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segunda-feira, 16 de novembro de 2015




Escuta os gritos

de Paris.

Os gritos de quem agoniza

no chão.

Escuta os tiros

como gritos

de quem atira

- e os escuta também.

Escuta o grito

aterrorizado

de um mundo

que anseia por se sentir

seguro.

Escuta os gritos

do outro mundo,

que comemora

o sangue,

e que grita por algo

também.

Escuta os gritos

que não se

ouvem,

das vítimas e algozes

em lugares que não se vê.

Sem a mídia

como megafone,

eles gritam baixo

- mas, ainda assim,

gritam também.

Escuta os gritos

Marianos,

Diamantinos,

de rios, peixes e pessoas,

e tantos outros seres.

Gritos que ficam

invisíveis

quando só escutamos

os gritos de Paris.

Mas escuta os gritos

de Paris também,

Pois escuta não se

escolhe

- só se amplia -

quando escolhemos

não "o nosso",

e sim

"o bem".

Escuta o grito de

raiva,

medo,

preguiça,

sonhos,

que vem de

Dentro.

Pois é ele quem

ressoa

com o grito de

alguém.

Escuta e acolhe

esse grito profundo,

que lá fora,

transformado,

ele grita

a compaixão

que não se cala,

não se curva,

nem se vinga,

mas grita,

com coragem

o silêncio pacífico

que abençoa

o mundo.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Saudade vale a pena!





fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil


Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage. Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos, com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.

À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que, algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.

Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca. Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!

 
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social: “a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são contundentes e irrevogáveis.

Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo, nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza, ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um com ele novamente.
 
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós, o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.

Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor. Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se, e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades. Saudades do Grande Amor.

Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar, de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.



E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde estamos, e para onde vamos.

E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga, aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos vividos juntos.

Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade vale a pena!
 
 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Velar o Fogo do Masculino Sagrado

 

Velar o Fogo do Masculino Sagrado


 

Em 2014, um grupo de amigos próximos e eu resolvemos iniciar um Círculo de Homens. Depois de várias tentativas de marcar um primeiro encontro, enfim achamos uma data, e acabei não indo no tal encontro, pois nesse mesmo dia fui jantar com uma pessoa que considero um grande mentor para mim. Considerei que aquele havia sido meu Círculo.

Durante o ano, chegamos a ter, talvez, cinco encontros, que foram muito nutridores para muitos de nós, e também geraram incômodos. Um deles dizia respeito à nossa inexperiência em equilibrar o “papo sério” – de nossas feridas, do sagrado etc – e o papo “engraçado” – as aventuras sexuais, as histórias curiosas etc. Terminamos o ano num tom disperso, sem saber exatamente quando e como o Círculo iria continuar.

Em março deste ano, vi que uma data que coincidia com nosso pulso mensal de encontros (a terceira sexta-feira do mês) estava livre para mim, e mandei uma mensagem para o grupo que criamos no Whats App, sugerindo que fizéssemos o primeiro encontro do ano. Algumas pessoas confirmaram, inclusive dois amigos que haviam acabado de entrar no grupo, e estavam bem animados para um primeiro encontro.

Assim, na terceira sexta-feira do mês, na virada do ano astrológico, às 18h30, desliguei-me de meus afazeres de trabalho e sentei para meditar, como faço todos os dias, contando com que as pessoas começariam a chegar às 19h, que era nosso horário combinado. E aí começaram uma sucessão de frustrações, começando por um grande amigo que estava comigo lá desde a hora do almoço, esperando para participar do Círculo, e resolveu ir embora, para atender uma demanda familiar.

Enquanto eu meditava e, de olhos fechados, não ouvia a porta de nosso espaço abrindo, ou a campanhia tocando, meu coração ia me dizendo que ia haver uma debandada geral. Aquilo foi me angustiando, e eu quase ia me irritando por antecipação. Negociava comigo mesmo, dizendo que as pessoas só deviam estar atrasadas, como de costume. Mas, de fato, ao terminar de meditar, já passadas as 19h, vi no Whats App que vários haviam desistido. Entretanto, a confirmação de três amigos, mesmo sabendo que eles chegariam bem atrasados, me fez persistir no encontro.

Nesse período, entre eu meditar e esperar esses amigos chegaram, caiu uma ficha. Já há algumas semanas, eu refletia sobre o Círculo de Mulheres que também acontece em nosso espaço, há mais tempo e com mais regularidade, e sobre os vários Círculos de Mulheres que vejo acontecendo por aí, anfitriados ou contando com a participação de pessoas próximas a mim – inclusive minha esposa. Refletia, também, sobre a prática de uma querida amiga, com quem tenho passado por um processo de coaching, e que, além de arrumar lindamente o espaço onde temos nossas sessões, cuida muito bem em preparar energeticamente o espaço, chamando a presença de todos os guias e mentores que considera importantes para aquele trabalho.

A ficha que me caiu, então, é que nós, homens, não cuidamos bem dos espaços. Nós podemos construir a casa, mas quem em geral a decora e cuida de mantê-la limpa, arrumada e viva, é a mulher. E era exatamente assim com o nosso Círculo: a gente simplesmente chegava e sentava mais ou menos em círculo, no máximo acendendo uma vela, pedia talvez uma pizza, e conversava. Quase nenhum cuidado com criar um ambiente convidativo, em se conectar com as energias que queríamos que estivessem naquele trabalho. Sem trazer a beleza e a poesia de um ritual significativo. Quantas vezes, pensei, quis trazer oráculos, flores, velas, algo que trouxesse o sagrado para aquele momento, e não lembrei, ou não priorizei?

Olhei para aquilo e, naquele momento, fiz um pedido para mudar. “Quero ser um homem que cuida”, pensei. E então resolvi montar um belo círculo com o que tinha ali. Arrumei as almofadas. Acendi a vela. Ornei-a com imagens masculinas que estavam em nosso altar: Shiva, Buda, Jesus Cristo, Anandamurtii, entre outros. Coloquei no centro umas flores que estavam lá, no canto da sala. Peguei dois livros que estavam na minha mochila, e que sentia que se conectavam com o momento. Quando terminei, senti a diferença na qualidade da energia presente. Uma nota mais grave, e mais retumbante, estava agora sendo entoada.

Então resolvi invocar as consciências que, no meu coração, eram referências do masculino sagrado. Cantei para muitos daqueles seres do altar: mantras para Shiva e Buda, canções cristãs, entre outras. E a cada canção, sentia que a roda estava mais preenchida, ainda que fisicamente só eu estivesse ali. Logo em seguida, dois dos três amigos chegaram, e um deles tocou também algumas músicas xamânicas, e o tom do sagrado e a energia de poder foi crescendo e crescendo. Senti a força do cuidado, e desejei ser um homem que cuida. Não só dos espaços, mas das relações, das pessoas e dos seres.

Nesse meio tempo, o terceiro amigo chegou, trazendo algumas esfihas, para mim e para ele, e foi para a cozinha comer com aquele meu amigo que resolveu ir embora para cuidar de sua demanda familiar, mas que ainda estava ali, resolvendo últimas coisas antes de sair. Eu e os demais já estávamos cantando e abrindo o Círculo, e eu tinha a expectativa de que ele viesse se juntar a nós o quanto antes. Mas ele não veio. Fui até a cozinha e dei um toque para que ele viesse. Ainda assim, ele demorou. E eu comecei a ser tomado por uma irritação profunda. Que fez com que uma segunda e importante ficha caísse.

Enquanto um lado meu tinha um desejo enorme de ir na cozinha e “dar uma bronca” nele, para que viesse logo, um outro lado meu não via o menor sentido nisso. Não queria ser o pai mandão e autoritário. Estávamos ali, inclusive, por sermos homens que queriam romper com a rigidez patriarcal. Mas, ao mesmo tempo, eu queria muito que ele se comprometesse com aquele nosso momento. E foi aí que me caiu a ficha: comprometimento. Nós, homens, muitas vezes não nos comprometemos. Não é à toa que essa é uma das principais reclamações que as mulheres nos fazem: “vocês não querem compromisso”. Não é à toa que há tantas mulheres lutando sozinhas com seus filhos, pois, claro, nós, homens, não nos comprometemos.

Entendi, então, que eu não queria mandar no meu amigo, nem dar bronca. Eu queria sentir compromisso. E eu estava tão irritado porque eu tinha raiva da minha própria falta de compromisso. Eu precisava que meu amigo viesse porque eu não conseguia me comprometer comigo mesmo, e precisa que ele seguisse minha ordem, para eu ter uma pseudo-sensação de compromisso. O que me impedia de me comprometer com estar ali, num espaço importante para mim, tendo somente as presenças invisíveis, ou apenas os dois amigos que já estavam lá? Eu não queria assumir que o compromisso é meu, e é comigo, com o que me é caro. Eu não queria assumir meu compromisso de velar o fogo do masculino sagrado, e queria que os outros fizessem isso por mim.

E, ali, comecei a assumir esse compromisso: eu irei aprender a velar o fogo sagrado do masculino. E isso, eu já havia entendi, implicava, além de me comprometer, aprender a cuidar. Alimentado por essas reflexões, quando abrimos a nossa roda de conversa (ainda sem meu terceiro amigo ter entrado), compartilhei minhas sensações e reflexões, que ressoaram profundamente nos meus dois amigos presentes, e a partir daí a roda foi se aprofundando e ficando mais e mais forte, e fomos sentindo que algo extremamente especial estava acontecendo naquele momento. Quando, enfim, o terceiro amigo chegou, compartilhei com ele tudo que havia vivido e sentido, e ele não só entendeu, mas também sentiu que aquelas eram reflexões muito importantes para ele.

Abrimos, então, nossas caixas de pandora, e conectamos com o que nos pareceu não apenas a nossa dor – mas a dor do masculino no mundo. Cada um na roda trouxe percepções e experiências únicas e que não poderiam ser reproduzidas nesse texto – ao menos não o lugar para onde tudo isso nos levou, pois isso só estando lá. Um dos meus amigos revelou o que já estávamos sentindo com nosso corpo: a energia daquele Círculo era vazia e fraca, pois esse é o estado do Círculo de Homens do mundo hoje. É vazio porque não nos comprometemos. Não aparecemos. Chegamos atrasado. E não somente no encontro do Círculo de Homens. Mas na vida. Em nossos casamentos. Na vida de nossos filhos. Na realização de nosso propósito de alma.

O Círculo é fraco porque não cuidamos. Fazemos de qualquer jeito. Desrespeitamos o sagrado do que somos e do que fazemos, levando tudo para o deboche e o escracho. Desprezando o sério e sagrado como pesado. Como algo que não interessa ao homem. Como frescura. Somos adolescentes. E não há nada de mais em debocharmos e sermos adolescentes. Esse é um de nossos papéis sagrados. O problema é só ser isso. E quando não somos adolescentes, somos o pai narcisista ou autoritário. Somos o patriarcado que lutamos tanto para transformar. Claro que é importante não generalizar: não somos todos assim, nem somos assim o tempo inteiro. Mas esse é o “estado da arte”, em termos gerais, atualmente. Ou, ao menos, nós, deste grupo, sentimos assim.

“Sou um moleque”, disse ao meu grupo. “E embora eu esteja brincando de chamar todas essas entidades, como Shiva, Buda e Jesus, para esse Círculo, será que se eles realmente estivessem aqui, eu me sentiria digno de estar sentando no mesmo Círculo que eles? Será que eu estou honrando minha dignidade masculina?”. E que fique claro que essa percepção não tem peso. Não se trata de ser um super-homem. De me cobrar excessivamente. Mas apenas de amadurecer. De verdade. E não de faz de conta, do tipo “eu ganho dinheiro, tenho um cargo alto no meu trabalho e seguro muita bucha, então eu sou gente grande”. Trata-se de sair da adolescência do masculino ferido, com raiva de tudo represente compromissos e cuidado, limites e firmeza, como se tudo isso fosse rigidez. E também sair do patriarcado, com raiva de tudo que é espontâneo e vivo, e que foge do controle.

A imagem que me veio foi a seguinte: é como se, em algum momento, houvesse existido sacerdotes que velavam pelo fogo do masculino sagrado. Homens fortes, dignos e bons. E aí, num certo ponto, alguma ferida fez com que o fogo se apagasse e, sem perceber, continuássemos a fazer os mesmos rituais, velando mecanicamente um fogo morto. E quanto mais sentíamos o frio do masculino se apagou, mas sem admitir que se apagou, repetíamiios ainda mais mecânica e rigidamente os rituais, achando que o ritual em si iria nos fazer sentir o fogo. E quanto mais fazíamos isso, mais raivosos e rígidos ficávamos. É horrível sentir o frio de um fogo vital que se apagou.

Assim, o patriarcado, cada vez mais um conjunto de rituais rígidos e sem vida, foi se deteriorando. Até que questionamos o ritual sem significado. Nos libertamos. Só que, equivocadamente, entendemos que o que nos aprisionava era o ritual, e não a falta do fogo. Achamos que o ritual era maligno. E decidimos que não queremos mais os rituais. Para que cuidar e se comprometer com eles? Queremos ser “livres”. Assim, continuamos com o fogo morto, virando agora adolescentes sem rituais e, ainda, sem fogo. Continuamos perdidos, mas com a liberdade de gritar e reclamar que estávamos perdidos. E quem sabe era esse o próximo passo necessário, porque que fomos, então, descobrindo que a questão não é o ritual – é o fogo. Precisamos reacender o fogo do masculino sagrado. E cuidar dele.

Sem raiva dos rituais, e do compromisso e cuidado que eles pedem, e também lúcidos o suficiente para não aceitar mais rituais vazios, queremos nos recolocar na posição de sacerdotes que velam pelo fogo do masculino sagrado. Queremos aprender, com os mentores invisíveis, e os visíveis – aqueles homens que nos inspiram a doce virilidade do masculino equilibrado – como velar o sagrado. Queremos recuperar nosso respeito e nossa dignidade. De ser homens. Sabendo que, com isso, não precisaremos depreciar o feminino nem obriga-lo a nos reconhecer. Aquele que é digno é reconhecido naturalmente pela sua dignidade.

E entendemos que esse é um trabalho hercúleo. Aliás, hercúleo vem de Hércules que, não à toa, era um homem. E que matou a sua esposa e seus filhos. E teve que passar por grandes obras e provações, até recuperar o seu masculino equilibrado. Isso significa que, de fato, achar que cuidar e se comprometer é algo importante e respeitoso, e não papo de homem babaca, complicado etc, é algo difícil e demandoso. Pode parecer bobo, mas acender uma vela e arrumar o centro de uma roda de conversa - algo tão natural para o feminino - pode ser um bloco de uma tonelada para um masculino ferido.

Isso ficou ainda mais evidente quando, durante o encontro, ensaiamos fazer uma dança de escoteiro proposto por um de nós. Um misto de emoção e vergonha me tomou. Mesmo eu, tão reconhecido por ser um homem “com muita energia feminina” (seja isso bom ou não), estar ali, de braços dados, cantando com outros homens, me deixava embaraçado. Os softwares do masculino patriarcal me assombravam quase que como uma voz débil, de pano de fundo. E isso nos levou a refletir o quanto que, além da dificuldade de comprometimento e cuidado, nós, homens, temos muita dificuldade em sair do que um de nós chamou de nossa “autonomia territorial”, para assumir e compartilhar nossa vulnerabilidade.

Percebemos que um dos possíveis motivos de não aparecermos no Círculo, ou de chegarmos atrasados, é uma preguiça difusa e de fundo, cuja raiz talvez seja a antecipação de que teremos de fazer algo que é muito, muito demandoso para nós: nos abrir, falarmos de nossos sentimos, expormos dores e sonhos. A sério. E não de forma escrachada. E para outros homens. Mesmo nós que, conscientemente, defendemos isso, temos, inconscientemente, essa dificuldade. É quase um condicionamento biológico, parece. E talvez seja mesmo. Chegamos a comentar que, se houvesse uma única mulher naquela roda, a tarefa seria muito mais fácil. Que a presença feminina nos tira da nossa postura automática de sempre manter um lugar de fortaleza perante outros homens. Que duro perceber que, ao contrário das mulheres, que muitas vezes antecipam esse momento de troca como um momento de alívio e relaxamento, nós antecipamos esse momento como de esforço – muito esforço.

Por isso, nesse Círculo tão auspicioso, depois de todo esse mergulho – um ano em duas horas, me pareceu – assumimos uma tarefa, que quero estender a todos os homens que estiveram lendo esse texto, e que se sentirem chamados. Como uma primeira tarefa de aprendizagem em nossa jornada de nos tornarmos dignos de velar o fogo do masculino sagrado, iremos acender, com cuidado e compromisso, uma vela, toda sexta-feira, às 19h, e deixa-la queimar em nossos corações, em honra a nossa luz e a nossas feridas, e à luz e às feridas do masculino desse planeta. As mulheres também são bem vindas a fazer esse exercício, mas é muito importante que nós, homens, o façamos, para mudar nosso padrão. E quem não puder acender uma vela física na hora, que a acenda dentro de si. Mas que faça isso porque realmente não pode acender a vela física – e não por preguiça ou por ser “mais fácil”.

Claro que esse é apenas um exercício, e cada um pode criar o seu. Sendo realista, nosso compromisso é até o próximo Círculo – não queremos uma tarefa tão grandiosa que não possamos alcançar. São nossos primeiros passos, e queremos dá-los com cuidado. Além disso, queremos agora cuidar para os Círculos aconteçam com beleza, e para que de fato estejamos lá – e, se não pudermos estar, que não larguemos de lado e simplesmente mandemos uma mensagem dizendo “não vou”. Mas que nos preocupemos em saber quem estará, para velar o fogo em nosso lugar. Queremos saber como podemos contribuir, mesmo à distância. Também queremos fazer outros exercícios: acampar juntos, conversar sobre nossa ancestralidade, aprender a não ter vergonha de dançar juntos, e se abraçar. Temos muitos sonhos. Sonhos de adolescentes que sinceramente têm vontade de crescer. E de, um dia, serem reconhecidos como sacerdotes dignos do fogo sagrado que nutre a beleza de Ser Homem. E de Ser Masculino, sejamos nós homens ou mulheres.

Vamos juntos?

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A força do coração


foto tirada em Davao, Flipinas, jurante a jornada
 
Enquanto volto para o Brasil, após 35 dias fora e de tantos acontecimentos internos e externos que mexeram comigo, relembro as reflexões que compartilhei logo que parti. Naquele momento, a pergunta que emergiu em mim dizia respeito a como criar estruturas mais fortes e poderosas para permitir que a consciência se expressasse de forma mais vigorosa e generosa em mim. E percebo que estou retornando não com uma resposta final, mas com uma vasta colheita de percepções que sinto vontade de compartilhar. Algumas colheitas já estão em mim, outras estou começando a regar, e outras, ainda, quero plantar no momento oportuno. A mais importante, agora, é a realização, num outro nível de qualidade, muito mais profundo, da força do meu coração.

Por diferentes motivos, durante minha vida, aprendi a trabalhar com, mas ainda assim temer, minha vulnerabilidade. Os pontos fracos da minha personalidade e da minha psique com as quais eu não consigo lidar tendem a se defender do medo da exposição, de forma pouco sustentável, das seguintes formas:

1.       Prazer compulsivo: associando prazer a algum pensamento ou ação compulsiva, eu consigo abafar algum aspecto interno com o qual não consigo lidar;

 

2.       Superstição: ritualizando algum tipo de comportamento ou pensamento, e o associando a um resultado que quero alcançar ou abafar, eu evito o medo de que o que me assusta pareça que vai de fato acontecer;

 

3.       Atitude contrafóbica: exagerando e expondo o meu medo, de forma catártica, abrindo as porteiras de meus contornos e limites saudáveis para pessoas que não estão preparadas para contribuir com meus processos internos e de vida, eu crio uma relação fantasiosa e condicional de que serei compensado, pela minha coragem, abertura e entrega, com a cura ou a proteção contra aquilo que me assusta;

 

4.       Complexo de inferioridade: abrindo mão de perceber e sustentar o que sinto e acredito num certo contexto, para concordar com alguma autoridade interna ou externa que, na minha fantasia, sabe o que é melhor para mim e pode me punir com a exposição ou destruição da minha parte frágil, caso eu não aja “corretamente” (de acordo com o que “correto” se apresente para esse tirano interno ou externamente projetado);

 

5.       Submissão: indo mais fundo no complexo de inferioridade, quando eu simplesmente atribuo prazer ao abuso do meu tirano interno ou externo, como forma de me render a ele, achando felicidade, ainda que pequena e ilusória, naquilo que me causa dor e medo, para poder ter o alívio – ainda que momentâneo – de desistir e ceder ao cansaço da luta constante.

 

6.       Arrogância: usando qualquer ilusão de poder que eu sinto que tenho, seja no campo financeiro, intelectual, de controle emocional ou de percepção espiritual, para tentar ter a sensação (e, às vezes conseguir) de que as pessoas se curvam a meus pés e fazem o que quero – em especial, que elas me servem em minhas necessidades não atendidas e fragilidades, quando eu preciso – para, assim, ter o alívio fugaz de continuar protegendo minha vulnerabilidade e estar no controle.

 

Essas estratégias, originalmente, não foram desenvolvidas com má intenção, mas como a defesa que eu tinha diante de situações que me pareceram mais assustadoras ou abusadoras do que minha capacidade para lidar com elas. O resultado imediato foi – e continua sendo – alívio momentâneo, mas o resultado em médio e longo prazo, pouco sustentável, é uma frustração imensa por não conseguir dar saltos maiores no meu desenvolvimento interno e externo, por não conseguir sustentar coisas que sei que são poderosas para mim, mas que poderiam, para meu inconsciente, destruir-me ou à minha imagem. Não me refiro aqui a saltos maiores que vêm do ego superexigente e que não se contenta com o que tem, mas dos saltos verdadeiros que o coração quer dar naturalmente, que já está, de fato, tentando dar, mas que não consegue completar, gerando a sensação de energia reprimida e potencial não utilizado.

Nada disso é muito dramático, na verdade, pois graças a Deus eu tenho uma vida muito equilibrada e feliz, mas como sinto que a consciência tenta se expandir sempre, trata-se de território não explorado e que não pode ser evitado, caso eu queira continuar evoluindo na minha autorealização e na minha capacidade de servir. E, também com a graça Divina, nesta jornada eu recebi muitas peças do quebra-cabeça, tanto no sentido do que preciso explorar mais quanto do como fazer essa exploração, e as peças, agora, enquanto escrevo, começam a se juntar, e sinto que podem trazer, talvez, insights para as jornadas de alguns que leem esse texto.

Alguns desses insights são:

1.       Abrir mão da gratificação pessoal em curto prazo: o medo da vulnerabilidade traz um desejo de que as coisas tragam para mim um resultado positivo imediato, na forma de prazer interno, de reconhecimento pessoal ou do impacto das minhas ações. Quando o resultado não vem, existe uma sensação de fracasso e frustração. Mas, na verdade, quando estou conectado com meu propósito, eu posso sustentar posições, erros e experimentações pelo tempo que for necessário, sem medo do caos, da desaprovação ou da emergência do meu lado sombrio, confiando que o resultado das ações não está nas minhas mãos e que o sofrimento de agora, quando pleno de significado, pode estar plantando uma felicidade ainda maior no futuro. Embora eu já soubesse disso intelectualmente, ganhei novas percepções profundas sobre esse aspecto e, principalmente, exercitei essa musculatura, tornando-me mais forte para essa sustentação.

 

2.       Preservar minha energia e meus contornos: pelo medo de estar sozinho com minha vulnerabilidade, uma parte minha evitava dizer não para qualquer troca social ou relação interpessoal, com medo de desagradar o outro. Eu evitava me recolher para ficar sozinho ou adotar uma postura de menos toque e troca corporal. A desaprovação e a solidão eram sensações que potencializavam o terror de estar com minha sombra e minhas fragilidades, e assim eu me mantinha constantemente poroso ao outro, para me sentir protegido. Entretanto, à medida que eu me relaciono de forma cada vez mais íntima com a Consciência Maior, na forma da Entidade Mais Amada para mim, mais esse espaço interno fica confortável, e consigo preservar momentos de silêncio e solitude, nutrindo-me, inclusive, da minha vulnerabilidade. E à medida que percebo de forma mais clara que não sou essencial para o outro, e que é o Amado Interno de cada um que trará o preenchimento e os resultados desejados, eu consigo aceitar não ter que abrir todos os meus poros para servir e me relacionar constantemente, como se o outro fosse inevitavelmente se corromper, perder-se ou sofrer se eu não estiver presente. Isso traz, junto, uma profunda segurança nas pessoas, na vida e em nosso destino, e um profundo relaxamento, por só precisar dar conta daquilo que é meu, daquilo que meu coração pede agora – e não mais.

 

3.       Sustentar a troca amorosa: como contraponto da percepção interior, ficou claro que a estratégia oposta e complementar para evitar a dor da vulnerabilidade, é ficar no conforto do meu espaço interno, num lugar em que o toque físico e a troca são considerados invasivos, imaturos ou desnecessários. Como estar no próprio espaço pode ser muito gostoso, como quando moramos sozinho e nos acostumamos a ter tudo de nosso jeito, existe um lugar que se torna intolerante às trocas. Minha percepção é que o prazer interno gerado pelo silêncio e pela solitude é, entre outras coisas, um prazer narcísico, e como não desejamos sair do prazer, nos protegemos do que pode ferir o espelho. Foi interessante, pois essa percepção surgiu à medida que eu me via adotando o comportamento mais discreto que vivenciei em alguns grupos e culturas com os quais tive contato, no Brasil e durante essa viagem, e percebia a luz desse comportamento (que levou ao insight acima) e, também, a sua sombra, que sinto que emerge quando ele deixa de ser uma escolha e passa ser uma imposição interna ou cultural.

 

O que senti em mim, e que também ajudou a clarear o que parcialmente me incomodava nesse comportamento, é que, se por um lado, há uma sensação de sutileza e conforto em estar no próprio espaço, pode existir também maior intolerância e julgamento ao desconhecido que pode surgir da interação, fazendo com que exista um sabor depreciativo, às vezes muito sutil e implícito, na relação com o que está fora. Seja numa versão mais espiritual, que passa a julgar ou condenar, ainda que muito sorrateiramente, o “mundano”, seja numa versão mais mundana, que expressa irritações com os outros e com como as coisas são feitas pelos outros.

 

O mundo e outro jamais serão capazes de dar contorno necessário para que possamos descansar para sempre em nosso espaço interno, e isso gera muita frustração. Como consequência, alguns de nós criam e se escondem em claustros pessoais (nossas casas, nossas vidas íntimas impenetráveis, nossas práticas espirituais solitárias, nossa vida social restrita) e coletivos (nossos clubes, comunidades fechadas, entre outros). Lembrando que não necessariamente a escolha da solitude ou de viver mais recluso venha desse lugar, mas, em alguns casos, esse pode ser o fundamento basal desse tipo de escolha.  

 

Mas, abrindo mão desse conforto e do prazer que ele traz, para encarar as informações geradas pela troca – espirituais, mundanas, dolorosas, prazerosas, não importa – como bem vindas e como fonte de expansão do coração, a troca física e emocional passa a ser também bem vinda, junto com toda a vulnerabilidade que ela causa. Ao viver de forma mais plena essa dicotomia – da solitude e da troca amorosa – percebi, junto com minha decisão de me preservar mais, a minha intenção clara de sustentar o toque, o abraço e a conversa profunda e íntima sobre qualquer tema, em qualquer contexto – tomando o cuidado, claro, de dialogar com culturas que sejam diferentes, e não de invadi-las ou julgá-las. Não se trata de querer mudar o outro, mas de sustentar o que é importante para mim.

 

4.       Usar o poder para contribuir, e não para exigir: lembro-me de alguns momentos durante minha estada num hotel nas Filipinas, já no final da viagem, cujo objetivo era apenas relaxar e me divertir. Por isso, dei-me o presente de escolher um lugar onde eu pudesse ter todos os confortos que eu queria. E assim que o lugar começou a frustrar minhas expectativas: o telefone quebrado, a internet que não funcionava, a comida que não veio do jeito que pedi, eu logo me vi na posição do cliente exigente, duro e reclamão. Porque, claro, eu estava pagando, então eu tinha direito. E esse lugar me mostrou de forma muito pungente como o poder pode despertar meu lado tirano, que deseja que todos sirvam minhas necessidades e não exponham minhas fragilidades.

Ficou claro que um lado meu topava servir quando eu estava sendo pago ou fazendo trabalho voluntário. Pois no trabalho voluntário há a compaixão, e no trabalho pago há o compromisso com entregar o melhor para o cliente. Mas se eu estou pagando, quem tem as regras do jogo sou eu. Que história é essa de me contrariar? Se eu estou pagando, eu não tenho que ajudar ou ser bonzinho – eu tenho que ser ajudado. Os outros têm de ser bons comigo. Hora da revanche! Eu não tenho que passar por cima de alguns limites pessoais para servir os outros? Eu não tive que baixar minha cabeça para atender necessidades dos outros? Pois agora é a vez dos outros fazerem isso por mim!

E, dessa percepção verdadeira e dolorosa, veio a realização clara de que, sim, eu estou aqui para servir, em todo momento, em todo lugar. Mesmo quando isso me faz sentir vulnerável. Mesmo quando estou pagando. Mesmo quando eu tenho poder. Mesmo quando a bola está comigo. Não importa quão poderoso eu seja: eu não estou aqui para abafar os erros e as fragilidades, e sim para jogar luz sobre elas, para que possamos criar um mundo mais belo e feliz a cada segundo. E isso implica sustentar a minha força amorosa como agende de transformação do mundo, de sustentar essa força perante a vulnerabilidade minha e do mundo, e, também, de atender cada vez mais minhas necessidades – mesmo quando estou servindo voluntária ou remuneradamente – para que não haja nada a ser pago depois. Nenhuma vingança oculta. Usar o poder para contribuir, e não para exigir. E foi isso que fez com que, no final, eu conseguisse dar os feedbacks que precisava de uma forma que criou conexão com os funcionários do hotel. Senti que saímos com brilhos nos olhos de nossa breve, mas significativa, interação. E agora quero mais disso.

5.       Sustentar e desenvolver minha força física e energética: já há algum tempo venho falando, em diversos contextos, sobre sustentar o ponto basal de nossa consciência em pontos mais sutis e expansivos, como o coração. Isso significa buscar fazer com que, literalmente, cada pensamento e emoção sejam sentidos, fisicamente, na altura do coração. Não se trata de reprimir ou negar os demais sentimentos e pensamentos, mas de reconhecer que sempre estamos olhando as coisas por algum filtro. Podemos aceitar nossa sombra, nosso ódio e nosso medo a partir do filtro do amor, tanto quanto podemos receber o amor a partir do filtro do ódio. Justamente, quanto mais sutil e expansivo o ponto basal, mais dentro dele cabem todos os tipos de sentimentos e emoções. Os pontos basais mais sutis não temem nada, e conseguem aceitar incondicionalmente e transmutar todos os aspectos de nossa personalidade. Isso é o que eu já sabia. Agora, percebi também a necessidade de desenvolver um tônus físico e energético para sustentar esse ponto basal em mais situações, em especial em contextos mais associados à energia masculina.

 

A luta pela sobrevivência física, a guerra, a tirania, a repressão, a tortura física, mental, emocional e espiritual, para dar alguns exemplos, fazem parte do drama humano, em especial no aspecto do masculino desequilibrado e, em vez de fugir dessas grandes fontes de vulnerabilidade, quero me sentir cada vez mais seguro para abraça-las e contribuir para transmuta-las. E essa viagem me deu muitos exemplos disso, pois tanto no Haiti, quanto nas Filipinas, entrei em contato com pessoas e povos que precisam se readequar e escrever uma nova história a partir de calamidades muito graves, como terremotos, tufões e ditaduras violentas e sanguinárias. Impossível abraçar essas histórias e recriá-las de forma positiva e empoderadora sem sustentar profundamente a força do coração.

 

E eu percebi que se, por um lado, não quero desenvolver um complexo contrafóbico de mártir, de me lançar em situações perigosas, por outro eu não quero viver como se eu fosse apenas meu “eu individual”: eu sou o mundo todo. Negar ou se abster do que está acontecendo no mundo é fechar os olhos não para o que está “acontecendo lá fora”, mas para uma parte de mim. É deixar de me conhecer. E sinto que meu jeito de me conhecer e me engajar com o que descubro não vem tanto pela leitura dos jornais e pelo debate filosófico e macropolítico – ele vem, principalmente, por interagir e cocriar com as diversas partes de mim mesmo – as diversas partes do mundo. Para isso, preciso aumentar minha capacidade física e energética de ser, lutar e empreender, a partir do coração. Até mesmo para lidar com coisas menores, mas ainda assim significativas, no meu processo de lidar com minha vulnerabilidade, como o medo de morrer sozinho numa viagem de avião ou de não conseguir sustentar meu tônus como homem perante as mulheres e outros homens.

 

6.       Abraçar e expressar a minha sensualidade e a sensualidade da vida: como garoto que cresceu com uma deficiência física, que tornava minha fala incompreensível e minha aparência pouco atraente, cresci negando a sexualidade e a sensualidade plena na minha vida, pois tocar nesses pontos me deixava extremamente vulnerável. Aos poucos, fui curando a conexão e a expressão da sexualidade, mas só nessa viagem percebi o quão profundamente eu negava minha sensualidade. Sensualidade, aqui, entendida em seu aspecto amplo: a física, que gera confiança para se embelezar, vestir-se, tatuar-se e se enfeitar para expressar o prazer com o próprio corpo e com a própria aparência; a sexual, que gera empoderamento e conforto com a sedução e a capacidade de ter prazer com as mulheres que considero mais atraentes para mim, culminando na relação plenamente sensual com minha esposa a partir de um lugar de atração plena, e não de gratidão por alguém se sentir atraído por mim; a social, fazendo tudo que faço de forma poética, inspiradora e prazerosa; e a espiritual, assumindo mais o aspecto Amado-Amante na relação com Deus, descrito por tantos santos místicos, como São João da Cruz, que em seu clássico “A Noite Escura da Alma” diz, para expressar sua relação de amor com o Divino: “o meu amado beijou o meio seio”. É viver a vida como se, com cada gesto – do trabalho que faço, à comida que como, ao amor que compartilho com minha esposa – eu estivesse me preparando para a grande noite de núpcias com meu Amor Maior. Como se cada sorriso fosse o perfume que coloco para Ele. Cada ato de bondade, a melhor roupa. Cada momento de felicidade, o banquete que preparo para nosso jantar.

 

7.       Abraçar o guerreiro que mora em mim: li uma vez no incrível livro “João de Ferro” que, em algumas culturas, antes de usar a espada o homem precisa aprender a dançar. Logo, junto com a percepção da necessidade de desenvolver minha força física e energética e de abraçar e expressar a sensualidade, nasce a garra para ser e viver o meu guerreiro. Um guerreiro forte, assertivo e luminoso, que não tem medo de desagradar, que deixa suas crenças e posições claras, mas que não faz isso com complexo de superioridade, imposição, ou julgando e reprimindo o outro. Faz com o coração e o olhar limpos, com a certeza de estar construindo o que é importante para si e para o outro, e aberto para se deixar tocar, aprender e refazer suas certezas, a partir do que a vida traz. Antes, o medo era de que meu guerreiro despertasse uma fúria (de Deus ou dos outros) que me destruísse, e a estratégia, portanto, era ou negar e abrir mão desse guerreiro ou expressá-lo de forma violenta. Agora, quero deixar ele se expressar e aprender com ele, com como ele pode ser cada vez mais veículo de amor e luz, mesmo que eu tropece um pouco até estar mais apropriado dele. Isso está me fazendo com que, desde já, eu assuma com firmeza posições que, antes, eu titubeava para afirmar.

Todos esses insights, juntos, tornaram claro para mim o quanto meu movimento, agora, é de fazer o que faço, assumindo a força do meu coração. Uma força que é muito poderosa, e também muito amorosa. E que é essa força que vai potencializar o que já está aqui, o que já estou fazendo, e que apenas estava precisando de mais espaço. Não para eu poder ser maior, mas para poder ser pleno. Para poder cumprir o destino que me colocou aqui, e dar vazão, por inteiro, ao desejo de iluminar meu espaço interno e servir o mundo. Que venham os próximos passos da jornada!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A partido do natural

 
 

Sou colecionador de livros infantis e, onde vou, sempre pesquiso um que seja realmente especial e compro. O mais recente, adquirido na minha passagem pelos Estados Unidos, foi “The Tao of Pooh” – “O Tao do Ursinho Puff”. Sim, é isso mesmo. Um autor, praticante do taoísmo, arriscou fazer a ponte entre os ensinamentos Taoístas e as atitudes do famoso ursinho, em suas histórias. Escrito de forma muito cativante, como se ele estivesse conversando com o próprio urso, já nas primeiras páginas o livro traz reflexões belas e interessantes, e algumas delas me inspiraram a pensar sobre a questão das ditas “minorias”, como o público LGBT.

Coloco “minorias” entre aspas porque não acredito que exista nada fora que não exista dentro. Dentro de mim mora o feminino e o masculino, a cor negra, amarela, branca e vermelha, a limitação física e mental, a genialidade e a potência corporal, o amor e a atração por pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto. O que chamamos de minorias são apenas os pontos de maior expressão de características que moram em todos nós, em diferentes graus. Porque nós somos tudo. E é a não aceitação do todo aqui dentro que me faz querer destruir as partes lá fora que me lembram a existência dessas partes em mim.

E é interessante, porque justamente ao tentar “minorizar” e eliminar, justamente cristalizamos e fortalecemos o que não toleramos. Eu cresci aprendendo a ser homofóbico – não no sentido de agredir fisicamente mas, tão cruel quanto, de ridicularizar, de considerar inferior e de excluir qualquer possibilidade de que a atração por uma pessoa do mesmo sexo pudesse acontecer comigo ou qualquer pessoa da minha família. No começo da faculdade, eu não me sentia confortável em compartilhar em certos círculos que eu tinha amigos gays. Era uma tentativa de me libertar do meu preconceito, mas pela metade: eu me sentia muito confortável com esses amigos, mas não me sentia confortável com a possibilidade de ser julgado por ser próximo deles.

E o resultado dessa cultura homofóbica que me influenciou é que, na minha mente, e na de muita gente, qualquer possibilidade de atração por alguém do mesmo sexo, mesmo que em princípio não fosse uma atração sexual, virou sinônimo de que, no fundo, a pessoa “é gay”. Qualquer proximidade maior que pudesse representar prazer em estar com alguém do mesmo sexo era experimentada quase como um vírus que havia entrado em nosso corpo e, uma vez identificado, iria se alastrar e não haveria mais volta. E nossa vida seria destruída.

Logo, é claro, eu e um bocado de gente teve que incorporar esse dilema em nosso processo de descoberta sexual, porque eu não conseguia diferenciar prazer físico e afetivo de atração sexual. Com isso, era difícil identificar o que era verdadeiramente meu, e o que era uma crença adquirida, sobre minha sexualidade. Acredito que a grande maioria dos homens sente isso, só que muitos evitam essa confusão não ficando fisicamente perto de outros homens.

Essa não foi minha escolha. Eu amo muitos homens – amigos, irmãos, parceiros – e gosto de beijá-los, abraça-los e até deitar no colo deles. Imaginem então como ficou a minha cabeça, que de um lado sentia a homossexualidade como algo muito natural e, por outro, tinha medo de pensar se atrás daquele momento tão gostoso com um amigo não estava a revelação definitiva e irrevogável da minha homossexualidade – e, por isso, acabava ficando com raiva da homossexualidade existir e “não me permitir viver em paz”. E isso veio muito mais da cultura homofóbica, que cria monstros desnecessários na relação entre homens, que do homossexualismo em si, que é apenas mais uma forma de afeto entre homens – e não a única.

Mas, graças à vida, a uma família evolutiva e a ótimos processos de autodesenvolvimento pelos quais passei, eu fui evoluindo em diversos sentidos – inclusive nesse. E o primeiro salto foi perceber que eu não sou nenhuma categoria. Eu sou o que sou. O que meu corpo me pede, aqui e agora. E que, no meu caso, neste momento, é viver minha energia sexual com as mulheres – ou, melhor ainda, com minha mulher. Mas poderia ser diferente. E tudo bem. Com isso, passei a gostar mais e mais de ver as pessoas serem quem são. Seja o que for. E que isso vai muito além de “ser” ou “não ser” gay. Diz respeito a seguirmos o que é natural para nós – a cada momento. Pois o que é natural hoje pode não fazer mais sentido amanhã, e vice-versa.

E acho que é exatamente porque o natural é tão múltiplo e mutável que, cada vez mais, lutamos para entender todas as categorias de sexualidade que estão surgindo. Até a sigla LGBT não está mais contendo todas as possibilidades de expressão da afetividade e do desejo sexual. Simplesmente porque a verdade e o natural não estão nas categorias. Está no que o corpo pede. Não só o corpo humano – mas o corpo dos animais, da natureza, do nosso organismo social, do universo e da vida como um todo.

As categorias podem servir, no máximo, para nos ajudar a libertar algo que o corpo está pedindo. Quando eu disse “eu te amo” pela primeira vez para minha esposa, algo que já estava no meu corpo se libertou, e ganhou mais força. Eu pude ser mais eu. Quando as pessoas que amam indivíduos do mesmo sexo deixaram de se ver como “bichas” ou “sapatões” e passaram a se ver como pessoas com identidades sexuais próprias e valiosas, e deram a isso o título de “homossexuais” ou “gays”, elas também se libertaram e, junto com elas, libertou-se o potencial de normalidade e beleza dessa forma de expressão da sexualidade. O único porém é que, uma vez cumprida a função de libertar o que estava tentando se expressar, a categoria “estaciona” – ela fica onde estava, enquanto o corpo, seus desejos e suas possibilidades de expressão continuam evoluindo. Até que a categoria já não sirva mais para honrar o que está ali agora.

Portanto, a categoria que ontem libertou, hoje pode aprisionar. Pois o corpo já está pedindo mais coisas. E aí vamos criando novas categorias, que deem contam do novo que está emergindo em nós. Homosexualismo, bissexualismo, transexualismo, trânsgenero, homoafetivo, e por aí vai. E, enquanto esse processo for libertador, ele precisa ser legitimado e valorizado. E, quando ele for repressor, impositivo, tentar maquiar verdades ou gerar estereótipos, deve ser desmascarado. De todo modo, o que importa é dar espaço para que as pessoas – não só no campo da sexualidade, mas em qualquer campo – tenham cada vez mais espaço para expressar quem são naturalmente.

E é aí que entra o Tao do Ursinho Puff. Como afirma o autor do livro, Benjamin Hoff, “de acordo com Lao-tse, quanto mais o ser humano interferiu no equilíbrio natural e governado pelas leis universais, mais a harmonia se retirou para longe. Quanto mais forçamos, mais problemas geramos. Seja pesado ou leve, molhado ou seco, rápido ou lento, tudo tem sua própria natureza intrínseca, que não pode ser violada sem causar problemas. Quando regras arbitrárias e abstratas são impostas de fora para dentro, o conflito é inevitável. Somente aí a vida passa a ter um gosto ruim. (...) Ao trabalhar em harmonia com as circunstâncias da vida, o entendimento Taoísta permite que transformemos em positivo o que outros podem perceber como negativo. Do ponto de vista Taoísta, o gosto ruim e amargo da vida surge da mente interventora e não-apreciativa. A vida em si, quando entendida e utilizada pelo que ela é, é doce”.

Em outras palavras: o desequilíbrio vem quando impomos categorias às pessoas que não libertam aquilo que é natural para elas. O problema com conceitos como “macho” e “bicha” não está tanto no teor de preconceito, mas no quanto eles escravizam e proíbem o ser de expressar por inteiro suas leis naturais, como sugerido por Lao-Tsé. Se estamos tentando obrigar os outros a se encaixar numa certa categoria, está óbvio que a “lei” ou “verdade” que estamos tentando vender é arbitrária e imposta de fora para dentro, e que o conflito será inevitável.

Talvez as pessoas possam se deixar repreender por algum tempo (mesmo que isso signifique séculos), mas inevitavelmente, a verdadeira lei – a que vem da vida e do corpo – irá se impor. Não há ira divina que possa impedir esse processo. Nem a aterradora destruição de Sodoma e Gomorra e sua perpetuação como ameaça divina, durante séculos de dominação religiosa, foi capaz de impedir os indivíduos que amam pessoas do mesmo sexo de, no final, vencerem e terem cada vez mais espaço para expressar o que lhes é natural. Nem toda a repressão e medo da homosexualidade que encontrei durante a descoberta da sexualidade foi capaz de me impedir de encontrar (e me encontrar) com minha sexualidade e com o amor da minha vida. Não porque eu estava seguindo algum preceito cultural homofóbico – mas simplesmente porque isso é quem eu sou.

Como não aprendemos a respeitar o natural e usar o nosso construto social, linguístico e simbólico para libertá-lo – em vez de aprisiona-lo – nós acabamos perdendo essa harmonia e esse equilíbrio de que fala Hoff em seu livro. Como temos dificuldade em evoluir, o que implica dar nome para o que não foi ainda nomeado, dar espaço para o que antes não existia e que ainda não entendemos, preferimos tentar “congelar” a vida naquilo que já descobrimos e que, uma vez, no passado, funcionou. E achamos que se todos forem e fizerem isso para sempre, tudo vai ficar bem... Não à toa nossa noção de paraíso é, tantas vezes, a imagem de um lugar em que nada nunca muda. Socorro!

Nessa cultura desconectada do natural, não queremos que nossa expressão sexual mude, assim como não queremos, por exemplo, que a medicina mude. Testemunhei curioso e atônito a batalha travada por minha incrível mãe, Maria Teresa, enquanto ela se afastava da medicina dita “tradicional” e incorporava inovações em seu jeito de praticar a cura que, muito tempo depois, passaram (ou começam) a ser aceitas como legítimas. Formas que, na prática, são tão eficientes, que têm atraído muita gente que antes desacreditava desse novo jeito, e que agora não encontra mais resposta no “tradicional”. Como militante de uma educação mais livre e democrática, fico também atônito com a reação agressiva a qualquer tentativa de que a estrutura formal de educação mude – resiste-se tanto aos movimentos de desescolarização quanto a se falar de emoções na sala de aula. O que choca não é o fato da mudança não acontecer – pois ela poderia ser um sintoma de que o que está sendo proposto não é natural – e sim o nível de violência aberta ou velada, pessoal e institucional, impedindo que a mudança aconteça, mesmo quando muitos sinais mostram que ela é necessária. Mesmo quando as manifestações das pessoas, nas redes sociais, nas ruas, nas conversas de bar, estão gritando que há uma lei natural não sendo respeitada.

O que conforta é saber que, silenciosa ou abertamente, tudo está mudando. Porque quando algo é natural no processo evolutivo, ele se torna inevitável. Logo, a questão não está em saber “se” o natural vai acontecer. Ele vai. Nunca esteve em nossas mãos impedir que a homossexualidade se estabelecesse como opção legítima. Sempre foi e sempre vai ser, e cada vez mais, pois a realidade do corpo e da vida (e não dos nossos preconceitos morais e religiosos) têm mostrado que é assim. Que este é o natural de milhões de pessoas ao redor do planeta. O que muda é “como” isso vai acontecer: com uma percepção e aceitação mais rápida e fluida do que é, ou com muita resistência, conflito, ataques histéricos e descabidos como o de Levy Fidelix, sofrimento – e, como a história mostra, mortes. E se quisermos supor que existe algo mais natural que essas diversas expressões sexuais que temos hoje, não precisamos brigar – isso vai se impor, no momento certo. Se for natural.

Portanto, minha busca tem sido a de dar espaço para o natural, em todos os campos da vida, mesmo quando ele choca com os valores e os conceitos que eu já havia construído antes. E para isso, é preciso muito discernimento. Nem tudo que é novo é “natural”. Podemos propagar algo bem diferente da cultura atual, algo inovador e chocante, e no fundo isso não ressoar em ninguém, pois no fundo é apenas uma categoria “diferente” que está tentando ser vendida, sem que ela responda ao que está, de fato, querendo emergir. É apenas uma organização interessante de ideias, para chamar atenção, gerar catarse emocional, satisfazer o desejo de rebeldia, ou algo que o valha. Da mesma forma, nem tudo que é natural é “novo”. Respeitar o natural não é negar a tradição. Mas a verdadeira tradição se perpetua naturalmente porque é uma lei universal enraizada no corpo e na vida, e não em nossas frágeis e datas crenças.

Por outro lado, temos de levar em conta que nem sempre algo que não ressoa no coletivo não é natural. Às vezes algo não encontra eco de imediato porque não estamos preparados para escutar, ou porque o sistema social reprime e não oferece espaços para que a mensagem seja escutada em larga escala, e como legítima – o que acontece frequentemente em nossa cultura de mídia de massa, que antes ditava solitariamente o que podia ser comunicado e agora, com o fenômeno da internet e das redes sociais, não determina tudo o que pode ser dito, mas busca legitimar alguns discursos e deslegitimar outros, e vencer pelo tamanho. A mídia de massa ainda chega em mais pessoas que os guetos internéticos, infelizmente.

Também precisamos levar em conta que o risco que existe em congelarmos o natural numa nova categoria, num primeiro momento mais ampla e inclusiva, e que o impede de continuar crescendo. Esse é um debate que ocorre, inclusive, entre alguns grupos de defesa das “minorias”, quando sentem que a categoria “negro”, “gay” ou “deficiente” começa a gerar mais estereótipo que esclarecimento. De certa forma, isso aconteceu comigo, pois se um lado meu acreditava na lei imposta pela cultura dominante, do “não devo ser gay”, outro lado já havia criado uma outra lei, também imposta por uma cultura emergente, que dizia que “se eu não me abrir para ter uma experiência homossexual, é porque eu sou preconceituoso ou conservador”. E ambas as crenças não me libertavam para eu ser quem sou.

O natural está menos nessa ideia de “minorias” e “maiorias”, de certos e errados, que ainda é baseado em categorias, e tem mais a ver com o que pensamos, sentimos e fazemos quando estamos em nosso estado de fluidez, de alegria e conexão com o que nos é profundamente significativo. Para alguns, um casamento heterossexual monogâmico pode ser o resultado natural de quando se está nesse estado. Para outros, um relacionamento bissexual e aberto pode ser esse resultado. Mas se desconectados desse estado verdadeiro de fluxo, ambos os cenários podem ser categorias buscadas “de fora para dentro” e gerar conflito interno e externo, por nos impedir de seguir a nossa lei universal para obedecer a uma lei “abstrata e arbitrária”, e que pode ser criada por qualquer grupo, não importa se de esquerda ou direita, da cultura da violência ou da cultura de paz. Todos estamos vendendo conceitos que se propõem a dizer o que é natural independente do que nosso corpo sente.

Tocado por tudo isso, tenho buscando aprofundar minha busca por aceitar e libertar o que é natural – e, para isso, tenho conscientemente feitos de exercícios de reflexão interna, de diálogos significativos e de experiências que me tiram da zona de conforto. No campo da homossexualidade, isso significa, por exemplo, conversar com amigos gays sobre coisas que ainda eram tabus para mim, como ser “passivo” durante o ato sexual entre dois homens. Ouvindo intencionalmente como é isso para eles, e que beleza e prazer eles encontram nisso, pude deixar de lado o preconceito oculto que me fazia aceitar o homossexualismo como algo que eu respeito, desde que eu não veja por inteiro, ou de achar que quem é ativo “é mais macho”, para de verdade apreciar outras formas de amar que não estavam no meu escopo, encontrando, inclusive, como essas formas se expressam em mim, dentro da minha realidade.

Significa também ir assistir filmes de amor em que o casal central são pessoas do mesmo sexo e não sentir que estou assistindo um “filme gay”, mas sim um filme de amor. É conversar abertamente com amigos sobre as diferentes expressões de nossa sexualidade, buscando legitimar as expressões próprias e empatizar com as expressões dos outros, sem tentar chegar em certos e errados, em julgar um como mais puritano e outro mais libertino. E, à medida que as categorias congeladas vão se dissipando, e dando lugar a novos conceitos, que respeitam o orgânico e o natural, uma apreciação da singularidade de cada ser, e das diversas formas da felicidade se expressar, surge. E isso traz, internamente, muita felicidade também, pois é uma delícia poder ser quem se é e, ao mesmo tempo, apreciar e celebrar a beleza do outro. E, melhor ainda, por não estarmos presos a conceitos, é delicioso deixar-nos surpreender por formas de beleza que nunca havíamos experimentado antes.

Assim, ao mesmo tempo em que é muito importante lutar para colocar limites nos crimes homofóbicos, é igualmente essencial fazer o que idealizou Buckminster Fuller: em vez de lutar contra a realidade que queremos mudar, lutar a favor da queremos estabelecer, e deixar a outra morrer de inanição. Isso significa, para mim, deixar de colocar energia nessas leis abstratas e arbitrárias, que tentam se legitimar como “universais” porque algum dia algum deus, filósofo, cientista ou qualquer figura legitimadora falou que “é assim”, e botar mais energia em nomear e viver em consonância com as leis universais, essas que estão enraizadas no fluxo natural do corpo e da vida – o que minha mãe chama de “zona de energia correta”.

É importante se dar conta que brigar contra as leis impostas é uma forma de dar energia para elas. Em geral, brigamos tentando fazer valer outras leis, opostas às que estamos combatendo, que podem até serem reflexo das leis universais. Mas, a própria energia de raiva e de agressividade com que combatemos é sintoma da nossa dificuldade de nos enraizar no que é natural, e só aumentamos o problema. Quando uma lei é realmente natural, ela impera, e não o que temer. Não há espaço para debate agressivo, não porque é “proibido”, mas porque a verdade já está no corpo – não há nada para ser vencido, mas apenas para ser clareado. O debate, portanto, ocorre não para derrotar ou convencer mas, para juntos, darmos nome para o que já está aqui – um nome que faça sentido para todos, ou para a maioria. E, novamente, não porque “acreditamos” naquilo. Mas simplesmente porque é. E quando é, nosso corpo sabe. Quando nos alinhamos com o que é, ganhamos uma força incrível para sustentar o que nos faz sentido (pois “o que é”, “o que nos faz sentido” e “a força” são, na realidade, diferentes nomes para uma mesma coisa).

E como nomear o que “é” pode ser complexo e demorado, já que tateamos o emergente a partir das categorias e conceitos que temos agora, dentro de nossa vivência pessoal, familiar e social, o debate democrático tem importância vital. Ele nos dá a oportunidade de ver novas camadas do que já está ali, à medida que nossas convergências e divergências vão alargando nossa percepção do que é natural não só para mim, mas para o outro, para um grupo, para uma nação. A lei universal, que já é, vai se tornado clara à medida que vamos sentindo, nomeando e honrando o que é natural para todos. Isso implica mais a assertividade, firmeza e dignidade de caráter do que a agressividade e violência. Em princípio, mesmo um debate com muita divergência pode ser amoroso e nutridor. Não precisamos xingar e destruir o outro – mesmo que ele esteja sendo preconceituoso. Mas, a depender do nível de repressão para que o natural emerja, precisamos sim ser vigorosa e corajosamente assertivos em sustentar o que estamos vendo. O que está aqui. E não o que deveria estar. A lei natural. E não a abstrata e arbitrária. Entregando inclusive nossa vida em favor da verdade. Pois onde o natural impera, impera também a verdade e a vida.

Isso, claro, é bem diferente do debate político agressivo que temos hoje, e que encontra um de seus extremos no discurso homofóbico. Esse debate é apenas a representação visível da tentativa desesperada de fazer uma verdade artificial e construída, baseada em crenças datadas, fazer valer sobre o que, de fato, é a demanda do corpo e da vida. E isso se estende para muitas outras áreas do diálogo político. Se boa parte da verdade vendida pelos partidos e candidatos fosse natural, não precisaria de tanta parafernália de marketing, de tanta mentira, de tanta repressão, enfim, de tanto esforço, para se fazer valer. E não haveria problema em deixar outros candidatos e partidos, menores, terem mais espaço. Pois se os candidatos com maior poder estão honrando a lei universal, o que temer? E se os demais candidatos, com proposta alternativas, estão falando bobagem – algo que não ressoa com o natural, o que temer? E se estamos todos trabalhando para permitir a plena expressão daquilo que é natural e bom para todos e, portanto, tanto faz quem ganha e quem perde, o que temer?

Portanto, a fúria de Levy Fidelix e da massa homofóbica é, de fato, o desespero de uma classe desconectada de seu fluxo natural, assustada com o ruir de suas verdades frágeis e inventadas, e que está perdendo para aquilo que não se pode vencer: a lei natural e universal da vida e do ser humano. Daquilo que é espontâneo e verdadeiro. E que, quando não reconhecido e não honrado, gera dor, conflito, repressão, rebeldia e sofrimento, para todos os lados. Mas quando reconhecido, honrado e amado, tal como é, torna a vida extremamente doce, como os potes de mel que o Ursinho Puff tanto adora.

 

* * *  

 
Para quem quiser, segue a citação original do livro The Tao of Pooh:
 
“According to Lao-tse, the more man interfered with the natural balance produced and governed by the universal laws, the further away the harmony retreated into distance. The more forcing, the more trouble. Whether heavy or light, wet or dry, fast or slow, everything had its own nature already within it, which could not be violated without causing difficulties. When abstract and arbitrary rules were imposed from the outside, struggle was inevitable. Only then did life become sour. To Lao-tse, the world was not a setter of traps, but a teacher of valuable lessons. (…) Through working in harmony with life’s circumstances, Taoist understanding changes what others may perceive as negative into something positive. From the Taoist point of view, sourness and bitterness come from the interfering and unappreciative mind. Life itself, when understood an utilized for what it is, is sweet.”

The Tao of Pooh, Benjamin Hoff
 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Propósito como força propulsora da Liderança do Coração


Quem já experimentou estar na liderança de um grupo, seja numa empresa, uma organização social, um projeto voluntário, ou mesmo na vida pessoal – numa viagem, no dia a dia com a família ou com os amigos – talvez tenha se deparado com a seguinte pergunta: como manter as pessoas motivadas, comprometidas e proativas?

Em muitos momentos, nós entramos na investigação dessa pergunta com alguns pressupostos, como:

·         Trabalhar em grupo é muito difícil

·         Lidar com “o ser humano” é muito difícil

·         Pouca gente é realmente comprometida e proativa

·         Se a gente relaxar, as pessoas só vão fazer o mínimo

·         É difícil achar alguém que faça naturalmente tudo que precisamos, com competência e motivação

·         As pessoas não se esforçam para superar as dificuldades e os conflitos, mas preferem ficar na zona de conforto ou ficam alimentando os conflitos nos bastidores

·         Quando as pessoas assumem poder ou liderança, elas deixam isso “subir à cabeça” e se tornam arrogantes, manipuladoras ou autocentradas

·         As pessoas se comprometem quando recebem motivações como maiores salários e melhores cargos

·         As pessoas se comprometem quando são bem treinadas

·         Mesmo com salário e cargo bons e ótimos treinamentos, algumas pessoas simplesmente não se comprometem

Quando investigamos a pergunta acima com esses pressupostos, as respostas tendem, inevitavelmente, a gerar soluções pouco sustentáveis, como:

·         Investir na meritocracia: algumas pessoas, que agem mais de acordo com o que o líder espera, são recompensadas com promoções ou são mais elogiadas e privilegiadas com o afeto do líder, gerando divisões no grupo e criando espaço para que algumas pessoas agradem o líder apenas para obter vantagens.

 

·         Investir na autocracia: o líder entra numa modalidade de “comando e controle”, sendo duro e autoritário com as pessoas que não parecem estar mobilizadas como o líder gostaria e utilizando de ameaças explícitas ou sutis (nas entrelinhas do discurso) para motivar as pessoas a produzirem e se comprometerem mais, gerando um clima de medo e, em médio prazo, de ainda mais desmotivação, raiva e conversas de bastidores.

 

·         Investir o mínimo de energia para liderar o grupo: o líder entende que ele é impotente diante dos conflitos e da falta de motivação do grupo, pois a natureza das pessoas (ou de algumas pessoas), dos ambientes de trabalho (ou daquele ambiente de trabalho) é assim mesmo, e se ocupa de fazer apenas “a sua parte”, focando em se relacionar apenas com as pessoas com quem ele tem boa relação e colocando mínimo esforço na relação com as demais pessoas, gerando um clima de baixa energia e de pouca clareza nas relações, em que cada um faz o que bem entende.

 

·         Investir em ser popular: o líder busca ser gostado por todos, substituindo a liderança refletida e o contato com suas emoções e percepções reais por uma afetuosidade por vezes forçada e irrefletida, gerando um ambiente propício para que o líder manipule e seja manipulado e, muitas vezes, gerando no grupo um sentimento de exagero e hipocrisia (pois às vezes a afetuosidade não corresponde às ações práticas e decisões tomadas pelo líder).

 

·         Substituir liderança por treinamento: o líder acredita que se as pessoas forem treinadas nas áreas em que ele percebe que elas precisam melhorar, ele conseguirá liderar melhor, e gera às vezes uma rotina pesada de conteúdos e treinamentos que nem sempre atendem às necessidades reais do grupo, e sem que o próprio líder esteja às vezes preparado para ser exemplo e para sustentar o que está se buscando com os treinamentos, gerando irritação e resistência nas pessoas, tanto ao líder quanto aos treinamentos propostos. O líder, por sua vez, não vendo o resultado esperado, por vezes opta por cortar os treinamentos, responsabilizando-os pelo não alcance do objetivo esperado, em vez de questionar a sua própria capacidade de liderança.

 

·         Desistir de liderar: o líder se desespera e entende que liderar não é possível ou não é para ele, e sai da posição, gerando um espaço de descrédito no trabalho do líder e do grupo liderado.

 

Por trás dessas estratégias, pouco sustentáveis, e das crenças limitantes que as embasam, existe a falta de um ingrediente básico, que é a base do nosso compromisso com qualquer situação em nossa vida e, portanto, da nossa capacidade de liderar: o propósito.

O que é propósito?

Existe uma confusão muito grande para muitos de nós entre o que é objetivo e o que é propósito. Por exemplo: pode ser que eu acorde todos os dias de manhã disponível para trabalhar porque eu tenho o objetivo de crescer na carreira, de ganhar dinheiro para pagar as contas e até de fazer um trabalho relevante, que contribua socialmente. Mas se eu não tivesse que trabalhar, ganhar dinheiro, ser reconhecido ou mesmo contribuir socialmente, e pudesse simplesmente fazer o que eu quisesse, aquilo que me faz feliz, será que eu estaria fazendo o que estou fazendo agora?

Se a resposta for “não”, significa que eu faço tudo isso porque acho que é importante, e não porque aquilo, naturalmente, me move. A próxima pergunta, então, seria: por que eu faço tudo isso, então? Aí a gente começaria a entrar no propósito. Eu levanto todos os dias, no fundo, porque... O trabalho assalariado é o que me deixa seguro? Me sentir seguro é meu propósito. Eu acredito que eu preciso subir na carreira para me sentir valorizado e reconhecido? Conseguir valorização e reconhecimento é meu propósito. Ao fazer algo útil para a sociedade eu me sinto uma pessoa boa? Sentir-me alguém bom é meu propósito.

O propósito não é o que quero alcançar (este é meu objetivo), mas é aquilo que me move a fazer algo. Não é a estratégia que desenvolvo para atender minhas necessidades (por exemplo, a estratégia do trabalho assalariado para atender a demanda de segurança), mas é a necessidade em si. E quanto mais profundo e significativo o propósito que nos move, quanto mais essencial a necessidade, maior será o nível de motivação, pro-atividade e resiliência para enfrentar os desafios.

Imagine que uma casa começa a pegar fogo. Num primeiro momento, você sabe que ali tem toda a mobília do escritório de uma empresa. Você se sentiria movido a entrar no meio do fogo para salvar a mobília, arriscando sua vida, ou apenas pensaria que é uma pena e sentiria compaixão de quem está tendo aquela perda? Em seguida, você descobre que lá está preso o bichinho de estimação de uma criança, e que o animal está prestes a morrer no fogo. Será que algo dentro de você não começaria a se mexer e pensar que, se você soubesse como ou se tivesse um pouco mais de coragem, talvez entrasse lá para ajudar, ainda que, dada as condições, não tenha como fazer isso? E então você descobre que um ente muito querido – um de seus filhos, um de seus pais ou seu companheiro(a) – está preso no fogo. Será que você não se mobilizaria imediatamente para entrar ou garantir que alguém mais capacitado entrasse lá para salvá-lo?

Quanto mais profundo o que nos move, maior nossa motivação para empreender, superar desafios e tornar o impossível possível. Maior nosso nível de comprometimento e pro-atividade. E aí entra a questão da liderança: em geral, ou não temos clareza do que nos move e do que move as pessoas que lideramos, ou as coisas que achamos que movem a nós e às outras são, na verdade, motivações ilusórias e pouco mobilizadoras.

Muitos líderes e organizações acreditam que dinheiro e status são motivadores importantes. Acreditamos que se ganharmos mais dinheiro e subirmos de cargo – ou se abrirmos essas oportunidades para pessoas de nossa equipe – as pessoas serão comprometidas e proativas. Mas talvez o fato de que mesmo pessoas em bons cargos e ótimos salários às vezes são profissionais agressivos e mal-humorados, ou passivos e pouco proativos, sejam um indicador de que esses não são motivadores sustentáveis. Se dinheiro e poder fossem tão mobilizadores, a promessa de tê-los nos empolgaria a ponto de verdadeiramente empreendermos a vida e o planeta que queremos, inclusive enfrentando com determinação os desafios que isso implica, em vez de nos motivar a fazer apenas o mínimo necessário para nossa sobrevivência e dos nossos entes queridos. E, principalmente, nós estaríamos sentindo altos níveis de felicidade e de significado, e não uma infelicidade generalizada, experimentada por diferentes pessoas com diferentes graus de intensidade. Nós apenas acreditamos esses são fatores mobilizadores, sem que eles de fato realmente sejam.

Além disso, frequentemente acreditamos que as pessoas se mobilizam por responsabilidade e compromisso. Se contratamos alguém para uma certa função, e a função está clara para ela, em teoria ele deveria se comprometer a cumpri-la. Nós inclusive julgamos as pessoas que não cumprem sua função de irresponsáveis ou antiéticas, acreditando que qualquer pessoa que assumiu um cargo deveria ser responsável o suficiente para cumpri-lo. Só que, mais uma vez, as pessoas só se comprometem e se responsabilizam profundamente pelo que as apaixona, pelo que é sagrado para elas. E às vezes elas nem sabem o que as apaixona, e por isso fazem as coisas do jeito que fazem e fingem – muitas vezes para si mesmas – que estão dispostas a se comprometer. Só que como a falta de paixão não sustenta o compromisso, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, uma escorregada maior no cumprimento da função indicará o que ela de fato sente (mesmo que não saiba disso). E quando cobramos as pessoas por não estarem cumprindo com sua função, na verdade tudo que fazemos é fazer a pessoa esconder ainda mais o quanto ela não é apaixonada por aquilo que faz – nós fingimos para não ser repreendidos ou não perder o emprego. E assim, perdemos uma oportunidade riquíssima de usar o não cumprimento da função para investigar qual é o propósito que a move e que poderia leva-la a assumir naturalmente compromisso e responsabilidade nesta ou em outra função – ou mesmo em outro emprego.

E aí reside a arte de usar o propósito como força propulsora da liderança: quando investigamos quais são nossos propósitos mais profundos (por exemplo, qual o nosso propósito de vida), nós ganhamos clareza do que queremos empreender e dos desafios que naturalmente topamos enfrentar; com isso, acabamos nos colocando em lugares e relações que são significativos para nós; nutridos por isso, queremos também abrir essa oportunidade para outros, e criamos espaços para que as pessoas que lideramos investiguem e clareiem quais são seus propósitos mais profundos; e uma vez que os propósitos vão ficando mais claros, questões como dinheiro, status e responsabilidade serão definidas de uma forma que permitam cada pessoa dar vazão para seu propósito, de forma que beneficie tanto a pessoa quanto ao grupo, projeto ou organização em questão.

Num ambiente cheio de propósito, e com contornos (salário, função, compromissos) que permitam as pessoas viverem seus propósitos, o nível de comprometimento, engajamento e pro-atividade será naturalmente alto e sustentável, pois quanto mais eu faço o que amo, mais me comprometo. Num cenário como este, será bem mais raro achar pessoas que confirmem os pressupostos listados no começo desse texto. Percebemos que:

·         Trabalhar em grupo não é difícil, mas criar espaço para que cada pessoa e o grupo como todo se alinhe em torno de seus propósitos exige uma musculatura que somos nós, líderes, que precisamos desenvolver

·         Lidar com “o ser humano” não é difícil, mas as pessoas possuem diferentes níveis de clareza e de conexão com seus propósitos, e somos nós, na posição de liderança, que precisamos desenvolver nossa musculatura para lidar com pessoas que, por diferentes razões, têm menos clareza e conexão com seus propósitos

·         A maior parte das pessoas têm um grande potencial para serem comprometidas e proativas, e apenas algumas pessoas não terão esse potencial, não porque ele não exista dentro delas, mas ou porque estão num nível mais profundo de conexão com seu propósito do que conseguimos dar conta como liderança, ou porque aquele emprego, função ou organização não tem, de fato, conexão com seu propósito, e nada que façamos poderá, portanto, despertar sua motivação profunda

·         As pessoas só vão fazer o mínimo se não virem sentido no que fazem e, quando elas vêm, nós podemos justamente relaxar totalmente, com a confiança de que o trabalho será produtivo

·         As pessoas que podem fazer naturalmente tudo que precisamos, com competência e motivação, são aquelas cujos propósitos pessoais coincidem com o propósito do trabalho ou função que estamos oferecendo

·         As pessoas se esforçam para superar as dificuldades e os conflitos quando aquilo que está em jogo por trás dessas dificuldades e conflitos é algo mais apaixonante que esses desafios, algo que está conectado com seus propósitos mais profundos

·         As pessoas que assumem poder ou liderança só deixam isso “subir à cabeça” e se tornam arrogantes, manipuladoras ou autocentradas quando este poder ou liderança são apenas objetivos a serem alcançados, e não ferramentas para expressar aquilo que elas consideram mais sagrado, pois quando estamos em contato com o que é sagrado, sentimos o desejo de servir, motivado pela gratidão, e não de ser servidos, motivado pela carência

·         As pessoas se comprometem quando recebem motivações profundas, como a oportunidade de realizarem seu propósito - maiores salários e melhores cargos são úteis quando potencializam a expressão desse propósito

·         As pessoas gostam de receber treinamentos que as ajudam a lapidar e terem mais recursos para fazer aquilo que as apaixona, e não que apenas as façam produzir mais

·         Mesmo com salário e cargo bons e ótimos treinamentos, as pessoas só se comprometem se estão conectadas com seus propósitos mais profundos

 

Como usar o propósito como força propulsora da liderança?

O processo de busca de propósito - seja o de nossa vida, de um projeto, de uma organização, de um coletivo – pode ser complexo e longo, pois exige que entremos em camadas mais profundas de nosso senso de identidade, de nossos sonhos e, às vezes, de nossas sombras, pois olhar para o que nos apaixona pode nos levar a entrar em contato com o que nos fez desconectar disso (nossos traumas e bloqueios). Facilitar que outras pessoas trilhem esse caminho é ainda mais sofisticado, pois implica, ao mesmo tempo, sermos exemplo de alguém que está sinceramente nessa busca e desenvolver uma empatia profunda por quem é o outro e o que o apaixona.

Portanto, em vez de oferecer fórmulas prontas, que poderiam levar à frustração de não ver resultados imediatos e gerar descrença no propósito como força propulsora da liderança, podemos exercitar um primeiro e importante passo: começar a fazer boas perguntas para nós e para as pessoas que lideramos. Perguntas abertas, geradoras de reflexões, que nos levem a questionar num nível mais profundo o que nos apaixona e o que nos move em certas áreas da vida ou na vida como um todo. Essas perguntas podem ser feitas numa conversa informal ou em momentos oficiais de reunião, planejamento estratégico ou treinamento.

Boas perguntas abrem para muitas respostas, então as perguntas que irão nos ajudar na investigação do propósito não são aquelas cujas únicas respostas são “sim” ou “não”. Além disso, não vão implicar julgamentos, opiniões ou conselhos, como quando começamos perguntando “mas você não acha que...” e terminamos com uma opinião como “é melhor? é o certo? é o que você devia fazer?”, e por aí vai. Em termos de propósito, alguns bons exemplos de perguntas são:

1.      Qual o meu / seu propósito de vida?

 

2.      O que me move / move você a estar aqui / participar deste projeto / trabalhar com isso?

 

3.      O que mais me apaixona / apaixona você na vida / nesta área da vida / neste projeto?

 

4.      O que me motiva / motiva você nisso que estou / está fazendo? E o que desmotiva?

 

5.      Se eu / você tivesse carta branca para fazer o que quisesse na vida / neste trabalho / neste projeto, o que eu / você faria?

 

6.      Em que momentos eu me sinto / você se sente mais plena (o) e feliz na vida / neste trabalho / neste projeto?

 

7.      Que ações / funções / combinados poderiam ajudar para que eu pudesse / você pudesse fazer mais aquilo que me apaixona / te apaixona?

 

8.      Como este ambiente de trabalho tem me ajudado / te ajudado a fazer aquilo que é realmente importante para mim / você? E como poderia ajudar mais?

 

9.      Como posso / podemos dar conta, ao mesmo tempo, daquilo que nos apaixona e de nossas responsabilidades?

 

Essas são apenas algumas ideias, e é importante que cada pessoa explore as suas próprias perguntas. Além disso, essas perguntas não são suficientes para resolver todas as nossas questões como líder e em nossa equipe. São apenas pontos de partida para boas conversas, que podem ajudar a clarear propósitos pessoais e coletivos. E, tão importante quanto a qualidade das perguntas, é a qualidade da escuta - ao ouvirmos as respostas, seja de nós mesmos ou de nossa equipe, é importante manter uma postura aberta, sem julgamento, de verdadeiro interesse em conhecer a si ou ao outro, e não de querer usar essa investigação para rapidamente chegar numa solução para fazer nós ou os outros produzirem mais.

Mesmo porque às vezes nós ou o outro chegamos numa resposta que parece verdadeira e, logo depois, a repetição do padrão de desmotivação revela que aquele foi apenas o primeiro passo, e que precisamos voltar atrás e investigar um pouco mais. Se entrarmos na investigação com a pressão de chegar num resultado rápido, podemos, tão rapidamente quanto, desacreditar dessa investigação, por sentir que mesmo depois da primeira, segunda ou terceira conversa, nós ou os outros continuamos desmotivados ou descomprometidos. Um processo como esse exige comprometimento com a pessoa, e não como o resultado que queremos para ela.

Além disso, uma vez dado o ponto de largada, talvez haja muitos outros fatores e questões que se abram e que precisem de cuidado, para que nós e os outros possamos trabalhar a partir de nosso propósito. Também é importante levar em consideração o contexto de cada organização, projeto, equipe e líder, para saber como esse ponto de partida pode ser dado e quando – nem sempre podemos, simplesmente, perguntar para uma pessoa qual é seu propósito de vida ou o que a apaixona. Precisamos sentir qual é o nível de abertura da pessoa, como está nosso vínculo com ela, quando e como é a melhor forma de perguntar, o que queremos de fato com essa investigação, entre outros fatores.

Portanto, caso haja necessidade de um olhar mais contextualizado e profundo sobre como usar o propósito como força propulsora da liderança, é importante mergulhar mais profundamente no estudo de como fazer isso, seja buscando conhecer e praticar mais a Liderança do Coração ou qualquer outro contexto de liderança que faça sentido para nós, ou seja pedindo ajuda para outros líderes que nos inspirem ou de profissionais que possam dar assistência nesse processo. De todo modo, sugerimos correr o risco de experimentar esse jeito de liderar que, quem sabe, pode trazer resultados surpreendentes e mudar nosso olhar para a nossa capacidade de criar equipes, grupos e relações motivadoras e motivadas.

Por que não?