensinou a liberdade. Se não fosse ela, eu não teria jamais me permitido trilhar o meu caminho espiritual, e teria seguido num caminho que poderia ser bonito, mas não meu. Ela foi e continua sendo o testemunho de servir ao Amor Maior em qualquer forma com que ele se expresse, sem preconceitos, mas com muita seriedade e, graças a Deus, bom humor.

Agradeço a todos os amigos e irmãos espirituais, com quem compartilhei inúmeros momentos lindíssimos de prática, em que criamos juntos um campo de elevação, em que nos sentimos juntos tocando os pés do divino, enquanto cantávamos, meditávamos, contemplávamos a natureza, compartilhávamos histórias espirituais, conversávamos sobre o que realmente importa ou simplesmente compartilhávamos da doce presença um do outro. Nesse sentido, agradeço especialmente a minha esposa, amante e parceira espiritual, Rafaela, e a meus queridos companheiros da Comunidade Ser. Vocês são meus parceiros numa jornada numa antes trilhada – a de viver a senda espiritual de autoconhecimento e serviço ao mundo de forma coletiva, e materializando-a em projetos transformadores que fazem crescer a nós e aos outros.

E agradeço a todos os outros monges e orientadores, de Ananda Marga e de outros caminhos, que sempre me presentearam com joias de sabedoria e de inspiração, a ponto de eu me sentir o homem mais sortudo desse mundo, como um peregrino da alma que, a cada passo, encontra um sábio diferente que lhe abre mais uma porta. Um agradecimento especial a Susan Andrews, pelo conhecimento que me passou do Tantra e da Biopsicologia, e a Peter Sage, ou Dada Vishvarupananda, por ter sido sempre com um pai amoroso e acolhedor, humilde o suficiente para me ensinar tudo que sabe enquanto aparenta apenas estar aprendendo comigo, e por ser, acima de tudo, uma manifestação do que mais admiro no caminho da Ananda Marga.

Agradeço a tudo e a todos que fizeram desses dez anos uma década mágica de despertar e aprendizado, e rezo para que possa chegar ao final dos próximos dez anos com a mesma humildade e persistência de um praticante muito especial de Ananda Marga que conheci: Vishvashanti, um americano que mora na Dinamarca. Ele me disse num retiro que após vinte anos meditando sentiu que, agora sim, estava aprendendo a meditar! E espero que esse testemunho possa inspirar quem estiver sentindo o desejo de mergulhar nessa épica jornada para que o faça o quanto antes – da sua forma, em seu próprio caminho - pois, acredite, vale a pena. Que o caminho escolhido seja o do coração, e que a potência mais profunda e misteriosa da vida se revele a nós, e nos guie. Namaskar!



quinta-feira, 28 de maio de 2015

Saudade vale a pena!





fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil


Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage. Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos, com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.

À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que, algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.

Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca. Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!

 
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social: “a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são contundentes e irrevogáveis.

Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo, nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza, ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um com ele novamente.
 
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós, o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.

Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor. Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se, e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades. Saudades do Grande Amor.

Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar, de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.



E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde estamos, e para onde vamos.

E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga, aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos vividos juntos.

Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade vale a pena!
 
 

domingo, 9 de novembro de 2014

Oração

Entro na sala de meditação da minha casa.
Agradeço o violão encostado na parede.
Agradeço a graça de tocar a sua música.
De ser banhado com melodias,
E não com o ronco dormente
Das ruas congestionadas.
 
Toco e canto acompanhado por minha esposa.
Agradeço a graça de ter uma companheira.
Agradeço o vínculo verdadeiro,
E a benção de ser recebido com o
Coração vazio e a
Alma clara,
E não com as cobranças de uma relação
Baseada no medo, na projeção e na carência.
 
Sento para meditar.
Agradeço o dom do silêncio.
Agradeço por poder me alimentar dele,
Tanto quanto do pão, da sopa e do suco.
Por ser invadido e limpo pelo
Oco criativo da alma,
E não pelos estímulos do consumo desenfreado.
 
Encontro, em mim, um Deus divino, imutável.
Agradeço o presente da devoção.
Agradeço poder amar mais que o coração suporta.
Ser iluminado pelo todo que habita em mim,
E sentir que estou seguro e amparado,
Que sou importante por existir,
Em vez de lutar ansioso pela sobrevivência,
Tentando inutilmente ser maior e melhor, a cada dia,
Para provar que importo.
 
Uma lágrima escorre do meu olho.
Agradeço a beleza do encontro.
Agradeço poder me unir ao eterno, a mim e ao outro.
Poder levantar-me do meu silêncio para, mãos em prece,
Entregar-me inteiro a meu criador, e ao universo, e assim
Retornar a um dia a dia mágico,
E não me debater em agonia,
Por ter de voltar ao sacrifício
De uma vida sem sentido.
 
Levanto-me, e meus olhos encontram o sol.
Agradeço o dia.
Agradeço o tempo, com todos os seus matizes.
O sol que aquece minha face é tão reconfortante,
Quanto a chuva que alimenta os rios de minha sede,
E o cinza que me tira da euforia, e me traz mais perto
De mim.
Que alegria poder celebrar a natureza,
Em vez de lutar contra ela,
Como se fosse um inimigo constante e imprevisível.
 
Olhos fechados, vejo e sinto imagens de sofrimento pelo mundo.
Agradeço os que não me deixam sossegar.
Agradeço os que apontam minhas incoerências de quem tem tudo,
Enquanto outros quase não têm.
Aqueles que apontam meus privilégios, meus apegos,
Me mantêm acordado e vigilante para querer ser feliz
Servindo o próximo e compartilhando a abundância,
Caindo, se possível, cada vez menos,
Na felicidade autoindulgente e aristocrata
De quem não sai do próprio umbigo.
 
Repouso no meu espírito.
Agradeço o conhecimento, a sabedoria e a entrega.
Agradeço poder ter recursos para me mexer – aqui dentro e lá fora.
Saber que pelo diálogo, pela palavra, pela arte, pelo exemplo,
Ou por qualquer outro dom que me for dado,
Posso crescer na minha capacidade de ser quem sou
E de ser parceiro do outro e do mundo, para serem quem são.
Respiro aliviado por não estar impotente, nem indiferente,
Diante do que sei que pode e deve mudar.
 
Escrevo esta oração.
Agradeço a palavra do ser humano.
Agradeço a inspiração divina.
Sentir essa união entre terra e céu,
Entre um e todo,
E a nossa capacidade de partilhar o dom,
É tão mais gostoso
Que padecer eternamente
Da falta de beleza que nos rouba
A graça de viver este momento.
 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A força do coração


foto tirada em Davao, Flipinas, jurante a jornada
 
Enquanto volto para o Brasil, após 35 dias fora e de tantos acontecimentos internos e externos que mexeram comigo, relembro as reflexões que compartilhei logo que parti. Naquele momento, a pergunta que emergiu em mim dizia respeito a como criar estruturas mais fortes e poderosas para permitir que a consciência se expressasse de forma mais vigorosa e generosa em mim. E percebo que estou retornando não com uma resposta final, mas com uma vasta colheita de percepções que sinto vontade de compartilhar. Algumas colheitas já estão em mim, outras estou começando a regar, e outras, ainda, quero plantar no momento oportuno. A mais importante, agora, é a realização, num outro nível de qualidade, muito mais profundo, da força do meu coração.

Por diferentes motivos, durante minha vida, aprendi a trabalhar com, mas ainda assim temer, minha vulnerabilidade. Os pontos fracos da minha personalidade e da minha psique com as quais eu não consigo lidar tendem a se defender do medo da exposição, de forma pouco sustentável, das seguintes formas:

1.       Prazer compulsivo: associando prazer a algum pensamento ou ação compulsiva, eu consigo abafar algum aspecto interno com o qual não consigo lidar;

 

2.       Superstição: ritualizando algum tipo de comportamento ou pensamento, e o associando a um resultado que quero alcançar ou abafar, eu evito o medo de que o que me assusta pareça que vai de fato acontecer;

 

3.       Atitude contrafóbica: exagerando e expondo o meu medo, de forma catártica, abrindo as porteiras de meus contornos e limites saudáveis para pessoas que não estão preparadas para contribuir com meus processos internos e de vida, eu crio uma relação fantasiosa e condicional de que serei compensado, pela minha coragem, abertura e entrega, com a cura ou a proteção contra aquilo que me assusta;

 

4.       Complexo de inferioridade: abrindo mão de perceber e sustentar o que sinto e acredito num certo contexto, para concordar com alguma autoridade interna ou externa que, na minha fantasia, sabe o que é melhor para mim e pode me punir com a exposição ou destruição da minha parte frágil, caso eu não aja “corretamente” (de acordo com o que “correto” se apresente para esse tirano interno ou externamente projetado);

 

5.       Submissão: indo mais fundo no complexo de inferioridade, quando eu simplesmente atribuo prazer ao abuso do meu tirano interno ou externo, como forma de me render a ele, achando felicidade, ainda que pequena e ilusória, naquilo que me causa dor e medo, para poder ter o alívio – ainda que momentâneo – de desistir e ceder ao cansaço da luta constante.

 

6.       Arrogância: usando qualquer ilusão de poder que eu sinto que tenho, seja no campo financeiro, intelectual, de controle emocional ou de percepção espiritual, para tentar ter a sensação (e, às vezes conseguir) de que as pessoas se curvam a meus pés e fazem o que quero – em especial, que elas me servem em minhas necessidades não atendidas e fragilidades, quando eu preciso – para, assim, ter o alívio fugaz de continuar protegendo minha vulnerabilidade e estar no controle.

 

Essas estratégias, originalmente, não foram desenvolvidas com má intenção, mas como a defesa que eu tinha diante de situações que me pareceram mais assustadoras ou abusadoras do que minha capacidade para lidar com elas. O resultado imediato foi – e continua sendo – alívio momentâneo, mas o resultado em médio e longo prazo, pouco sustentável, é uma frustração imensa por não conseguir dar saltos maiores no meu desenvolvimento interno e externo, por não conseguir sustentar coisas que sei que são poderosas para mim, mas que poderiam, para meu inconsciente, destruir-me ou à minha imagem. Não me refiro aqui a saltos maiores que vêm do ego superexigente e que não se contenta com o que tem, mas dos saltos verdadeiros que o coração quer dar naturalmente, que já está, de fato, tentando dar, mas que não consegue completar, gerando a sensação de energia reprimida e potencial não utilizado.

Nada disso é muito dramático, na verdade, pois graças a Deus eu tenho uma vida muito equilibrada e feliz, mas como sinto que a consciência tenta se expandir sempre, trata-se de território não explorado e que não pode ser evitado, caso eu queira continuar evoluindo na minha autorealização e na minha capacidade de servir. E, também com a graça Divina, nesta jornada eu recebi muitas peças do quebra-cabeça, tanto no sentido do que preciso explorar mais quanto do como fazer essa exploração, e as peças, agora, enquanto escrevo, começam a se juntar, e sinto que podem trazer, talvez, insights para as jornadas de alguns que leem esse texto.

Alguns desses insights são:

1.       Abrir mão da gratificação pessoal em curto prazo: o medo da vulnerabilidade traz um desejo de que as coisas tragam para mim um resultado positivo imediato, na forma de prazer interno, de reconhecimento pessoal ou do impacto das minhas ações. Quando o resultado não vem, existe uma sensação de fracasso e frustração. Mas, na verdade, quando estou conectado com meu propósito, eu posso sustentar posições, erros e experimentações pelo tempo que for necessário, sem medo do caos, da desaprovação ou da emergência do meu lado sombrio, confiando que o resultado das ações não está nas minhas mãos e que o sofrimento de agora, quando pleno de significado, pode estar plantando uma felicidade ainda maior no futuro. Embora eu já soubesse disso intelectualmente, ganhei novas percepções profundas sobre esse aspecto e, principalmente, exercitei essa musculatura, tornando-me mais forte para essa sustentação.

 

2.       Preservar minha energia e meus contornos: pelo medo de estar sozinho com minha vulnerabilidade, uma parte minha evitava dizer não para qualquer troca social ou relação interpessoal, com medo de desagradar o outro. Eu evitava me recolher para ficar sozinho ou adotar uma postura de menos toque e troca corporal. A desaprovação e a solidão eram sensações que potencializavam o terror de estar com minha sombra e minhas fragilidades, e assim eu me mantinha constantemente poroso ao outro, para me sentir protegido. Entretanto, à medida que eu me relaciono de forma cada vez mais íntima com a Consciência Maior, na forma da Entidade Mais Amada para mim, mais esse espaço interno fica confortável, e consigo preservar momentos de silêncio e solitude, nutrindo-me, inclusive, da minha vulnerabilidade. E à medida que percebo de forma mais clara que não sou essencial para o outro, e que é o Amado Interno de cada um que trará o preenchimento e os resultados desejados, eu consigo aceitar não ter que abrir todos os meus poros para servir e me relacionar constantemente, como se o outro fosse inevitavelmente se corromper, perder-se ou sofrer se eu não estiver presente. Isso traz, junto, uma profunda segurança nas pessoas, na vida e em nosso destino, e um profundo relaxamento, por só precisar dar conta daquilo que é meu, daquilo que meu coração pede agora – e não mais.

 

3.       Sustentar a troca amorosa: como contraponto da percepção interior, ficou claro que a estratégia oposta e complementar para evitar a dor da vulnerabilidade, é ficar no conforto do meu espaço interno, num lugar em que o toque físico e a troca são considerados invasivos, imaturos ou desnecessários. Como estar no próprio espaço pode ser muito gostoso, como quando moramos sozinho e nos acostumamos a ter tudo de nosso jeito, existe um lugar que se torna intolerante às trocas. Minha percepção é que o prazer interno gerado pelo silêncio e pela solitude é, entre outras coisas, um prazer narcísico, e como não desejamos sair do prazer, nos protegemos do que pode ferir o espelho. Foi interessante, pois essa percepção surgiu à medida que eu me via adotando o comportamento mais discreto que vivenciei em alguns grupos e culturas com os quais tive contato, no Brasil e durante essa viagem, e percebia a luz desse comportamento (que levou ao insight acima) e, também, a sua sombra, que sinto que emerge quando ele deixa de ser uma escolha e passa ser uma imposição interna ou cultural.

 

O que senti em mim, e que também ajudou a clarear o que parcialmente me incomodava nesse comportamento, é que, se por um lado, há uma sensação de sutileza e conforto em estar no próprio espaço, pode existir também maior intolerância e julgamento ao desconhecido que pode surgir da interação, fazendo com que exista um sabor depreciativo, às vezes muito sutil e implícito, na relação com o que está fora. Seja numa versão mais espiritual, que passa a julgar ou condenar, ainda que muito sorrateiramente, o “mundano”, seja numa versão mais mundana, que expressa irritações com os outros e com como as coisas são feitas pelos outros.

 

O mundo e outro jamais serão capazes de dar contorno necessário para que possamos descansar para sempre em nosso espaço interno, e isso gera muita frustração. Como consequência, alguns de nós criam e se escondem em claustros pessoais (nossas casas, nossas vidas íntimas impenetráveis, nossas práticas espirituais solitárias, nossa vida social restrita) e coletivos (nossos clubes, comunidades fechadas, entre outros). Lembrando que não necessariamente a escolha da solitude ou de viver mais recluso venha desse lugar, mas, em alguns casos, esse pode ser o fundamento basal desse tipo de escolha.  

 

Mas, abrindo mão desse conforto e do prazer que ele traz, para encarar as informações geradas pela troca – espirituais, mundanas, dolorosas, prazerosas, não importa – como bem vindas e como fonte de expansão do coração, a troca física e emocional passa a ser também bem vinda, junto com toda a vulnerabilidade que ela causa. Ao viver de forma mais plena essa dicotomia – da solitude e da troca amorosa – percebi, junto com minha decisão de me preservar mais, a minha intenção clara de sustentar o toque, o abraço e a conversa profunda e íntima sobre qualquer tema, em qualquer contexto – tomando o cuidado, claro, de dialogar com culturas que sejam diferentes, e não de invadi-las ou julgá-las. Não se trata de querer mudar o outro, mas de sustentar o que é importante para mim.

 

4.       Usar o poder para contribuir, e não para exigir: lembro-me de alguns momentos durante minha estada num hotel nas Filipinas, já no final da viagem, cujo objetivo era apenas relaxar e me divertir. Por isso, dei-me o presente de escolher um lugar onde eu pudesse ter todos os confortos que eu queria. E assim que o lugar começou a frustrar minhas expectativas: o telefone quebrado, a internet que não funcionava, a comida que não veio do jeito que pedi, eu logo me vi na posição do cliente exigente, duro e reclamão. Porque, claro, eu estava pagando, então eu tinha direito. E esse lugar me mostrou de forma muito pungente como o poder pode despertar meu lado tirano, que deseja que todos sirvam minhas necessidades e não exponham minhas fragilidades.

Ficou claro que um lado meu topava servir quando eu estava sendo pago ou fazendo trabalho voluntário. Pois no trabalho voluntário há a compaixão, e no trabalho pago há o compromisso com entregar o melhor para o cliente. Mas se eu estou pagando, quem tem as regras do jogo sou eu. Que história é essa de me contrariar? Se eu estou pagando, eu não tenho que ajudar ou ser bonzinho – eu tenho que ser ajudado. Os outros têm de ser bons comigo. Hora da revanche! Eu não tenho que passar por cima de alguns limites pessoais para servir os outros? Eu não tive que baixar minha cabeça para atender necessidades dos outros? Pois agora é a vez dos outros fazerem isso por mim!

E, dessa percepção verdadeira e dolorosa, veio a realização clara de que, sim, eu estou aqui para servir, em todo momento, em todo lugar. Mesmo quando isso me faz sentir vulnerável. Mesmo quando estou pagando. Mesmo quando eu tenho poder. Mesmo quando a bola está comigo. Não importa quão poderoso eu seja: eu não estou aqui para abafar os erros e as fragilidades, e sim para jogar luz sobre elas, para que possamos criar um mundo mais belo e feliz a cada segundo. E isso implica sustentar a minha força amorosa como agende de transformação do mundo, de sustentar essa força perante a vulnerabilidade minha e do mundo, e, também, de atender cada vez mais minhas necessidades – mesmo quando estou servindo voluntária ou remuneradamente – para que não haja nada a ser pago depois. Nenhuma vingança oculta. Usar o poder para contribuir, e não para exigir. E foi isso que fez com que, no final, eu conseguisse dar os feedbacks que precisava de uma forma que criou conexão com os funcionários do hotel. Senti que saímos com brilhos nos olhos de nossa breve, mas significativa, interação. E agora quero mais disso.

5.       Sustentar e desenvolver minha força física e energética: já há algum tempo venho falando, em diversos contextos, sobre sustentar o ponto basal de nossa consciência em pontos mais sutis e expansivos, como o coração. Isso significa buscar fazer com que, literalmente, cada pensamento e emoção sejam sentidos, fisicamente, na altura do coração. Não se trata de reprimir ou negar os demais sentimentos e pensamentos, mas de reconhecer que sempre estamos olhando as coisas por algum filtro. Podemos aceitar nossa sombra, nosso ódio e nosso medo a partir do filtro do amor, tanto quanto podemos receber o amor a partir do filtro do ódio. Justamente, quanto mais sutil e expansivo o ponto basal, mais dentro dele cabem todos os tipos de sentimentos e emoções. Os pontos basais mais sutis não temem nada, e conseguem aceitar incondicionalmente e transmutar todos os aspectos de nossa personalidade. Isso é o que eu já sabia. Agora, percebi também a necessidade de desenvolver um tônus físico e energético para sustentar esse ponto basal em mais situações, em especial em contextos mais associados à energia masculina.

 

A luta pela sobrevivência física, a guerra, a tirania, a repressão, a tortura física, mental, emocional e espiritual, para dar alguns exemplos, fazem parte do drama humano, em especial no aspecto do masculino desequilibrado e, em vez de fugir dessas grandes fontes de vulnerabilidade, quero me sentir cada vez mais seguro para abraça-las e contribuir para transmuta-las. E essa viagem me deu muitos exemplos disso, pois tanto no Haiti, quanto nas Filipinas, entrei em contato com pessoas e povos que precisam se readequar e escrever uma nova história a partir de calamidades muito graves, como terremotos, tufões e ditaduras violentas e sanguinárias. Impossível abraçar essas histórias e recriá-las de forma positiva e empoderadora sem sustentar profundamente a força do coração.

 

E eu percebi que se, por um lado, não quero desenvolver um complexo contrafóbico de mártir, de me lançar em situações perigosas, por outro eu não quero viver como se eu fosse apenas meu “eu individual”: eu sou o mundo todo. Negar ou se abster do que está acontecendo no mundo é fechar os olhos não para o que está “acontecendo lá fora”, mas para uma parte de mim. É deixar de me conhecer. E sinto que meu jeito de me conhecer e me engajar com o que descubro não vem tanto pela leitura dos jornais e pelo debate filosófico e macropolítico – ele vem, principalmente, por interagir e cocriar com as diversas partes de mim mesmo – as diversas partes do mundo. Para isso, preciso aumentar minha capacidade física e energética de ser, lutar e empreender, a partir do coração. Até mesmo para lidar com coisas menores, mas ainda assim significativas, no meu processo de lidar com minha vulnerabilidade, como o medo de morrer sozinho numa viagem de avião ou de não conseguir sustentar meu tônus como homem perante as mulheres e outros homens.

 

6.       Abraçar e expressar a minha sensualidade e a sensualidade da vida: como garoto que cresceu com uma deficiência física, que tornava minha fala incompreensível e minha aparência pouco atraente, cresci negando a sexualidade e a sensualidade plena na minha vida, pois tocar nesses pontos me deixava extremamente vulnerável. Aos poucos, fui curando a conexão e a expressão da sexualidade, mas só nessa viagem percebi o quão profundamente eu negava minha sensualidade. Sensualidade, aqui, entendida em seu aspecto amplo: a física, que gera confiança para se embelezar, vestir-se, tatuar-se e se enfeitar para expressar o prazer com o próprio corpo e com a própria aparência; a sexual, que gera empoderamento e conforto com a sedução e a capacidade de ter prazer com as mulheres que considero mais atraentes para mim, culminando na relação plenamente sensual com minha esposa a partir de um lugar de atração plena, e não de gratidão por alguém se sentir atraído por mim; a social, fazendo tudo que faço de forma poética, inspiradora e prazerosa; e a espiritual, assumindo mais o aspecto Amado-Amante na relação com Deus, descrito por tantos santos místicos, como São João da Cruz, que em seu clássico “A Noite Escura da Alma” diz, para expressar sua relação de amor com o Divino: “o meu amado beijou o meio seio”. É viver a vida como se, com cada gesto – do trabalho que faço, à comida que como, ao amor que compartilho com minha esposa – eu estivesse me preparando para a grande noite de núpcias com meu Amor Maior. Como se cada sorriso fosse o perfume que coloco para Ele. Cada ato de bondade, a melhor roupa. Cada momento de felicidade, o banquete que preparo para nosso jantar.

 

7.       Abraçar o guerreiro que mora em mim: li uma vez no incrível livro “João de Ferro” que, em algumas culturas, antes de usar a espada o homem precisa aprender a dançar. Logo, junto com a percepção da necessidade de desenvolver minha força física e energética e de abraçar e expressar a sensualidade, nasce a garra para ser e viver o meu guerreiro. Um guerreiro forte, assertivo e luminoso, que não tem medo de desagradar, que deixa suas crenças e posições claras, mas que não faz isso com complexo de superioridade, imposição, ou julgando e reprimindo o outro. Faz com o coração e o olhar limpos, com a certeza de estar construindo o que é importante para si e para o outro, e aberto para se deixar tocar, aprender e refazer suas certezas, a partir do que a vida traz. Antes, o medo era de que meu guerreiro despertasse uma fúria (de Deus ou dos outros) que me destruísse, e a estratégia, portanto, era ou negar e abrir mão desse guerreiro ou expressá-lo de forma violenta. Agora, quero deixar ele se expressar e aprender com ele, com como ele pode ser cada vez mais veículo de amor e luz, mesmo que eu tropece um pouco até estar mais apropriado dele. Isso está me fazendo com que, desde já, eu assuma com firmeza posições que, antes, eu titubeava para afirmar.

Todos esses insights, juntos, tornaram claro para mim o quanto meu movimento, agora, é de fazer o que faço, assumindo a força do meu coração. Uma força que é muito poderosa, e também muito amorosa. E que é essa força que vai potencializar o que já está aqui, o que já estou fazendo, e que apenas estava precisando de mais espaço. Não para eu poder ser maior, mas para poder ser pleno. Para poder cumprir o destino que me colocou aqui, e dar vazão, por inteiro, ao desejo de iluminar meu espaço interno e servir o mundo. Que venham os próximos passos da jornada!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014


Eu não sou necessário para ninguém. Mas todos precisam tocar os pés do Amor.

Eu não sou essencial na vida de ninguém. Mas o Amor é essencial na vida de todos.

Eu não faça diferença na vida de ninguém. Mas o Amor faz diferença na vida de cada Ser.

Ainda assim, quando eu me faço transparente para o Amor, de alguma forma minha existência parece necessária, essencial e importante na vida de alguém.

Ainda assim, é só o Amor, o mesmo Amor, se fazendo necessário através de mim.

E, mesmo quando eu não me faço, ainda assim eu sou o filho especial desse Eterno Amor, e mereço estar aqui.

Todos merecem estar aqui, brilhantes ou não, amorosos ou não, sábios ou não, especiais ou não, ajustados ou não. Porque o Amor é necessário, e nós somos veículos Dele.

Se há um trabalho que desejo e devo fazer, é ser cada vez mais límpido para que, estando claro, outros possam, através de mim, ver e tocar o Amor.

Não porque as pessoas precisem ver e tocar o Amor através de mim, e sim porque o Amor quer resplandecer por meio de todos os Seres, em todas as partes.

Eu sou uma dessas partes, e quero honrar o presente que recebi.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


Devoção – a relação sustentável definitiva

Por Gustavo Prudente

Nós, seres humanos, estamos o tempo todo buscando nosso “abrigo mais seguro”, como diria o filósofo indiano Prabhat Rainjan Sarkar. Um lugar de felicidade que seja o mais duradouro, ou sustentável, possível. Nessa caminhada, encontramos diferentes níveis de bem-estar e segurança em portos-seguros como o dinheiro, a família, a relação amorosa, os amigos, o trabalho, a realização de um propósito maior de vida e a espiritualidade.

Como somos seres que basicamente se relacionam (até mesmo de olhos fechados “conversamos” com nossa consciência ou com referências internas nossas, como Deus), nós buscamos também a relação que seja mais segura e que nos seja por mais tempo fonte de prazer e felicidade. Sabemos que, em geral, colegas são fontes mais sustentáveis de felicidade que meros desconhecidos, amigos mais que colegas, amigos íntimos e/ou família mais que amigos. Mas mesmo essas relações não se mostram fonte constante, eternamente durável, de felicidade, pois dificilmente admiramos e nos nutrimos de nossas relações, mesmo as mais íntimas, o tempo inteiro. Além disso, cada relação nos nutre em algo específico, e dificilmente nos relacionamos com algo ou alguém que supre todas as nossas necessidades.

Haveria uma relação capaz de nos nutrir constante e plenamente, sendo fonte eterna de felicidade? Uma relação mais que 100% sustentável, pois contribui para a sustentabilidade de outras relações que travamos com as pessoas ao nosso redor?

Minha experiência de vida me levou até agora a acreditar que sim. Existe uma relação sustentável definitiva, que se estabelece por meio da devoção, ou seja, de devotar amor pleno e incondicional à vida ou à consciência maior que nos rodeia. E este amor, para existir em relação, precisa ser canalizado para algo ou alguém que represente a vida ou a consciência, para que assim esses conceitos tão abstratos possam ser amados de forma concreta e personalizada. Devoção significa amar uma figura com forma e nome como portal para acessarmos a fonte maior da vida, processo que é exemplificado muito bem na cultura oriental por meio do arquétipo dos mestres.

Falar em devoção em nossa cultura ocidental é sempre muito delicado porque ela facilmente pode ser confundida com submissão ou fé cega. Nesses casos, não há amor (característica essencial da devoção), mas no máximo paixão, ou qualquer outro sentimento que ajude a preencher uma dor ou vazio subjacente que surge quando não estamos amando ou sendo amados (pois estar submisso ou seguindo cegamente algo ou alguém nos ajuda a “abafar” esse sentimento de dor e vazio com um pseudo sentimento de amor, por obtermos aprovação daquele que nos domina ou a quem seguimos). Nesse caso, o que existe não é devoção, mas a busca por atrair a aprovação ou evitar a desaprovação.

Na devoção, existe um sentimento de amor tão profundo e verdadeiro, que a única ação possível é a gratidão. Damos o melhor de nós mesmos para o outro porque estamos tão felizes que a única forma de agradecer é fazer algo pelo outro. Quando o outro é um amigo, um filho ou uma namorada, agradecer pode significar fazer pequenos gestos de carinho ou se esforçar para ajudar o outro em suas dificuldades. No caso desse outro ser a vida ou a consciência maior, ou seja, um outro que já tem tudo em si, a única alternativa restante é... cuidar da vida, que implica cuidar do planeta e de todas as relações que nele nutrimos. Por gratidão.

Assim, o devoto é aquele que se sente amado por algo ou alguém que já possui tudo em si, a quem nada falta, e devolve esse amor cuidando desse todo da melhor forma possível. Como esse todo inclui os rios da minha cidade, eu empreendo ações ecológicas para proteger e limpar os rios. Como esse todo inclui minha família, eu nutro relações saudáveis e de respeito com ela. Como esse todo inclui meus desafetos, eu exercito constantemente a prática do perdão. Tudo isso sem a intenção de ser bom ou de ser admirado. Apenas por gratidão. Por ser a única forma de amar um todo que nos ama com eterna abundância.

Nem entro aqui no mérito de se esse todo é o que chamamos de Deus, ou se ele existe. Estou falando do nível mais básico de condicionamento interno, psíquico e biológico. Sabemos hoje que nosso cérebro reage de forma muito parecida a eventos vividos e eventos imaginados, então se estamos nos relacionando com um ser real ou não, tanto faz. O que importa é que, para nosso cérebro, estamos constantemente (até de olhos fechados) nos relacionando com um ser que nos ama e que é por nós amado, plenamente. E essa relação, fonte de nutrição constante, torna-se, portanto, fonte de uma sustentabilidade perene, que pode ser replicada em diferentes níveis com as pessoas “em carne e osso” a nossa volta.

E como nossas crenças sobre a vida influenciam diretamente tanto nosso potencial criativo, quanto nossa motivação para empreender nossos sonhos e as estratégias que desenvolvemos para realizar essas conquistas, ter uma figura interna, que eternamente nos apóia e motiva, nos ajuda a reforçar constantemente a sensação de que, sim, nós somos capazes. De que nós vamos conseguir. De que a vida é abundante e de que todos os recursos já estão aqui, ao nosso redor. De que o presente é um presente (ou seja, uma fonte abundante de gratas surpresas). Sabemos disso porque há algo em nós que nos apóia e nos diz que, sim, não estamos loucos: a vida é naturalmente sustentável.

Por isso, sugiro um experimento: sente-se de olhos fechados diariamente e crie uma relação com algo ou alguém que represente, para você, o todo. Não basta ser alguém que você “ama muito”. Imagine que você pudesse personalizar ou materializar a totalidade da existência, ou do universo. Como ou quem seria essa personificação? Pode ser uma figura religiosa ou algo ou alguém bem inesperado. Seja como for, enamore-se dessa figura e comece a criar uma relação com ela, conversando com ela inclusive. Ouça o que ela diz e responda, se for o caso. Se esse exercício for feito diariamente, depois de sessenta dias, gostaria de ouvir a sua história. Gostaria de saber se seu cotidiano está ou não ao menos um pouco mais sustentável, seja nos aspectos mais sutis – nas suas relações interpessoais, por exemplo - ou nos aspectos mais práticos – por exemplo, a maneira como você cuida do seu lixo. Minha aposta é que a devoção fará de você um ser humano muito mais (naturalmente) sustentável.

Gustavo Prudente é laboratório-vivo de sustentabilidade no projeto Senhor Sustentável (www.senhorsustentavel.org) e membro da Comunidade SER – Sustentabilidade, Educação e Arte. gustavobprudente@gmail.com

A arte da presença significativa

Desde ontem está tomando forma uma pergunta que já vem crescendo em mim há algum tempo: como anfitriar e sustentar a arte da presença significativa? Desde que comecei a compreender no meu corpo alguns conceitos espirituais que antes eram pura abstração, como “estar no aqui e agora”, e experimentei em retiros e outros momentos o poder do silêncio, ficou mais claro o quanto nem sempre a fala é o único ou melhor meio de compartilhar o que é significativo.

Adianto que eu sou totalmente a favor da conversa. Acho a palavra poderosíssima e um ótimo instrumento de expansão da consciência e de elevação espiritual. Inclusive, ela ajuda a construir a presença e muitas vezes é a escada que nos leva para aquele lugar onde não há mais nada a dizer. Por isso, a presença para mim se coloca como um potencial a mais a ser expresso, e não como algo “superior” ao diálogo falado.

A conexão com esse potencial ficou ainda mais forte nos últimos tempos porque, à medida que iam aumentando os momentos de felicidade, é como se a minha relação com as pessoas chegasse num ápice no qual a vontade era de ir ainda mais longe na mágica do que estava acontecendo, na sensação de êxtase no corpo, mas a boca não conseguisse achar palavras, e qualquer conversa iniciada a partir daí parecesse forçada ou não alcançasse a profundidade do que eu estava sentindo. E aí eu ficava sem graça, sem saber o que fazer – até com medo de fazer ou falar alguma “bobagem” que me (nos) tirasse daquele estado tão bonito e gostoso.

Às vezes, e em certos grupos ou contextos, esses momentos se transformavam em (ou vinham de) experiências “explicitamente” espirituais. Acabávamos fechando os olhos, meditando um pouco, cantando algum canto espiritual, ou qualquer coisa do tipo. Mas isso às vezes também começou a me parecer uma “fuga” – por não saber o que fazer, sinto que recorremos, às vezes, para um “ritual” que nos proteja de simplesmente estar na presença livre, fluida, sem contorno – e, portanto, assustadora, pois não sabemos para onde ela vai e nem o que pode emergir, dentro e fora de nós, a partir dela.

Aos poucos, à medida que fui também compreendendo a simplicidade do que, no meu corpo, é verdadeiramente espiritual, fui conseguindo sustentar uma presença que abria espaço para sentir cada vez mais a pureza e a beleza do momento presente. Sem precisar honrá-lo com nenhuma palavra bonita, nenhum mantra, nenhuma sabedoria espiritual, nenhuma conversa significativa, nada. Sem precisar chorar, tornar sagrado, ritualizar. Sem precisar inclusive falar ou fazer nada espiritual – às vezes a situação em questão era absolutamente mundana.

Mas, em algum lugar silencioso, simples e tranquilo, somente estar ali, naquele lugar, ou com aquelas pessoas, era absolutamente significativo. Dourado. Precioso. Era tudo aquilo que não é possível expressar com palavras. Experimentei isso inúmeras vezes com minha esposa: longos períodos sem falar ou fazer nada, apenas comungando de estarmos um com o outro. Às vezes apenas se olhando, até uma emoção profunda e impossível de se expressar tomasse nosso corpo.

Também senti isso com minha mãe, no mês que passei com ela no começo deste ano – por exemplo, nas várias vezes em que sentávamos para jantar, às vezes falando com a boca coisas pequenas, como sobre um programa de televisão, mas com o coração falando muito mais. E vivi isso em tantos momentos com a Comunidade SER, com amigos queridos, em trabalhos significativos, em rodas de risada sobre qualquer besteira ou falando com amigos sobre sexo em seu aspecto mais carnal – e, ainda assim, meu estado de presença tornava aquilo significativo e espiritual. E, também, claro, senti nos retiros, meditações coletivas, nas minhas práticas espirituais, na natureza e comungando das práticas de outras pessoas. Mas é tão bom sentir que a presença significativa não está só nesses momentos mais “oficialmente” espirituais, mas literalmente em qualquer momento. Por isso ela é uma arte – pois se trata de refinar não o que está acontecendo, para ficar “mais profundo” ou “mais espiritual”, mas refinar a nossa forma de estar nisso. E isso requer a sensibilidade do artista.

E, mais recentemente, tenho sentido isso aqui no Haiti. É tanta beleza nesse povo, e é tanto encontro bonito, que tenho experimentando essa arte em ainda maior profundidade. Com os queridos amigos que fiz aqui e com os quais consigo conversar livremente em inglês, são momentos em que simplesmente as palavras já não conseguem honrar o sagrado do que estamos vivendo. Com os demais, com os quais consigo conversar um pouco em francês, são momentos que transcendem a barreira da linguagem. Momentos de pura presença. Presença significativa. Nem dá para explicar muito, porque não é algo que os conceitos consigam capturar: é presença. Vontade de nos perder na dança do que nos faz feliz.

Agora, eu sei que ainda tenho muito que aprender sobre essa arte. Assim como não aprendemos de berço a anfitriar conversar significativas, não aprendemos a anfitriar a presença significativa. Eu ainda preencho muito espaço: com fala, com ideias, com soluções prontas, com julgamentos e preconceitos, com verdades formadas sobre muita coisa, com tentativas de me mostrar valioso e especial, para suprimir o medo da rejeição.

Então, olha só quanto espaço aberto para aprender e refinar uma arte! E, quem sabe, assim como nas últimas décadas a arte de anfitriar conversas significativas tem sido sistematizada e, assim, multiplicada – e, eu torço, vai ser matéria básica de qualquer processo de aprendizagem no futuro – pode ser que uma dia consigamos sustentar mais conscientemente espaços para ficarmos confortáveis e desenvolvermos a presença, mas não  a presença banal, ou a ritualizada, e sim a presença significativa, que nos permite viver no máximo de profundidade qualquer tonalidade da vida, da mais sagrada à mais profana, e qualquer sentimento, do mais gostoso ao mais difícil, e de estar inteiros para testemunhar o sagrado da vida em todos – absolutamente todos – os seus desdobramentos.

Vamos juntos desenvolver essa arte?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Espiritualidade Orgânica

Estive meditando sobre a semelhança de certos comportamentos que experimento em ambientes de desenvolvimento humano e espiritual e a seção de orgânicos do supermercado. Em meu processo de vida, percebi que às vezes, no campo das emoções e do espírito, posso confundir o que parece lindo e deliciso – mas que é feito à base de agrotóxicos emocionais – e aquilo que parece meio defeituoso – mas esconde um incomparável sabor de vida e saúde.

No supermercado, a seção de “não-orgânicos” é composta de legumes e verduras altivos, super coloridos, grandes, bem formados. Um bom exemplo é a cenoura: a pobre cenourinha orgânica, perto da “comum”, é pequena e torta. As alfaces à base de agrotóxicos não têm bichinhos, e as uvas e os morangos parecem estar sempre fresquinhos. No entanto, quando como um morango orgânico, ou faço um petisco com cenoura crua sem agrotóxicos, além de ser mais saudável, a diferença de sabor é notável – o orgânico é disparadamente mais gostoso.

Por quê?

Da mesma forma, frequento e já frequentei espaços de autoconhecimento ou de desenvolvimento espiritual absolutamente atraentes. As pessoas sorriem, cheias de auto-estima, abraçam, olham nos olhos, cantam e dançam celebrando o amor. Elas trabalham suas feridas de infância, realizam curas interiores e parecem orgulhosas de seu arrebatador estilo de vida espiritual. Lugares assim são lugares limpos, tocam música calma, investem no cuidado estético apurado, e são rodeados de natureza exuberante. No entanto, diante dos olhares de irritação toda vez que algum membro da tribo desvia desse encantador comportamento, persiste em mim a sensação de que algo está errado. Uma sensação de que aquela estética do bem-etar está sendo sustentada por algum agrotóxico de violência emocional. E o que é mais interessante: essa sensação não existe em outros espaços, onde há conflito, desarmonia estética, natureza capenga, entre outros.

Por quê?

Uma possível resposta está numa dinâmica que só pode ser entendida quando amplio meu olhar para além do olhar da vitrine. Na vitrine do supermercado, basta arrumar o legume de um jeito vistoso. Na vitrine da vida, muita coisa pode parecer bela: basta achar o tom de voz certo, forçar um sorriso por algum tempo, treinar um olhar profundo ou forjar um choro de emoção. Na vitrine conseguimos ser um encantador guru moderno, propagando o amor e a espiritualidade por meio de palavras doces, meigas e amorosas, e dando sedutores abraços calorosos. Pois na vitrine a relação é pontual e superficial o suficiente para que não se precise enxergar o processo – só o resultado (que está na vitrine).

Entretanto, tudo que está na vitrine é fruto de um processo, e vai continuar a ser depois que sair da vitrine. Uma cenoura turbinada por agrotóxicos é fruto de um processo de degradação do potencial saudável do alimento, e carrega essa informação em seu belo e colorido formato. E depois de ser comprada e ingerida, ela continua seu processo de degradação – de si e daquele que a ingere, pois o processo não para só porque ela pousou linda e laranja por alguns dias num supermercado.

Um invejável grupo de pessoas rindo, brincando e dançando, parecendo absolutamente felizes, seja numa balada regada a álcool ou num centro de yoga altamente espiritualizado, também é fruto de um processo. E esse processo, que gera aquela alegria momentânea, pode variar de muito a nada amoroso. Quando decido ampliar meu olhar para além do olhar da vitrine, descubro muitas vezes processos cheios de incoerência, baseados numa felicidade plástica, artificial e forçada, que no caso de uma balada às vezes se nutre do “prazer na dor” – no alívio das tensões cotidianas e na lamentação por tudo que está errado na vida pessoal, profissional e no mundo, e no caso dos espaços de autoconhecimento e espiritualidade, se nutre do cumprimento de certos dogmas da espiritualidade ou do “ser feliz”, que não se sustentam numa relação mais profunda, e que são cosntruídos à base da repressão da espontaneidade e do verdadeiro potencial das pessoas.

Por sua vez, às vezes um ambiente aparentemente menos espiritualizado, menos inspirador, menos esteticamente cuidado, menos harmônico, é resultado de um processo orgânico, em que as pessoas simplesmente são o que são, sem forçar nada. E por incrível que pareça, esses ambientes têm um sabor delicioso para mim. Eles são suficientemente amorosos para acolher tanto a luz quanto a sombra, e direcionar todas essas energias para a positividade suprema. São esses ambientes que eu desejo construir, como líder, gestor, consultor, marido, pai, parceiro, amigo. Ambientes verdadeiros, sem frescura, sem superstição, sem dogma, sem abraços e sem sorrisos que dizem secretamente: “Atue de forma amorosa, custe o que custar”.

Nada é tão preto no branco, claro, e há ambientes em que tudo é ao mesmo tempo lindo, amoroso e verdadeiro. Também não quero valorizar a polaridade oposta. Ambientes conflituosos, em que criticamos, julgamos, não nos abraçamos, e valorizamos uma perspectiva material e individualista da vida dificilmente seriam meu ideal de vida. Mas esses ambientes são como os de felicidade artificial, só que virados do avesso: enquanto uns querem forçar a luz, outros querem forçar a sombra. Dá na mesma.

Essa polaridade oposta, que também existe nos meios em que as pessoas buscam crescer emocional e espiritualmente, valoriza a catarse. Temos de olhar para a ferida e expressá-la – e quem não faz isso é resistente, ou está em processo de negação. Não tem coragem. Mas também aí eu sinto uma grande dose de agrotóxico, porque no que eu entendo como espiritualidade orgânica, existe um acolhimento de tudo – inclusive do que chamamos de negação e resistência, que são recursos legítimos para o nosso crescimento – para que a pessoa possa ser o que é.

No que eu chamo de espiritualidade orgânica, ninguém “tem que” nada. No campo emocional e espiritual, o agrotóxico está nesse “tem que”. Porque o “tem que” serve ao interesse do outro, ele é utilitário. Eu tenho que abraçar e ser amoroso porque o contrário perturba a homeostase das pessoas que estão ao meu redor. Eu tenho que socar uma almofada e expressar a minha raiva porque o contrário rompe com o esquema mental de alguém, que aprendeu que aquilo é o certo. É aflitivo sustentar uma relação em que o outro não é perfeito. Em que ele se irrita e não é amoroso, ou, pelo contrário, é sempre bomzinho e nega seu sofrimento. Em que ele se esconde. Mas é justamente essa sustentação que é profundamente transformadora. É mais fácil forçar uma pessoa a agir de forma amorosa do que tomar tempo para desfrutar de uma relação que transmuta verdadeiramente as emoções negativas em amor. É mais fácil pressionar uma pessoa “reprimida” ou “boazinha” a mudar, a “sair de negação”, que sustentar uma relação profunda e de longo prazo com um ser inteiro, que têm em si inclusive dinâmicas difíceis e que só serão curadas em longo prazo, por meio da paciência diligente e amorosa, e não de brigar contra de suas feridas ocultas.

Meu manifesto é para que eu possa contribuir para criar, cada vez mais, ambientes de espiritualidade orgânica. Em que as pessoas não “tem que”, mas são “convidadas a”. Que tal se sorrirmos e nos abraçarmos? Que tal se trouxermos essa dor da escuridão para a luz? Que tal se cantarmos e dançarmos juntos? Que tal se nos engajarmos numa conversa profunda sobre aquilo que incomoda? E se não quisermos fazer nada disso, que tal fazer algo diferente? Está tudo bem, de um jeito ou de outro. Pois o que realmente vai trazer resultados duradouros, é viver esse processo de forma orgânica, com amor pelo que existe aqui e agora, e não exigir com uma violência sutil que nós alcancemos pseudo-resultados para expor na vitrine da felicidade.

Quero estar em ambientes de espiritualidade orgânica, em que amar significa aceitar, acolher e usar o que existe aqui e agora para atingi o melhor resultado possível, e não o resultado que eu “tenho que” atingir. Quero estar em ambientes em que o sorriso, o amor, o abraço e o carinho são frutos da percepção e da expressão do meu ser integral, e eles às vezes podem ser tortinhos e com bichinhos, talvez não seguindo as regras da linguagem corporal, nem usando a linguagem mais doce, nem emanando a mais brilhante aura, sem acompanhamento de anjos nem da luz cor violeta, mas, ainda assim, ele é verdadeiro e autêntico, porque é orgânico. Talvez quem me abrace ou converse comigo não me ache inspirador ou cheio de energia divina, mas talvez esse abraço tão chocho na vitrine sustente fora da vitrine uma relação de dias, meses ou anos, e não apenas algumas horas de vivência num centro de terapias ou alguns dias de retiro com gente encantadora e iluminada.

Pois ser encantador e iluminado por muito tempo cansa, e se eu quisesse me manter no salto talvez eu tivese que fazer alguns sacrifícios, como me manter longe de relações profundas, onde outros aspectos da minha personalidade poderiam ser revelados. Ou talvez eu precisasse criar um universo em que tudo funciona sempre a meu favor, em que nada nem ninguém me contrariam, onde sou aparentemente feliz por estar sempre, como Narciso, diante do espelho contemplando a minha própria beleza. Mas num ambiente assim, só quem está no espelho é (aparentemente) feliz. Os demais – que reprimem sua espontaneidade e seu potencial para sustentar o narcisismo alheio – são felizes só por pouco tempo, enquanto o agrotóxico daquele lindo ambiente artificial ainda não estragou sua saúde. Quando o tempo passa e os efeitos colaterais começam a aparecer, a maior parte das pessoas cai fora e vai buscar algo que, mesmo aparentemente menos bonito e amoroso, é mais verdadeiro.

Por isso, em vez de ambientes assim, em que a felicidade é intensa, mas temporária, quero escolher cada vez mais os ambientes e as relações pautados pela verdade nua e crua. A verdade só se revela com o tempo, e é construída aos poucos. Um verdadeiro relacionamento, puro, amoroso e forte, toma tempo para ser construído e não pode ser artificialmente acelerado nem pela catarse forçada e nem pela música calma, pelo sorriso doce, pelo abraço caloroso, de alguém que só está ali comigo no espaço da vitrine, e não no espaço da realidade do dia a dia, em que o doce tem de conviver com o azedo, o calmo tem de conviver com o barulho, o acerto tem de conviver com o erro, o bonito com o feio, e por aí vai. Um verdadeiro relacionamento (e a verdadeira felicidade), eu acredito, vai sendo construído à medida que acolho, digiro e transcendo todos os aspectos bons e ruins da vida, e vou crescendo, em espiral, lado a lado com os outros. Um casamento é uma metáfora perfeita disso: não dá para dizer que amo só porque me apaixonei pelo outro em sua vitrine inicial – só depois de anos de transcendência de conflitos, de encontros e desencontros, e de descobrir novas e incontáveis formas de admirar o parceiro, a um ponto em que os dois realmente se tornam uma única sinergia, podemos falar em amor verdadeiro.

Da mesma forma que acelerar o crescimento dos morangos, uvas, alfaces e cenouras está nos adoecendo, a não permissão de sermos o que somos, e a pressão para sermos amorosos, felizes e doces na vitrine dos espaços de autoconhecimento e espiritualidade pode nos tornar artificiais, sem gosto, sem resiliência, sem verdade e sem profundidade. E isso está longe de ser espiritual.

Escolho uma espiritualidade orgânica, em que menos é mais. Menos experiências pontualmente incríveis e mais estar junto, em profundidade, com tudo que isso tem de delicioso e de desafiador. Menos certezas do que e como transformar o outro e mais vontade de simplesmente estar junto, vulnerável e inteiro. Desejo menos metodologias prontas de alcançar o bem-estar supremo e mais co-criação, explorando o imprevisível, o emergente, e abarcando todas as polaridades da vida. Escolho menos queixos caídos diante dos exuberantes gurus com seus discursos inspiradores e mais experiências de se sentir igual e unido ao outro – um outro comum - como fruto de um longo processo de aproximação e vínculo, como sugerido pela raposa ao Pequeno Príncipe.

Em vez de simplesmente amar o outro, pois isso dá para fazer à distância, desejo amar com o outro, pois isso só dá para fazer junto, no dia a dia, no momento de bom humor e no momento em que tudo está um saco. E isso não significa se resignar ao lado chato da vida – a escolha de acolher o que foge à estética da felicidade torna-nos capazes de usar essa energia a favor da felicidade, como um combustível, que com o tempo vai se dissolvendo e se tornando ainda mais felicidade verdadeira. Aí, sim, posso falar de felicidade, pois não é algo que exclui aquilo que “não é feliz”, mas sim algo que automaticamente acolhe e transmuta tudo em mais e mais felicidade. A espiritualidade orgânica não é um processo de aprender a conviver com os opostos, mas sim de transmutar os opostos num único e verdadeiro estado de consciência feliz. Que por ser real, não precisa se defender do que lhe é diferente. Mas, para isso, é preciso tempo e é preciso olhar mais para o processo que para o resultado.

Por isso, escolho a partir de hoje ter menos relações distantes e pontuais de idolatria com os gurus do bem-estar e mais relações sustentáveis, de longo prazo, com meus parceiros e irmãos da vida cotidiana (sejam eles gurus ou não), pois são essas as relações que permanecem e se aprofundam por toda a eternidade.