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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Saudade vale a pena!





fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil


Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage. Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos, com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.

À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que, algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.

Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca. Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!

 
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social: “a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são contundentes e irrevogáveis.

Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo, nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza, ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um com ele novamente.
 
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós, o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.

Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor. Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se, e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades. Saudades do Grande Amor.

Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar, de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.



E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde estamos, e para onde vamos.

E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga, aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos vividos juntos.

Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade vale a pena!
 
 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A partido do natural

 
 

Sou colecionador de livros infantis e, onde vou, sempre pesquiso um que seja realmente especial e compro. O mais recente, adquirido na minha passagem pelos Estados Unidos, foi “The Tao of Pooh” – “O Tao do Ursinho Puff”. Sim, é isso mesmo. Um autor, praticante do taoísmo, arriscou fazer a ponte entre os ensinamentos Taoístas e as atitudes do famoso ursinho, em suas histórias. Escrito de forma muito cativante, como se ele estivesse conversando com o próprio urso, já nas primeiras páginas o livro traz reflexões belas e interessantes, e algumas delas me inspiraram a pensar sobre a questão das ditas “minorias”, como o público LGBT.

Coloco “minorias” entre aspas porque não acredito que exista nada fora que não exista dentro. Dentro de mim mora o feminino e o masculino, a cor negra, amarela, branca e vermelha, a limitação física e mental, a genialidade e a potência corporal, o amor e a atração por pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto. O que chamamos de minorias são apenas os pontos de maior expressão de características que moram em todos nós, em diferentes graus. Porque nós somos tudo. E é a não aceitação do todo aqui dentro que me faz querer destruir as partes lá fora que me lembram a existência dessas partes em mim.

E é interessante, porque justamente ao tentar “minorizar” e eliminar, justamente cristalizamos e fortalecemos o que não toleramos. Eu cresci aprendendo a ser homofóbico – não no sentido de agredir fisicamente mas, tão cruel quanto, de ridicularizar, de considerar inferior e de excluir qualquer possibilidade de que a atração por uma pessoa do mesmo sexo pudesse acontecer comigo ou qualquer pessoa da minha família. No começo da faculdade, eu não me sentia confortável em compartilhar em certos círculos que eu tinha amigos gays. Era uma tentativa de me libertar do meu preconceito, mas pela metade: eu me sentia muito confortável com esses amigos, mas não me sentia confortável com a possibilidade de ser julgado por ser próximo deles.

E o resultado dessa cultura homofóbica que me influenciou é que, na minha mente, e na de muita gente, qualquer possibilidade de atração por alguém do mesmo sexo, mesmo que em princípio não fosse uma atração sexual, virou sinônimo de que, no fundo, a pessoa “é gay”. Qualquer proximidade maior que pudesse representar prazer em estar com alguém do mesmo sexo era experimentada quase como um vírus que havia entrado em nosso corpo e, uma vez identificado, iria se alastrar e não haveria mais volta. E nossa vida seria destruída.

Logo, é claro, eu e um bocado de gente teve que incorporar esse dilema em nosso processo de descoberta sexual, porque eu não conseguia diferenciar prazer físico e afetivo de atração sexual. Com isso, era difícil identificar o que era verdadeiramente meu, e o que era uma crença adquirida, sobre minha sexualidade. Acredito que a grande maioria dos homens sente isso, só que muitos evitam essa confusão não ficando fisicamente perto de outros homens.

Essa não foi minha escolha. Eu amo muitos homens – amigos, irmãos, parceiros – e gosto de beijá-los, abraça-los e até deitar no colo deles. Imaginem então como ficou a minha cabeça, que de um lado sentia a homossexualidade como algo muito natural e, por outro, tinha medo de pensar se atrás daquele momento tão gostoso com um amigo não estava a revelação definitiva e irrevogável da minha homossexualidade – e, por isso, acabava ficando com raiva da homossexualidade existir e “não me permitir viver em paz”. E isso veio muito mais da cultura homofóbica, que cria monstros desnecessários na relação entre homens, que do homossexualismo em si, que é apenas mais uma forma de afeto entre homens – e não a única.

Mas, graças à vida, a uma família evolutiva e a ótimos processos de autodesenvolvimento pelos quais passei, eu fui evoluindo em diversos sentidos – inclusive nesse. E o primeiro salto foi perceber que eu não sou nenhuma categoria. Eu sou o que sou. O que meu corpo me pede, aqui e agora. E que, no meu caso, neste momento, é viver minha energia sexual com as mulheres – ou, melhor ainda, com minha mulher. Mas poderia ser diferente. E tudo bem. Com isso, passei a gostar mais e mais de ver as pessoas serem quem são. Seja o que for. E que isso vai muito além de “ser” ou “não ser” gay. Diz respeito a seguirmos o que é natural para nós – a cada momento. Pois o que é natural hoje pode não fazer mais sentido amanhã, e vice-versa.

E acho que é exatamente porque o natural é tão múltiplo e mutável que, cada vez mais, lutamos para entender todas as categorias de sexualidade que estão surgindo. Até a sigla LGBT não está mais contendo todas as possibilidades de expressão da afetividade e do desejo sexual. Simplesmente porque a verdade e o natural não estão nas categorias. Está no que o corpo pede. Não só o corpo humano – mas o corpo dos animais, da natureza, do nosso organismo social, do universo e da vida como um todo.

As categorias podem servir, no máximo, para nos ajudar a libertar algo que o corpo está pedindo. Quando eu disse “eu te amo” pela primeira vez para minha esposa, algo que já estava no meu corpo se libertou, e ganhou mais força. Eu pude ser mais eu. Quando as pessoas que amam indivíduos do mesmo sexo deixaram de se ver como “bichas” ou “sapatões” e passaram a se ver como pessoas com identidades sexuais próprias e valiosas, e deram a isso o título de “homossexuais” ou “gays”, elas também se libertaram e, junto com elas, libertou-se o potencial de normalidade e beleza dessa forma de expressão da sexualidade. O único porém é que, uma vez cumprida a função de libertar o que estava tentando se expressar, a categoria “estaciona” – ela fica onde estava, enquanto o corpo, seus desejos e suas possibilidades de expressão continuam evoluindo. Até que a categoria já não sirva mais para honrar o que está ali agora.

Portanto, a categoria que ontem libertou, hoje pode aprisionar. Pois o corpo já está pedindo mais coisas. E aí vamos criando novas categorias, que deem contam do novo que está emergindo em nós. Homosexualismo, bissexualismo, transexualismo, trânsgenero, homoafetivo, e por aí vai. E, enquanto esse processo for libertador, ele precisa ser legitimado e valorizado. E, quando ele for repressor, impositivo, tentar maquiar verdades ou gerar estereótipos, deve ser desmascarado. De todo modo, o que importa é dar espaço para que as pessoas – não só no campo da sexualidade, mas em qualquer campo – tenham cada vez mais espaço para expressar quem são naturalmente.

E é aí que entra o Tao do Ursinho Puff. Como afirma o autor do livro, Benjamin Hoff, “de acordo com Lao-tse, quanto mais o ser humano interferiu no equilíbrio natural e governado pelas leis universais, mais a harmonia se retirou para longe. Quanto mais forçamos, mais problemas geramos. Seja pesado ou leve, molhado ou seco, rápido ou lento, tudo tem sua própria natureza intrínseca, que não pode ser violada sem causar problemas. Quando regras arbitrárias e abstratas são impostas de fora para dentro, o conflito é inevitável. Somente aí a vida passa a ter um gosto ruim. (...) Ao trabalhar em harmonia com as circunstâncias da vida, o entendimento Taoísta permite que transformemos em positivo o que outros podem perceber como negativo. Do ponto de vista Taoísta, o gosto ruim e amargo da vida surge da mente interventora e não-apreciativa. A vida em si, quando entendida e utilizada pelo que ela é, é doce”.

Em outras palavras: o desequilíbrio vem quando impomos categorias às pessoas que não libertam aquilo que é natural para elas. O problema com conceitos como “macho” e “bicha” não está tanto no teor de preconceito, mas no quanto eles escravizam e proíbem o ser de expressar por inteiro suas leis naturais, como sugerido por Lao-Tsé. Se estamos tentando obrigar os outros a se encaixar numa certa categoria, está óbvio que a “lei” ou “verdade” que estamos tentando vender é arbitrária e imposta de fora para dentro, e que o conflito será inevitável.

Talvez as pessoas possam se deixar repreender por algum tempo (mesmo que isso signifique séculos), mas inevitavelmente, a verdadeira lei – a que vem da vida e do corpo – irá se impor. Não há ira divina que possa impedir esse processo. Nem a aterradora destruição de Sodoma e Gomorra e sua perpetuação como ameaça divina, durante séculos de dominação religiosa, foi capaz de impedir os indivíduos que amam pessoas do mesmo sexo de, no final, vencerem e terem cada vez mais espaço para expressar o que lhes é natural. Nem toda a repressão e medo da homosexualidade que encontrei durante a descoberta da sexualidade foi capaz de me impedir de encontrar (e me encontrar) com minha sexualidade e com o amor da minha vida. Não porque eu estava seguindo algum preceito cultural homofóbico – mas simplesmente porque isso é quem eu sou.

Como não aprendemos a respeitar o natural e usar o nosso construto social, linguístico e simbólico para libertá-lo – em vez de aprisiona-lo – nós acabamos perdendo essa harmonia e esse equilíbrio de que fala Hoff em seu livro. Como temos dificuldade em evoluir, o que implica dar nome para o que não foi ainda nomeado, dar espaço para o que antes não existia e que ainda não entendemos, preferimos tentar “congelar” a vida naquilo que já descobrimos e que, uma vez, no passado, funcionou. E achamos que se todos forem e fizerem isso para sempre, tudo vai ficar bem... Não à toa nossa noção de paraíso é, tantas vezes, a imagem de um lugar em que nada nunca muda. Socorro!

Nessa cultura desconectada do natural, não queremos que nossa expressão sexual mude, assim como não queremos, por exemplo, que a medicina mude. Testemunhei curioso e atônito a batalha travada por minha incrível mãe, Maria Teresa, enquanto ela se afastava da medicina dita “tradicional” e incorporava inovações em seu jeito de praticar a cura que, muito tempo depois, passaram (ou começam) a ser aceitas como legítimas. Formas que, na prática, são tão eficientes, que têm atraído muita gente que antes desacreditava desse novo jeito, e que agora não encontra mais resposta no “tradicional”. Como militante de uma educação mais livre e democrática, fico também atônito com a reação agressiva a qualquer tentativa de que a estrutura formal de educação mude – resiste-se tanto aos movimentos de desescolarização quanto a se falar de emoções na sala de aula. O que choca não é o fato da mudança não acontecer – pois ela poderia ser um sintoma de que o que está sendo proposto não é natural – e sim o nível de violência aberta ou velada, pessoal e institucional, impedindo que a mudança aconteça, mesmo quando muitos sinais mostram que ela é necessária. Mesmo quando as manifestações das pessoas, nas redes sociais, nas ruas, nas conversas de bar, estão gritando que há uma lei natural não sendo respeitada.

O que conforta é saber que, silenciosa ou abertamente, tudo está mudando. Porque quando algo é natural no processo evolutivo, ele se torna inevitável. Logo, a questão não está em saber “se” o natural vai acontecer. Ele vai. Nunca esteve em nossas mãos impedir que a homossexualidade se estabelecesse como opção legítima. Sempre foi e sempre vai ser, e cada vez mais, pois a realidade do corpo e da vida (e não dos nossos preconceitos morais e religiosos) têm mostrado que é assim. Que este é o natural de milhões de pessoas ao redor do planeta. O que muda é “como” isso vai acontecer: com uma percepção e aceitação mais rápida e fluida do que é, ou com muita resistência, conflito, ataques histéricos e descabidos como o de Levy Fidelix, sofrimento – e, como a história mostra, mortes. E se quisermos supor que existe algo mais natural que essas diversas expressões sexuais que temos hoje, não precisamos brigar – isso vai se impor, no momento certo. Se for natural.

Portanto, minha busca tem sido a de dar espaço para o natural, em todos os campos da vida, mesmo quando ele choca com os valores e os conceitos que eu já havia construído antes. E para isso, é preciso muito discernimento. Nem tudo que é novo é “natural”. Podemos propagar algo bem diferente da cultura atual, algo inovador e chocante, e no fundo isso não ressoar em ninguém, pois no fundo é apenas uma categoria “diferente” que está tentando ser vendida, sem que ela responda ao que está, de fato, querendo emergir. É apenas uma organização interessante de ideias, para chamar atenção, gerar catarse emocional, satisfazer o desejo de rebeldia, ou algo que o valha. Da mesma forma, nem tudo que é natural é “novo”. Respeitar o natural não é negar a tradição. Mas a verdadeira tradição se perpetua naturalmente porque é uma lei universal enraizada no corpo e na vida, e não em nossas frágeis e datas crenças.

Por outro lado, temos de levar em conta que nem sempre algo que não ressoa no coletivo não é natural. Às vezes algo não encontra eco de imediato porque não estamos preparados para escutar, ou porque o sistema social reprime e não oferece espaços para que a mensagem seja escutada em larga escala, e como legítima – o que acontece frequentemente em nossa cultura de mídia de massa, que antes ditava solitariamente o que podia ser comunicado e agora, com o fenômeno da internet e das redes sociais, não determina tudo o que pode ser dito, mas busca legitimar alguns discursos e deslegitimar outros, e vencer pelo tamanho. A mídia de massa ainda chega em mais pessoas que os guetos internéticos, infelizmente.

Também precisamos levar em conta que o risco que existe em congelarmos o natural numa nova categoria, num primeiro momento mais ampla e inclusiva, e que o impede de continuar crescendo. Esse é um debate que ocorre, inclusive, entre alguns grupos de defesa das “minorias”, quando sentem que a categoria “negro”, “gay” ou “deficiente” começa a gerar mais estereótipo que esclarecimento. De certa forma, isso aconteceu comigo, pois se um lado meu acreditava na lei imposta pela cultura dominante, do “não devo ser gay”, outro lado já havia criado uma outra lei, também imposta por uma cultura emergente, que dizia que “se eu não me abrir para ter uma experiência homossexual, é porque eu sou preconceituoso ou conservador”. E ambas as crenças não me libertavam para eu ser quem sou.

O natural está menos nessa ideia de “minorias” e “maiorias”, de certos e errados, que ainda é baseado em categorias, e tem mais a ver com o que pensamos, sentimos e fazemos quando estamos em nosso estado de fluidez, de alegria e conexão com o que nos é profundamente significativo. Para alguns, um casamento heterossexual monogâmico pode ser o resultado natural de quando se está nesse estado. Para outros, um relacionamento bissexual e aberto pode ser esse resultado. Mas se desconectados desse estado verdadeiro de fluxo, ambos os cenários podem ser categorias buscadas “de fora para dentro” e gerar conflito interno e externo, por nos impedir de seguir a nossa lei universal para obedecer a uma lei “abstrata e arbitrária”, e que pode ser criada por qualquer grupo, não importa se de esquerda ou direita, da cultura da violência ou da cultura de paz. Todos estamos vendendo conceitos que se propõem a dizer o que é natural independente do que nosso corpo sente.

Tocado por tudo isso, tenho buscando aprofundar minha busca por aceitar e libertar o que é natural – e, para isso, tenho conscientemente feitos de exercícios de reflexão interna, de diálogos significativos e de experiências que me tiram da zona de conforto. No campo da homossexualidade, isso significa, por exemplo, conversar com amigos gays sobre coisas que ainda eram tabus para mim, como ser “passivo” durante o ato sexual entre dois homens. Ouvindo intencionalmente como é isso para eles, e que beleza e prazer eles encontram nisso, pude deixar de lado o preconceito oculto que me fazia aceitar o homossexualismo como algo que eu respeito, desde que eu não veja por inteiro, ou de achar que quem é ativo “é mais macho”, para de verdade apreciar outras formas de amar que não estavam no meu escopo, encontrando, inclusive, como essas formas se expressam em mim, dentro da minha realidade.

Significa também ir assistir filmes de amor em que o casal central são pessoas do mesmo sexo e não sentir que estou assistindo um “filme gay”, mas sim um filme de amor. É conversar abertamente com amigos sobre as diferentes expressões de nossa sexualidade, buscando legitimar as expressões próprias e empatizar com as expressões dos outros, sem tentar chegar em certos e errados, em julgar um como mais puritano e outro mais libertino. E, à medida que as categorias congeladas vão se dissipando, e dando lugar a novos conceitos, que respeitam o orgânico e o natural, uma apreciação da singularidade de cada ser, e das diversas formas da felicidade se expressar, surge. E isso traz, internamente, muita felicidade também, pois é uma delícia poder ser quem se é e, ao mesmo tempo, apreciar e celebrar a beleza do outro. E, melhor ainda, por não estarmos presos a conceitos, é delicioso deixar-nos surpreender por formas de beleza que nunca havíamos experimentado antes.

Assim, ao mesmo tempo em que é muito importante lutar para colocar limites nos crimes homofóbicos, é igualmente essencial fazer o que idealizou Buckminster Fuller: em vez de lutar contra a realidade que queremos mudar, lutar a favor da queremos estabelecer, e deixar a outra morrer de inanição. Isso significa, para mim, deixar de colocar energia nessas leis abstratas e arbitrárias, que tentam se legitimar como “universais” porque algum dia algum deus, filósofo, cientista ou qualquer figura legitimadora falou que “é assim”, e botar mais energia em nomear e viver em consonância com as leis universais, essas que estão enraizadas no fluxo natural do corpo e da vida – o que minha mãe chama de “zona de energia correta”.

É importante se dar conta que brigar contra as leis impostas é uma forma de dar energia para elas. Em geral, brigamos tentando fazer valer outras leis, opostas às que estamos combatendo, que podem até serem reflexo das leis universais. Mas, a própria energia de raiva e de agressividade com que combatemos é sintoma da nossa dificuldade de nos enraizar no que é natural, e só aumentamos o problema. Quando uma lei é realmente natural, ela impera, e não o que temer. Não há espaço para debate agressivo, não porque é “proibido”, mas porque a verdade já está no corpo – não há nada para ser vencido, mas apenas para ser clareado. O debate, portanto, ocorre não para derrotar ou convencer mas, para juntos, darmos nome para o que já está aqui – um nome que faça sentido para todos, ou para a maioria. E, novamente, não porque “acreditamos” naquilo. Mas simplesmente porque é. E quando é, nosso corpo sabe. Quando nos alinhamos com o que é, ganhamos uma força incrível para sustentar o que nos faz sentido (pois “o que é”, “o que nos faz sentido” e “a força” são, na realidade, diferentes nomes para uma mesma coisa).

E como nomear o que “é” pode ser complexo e demorado, já que tateamos o emergente a partir das categorias e conceitos que temos agora, dentro de nossa vivência pessoal, familiar e social, o debate democrático tem importância vital. Ele nos dá a oportunidade de ver novas camadas do que já está ali, à medida que nossas convergências e divergências vão alargando nossa percepção do que é natural não só para mim, mas para o outro, para um grupo, para uma nação. A lei universal, que já é, vai se tornado clara à medida que vamos sentindo, nomeando e honrando o que é natural para todos. Isso implica mais a assertividade, firmeza e dignidade de caráter do que a agressividade e violência. Em princípio, mesmo um debate com muita divergência pode ser amoroso e nutridor. Não precisamos xingar e destruir o outro – mesmo que ele esteja sendo preconceituoso. Mas, a depender do nível de repressão para que o natural emerja, precisamos sim ser vigorosa e corajosamente assertivos em sustentar o que estamos vendo. O que está aqui. E não o que deveria estar. A lei natural. E não a abstrata e arbitrária. Entregando inclusive nossa vida em favor da verdade. Pois onde o natural impera, impera também a verdade e a vida.

Isso, claro, é bem diferente do debate político agressivo que temos hoje, e que encontra um de seus extremos no discurso homofóbico. Esse debate é apenas a representação visível da tentativa desesperada de fazer uma verdade artificial e construída, baseada em crenças datadas, fazer valer sobre o que, de fato, é a demanda do corpo e da vida. E isso se estende para muitas outras áreas do diálogo político. Se boa parte da verdade vendida pelos partidos e candidatos fosse natural, não precisaria de tanta parafernália de marketing, de tanta mentira, de tanta repressão, enfim, de tanto esforço, para se fazer valer. E não haveria problema em deixar outros candidatos e partidos, menores, terem mais espaço. Pois se os candidatos com maior poder estão honrando a lei universal, o que temer? E se os demais candidatos, com proposta alternativas, estão falando bobagem – algo que não ressoa com o natural, o que temer? E se estamos todos trabalhando para permitir a plena expressão daquilo que é natural e bom para todos e, portanto, tanto faz quem ganha e quem perde, o que temer?

Portanto, a fúria de Levy Fidelix e da massa homofóbica é, de fato, o desespero de uma classe desconectada de seu fluxo natural, assustada com o ruir de suas verdades frágeis e inventadas, e que está perdendo para aquilo que não se pode vencer: a lei natural e universal da vida e do ser humano. Daquilo que é espontâneo e verdadeiro. E que, quando não reconhecido e não honrado, gera dor, conflito, repressão, rebeldia e sofrimento, para todos os lados. Mas quando reconhecido, honrado e amado, tal como é, torna a vida extremamente doce, como os potes de mel que o Ursinho Puff tanto adora.

 

* * *  

 
Para quem quiser, segue a citação original do livro The Tao of Pooh:
 
“According to Lao-tse, the more man interfered with the natural balance produced and governed by the universal laws, the further away the harmony retreated into distance. The more forcing, the more trouble. Whether heavy or light, wet or dry, fast or slow, everything had its own nature already within it, which could not be violated without causing difficulties. When abstract and arbitrary rules were imposed from the outside, struggle was inevitable. Only then did life become sour. To Lao-tse, the world was not a setter of traps, but a teacher of valuable lessons. (…) Through working in harmony with life’s circumstances, Taoist understanding changes what others may perceive as negative into something positive. From the Taoist point of view, sourness and bitterness come from the interfering and unappreciative mind. Life itself, when understood an utilized for what it is, is sweet.”

The Tao of Pooh, Benjamin Hoff
 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


Hoje termina uma jornada de 2 meses e meio fora de São Paulo e de 1 mês em Aracaju, minha terra natal. Sinto que tal qual a jornada de 70 dias que fiz pelos EUA entre ano retrasado e passado, esta também foi uma viagem talhada sob medida pela vida para que eu abrisse mais meu coração, aproximasse-me mais de mim mesmo e limpasse os canais para o pleno fluir da minha vida e de tudo que está emergindo nela, incluindo carreira e filhos.

Não tenho atração por ficar expondo minha vida íntima nas redes sociais, mas sinto que de vez em quando a vida me traz algum presente ou insight tão importante, que a minha vontade é compartilhar com o mundo inteiro. Talvez aí more uma influência do meu instinto de escritor, que naturalmente me chama para compartilhar com mais pessoas as narrativas que acontecem dentro e fora de mim.

Por isso, queria compartilhar e agradecer a vida e a todos os seres com quem a tenho partilhado, pelos momentos vividos nestes dois meses, no texto-poema que segue abaixo. Algumas partes só serão entendidas por quem conhece os fatos aos quais elas se referem, mas talvez mesmo elas possam ser compreendidas com o coração. Nem todos estão nomeados aqui em palavras, mas estão todos registrados nas entrelinhas do texto e do meu coração.

 

Aos ancestrais que me guiam

 

Se importante é aquilo que portamos no coração

Que fiquem para sempre registrados

Nas estrelas

Esses momentos:

 

Ver você, meu irmão,

Casando com sua alma gêmea,

Do lugar mais belo que eu poderia

Imaginar:

O pé do altar,

Onde tive a honra de os receber

Ao lado de minha companheira.

 

Mergulhar na sua história,

Meu amor,

E aprender uma parte

Da sua língua,

Aquela que passeia

Pelo Sena

E namora aos pés

Do lago das uvas.

 

Comungar, com sua família,

De uma história

Muito antiga,

Cujos portais só se

Abrem

Pela honra ao que

Passou.

 

Entender que a

Europa

É também a minha

Terra

Porque nela vivemos

Vidas

E o Natal que

Juntos

Comungamos.

 

Mergulhar num kiirtan

Tão doce e verdadeiro

Que qualquer lugar

Do mundo

Pareceria menor

E menos bonito

Que aquele salão pequeno,

Num inverno gelado, de dias curtos

Do interior de uma Suécia distante.

 

E num desses momentos

Sentir que rodamos juntos

Você, meu amor, apoiando minha voz cansada

Numa madrugada

Sem ninguém.

 

E num desses encontros

Sentir que Deus preparou

Um momento só nosso

E da alma que

Nos espera.

 

Comungar com os amigos

Que moram longe

De seus amores e projetos

De seus filhos e gravidezes

Sentir-me acolhido,

E na véspera de um adeus,

Num momento pequeno

E mágico,

Sentir no meu corpo

Como um lágrima

O meu próprio filho

Passando através

De mim.

 

Degustar da vida

Com você,

Meu raio de sol,

No sabor de uma massa

Caprichada

Um chocolate inesquecível

Um passeio engraçado,

Verde,

Antigo,

Amoroso,

Doce,

Sutil,

Musical,

Terminando sempre,

Claro,

Com um sorvete

De pistache,

Em uma Roma

De terraços

Tão charmosos

Quanto nosso amor.

 

Passear pelas mágicas

Montanhas

Da uma Suíça

Inesquecível,

Num dia improvável

De luz e sol,

Num jantar improvável

De bons amigos,

Numa conversa de trem

Mirando a beleza sem fim,

Falando sobre o que

Importa

Com você, meu irmão,

Que sempre

Amarei

 

Jantar com você,

Mainha,

E beber do seu

Brilhantismo,

Nutrir-me de sua

Genialidade,

Digerir a sua

Generosidade

E sair mais forte

Para voltar para casa.

 

Não pense que não notei

O pão comprado logo cedo

A sopa feita com carinho

A água de côco sempre fresca

O sorriso de avó coruja

A partilha da sabedoria

A taopica quentinha

A novela compartilhada

O quarto cedido

O espaço oferecido

Para eu ser quem sou.

 

Também não pense que não notei,

Martoca,

Sua humilde presença,

Cuidando da minha,

Zelando por mim,

Sendo você,

Tão autêntica e brilhante,

Guiando meus passos

Ao me fazer pensar e rir

E ser a parceira

Bruxinha do bem

Da minha mãe.

 

Viver a vida com vocês,

Meu irmão, minha cunhada,

Presenças amadas,

Junto com minha esposa,

Como Irmãos de vida,

De Alma,

Recebendo de Deus

E compartilhando juntos

Nossos dons,

Em casa,

No curso,

Na sorveteria,

No papo gostoso

Antes de sair do carro.

Amor.

 

Maya sentada comigo

Juntinho na rede

Ela correndo do monstro

Que agora eu era

Pulando no ombro

E me ajudando,

Tão linda,

A controlar o tempo

Do meu olhar

Anfitrião.

 

Theo imitando

Tarzan

Como faz o tio Guga

Seu cabelo de mel

Brilhando ao sol

Seu sorriso de dentes

Poucos

Sorrindo como a ninfa

Pureza

Batendo engraçado

No chão

No tambor

Na mesa

E sempre pedindo

Ké – ké – ké

Dá – dá – dá

Para qualquer

Gordinharia

Que se veja

 

Sentir você, minha amada,

Ainda aqui ao meu lado,

Partilhando comigo

Das dores

E das delícias

E fazendo desta família

Uma família que também é

Sua.

 

A flor do propósito

Abrindo novas

Pétalas

Nos chamados

Da Alma,

Que caem tanto,

Como frutas maduras,

Que ao mesmo tempo

Que agradeço,

Pergunto com quem

Compartilharei

O que não cesta

Já não mais cabe.

Agradeço, Senhor,

A felicidade

E a abundância.

 

São tantos parceiros

Que tecem comigo

O que sou

E o que somos

Que é como se eu

Morasse

Numa galáxia brilhante

E tão próxima,

Onde sou uma

De muitas estrelas

Com quem partilho

A luz.

 

Encontrar vocês,

Meus amigos,

Meus irmãos,

Não apenas em Serra Grande

Mas na simplicidade do cotidiano

E na grandeza da alma

Do seu nobre coração guerreiro,

Amado Thomas,

Do seu bondoso coração

Feiticeiro,

Amada Narjara,

E na combinação de tudo isso,

Nos olhos sorridentes

De Luan,

Brilhando como a Lua

Na tarde em que Cristo

Nos penetrou,

Sob a guarda da

Deusa Kali

Com suas alegres

Quatro patas.

 

Sentar com você,

Meu pai,

Naquela mesma varanda

E sentir que aos poucos

Me preparo

Para sermos Um

Mais e mais,

No Amor.

 

Almoçar com vocês,

Vovô Antônio e vovó Gilda,

E ver que uma estrela brilha

Mesmo no corpo que fraqueja

Com a luz de Deus,

Da devoção que nunca cessa,

E da entrega que você, meu avô,

Respira.

 

E ouvir, ouvir e ouvir,

Sem nunca querer parar,

As histórias doces,

Alegres, difíceis,

Belas, intensas,

Conhecidas, surpreendentes,

Fortes, leves,

De quem conheço

E de quem jamais

Conheci,

Que falam de mim

E de para onde vou,

As suas histórias,

Meu avô José Augusto

E minha avó Maria da Conceição

Meu vovô Augusto

Minha Nana Ceiça

Minha Vovoruska,

E guardar como jóias

Seus olhos marotos, voinha,

Seus olhos brilhantes, voinho,

E saber que eu sempre,

Sempre,

Os portarei no meu

Coração.

 

Que minhas palavras

Possam honrar

A sabedoria que vocês me trouxeram

No livro que escreverei.

 

Que minhas palavras

Possam honrar

A sabedoria de todos vocês,

Ancestrais,

Na forma de homens, mulheres,

Amigos, irmãos,

Pais e avós,

Colegas, clientes,

Parceiros, Seres,

E que eu possa

Ser grato

E agradecer sempre

Porque continuamos juntos

Nos próximos passos

Desta jornada.

O Haiti é aqui, no meu coração

 

Quero agradecer a todas as pessoas que seguiram seu coração e que me inspiraram a também seguir o meu. Quero agradecer às pessoas que estão seguindo seu coração neste momento e que fortalecem a minha busca. E quero pedir, clamar, convocar a todas as pessoas que ainda não o fizeram que, por favor, sigam o seu coração, pois ele é um rio que nos leva por paisagens deslumbrantes e que, inevitavelmente, nos faz desaguar num oceano infinito de amor, felicidade e prosperidade.

 

A cada dia que passa, sinto que cada momento, cada conversa, cada experiência, tem um significado tão profundo para mim, que parece que estou constantemente no clímax do meu filme favorito. Estou me dando conta disto mais ainda depois desta experiência no Haiti, onde por diversos momentos do dia meus olhos marejaram de felicidade e eu senti um vazio pleno e profundo no meu coração.

 

Não é a felicidade de “estar fazendo o bem” num pais mais pobre que o meu. É a felicidade de ser eu mesmo e de poder servir ao momento presente, independente do que se apresente nele. Percebo que a mesma alegria que senti aqui é a mesma de quando eu estava sentado em salas de reunião de grandes empresas discutindo outras ações bem diferentes da que realizei esta semana, mas que estão recheadas da mesmo sabor de propósito, serviço e conexão com o Amor Maior.

 

Sinto que a felicidade de me sentir alguém que serve aos “mais necessitados” é uma felicidade passageira para mim e desempoderadora para o outro. Mas a alegria de criar níveis de conexão cada vez mais profundos com todos os seres – humanos ou não – em todos os momentos da minha vida, isso me enche de êxtase. E ver como esses momentos aos poucos vão se encaixando numa profunda teia de sentidos, que se liga à vida de outras pessoas - uma teia que não sou eu que está tecendo, mas para a qual eu contribuo como uma pérola - isso é realmente fascinante. É como uma grande dança que vai se formando quando cada um ocupa seu lugar na dança: existe o deslumbre de realizar o próprio passo, o de admirar o passo do outro e o de contemplar com fascínio o regente dessa surpreendente e belíssima coreografia.

 

Aqui também é a minha casa

 

A primeira sincronicidade que experimentei nesta viagem foi a de encontrar na fila para entrar no avião para Porto Príncipe, ainda em Miami, uma brasileira que mora e trabalha no Haiti. Foi muito curioso esse inesperado encontro e suas repercussões: sem saber, ela me deu uma informação chave para o curso que eu daria logo em seguir – cuidado com as traduções, pois a maior parte das pessoas não traduz exatamente o que você fala. E, de fato, estar alerto para isso me ajudou a perceber o momento em que precisei pedir reforços para que as pessoas realmente entendessem o que eu estava falando durante o curso.

 

Além disso, foi muito interessante perceber que sem os movimentos que fiz nos últimos meses para aprender francês, para poder interagir mais com a família da minha esposa, eu jamais poderia ter tido conversas significativas – embora rápidas, pois meu vocabulário ainda é pequeno – com as pessoas daqui. O creole tem uma influência bem importante do francês, que é, de fato, a língua oficial – embora seja falado por apenas 20% da população. De todo modo, meu parco francês me ajudou a compreender coisas importantes que estavam escritas ou que estavam sendo ditas, e me permitiu criar algumas conexões que não teriam sido possíveis com a tradução.

 

Outro presente foi conhecer meus anfitriões: Dharma (Demeter), diretor dos programas da AMURT – Haiti, originalmente da Bulgária, que mora no Haiti há 10 anos, e Daniel e Tasha, um casal de americanos que está lá há pouco mais de um mês, com a intenção de ficar. Certamente esse é um daqueles encontros que já estavam pré-marcados pela vida, como se antes de encarnar a gente tivesse dito um para outro: “então a gente se encontro no Haiti, no ano tal, na data tal, certo?”. Eu e Dharma, em especial, sentimos tanto amor um pelo outro que é como se já fôssemos grandes amigos há muito, muito tempo.

 

Todos os dias, enquanto ia para a sede da AMURT – Haiti para o treinamento, e via e ouvia os habitantes de Porto Príncipe, e depois, quando chegava lá e conversava, ria e me emocionava com as pessoas, eu comecei a sentir uma sensação de lar muito profunda, que tenho sentido em poucos lugares do mundo – especialmente fora do Brasil. Na minha última noite, por fim, quando eu e Dharma fomos encontrar Augusto, diretor de programas da Viva Rio, para um bate papo no restaurante super cool Cartier Latin (com ótimo reagge ao vivo, por sinal), entendi: ele me contou que Rubem, o fundador do Viva Rio, ao chegar no Haiti se apaixonou pelo lugar e as pessoas, e hoje esta organização é uma das poucas orginalmente brasileiras que faz trabalhos em outros países, e seu fundador, que pelo que entendi tem mais de 70 anos, tem energia suficiente para passar 15 dias no Brasil e 15 no Haiti. Enquanto ouvia Augusto, é como se naquele momento a vida estivesse dando um contorno para o que eu estava sentindo: o Haiti também é a minha casa.

 

Um país de contradições

 

A primeira coisa que me perturbou, antes mesmo de chegar no Haiti, foi que todas as pessoas que eu encontrei desde que pisei nos EUA, para quem eu contava que iria para lá, perguntavam-me: “você está indo fazer trabalho humanitário?”. E eu pensei: meu Deus, que triste sentir que esse país está tão machucado que a única motivação que as outras pessoas imaginam para viajar até lá é fazer o tal “trabalho humanitário”. Em outras palavras: gente rica ajudando gente pobre. E, de fato, eu estava indo lá para dar um curso para uma ONG, e não passear numa praia bonita. Isso me deu o que pensar.

 

Em segundo lugar, foi muito perturbador perceber, ao entrar no avião que levaria a Porto Príncipe, que além de alguns haitianos, a maior parte dos passageiros eram americanos, pessoas de língua francesa e outros estrangeiros como eu, todos com “cara” de que iam fazer trabalho humanitário. O mais perturbador, na verdade, foi ver um grupo de adolescentes americanos usando uma camisa escrito “Healing Haiti” (Curando o Haiti) e claramente acompanhados por instrutores. Foi muito estranho pensar que o sofrimento dos haitianos significa um trabalho de escola para alguns adolescentes americanos. Não que não seja bom que esses jovens tenham essa experiência – mas a lógica por trás dessa realidade é quase exasperante para mim.

 

O Haiti experimenta um nível de desenvolvimento que existe em algumas partes do Brasil, mas que pessoalmente eu nunca vivi: a eletricidade é controlada – ricos, empresas, organizações governamentais e ONGs têm gerador próprio, mas a maios parte do país (mesmo em Porto Príncipe, que é a capital) só tem energia de uma certa hora da noite até uma certa hora da manhã. O sistema de água baseia-se em cisternas que são enchidas quando acabam – de vez em quando, não tem água para descarga, banho etc. As ruas têm um cheiro incômodo de gasolinas; das que eu vi, nenhuma tem farol, e muitas não são asfaltadas.  

 

Assim como em lugares mais pobres do Brasil, as ruas são tomadas por gente vendendo frutas, verduras e comidas de todo o tipo, como frango frito e cachorro-quente, a 12 centavos de dólar cada um, em média. Daniel me explica que as salsichas são feitas com o pior tipo de sobra de carne, que os EUA exporta a um preço que parece barato, mas que garante um bom lucro. Porto Príncipe não tem um cinema sequer – o único que existia foi destruído pelo grande terremoto que assolou o país alguns anos atrás. Existem alguns restaurantes, como o Cartier Latin, e grandes supermercados, onde se encontra todo o tipo de produto – alguns da agricultura local e muitos outros importados. Nesses locais, bem aclimatados com ar condicionado, é onde a burguesia haitiana e os expatriados se encontram – é quase como se fosse o shopping local. Uma pessoa com quem conversei me diz que não sabe o que acontecerá quando acabar a missão da ONU no país, pois muitos expatriados irão embora e, com eles, uma parte significativa da população que esquenta o mercado de compras e aluguéis de Porto Príncipe.

 

Em outras conversas, fiquei sabendo que desde o terremoto o Haiti virou uma loucura para as organizações não governamentais. De repente, havia dinheiro para todo mundo: algumas ONGs aumentaram seu quadro de poucas dezenas para centenas, ou de poucas centenas para mais de mil. Milhões de dólares eram manejados por essas e outras organizações, e uma boa parte do trabalho era bem operacional: receber e distribuir alimentos e mantimentos. Numa certa altura, AMURT – Haiti resolveu não aceitar mais esse tipo de trabalho e focar no que faz melhor: desenvolvimento local. A rapidez com que o dinheiro entrou nesta época é proporcional à dificuldade que foi gerada depois, para demitir boa parte desses funcionários - a maioria haitianos, que não compreendiam porque agora não tinham mais os seus empregos. As verbas diminuíram, e com o passar do tempo, as coisas começaram a voltar à rotina.

 

O Haiti tem um presidente que, segundo algumas pessoas com quem conversei, é apenas uma marionete do governo dos Estados Unidos, que teria interesse em uma série de recursos naturais do país – aparentemente, uma grande reserva de gás natural foi descoberta recentemente, que seria bem maior que a da Venezuela. Daniel me conta que, curiosamente, a embaixada americana no Haiti é a quarta maior do mundo – algo que não parece proporcional à importância política e econômica do país no cenário internacional. Na minha última noite lá, de repente fomos pegos por um tráfico absurdo. Militares de aspecto duro, portando suas metralhadoras, ordenavam agressivamente por onde as pessoas deveriam seguir, seja a pé, de moto ou de carro. Primeiro, Daniel e Tasha acreditaram ser a equipe de de segurança de Bill Clinton, que vem constantemente ao país, mas depois descobrimos ser uma visita do presidente a um local próximo de onde estamos.

 

O local onde fiquei hospedado com Daniel, Tasha e Dharma chama-se Petion Ville, um dos bairros mais chiques da cidade – o que significa que lá estão as casas da pequena classe média e da classe alta do Haiti, bem como embaixadas, órgãos governamentais etc. É lá que moram a maior parte dos expatriados fazendo “trabalho humanitário” no país. Uma pessoa me contou que morar em Petion Ville é a única maneira para ter acesso a comodidades mínimas como luz e água. Lá também estão, pelo que entendi, os “mulatos”, que compõem uma boa parte da classe alta haitiana – negros um pouco mais claros, que surgiram da mistura entre os então escravos e os colonos franceses, que foram expulsos ainda no começo do século XIX. O Haiti foi, segundo as pessoas com quem conversei, a primeira nação independente das Américas, e seus heróis constam nas folhas da moeda local.

 

Muito embora a grande maioria da população fale creole, a língua oficial é o francês e essa língua que está em todos os materiais oficiais – nos avisos dos aviões, nos papéis oficiais do governo. Uma pessoa me contou que muitos haitianos, se alguém perguntar, não admitirão que não falam francês, pois a fluência na língua oficial é associada a status. Ainda assim, existem muitas similaridades entre as duas línguas e eu consegui, em alguns momentos, estabelecer algumas conversas, inclusive com crianças, com meu parco francês.

 

Belo Haiti, belos haitianos

 

Mesmo com todas essas contradições, Porto Príncipe – e, imagino, o Haiti como um todo – tem uma beleza encantadora. Cercada de montanhas, a cidade tem uma natureza facilmente acessível a carro, e no último dia Dharma, Daniel, Tasha e eu fomos a uma cachoeira pequena e bem gostosa, onde tive a oportunidade de fazer algo que eu amo: tomar banho nu. No caminho, pela trilha, encontramos vários haitianos lavando e secando suas roupas, e outros que também tinham vindo para fazer trilha e se banhar nas cachoeiras (havia outras, mais para frente, mas não tivemos tempo de ir lá). Foi uma experiência interessante e nunca antes vivida, tomar banho nu de cachoeira e de repente ver uma dezena de haitianos chegando e me observando, até eu finalmente decidir vestir meu short e voltar a meu hábito brasileiro de mostrar quase tudo – mas não tudo.

 

Mas a joia mais preciosa que encontrei no Haiti não foram as belas paisagens: foi o povo haitiano. Eu fiquei absolutamente encantado com a vivacidade do povo, a despeito da pobreza vivida por tantos. Em um dos dias por lá pensei: será que isso acontece porque quase ninguém no Haiti assisti TV? Eu tenho a sensação de que a televisão, mesmo que transmita bons programas, é em si uma tecnologia que estimula a letargia e rouba a energia. Dharma, numa conversa, me confirma que sim, que ele também sente que a quase inexistência da cultura de massa permite que os haitianos mantenham uma vivacidade que ele não enxerga em outros países onde as pessoas são dominadas pelo que o indiano P.R. Sarkar chamou de “pseudo-cultura”. Outro amigo meu argumenta que esta vivacidade é a mesma que ele encontra nos países africanos que visita regularmente, e que é parte do “DNA” do povo africano.

 

Essa vivacidade se expressa no olhar dos haitianos que conheci, em sua doçura e, ao mesmo tempo, em sua energia forte. Segundo as pessoas com que conversei, os haitianos são, em geral, muito politizados – ouvi um relato em que, voltando de uma outra cidade para Porto Príncipe, de carro, uma pessoa testemunhou dois jovens no banco de trás pedindo para continuar ouvindo uma estação de rádio cujo programa discutia a situação política da Ucrânia – e os dois jovens discutiam animadamente sobre o assunto.

 

Claro que é sempre complicado generalizar a personalidade de um povo a partir de algumas percepções individuais, por isso aqui não falo do Haiti como um todo, mas do Haiti que eu conheci. Esse Haiti é o que me causou cansaço físico e energético, devido à poluição, falta de estrutura, instabilidade social e política, e o que me encheu meu coração de inspiração e amor, pela beleza de suas montanhas e delicadeza e força de seus habitantes.

 

Uma das histórias mais bonitas que, para mim, refletem essa delicadeza, aconteceu no meu último dia lá: após o banho de cachoeira, sentamos num lugar sombreado, já na trilha de volta, para fazer um piquenique. Num certo momento, passa por nós um homem e sua (provavelmente) filha pequena, e nos dá bom dia. Nós respondemos. Após algum tempo, os dois voltam e ficam nos olhando. Ele fala em inglês: “ela quer comer”. Meu primeiro instinto, tendo trabalhado quase dois anos como educador social num projeto cujo público principal eram crianças que trabalhavam nas ruas, foi de dizer “não”. Eu aprendi – não pela teoria, mas na prática - durante meu trabalho, que atender esse tipo de pedido alimenta um ciclo vicioso de exploração infantil, letargia, consumismo, entre outras coisas.

 

Eu fiquei quase irritado com o pedido do homem, na verdade. Mas depois apenas respirei e pensei que o homem era inocentemente “sem noção” de nos pedir comida daquele jeito tão direto. Entretanto, Dharma imediatamente atendeu o pedido do homem, e fez um enorme e gostoso sanduíche para a menina, que o recebeu com um sorriso no rosto que derreteu meu coração. O homem agradeceu e os dois partiram, felizes. E nós esquecemos do assunto.

 

No entanto, alguns vários minutos depois, eis que ressurge o homem, agora com uma montanha de pés de alface nos braços – tantos que ele quase sumia atrás. Ele se aproximou e pediu que nós recebêssemos aqueles alfaces como agradecimento. Naquele momento meus pressupostos foram por algo abaixo. A minha experiência era com a mendicância, em que muitas vezes crianças e os adultos que os acompanham (nem sempre seus pais, pois há adultos que alugam crianças para obterem mais resultados) forçam, por vezes, um ar de “coitados” que logo muda quando recebem o que querem. E, depois de receber, partem sem demonstrar qualquer vínculo com a pessoa que lhes deu algo (como se a pessoa fosse apenas um cliente).

 

Não que eu julgue esse comportamento – é uma estratégia de sobrevivência que as pessoas encontraram, dentro de um Brasil que oferece tão poucas oportunidades para um grande número de pessoas. E não que eu os esteja responsabilizando – esse é um comportamento que só existe porque encontra ressonância numa classe média e alta assistencialista e que não se responsabiliza pelo desenvolvimento das pessoas que não fazem parte de seu círculo social. Mas, ainda assim, esta é sim uma dinâmica muito comum, e que me levou a não querer estimulá-la dando comida, dinheiro ou qualquer outra coisa para crianças ou adultos acompanhados de crianças.

 

Mas este homem, ao agradecer um simples sanduíche retirando de sua própria horta um número de pés de alface que, certamente, alimentariam mais pessoas – e, acredito, ainda valeriam no mínimo o mesmo preço – quebrou a minha lógica. Ele deixou de ser o mendigo, que na minha mente é alguém mais vulnerável que eu, e criou uma relação de igual poder comigo. Dentro de mim, ele saiu do lugar da pobreza e foi para o lugar da honestidade, da bondade, da gratidão, da generosidade e da reciprocidade. Na verdade, ele se tornou mais brilhante e poderoso do que eu mesmo me considerava naquele momento. Eu bebi de sua luz, e o agradeci internamente por isso.

 

Novamente, isso não significa que todos os haitianos agiriam como aquele homem. Durante meus dias por lá, fui chamado por algumas pessoas que pediam dinheiro. Mas, curiosamente, muito menos (muito menos mesmo) do que fui chamado em Roma, durante a viagem que fiz para lá com minha esposa, no começo do ano. E Porto Príncipe é certamente muito mais pobre que Roma. Talvez tenha sido apenas minha experiência (um amigo me disse que, sim, o Haiti tem uma cultura de mendicância muito forte), mas talvez haja nos haitianos algo que se identifica mais com a simplicidade digna do que com a pobreza que inferioriza. Talvez esse seja um dos aspectos que tornou aos meus olhos esse povo – e esse lugar – tão belos.

 

Dharma

 

Eu fui para o Haiti para dar um curso de Liderança Sadvipra, uma metodologia que criei junto com meu amado amigo e mentor Peter Sage, um monge inglês que mora em Washingon DC e que vem constantemente ao Brasil. Peter é coordenador global dos projetos de desenvolvimento local AMURT – daí a ligação com a AMURT Haiti. Além disso, é um dos melhores instrutores de yoga e meditação que já conheci, um facilitador de processos de desenvolvimento humano poético, criativo, gentil e sagaz, e um conhecedor de realidades – ele já viajou e viaja há mais de 30 anos por dezenas de países, e alguns de seus destinos anuais, além do Brasil e do Haiti, são países da África, como o Kenia, da Ásia, como as Filipinas e da Europa, como a Islândia.

 

Já há alguns anos, Peter e eu conversarmos sobre fazer algo juntos, e finalmente concluímos que nosso desejo comum é o de colocar a sabedoria do Tantra Yoga, especialmente aquele sistematizado por P.R. Sarkar, para ajudar mais pessoas a desenvolver sua capacidade de liderança. O yoga é muitas vezes visto no Ocidente apenas como uma prática corporal ou, no máximo, como uma prática de meditação ou de elevação espiritual, num caráter mais religioso. Mas a filosofia completa do Yoga, como a do Tantra Yoga de Sarkar, possui um vasto espectro de conhecimentos, que vão desde ferramentas de desenvolvimento pessoal até princípios para o desenvolvimento social, político e econômico, abrangendo propostas de economia cooperativa, estrutura política descentralizada, técnicas para otimização da indústria e da agroindústria, entre outros. Portanto, assim como acontece com outras fontes de sabedoria espiritual, como a antroposofia, nós decidimos expandir o yoga para fora das escolas de yoga e leva-lo para o contexto do desenvolvimento pessoal, profissional, organizacional e social.

 

Desse desejo, nasceu o programa de Liderança Sadvipra (sadvipra é uma palavra em sânscrito e significa, em linhas gerais, buscador da verdade), para o qual desenvolvemos dois currículos: um mais curto, focado no desenvolvimento pessoal do líder, e outro mais longo, que inclui os aspectos organizacional, social e político. Resolvemos começar, nos primeiros anos, com o mais curto e, quando o campo já estiver mais fértil e sólido, implementar o segundo. Em 2013, fizemos um primeiro curso experimental no Brasil. Haiti foi o segundo e será seguido por um novo curso no Brasil e, em seguida, nos Estados Unidos e nas Filipinas.

 

Este projeto, bem como tudo que tenho feito na minha vida, é uma expressão direta e muito gratificante do meu propósito de vida: contribuir para a plena expressão de líderes do coração, que co-inspirem uma cultura sustentável no planeta. Esta frase, claro, não é apenas um slogan inspirador: cada palavra possui desdobramentos conceituais e práticos muito claros em tudo que sou e faço. Um desses desdobramentos, que também está ligado a meus valores, meus objetivos estratégicos, a minhas visões interna (quem quero ser) e externa (o mundo que quero criar), é investir em atuar com pessoas e organizações de contextos diferentes (empresas, ONGs, comunidades rurais, urbanas, governos, comunidades espirituais, redes) e de culturas e lugares diferentes. Portanto, esta viagem para o Haiti, para dar este curso, numa organização como a AMURT, sempre ressoou como uma forma potente e bela de realizar meu propósito.

 

A palavra que utilizamos na Liderança Sadvipra para falar de propósito é Dharma. Esta é uma palavra cada vez mais conhecida no Ocidente, e geralmente é traduzida como missão ou ação correta. Outra tradução, talvez a minha preferida, é “a essência natural de cada entidade”. Assim, Dharma é o que fazemos quando somos nós mesmos, espontaneamente – e isto é nossa missão. A investigação do que é e de qual é nosso Dharma é a primeira reflexão deste curso inicial de Liderança Sadvipra, no qual cada participante explorará de forma teórica, prática e no próprio corpo sete tendências fundamentais do líder sadvipra. Essas tendências nascem nos sete centros principais de energia do corpo propagados pelo yoga (os cakras) e podem ser fortalecidos pelo correto entendimento corporal e mental, bem como pela prática constante de alguns princípios. A reflexão sobre Dharma é justamente a que acontece durante a investigação do primeiro cakra.

 

Uma das belezas de vivermos nosso Dharma é a possibilidade de podermos relaxar e testemunhar as coisas acontecerem sem muito esforço, pois como nosso propósito é um lugar de espontaneidade e poder, cada pequeno passo que damos gera um mundo de sincronicidades, e traz a sensação constante de que o universo está conspirando a nosso favor. Mesmo quando recebemos desafios, se olhamos com cuidado para eles, enxergamos alguma lição fundamental que nos ajudará a avançar em nosso propósito. E assim foi com tudo nesta viagem: cada pessoa que encontrei, cada conversa que tive, parecia talhada com perfeição para que eu recebesse o que precisava neste momento da minha vida. E tudo que vivi nos últimos meses – inclusive ter focado em aprender francês – parece ter me preparado para retirar o melhor dessa experiência agora.

 

Mesmo o desafio de ter que ter dado o curso sozinho, pois no fim Peter não pôde ir, por algumas questões urgentes que precisou resolver, parece ter acontecido para que eu pudesse ter realizações muito profundas sobre mim e meu propósito. Ananta, ou Jean Pierre, um lindo e doce jovem haitiano, e um dos participantes do curso, me disse no último dia do treinamento que quando ele me viu, ele não achou que eu seria capaz de realizar esse trabalho sozinho, mas que depois da primeira hora, e ao fim do primeiro dia, ele já estava completamente convencido. Um outro participante, mais velho, disso no segundo dia que ele havia vindo ao treinamento com a certeza de que seria chato e de que ele não aprenderia muita coisa, mas que agora ele sentia que sairia de lá com uma bagagem recheada. E esse é o poder do propósito: quando estamos alinhados com o que viemos fazer aqui, nunca estamos só ou desamparados, pois a força que guia as estrelas está nos guiando também. Eu certamente dei meus pequenos passos, compartilhando tudo que sei e sou como facilitador, mas o resultado inspirador ao qual chegamos juntos ao final do curso só foi possível porque, junto com a minha força, havia a força de todo o grupo, e de todo o universo.

 

Nós éramos um grupo de 16 pessoas, contando comigo. A maioria era de haitianos que trabalham como animadores ou educadores sociais nos diversos projetos de desenvolvimento local da AMURT - Haiti. Além deles, havia alguns voluntários, como Daniel e Tasha, e Dharma, que é o coordenador geral dos projetos. A tradução era um desafio: Dharma não estava sempre conosco, e pela manhã a pessoa que fazia a tradução, embora muito querido, não era tradutor profissional, e portanto nem sempre conseguia traduzir o que era dito, ou traduzia uma outra coisa, diferente do que eu havia falado. De tarde, tínhamos Michel, um tradutor profissional e também muito querido.

 

Ainda assim, todos os pontos essenciais conseguiam ser transmitidos. O curso começou com um dia de apresentações mútuas, uma passada geral sobre o que é liderança sadvipra e sua relação com os cakras, e pela prática de algumas ferramentas de conversa significativa, como o círculo. Neste dia, a magia que viveríamos juntos já começou a aparecer: as pessoas iam abrindo sorrisos e seus olhos iam brilhando à medida em que conversávamos sobre um novo jeito de liderar, menos impositivo, mais doce e livre, em que o outro não está a serviço do líder ou da metodologia, mas ao contrário: o líder e a metodologia se adaptam às necessidades reais das pessoas. No fim do segundo dia, após a reflexão sobre Dharma (1º cakra) e como se nutrir da força de nossos grupos e comunidades de apoio (2º cakra), todos nós já estávamos absolutamente maravilhados um com os outros.

 

A roda de partilha do Dharma de cada um, no fim da primeira manhã, foi particularmente especial. À medida que cada um ia compartilhando sua frase de propósito, construída com muito carinho ao longo da manhã, os outros iam se entusiasmando e fazendo pequenos sinais com o corpo, com a voz e com o olhar. Houve até quem quisesse aplaudir o que estava sendo dito. Todos ficaram encantados com a beleza um do outro, com o brilho único que cada um trazia para esta vida e que, mesmo com eles já se conhecendo há alguns anos, não estava claro nem para si, nem para os outros. Depois dessa manhã, a palavra “Dharma” entrou no vocabulário deles e foi constantemente repetida em muitas partilhas, até o último momento do curso. Isso me trouxe de novo a certeza de que todos – absolutamente todos – têm o seu Dharma, e que estar em contato pleno com ele é estar em contato pleno com a parte mais amorosa e poderosa de nossa alma.

 

Os presentes

 

No projeto Senhor Sustentável (um dos empreendimentos que toco dentro da Comunidade SER, a organização que co-criei com outros várias incríveis pessoas), nós dizemos que “o presente é um presente”. E, de fato, quando estou plenamente aberto para o aqui e agora (o que inclui estar presente nas minhas lembranças do passado e em meus projetos para o futuro) coisas extraordinárias acontecem. E durante os dias de cursos, elas aconteceram sem parar.

 

À medida que o curso ia avançando, a sensação é de que todos nós estávamos nos apaixonando – um pelos outros e todos pelo próprio Amor, na sua forma maior. À medida que avançávamos pelo 3º cakra, aprendendo a identificar necessidades e desejos e expressá-los com nosso fogo criativo – em vez do destrutivo, e pelo 4º cakra, investigando como transcender dicotomias e abrir o coração para trabalhar com a complexidade, os testemunhos iam ficando mais pungentes e tocantes. Algumas pessoas relataram estar entendendo pela primeira vez a filosofia da organização na qual trabalham – alguns há cerca de 10 anos. Muitas relataram sua satisfação por sentir que tudo que estava sendo trabalhado tinha um profundo significado e conexão com a vida prática deles. Nós começamos a refletir sobre o Haiti que queremos, integrando eventos difíceis, como o terremoto vivido há alguns anos, como elementos que poderiam ser incorporados a uma narrativa criativa e poderosa que cada líder é capaz de cocriar com os outros e com a vida. As pessoas começaram a falar para Dharma, nos bastidores, que o treinamento deveria ser dado para a organização inteira, e que eles gostariam que nós (incluo aqui o Peter, mesmo se ele não esteve fisicamente presente) voltássemos outras vezes, para continuar o aprendizado.

 

Claro que a parte mais importante de tudo isso – o amor e a felicidade gerados por todos nós – não dá para descrever aqui. É impossível de se transmitir algo como isso em palavras. Mas talvez seja possível compartilhar um relance, em dois momentos muito significativos. No último dia, logo após o almoço, nós fizemos uma dança circular, usando o Kiirtan (mantra cantado em voz alta, com instrumentos) Baba Nam Kevalam (que significa “Tudo é expressão do Amor”). Na dança, todos abençoam uns aos outros, e ao fim todos terminaram numa espécie de êxtase – mesmo aqueles que poderiam ter algum preconceito, por praticarem uma religião específica. Ainda assim, eu comentei que eles poderiam fazer essa dança nas comunidades em que trabalham, mas traduzindo o mantra para o creole. Eles imediatamente fizeram isso, e nós combinamos de refazer a dança ao final, agora em creole.

 

Ao final, depois de um exercício para estimular que cada pessoa se colocasse como líder como instrumento da vida ou de uma força maior, dançamos cantando em creole e terminamos virados para o centro, abençoando a todos nós e ao mundo. Ao fim, espontaneamente, os haitianos puxaram um grito que é, na verdade, um grito de guerra dos praticantes de Ananda Marga (a organização criada por P.R. Sarkar), que significa “Ao Infinito Amor, Vitória!”. Nós nos abraçamos e começamos as despedidas.

 

Quando as despedias já estavam acabando, Steeve me puxou no canto, trazendo com ele uma das participantes. Durante todos os dias do treinamento, eu observei atentamente esta mulher: seus olhos doces e simples, seu ar humilde e sua vibração bondosa me conquistaram logo de cara. Steeve me disse: “ela pediu que eu viesse junto porque ela quer te falar uma coisa”. Eu concordei. Então, ela me olhou nos olhos. Ela não simplesmente olhou na direção dos meu olhos. Ela OLHOU nos meus olhos. Com doçura e firmeza. E falou algumas palavras em creole. Steeve traduziu: “Ela disse que o nome dela é Marianette. Mariannete. E que ela espera que você nunca esqueça disso”. E eu derreti. Derreti totalmente diante daquele gesto tão singelo, tão poético e tão profundamente terno.

 

Seguir em frente

 

E é claro que, agora, eu quero mais. Todos nós saímos encantados. Em todos os tempos livres, e no meu último dia, durante o passeio até a cachoeira, Dharma, Daniel, Tasha e eu já esculpimos chamados, desejos, projetos, e reconhecemos uns nos outros um enorme desejo de seguir em frente. Só que cada vez mais, fiz questão de afirmar, num passo mais respirado, colaborativo, investigativo, e conectado com o propósito do que estamos fazendo. Não quero mais me deixar levar por qualquer pressa assistencialista ou super empreendedora, baseada numa liderança heroica que já não me faz mais sentido.

 

Por isso, desde já estamos traçando juntos um caminho para empoderar líderes da AMURT e a organização como um todo para que possam cocriar uma organização mais colaborativa e sustentável. Queremos chamar uma conversa com toda a organização – não apenas com as lideranças principais. Queremos co-anfitriar um planejamento estratégico que já seja, em si, um treinamento na arte da liderança colaborativa. Queremos praticar a Liderança do Coração. Queremos contribuir para expandir o que vivemos juntos e chamar outras organizações e, aos poucos, lideranças em outras esferas para construir um Haiti mais sustentável.

 

Não posso dizer que conheci o Haiti a fundo. Entretanto, num nível mais além do que o das palavras, sinto que há um Haiti – talvez apenas o meu Haiti, mas ainda assim, ele é um lugar verdadeiro e significativo – que mora em meu coração. Um lugar cheio de Marianettes, que eu sempre guardarei dentro de mim.