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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Escuta os gritos
de Paris.
Os gritos de quem agoniza
no chão.
Escuta os tiros
como gritos
de quem atira
- e os escuta também.
Escuta o grito
aterrorizado
de um mundo
que anseia por se sentir
seguro.
Escuta os gritos
do outro mundo,
que comemora
o sangue,
e que grita por algo
também.
Escuta os gritos
que não se
ouvem,
das vítimas e algozes
em lugares que não se vê.
Sem a mídia
como megafone,
eles gritam baixo
- mas, ainda assim,
gritam também.
Escuta os gritos
Marianos,
Diamantinos,
de rios, peixes e pessoas,
e tantos outros seres.
Gritos que ficam
invisíveis
quando só escutamos
os gritos de Paris.
Mas escuta os gritos
de Paris também,
Pois escuta não se
escolhe
- só se amplia -
quando escolhemos
não "o nosso",
e sim
"o bem".
Escuta o grito de
raiva,
medo,
preguiça,
sonhos,
que vem de
Dentro.
Pois é ele quem
ressoa
com o grito de
alguém.
Escuta e acolhe
esse grito profundo,
que lá fora,
transformado,
ele grita
a compaixão
que não se cala,
não se curva,
nem se vinga,
mas grita,
com coragem
o silêncio pacífico
que abençoa
o mundo.
Marcadores:
Akash,
Círculo Ampliado,
O que ainda não sei chamar de meu,
SER Inspirador,
SER Sutil,
SER Verdade
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Saudade vale a pena!
fotos: Germana Lucena - Sadvipra Leadership Training - maio/2015 - Piracaia-SP - Brasil
Há alguns dias terminou a imersão Sadvipra Leadership
Training, que tenho a honra de co-anfitriar com meu querido mentor Peter Sage.
Depois que todos foram embora da Pousada Figueira Grande, em Piracaia, interior
de São Paulo, eu e minha mãe (que veio fazer o curso pela segunda vez) ficamos,
com a intenção de voltar para a capital no dia seguinte.
À noite, após o jantar, vendo o céu estrelado, a lua
crescente, a bela vista para os morros, a mata e represa, e o jardim que,
algumas horas antes, estava cheio de pessoas, sentimentos e luz, bateu-me uma
nostalgia, misturada com saudades. Meu primeiro impulso foi o de me apressar
para fazer o que iríamos fazer em seguida – ver um filme – e esquecer dessa
sensação. Entretanto, algo me fez parar e ficar.
Deixando-me visualizar os momentos que se passaram, e as
emoções que eles evocaram, comecei a saborear o lento processo de deixar aquela
jornada se dissolver na minha alma, como um chocolate que derrete na boca.
Exatamente como deveríamos fazer após uma boa refeição: apenas permanecer
digerindo, lentamente, os nutrientes do que foi ingerido. Deixando-me embriagar
dessa doçura, realizei em meu corpo o quanto vale a pena ter saudade!
Lembrei-me, então, de uma frase que recebi numa rede social:
“a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”. Ela é o registro no
corpo de que o arrepio, que é para mim a voz de Deus, da Vida, da Consciência, ou
do Propósito Maior, aconteceu. E é a coleção de saudades, de momentos bem
vividos, que vão se somando para saturar o cérebro de tanta felicidade, que ele
já não consegue mais contrariar e escravizar o coração – pois as provas são
contundentes e irrevogáveis.
Essa percepção me encaminhou para ir ainda mais no fundo,
nas experiências mais sublimes que já tive meditando, contemplando a natureza,
ou simplesmente em contato com minha vida interna. Percebi que minha busca pelo
Espírito não é a busca de algo que eu não vivi – é a saudade profunda de algo
que vivi e vivo, mesmo quando não estou consciente disso. Há no meu corpo o
registro de um amor tão profundo, que a própria vida, desde o nascimento até a
morte, parece-me o longo processo de digerir esse amor, até que eu me torne um
com ele novamente.
Durante os dias nessa imersão de liderança, nós vivemos uma
jornada que começou com a investigação de nosso propósito de vida e terminou
com a busca de nos unir com o Amor Maior, entendido como esse espaço máximo que
abriga tudo que existe. Vivemos um caminho para sairmos da nossa noção autocentrada
de que somos sujeito, refletindo sobre o objeto-vida, para nos tornarmos, nós,
o objeto de meditação do sujeito-vida, ou desse Grande Amor.
Na penúltima noite, fizemos um sarau para que cada um
expressasse, como quisesse, sua forma de cultivar a relação com esse Amor.
Poemas, histórias, músicas e até uma dança, todos muito tocantes, sucederam-se,
e ao final a minha sensação era de que, sim, o Amor Maior estava presente, vivo
e vibrante no salão. E, no dia seguinte, nas atividades finais foram
inevitáveis algumas lágrimas e vários sorrisos de contentamento. De saudades.
Saudades do Grande Amor.
Emocionado com essa atmosfera tão sutil, doce e profunda que
criamos juntos, senti-me atingindo o ponto máximo de meu propósito – mesmo que sinta
que dá para “aumentar o volume” e gerar espaços ainda mais poderosos de conexão
com o Amor. Ficou claro para mim que o mundo em que líderes partem desse lugar,
de saudades do Amor Maior, para então crescer internamente e servir
externamente, só pode ser um mundo livre, belo, abundante e solidário.
E agora, com toda essa reflexão, fiquei pensando: como seria
o mundo se cultivássemos menos ganância e raiva, e mais saudades do nosso
Grande Amor Universal? É um pouco triste que a gente tenha que correr tanto, e
tenha que fugir tanto do corpo e das emoções, que não dá tempo de sentir
saudades. Saudades do que é maior que nós mesmos, pois é de onde viemos, onde
estamos, e para onde vamos.
E o pior é que a saudades não vai embora porque nós fazemos
mil coisas para esquecer dela – ela apenas se transforma na saudade amarga,
aquela do amante que se sentiu rejeitado e abandonado - em vez de se preservar
como a doce saudade – aquela do amante em plena comunhão com sua amada ou seu
amado, e que espera ansiosamente o momento do reencontro, e vibra com cada
sinal, cada telefonema, cada vislumbre, e saboreia todos os pequenos momentos
vividos juntos.
Por isso, posso dizer, de boca, corpo e coração cheios: saudade
vale a pena!
quarta-feira, 25 de março de 2015
Velar o Fogo do Masculino Sagrado
Velar o Fogo do Masculino Sagrado
Em 2014, um grupo de amigos próximos e eu resolvemos iniciar
um Círculo de Homens. Depois de várias tentativas de marcar um primeiro
encontro, enfim achamos uma data, e acabei não indo no tal encontro, pois nesse
mesmo dia fui jantar com uma pessoa que considero um grande mentor para mim.
Considerei que aquele havia sido meu Círculo.
Durante o ano, chegamos a ter, talvez, cinco encontros, que
foram muito nutridores para muitos de nós, e também geraram incômodos. Um deles
dizia respeito à nossa inexperiência em equilibrar o “papo sério” – de nossas
feridas, do sagrado etc – e o papo “engraçado” – as aventuras sexuais, as histórias
curiosas etc. Terminamos o ano num tom disperso, sem saber exatamente quando e
como o Círculo iria continuar.
Em março deste ano, vi que uma data que coincidia com nosso
pulso mensal de encontros (a terceira sexta-feira do mês) estava livre para mim,
e mandei uma mensagem para o grupo que criamos no Whats App, sugerindo que
fizéssemos o primeiro encontro do ano. Algumas pessoas confirmaram, inclusive
dois amigos que haviam acabado de entrar no grupo, e estavam bem animados para
um primeiro encontro.
Assim, na terceira sexta-feira do mês, na virada do ano
astrológico, às 18h30, desliguei-me de meus afazeres de trabalho e sentei para
meditar, como faço todos os dias, contando com que as pessoas começariam a
chegar às 19h, que era nosso horário combinado. E aí começaram uma sucessão de
frustrações, começando por um grande amigo que estava comigo lá desde a hora do
almoço, esperando para participar do Círculo, e resolveu ir embora, para
atender uma demanda familiar.
Enquanto eu meditava e, de olhos fechados, não ouvia a porta
de nosso espaço abrindo, ou a campanhia tocando, meu coração ia me dizendo que
ia haver uma debandada geral. Aquilo foi me angustiando, e eu quase ia me
irritando por antecipação. Negociava comigo mesmo, dizendo que as pessoas só
deviam estar atrasadas, como de costume. Mas, de fato, ao terminar de meditar,
já passadas as 19h, vi no Whats App que vários haviam desistido. Entretanto, a
confirmação de três amigos, mesmo sabendo que eles chegariam bem atrasados, me
fez persistir no encontro.
Nesse período, entre eu meditar e esperar esses amigos
chegaram, caiu uma ficha. Já há algumas semanas, eu refletia sobre o Círculo de
Mulheres que também acontece em nosso espaço, há mais tempo e com mais
regularidade, e sobre os vários Círculos de Mulheres que vejo acontecendo por
aí, anfitriados ou contando com a participação de pessoas próximas a mim –
inclusive minha esposa. Refletia, também, sobre a prática de uma querida amiga,
com quem tenho passado por um processo de coaching, e que, além de arrumar
lindamente o espaço onde temos nossas sessões, cuida muito bem em preparar
energeticamente o espaço, chamando a presença de todos os guias e mentores que
considera importantes para aquele trabalho.
A ficha que me caiu, então, é que nós, homens, não cuidamos
bem dos espaços. Nós podemos construir a casa, mas quem em geral a decora e
cuida de mantê-la limpa, arrumada e viva, é a mulher. E era exatamente assim
com o nosso Círculo: a gente simplesmente chegava e sentava mais ou menos em
círculo, no máximo acendendo uma vela, pedia talvez uma pizza, e conversava.
Quase nenhum cuidado com criar um ambiente convidativo, em se conectar com as
energias que queríamos que estivessem naquele trabalho. Sem trazer a beleza e a
poesia de um ritual significativo. Quantas vezes, pensei, quis trazer oráculos,
flores, velas, algo que trouxesse o sagrado para aquele momento, e não lembrei,
ou não priorizei?
Olhei para aquilo e, naquele momento, fiz um pedido para
mudar. “Quero ser um homem que cuida”, pensei. E então resolvi montar um belo
círculo com o que tinha ali. Arrumei as almofadas. Acendi a vela. Ornei-a com
imagens masculinas que estavam em nosso altar: Shiva, Buda, Jesus Cristo, Anandamurtii,
entre outros. Coloquei no centro umas flores que estavam lá, no canto da sala.
Peguei dois livros que estavam na minha mochila, e que sentia que se conectavam
com o momento. Quando terminei, senti a diferença na qualidade da energia
presente. Uma nota mais grave, e mais retumbante, estava agora sendo entoada.
Então resolvi invocar as consciências que, no meu coração,
eram referências do masculino sagrado. Cantei para muitos daqueles seres do
altar: mantras para Shiva e Buda, canções cristãs, entre outras. E a cada
canção, sentia que a roda estava mais preenchida, ainda que fisicamente só eu
estivesse ali. Logo em seguida, dois dos três amigos chegaram, e um deles tocou
também algumas músicas xamânicas, e o tom do sagrado e a energia de poder foi
crescendo e crescendo. Senti a força do cuidado, e desejei ser um homem que
cuida. Não só dos espaços, mas das relações, das pessoas e dos seres.
Nesse meio tempo, o terceiro amigo chegou, trazendo algumas esfihas,
para mim e para ele, e foi para a cozinha comer com aquele meu amigo que
resolveu ir embora para cuidar de sua demanda familiar, mas que ainda estava
ali, resolvendo últimas coisas antes de sair. Eu e os demais já estávamos
cantando e abrindo o Círculo, e eu tinha a expectativa de que ele viesse se
juntar a nós o quanto antes. Mas ele não veio. Fui até a cozinha e dei um toque
para que ele viesse. Ainda assim, ele demorou. E eu comecei a ser tomado por
uma irritação profunda. Que fez com que uma segunda e importante ficha caísse.
Enquanto um lado meu tinha um desejo enorme de ir na cozinha
e “dar uma bronca” nele, para que viesse logo, um outro lado meu não via o
menor sentido nisso. Não queria ser o pai mandão e autoritário. Estávamos ali,
inclusive, por sermos homens que queriam romper com a rigidez patriarcal. Mas,
ao mesmo tempo, eu queria muito que ele se comprometesse com aquele nosso
momento. E foi aí que me caiu a ficha: comprometimento. Nós, homens, muitas
vezes não nos comprometemos. Não é à toa que essa é uma das principais
reclamações que as mulheres nos fazem: “vocês não querem compromisso”. Não é à
toa que há tantas mulheres lutando sozinhas com seus filhos, pois, claro, nós,
homens, não nos comprometemos.
Entendi, então, que eu não queria mandar no meu amigo, nem
dar bronca. Eu queria sentir compromisso. E eu estava tão irritado porque eu
tinha raiva da minha própria falta de compromisso. Eu precisava que meu amigo
viesse porque eu não conseguia me comprometer comigo mesmo, e precisa que ele
seguisse minha ordem, para eu ter uma pseudo-sensação de compromisso. O que me
impedia de me comprometer com estar ali, num espaço importante para mim, tendo
somente as presenças invisíveis, ou apenas os dois amigos que já estavam lá? Eu
não queria assumir que o compromisso é meu, e é comigo, com o que me é caro. Eu
não queria assumir meu compromisso de velar o fogo do masculino sagrado, e
queria que os outros fizessem isso por mim.
E, ali, comecei a assumir esse compromisso: eu irei aprender
a velar o fogo sagrado do masculino. E isso, eu já havia entendi, implicava,
além de me comprometer, aprender a cuidar. Alimentado por essas reflexões,
quando abrimos a nossa roda de conversa (ainda sem meu terceiro amigo ter
entrado), compartilhei minhas sensações e reflexões, que ressoaram
profundamente nos meus dois amigos presentes, e a partir daí a roda foi se
aprofundando e ficando mais e mais forte, e fomos sentindo que algo
extremamente especial estava acontecendo naquele momento. Quando, enfim, o
terceiro amigo chegou, compartilhei com ele tudo que havia vivido e sentido, e
ele não só entendeu, mas também sentiu que aquelas eram reflexões muito
importantes para ele.
Abrimos, então, nossas caixas de pandora, e conectamos com o
que nos pareceu não apenas a nossa dor – mas a dor do masculino no mundo. Cada
um na roda trouxe percepções e experiências únicas e que não poderiam ser
reproduzidas nesse texto – ao menos não o lugar para onde tudo isso nos levou,
pois isso só estando lá. Um dos meus amigos revelou o que já estávamos sentindo
com nosso corpo: a energia daquele Círculo era vazia e fraca, pois esse é o
estado do Círculo de Homens do mundo hoje. É vazio porque não nos
comprometemos. Não aparecemos. Chegamos atrasado. E não somente no encontro do
Círculo de Homens. Mas na vida. Em nossos casamentos. Na vida de nossos filhos.
Na realização de nosso propósito de alma.
O Círculo é fraco porque não cuidamos. Fazemos de qualquer
jeito. Desrespeitamos o sagrado do que somos e do que fazemos, levando tudo
para o deboche e o escracho. Desprezando o sério e sagrado como pesado. Como
algo que não interessa ao homem. Como frescura. Somos adolescentes. E não há
nada de mais em debocharmos e sermos adolescentes. Esse é um de nossos papéis
sagrados. O problema é só ser isso. E quando não somos adolescentes, somos o
pai narcisista ou autoritário. Somos o patriarcado que lutamos tanto para
transformar. Claro que é importante não generalizar: não somos todos assim, nem
somos assim o tempo inteiro. Mas esse é o “estado da arte”, em termos gerais,
atualmente. Ou, ao menos, nós, deste grupo, sentimos assim.
“Sou um moleque”, disse ao meu grupo. “E embora eu esteja
brincando de chamar todas essas entidades, como Shiva, Buda e Jesus, para esse
Círculo, será que se eles realmente estivessem aqui, eu me sentiria digno de
estar sentando no mesmo Círculo que eles? Será que eu estou honrando minha
dignidade masculina?”. E que fique claro que essa percepção não tem peso. Não
se trata de ser um super-homem. De me cobrar excessivamente. Mas apenas de
amadurecer. De verdade. E não de faz de conta, do tipo “eu ganho dinheiro,
tenho um cargo alto no meu trabalho e seguro muita bucha, então eu sou gente
grande”. Trata-se de sair da adolescência do masculino ferido, com raiva de
tudo represente compromissos e cuidado, limites e firmeza, como se tudo isso
fosse rigidez. E também sair do patriarcado, com raiva de tudo que é espontâneo
e vivo, e que foge do controle.
A imagem que me veio foi a seguinte: é como se, em algum
momento, houvesse existido sacerdotes que velavam pelo fogo do masculino
sagrado. Homens fortes, dignos e bons. E aí, num certo ponto, alguma ferida fez
com que o fogo se apagasse e, sem perceber, continuássemos a fazer os mesmos
rituais, velando mecanicamente um fogo morto. E quanto mais sentíamos o frio do
masculino se apagou, mas sem admitir que se apagou, repetíamiios ainda mais mecânica
e rigidamente os rituais, achando que o ritual em si iria nos fazer sentir o
fogo. E quanto mais fazíamos isso, mais raivosos e rígidos ficávamos. É
horrível sentir o frio de um fogo vital que se apagou.
Assim, o patriarcado, cada vez mais um conjunto de rituais
rígidos e sem vida, foi se deteriorando. Até que questionamos o ritual sem
significado. Nos libertamos. Só que, equivocadamente, entendemos que o que nos
aprisionava era o ritual, e não a falta do fogo. Achamos que o ritual era
maligno. E decidimos que não queremos mais os rituais. Para que cuidar e se
comprometer com eles? Queremos ser “livres”. Assim, continuamos com o fogo
morto, virando agora adolescentes sem rituais e, ainda, sem fogo. Continuamos
perdidos, mas com a liberdade de gritar e reclamar que estávamos perdidos. E
quem sabe era esse o próximo passo necessário, porque que fomos, então,
descobrindo que a questão não é o ritual – é o fogo. Precisamos reacender o
fogo do masculino sagrado. E cuidar dele.
Sem raiva dos rituais, e do compromisso e cuidado que eles
pedem, e também lúcidos o suficiente para não aceitar mais rituais vazios,
queremos nos recolocar na posição de sacerdotes que velam pelo fogo do
masculino sagrado. Queremos aprender, com os mentores invisíveis, e os visíveis
– aqueles homens que nos inspiram a doce virilidade do masculino equilibrado –
como velar o sagrado. Queremos recuperar nosso respeito e nossa dignidade. De
ser homens. Sabendo que, com isso, não precisaremos depreciar o feminino nem obriga-lo
a nos reconhecer. Aquele que é digno é reconhecido naturalmente pela sua
dignidade.
E entendemos que esse é um trabalho hercúleo. Aliás,
hercúleo vem de Hércules que, não à toa, era um homem. E que matou a sua esposa
e seus filhos. E teve que passar por grandes obras e provações, até recuperar o
seu masculino equilibrado. Isso significa que, de fato, achar que cuidar e se
comprometer é algo importante e respeitoso, e não papo de homem babaca,
complicado etc, é algo difícil e demandoso. Pode parecer bobo, mas acender uma
vela e arrumar o centro de uma roda de conversa - algo tão natural para o
feminino - pode ser um bloco de uma tonelada para um masculino ferido.
Isso ficou ainda mais evidente quando, durante o encontro,
ensaiamos fazer uma dança de escoteiro proposto por um de nós. Um misto de
emoção e vergonha me tomou. Mesmo eu, tão reconhecido por ser um homem “com
muita energia feminina” (seja isso bom ou não), estar ali, de braços dados,
cantando com outros homens, me deixava embaraçado. Os softwares do masculino
patriarcal me assombravam quase que como uma voz débil, de pano de fundo. E
isso nos levou a refletir o quanto que, além da dificuldade de comprometimento
e cuidado, nós, homens, temos muita dificuldade em sair do que um de nós chamou
de nossa “autonomia territorial”, para assumir e compartilhar nossa
vulnerabilidade.
Percebemos que um dos possíveis motivos de não aparecermos
no Círculo, ou de chegarmos atrasados, é uma preguiça difusa e de fundo, cuja
raiz talvez seja a antecipação de que teremos de fazer algo que é muito, muito
demandoso para nós: nos abrir, falarmos de nossos sentimos, expormos dores e
sonhos. A sério. E não de forma escrachada. E para outros homens. Mesmo nós que,
conscientemente, defendemos isso, temos, inconscientemente, essa dificuldade. É
quase um condicionamento biológico, parece. E talvez seja mesmo. Chegamos a
comentar que, se houvesse uma única mulher naquela roda, a tarefa seria muito
mais fácil. Que a presença feminina nos tira da nossa postura automática de
sempre manter um lugar de fortaleza perante outros homens. Que duro perceber
que, ao contrário das mulheres, que muitas vezes antecipam esse momento de
troca como um momento de alívio e relaxamento, nós antecipamos esse momento
como de esforço – muito esforço.
Por isso, nesse Círculo tão auspicioso, depois de todo esse
mergulho – um ano em duas horas, me pareceu – assumimos uma tarefa, que quero
estender a todos os homens que estiveram lendo esse texto, e que se sentirem
chamados. Como uma primeira tarefa de aprendizagem em nossa jornada de nos
tornarmos dignos de velar o fogo do masculino sagrado, iremos acender, com
cuidado e compromisso, uma vela, toda sexta-feira, às 19h, e deixa-la queimar
em nossos corações, em honra a nossa luz e a nossas feridas, e à luz e às
feridas do masculino desse planeta. As mulheres também são bem vindas a fazer
esse exercício, mas é muito importante que nós, homens, o façamos, para mudar
nosso padrão. E quem não puder acender uma vela física na hora, que a acenda
dentro de si. Mas que faça isso porque realmente não pode acender a vela física
– e não por preguiça ou por ser “mais fácil”.
Claro que esse é apenas um exercício, e cada um pode criar o
seu. Sendo realista, nosso compromisso é até o próximo Círculo – não queremos
uma tarefa tão grandiosa que não possamos alcançar. São nossos primeiros
passos, e queremos dá-los com cuidado. Além disso, queremos agora cuidar para os
Círculos aconteçam com beleza, e para que de fato estejamos lá – e, se não
pudermos estar, que não larguemos de lado e simplesmente mandemos uma mensagem
dizendo “não vou”. Mas que nos preocupemos em saber quem estará, para velar o
fogo em nosso lugar. Queremos saber como podemos contribuir, mesmo à distância.
Também queremos fazer outros exercícios: acampar juntos, conversar sobre nossa
ancestralidade, aprender a não ter vergonha de dançar juntos, e se abraçar. Temos
muitos sonhos. Sonhos de adolescentes que sinceramente têm vontade de crescer.
E de, um dia, serem reconhecidos como sacerdotes dignos do fogo sagrado que nutre
a beleza de Ser Homem. E de Ser Masculino, sejamos nós homens ou mulheres.
Vamos juntos?
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
A força do coração
foto tirada em Davao, Flipinas, jurante a jornada
Enquanto volto para o Brasil,
após 35 dias fora e de tantos acontecimentos internos e externos que mexeram
comigo, relembro as reflexões que compartilhei logo que parti. Naquele momento,
a pergunta que emergiu em mim dizia respeito a como criar estruturas mais
fortes e poderosas para permitir que a consciência se expressasse de forma mais
vigorosa e generosa em mim. E percebo que estou retornando não com uma resposta
final, mas com uma vasta colheita de percepções que sinto vontade de
compartilhar. Algumas colheitas já estão em mim, outras estou começando a regar,
e outras, ainda, quero plantar no momento oportuno. A mais importante, agora, é
a realização, num outro nível de qualidade, muito mais profundo, da força do
meu coração.
Por diferentes motivos, durante
minha vida, aprendi a trabalhar com, mas ainda assim temer, minha
vulnerabilidade. Os pontos fracos da minha personalidade e da minha psique com
as quais eu não consigo lidar tendem a se defender do medo da exposição, de
forma pouco sustentável, das seguintes formas:
1. Prazer
compulsivo: associando prazer a algum pensamento ou ação compulsiva, eu
consigo abafar algum aspecto interno com o qual não consigo lidar;
2. Superstição:
ritualizando algum tipo de comportamento ou pensamento, e o associando a um
resultado que quero alcançar ou abafar, eu evito o medo de que o que me assusta
pareça que vai de fato acontecer;
3. Atitude
contrafóbica: exagerando e expondo o meu medo, de forma catártica, abrindo
as porteiras de meus contornos e limites saudáveis para pessoas que não estão
preparadas para contribuir com meus processos internos e de vida, eu crio uma
relação fantasiosa e condicional de que serei compensado, pela minha coragem,
abertura e entrega, com a cura ou a proteção contra aquilo que me assusta;
4. Complexo
de inferioridade: abrindo mão de perceber e sustentar o que sinto e
acredito num certo contexto, para concordar com alguma autoridade interna ou
externa que, na minha fantasia, sabe o que é melhor para mim e pode me punir
com a exposição ou destruição da minha parte frágil, caso eu não aja
“corretamente” (de acordo com o que “correto” se apresente para esse tirano
interno ou externamente projetado);
5. Submissão:
indo mais fundo no complexo de inferioridade, quando eu simplesmente atribuo
prazer ao abuso do meu tirano interno ou externo, como forma de me render a ele,
achando felicidade, ainda que pequena e ilusória, naquilo que me causa dor e
medo, para poder ter o alívio – ainda que momentâneo – de desistir e ceder ao
cansaço da luta constante.
6. Arrogância:
usando qualquer ilusão de poder que eu sinto que tenho, seja no campo
financeiro, intelectual, de controle emocional ou de percepção espiritual, para
tentar ter a sensação (e, às vezes conseguir) de que as pessoas se curvam a
meus pés e fazem o que quero – em especial, que elas me servem em minhas
necessidades não atendidas e fragilidades, quando eu preciso – para, assim, ter
o alívio fugaz de continuar protegendo minha vulnerabilidade e estar no
controle.
Essas estratégias, originalmente,
não foram desenvolvidas com má intenção, mas como a defesa que eu tinha diante
de situações que me pareceram mais assustadoras ou abusadoras do que minha
capacidade para lidar com elas. O resultado imediato foi – e continua sendo –
alívio momentâneo, mas o resultado em médio e longo prazo, pouco sustentável, é
uma frustração imensa por não conseguir dar saltos maiores no meu
desenvolvimento interno e externo, por não conseguir sustentar coisas que sei
que são poderosas para mim, mas que poderiam, para meu inconsciente,
destruir-me ou à minha imagem. Não me refiro aqui a saltos maiores que vêm do
ego superexigente e que não se contenta com o que tem, mas dos saltos
verdadeiros que o coração quer dar naturalmente, que já está, de fato, tentando
dar, mas que não consegue completar, gerando a sensação de energia reprimida e
potencial não utilizado.
Nada disso é muito dramático, na
verdade, pois graças a Deus eu tenho uma vida muito equilibrada e feliz, mas
como sinto que a consciência tenta se expandir sempre, trata-se de território
não explorado e que não pode ser evitado, caso eu queira continuar evoluindo na
minha autorealização e na minha capacidade de servir. E, também com a graça
Divina, nesta jornada eu recebi muitas peças do quebra-cabeça, tanto no sentido
do que preciso explorar mais quanto do como fazer essa exploração, e as peças,
agora, enquanto escrevo, começam a se juntar, e sinto que podem trazer, talvez,
insights para as jornadas de alguns que leem esse texto.
Alguns desses insights são:
1. Abrir
mão da gratificação pessoal em curto prazo: o medo da vulnerabilidade traz
um desejo de que as coisas tragam para mim um resultado positivo imediato, na
forma de prazer interno, de reconhecimento pessoal ou do impacto das minhas
ações. Quando o resultado não vem, existe uma sensação de fracasso e
frustração. Mas, na verdade, quando estou conectado com meu propósito, eu posso
sustentar posições, erros e experimentações pelo tempo que for necessário, sem
medo do caos, da desaprovação ou da emergência do meu lado sombrio, confiando
que o resultado das ações não está nas minhas mãos e que o sofrimento de agora,
quando pleno de significado, pode estar plantando uma felicidade ainda maior no
futuro. Embora eu já soubesse disso intelectualmente, ganhei novas percepções
profundas sobre esse aspecto e, principalmente, exercitei essa musculatura,
tornando-me mais forte para essa sustentação.
2. Preservar
minha energia e meus contornos: pelo medo de estar sozinho com minha
vulnerabilidade, uma parte minha evitava dizer não para qualquer troca social
ou relação interpessoal, com medo de desagradar o outro. Eu evitava me recolher
para ficar sozinho ou adotar uma postura de menos toque e troca corporal. A
desaprovação e a solidão eram sensações que potencializavam o terror de estar
com minha sombra e minhas fragilidades, e assim eu me mantinha constantemente
poroso ao outro, para me sentir protegido. Entretanto, à medida que eu me
relaciono de forma cada vez mais íntima com a Consciência Maior, na forma da
Entidade Mais Amada para mim, mais esse espaço interno fica confortável, e
consigo preservar momentos de silêncio e solitude, nutrindo-me, inclusive, da
minha vulnerabilidade. E à medida que percebo de forma mais clara que não sou
essencial para o outro, e que é o Amado Interno de cada um que trará o
preenchimento e os resultados desejados, eu consigo aceitar não ter que abrir
todos os meus poros para servir e me relacionar constantemente, como se o outro
fosse inevitavelmente se corromper, perder-se ou sofrer se eu não estiver
presente. Isso traz, junto, uma profunda segurança nas pessoas, na vida e em
nosso destino, e um profundo relaxamento, por só precisar dar conta daquilo que
é meu, daquilo que meu coração pede agora – e não mais.
3. Sustentar
a troca amorosa: como contraponto da percepção interior, ficou claro que a
estratégia oposta e complementar para evitar a dor da vulnerabilidade, é ficar
no conforto do meu espaço interno, num lugar em que o toque físico e a troca
são considerados invasivos, imaturos ou desnecessários. Como estar no próprio
espaço pode ser muito gostoso, como quando moramos sozinho e nos acostumamos a
ter tudo de nosso jeito, existe um lugar que se torna intolerante às trocas. Minha
percepção é que o prazer interno gerado pelo silêncio e pela solitude é, entre
outras coisas, um prazer narcísico, e como não desejamos sair do prazer, nos
protegemos do que pode ferir o espelho. Foi interessante, pois essa percepção
surgiu à medida que eu me via adotando o comportamento mais discreto que vivenciei
em alguns grupos e culturas com os quais tive contato, no Brasil e durante essa
viagem, e percebia a luz desse comportamento (que levou ao insight acima) e,
também, a sua sombra, que sinto que emerge quando ele deixa de ser uma escolha
e passa ser uma imposição interna ou cultural.
O que senti em
mim, e que também ajudou a clarear o que parcialmente me incomodava nesse
comportamento, é que, se por um lado, há uma sensação de sutileza e conforto em
estar no próprio espaço, pode existir também maior intolerância e julgamento ao
desconhecido que pode surgir da interação, fazendo com que exista um sabor
depreciativo, às vezes muito sutil e implícito, na relação com o que está fora.
Seja numa versão mais espiritual, que passa a julgar ou condenar, ainda que
muito sorrateiramente, o “mundano”, seja numa versão mais mundana, que expressa
irritações com os outros e com como as coisas são feitas pelos outros.
O mundo e outro
jamais serão capazes de dar contorno necessário para que possamos descansar
para sempre em nosso espaço interno, e isso gera muita frustração. Como
consequência, alguns de nós criam e se escondem em claustros pessoais (nossas
casas, nossas vidas íntimas impenetráveis, nossas práticas espirituais
solitárias, nossa vida social restrita) e coletivos (nossos clubes, comunidades
fechadas, entre outros). Lembrando que não necessariamente a escolha da
solitude ou de viver mais recluso venha desse lugar, mas, em alguns casos, esse
pode ser o fundamento basal desse tipo de escolha.
Mas, abrindo mão
desse conforto e do prazer que ele traz, para encarar as informações geradas
pela troca – espirituais, mundanas, dolorosas, prazerosas, não importa – como
bem vindas e como fonte de expansão do coração, a troca física e emocional
passa a ser também bem vinda, junto com toda a vulnerabilidade que ela causa. Ao
viver de forma mais plena essa dicotomia – da solitude e da troca amorosa –
percebi, junto com minha decisão de me preservar mais, a minha intenção clara
de sustentar o toque, o abraço e a conversa profunda e íntima sobre qualquer
tema, em qualquer contexto – tomando o cuidado, claro, de dialogar com culturas
que sejam diferentes, e não de invadi-las ou julgá-las. Não se trata de querer
mudar o outro, mas de sustentar o que é importante para mim.
4. Usar
o poder para contribuir, e não para exigir: lembro-me de alguns momentos
durante minha estada num hotel nas Filipinas, já no final da viagem, cujo
objetivo era apenas relaxar e me divertir. Por isso, dei-me o presente de
escolher um lugar onde eu pudesse ter todos os confortos que eu queria. E assim
que o lugar começou a frustrar minhas expectativas: o telefone quebrado, a
internet que não funcionava, a comida que não veio do jeito que pedi, eu logo
me vi na posição do cliente exigente, duro e reclamão. Porque, claro, eu estava
pagando, então eu tinha direito. E esse lugar me mostrou de forma muito
pungente como o poder pode despertar meu lado tirano, que deseja que todos
sirvam minhas necessidades e não exponham minhas fragilidades.
Ficou claro
que um lado meu topava servir quando eu estava sendo pago ou fazendo trabalho
voluntário. Pois no trabalho voluntário há a compaixão, e no trabalho pago há o
compromisso com entregar o melhor para o cliente. Mas se eu estou pagando, quem
tem as regras do jogo sou eu. Que história é essa de me contrariar? Se eu estou
pagando, eu não tenho que ajudar ou ser bonzinho – eu tenho que ser ajudado. Os
outros têm de ser bons comigo. Hora da revanche! Eu não tenho que passar por
cima de alguns limites pessoais para servir os outros? Eu não tive que baixar
minha cabeça para atender necessidades dos outros? Pois agora é a vez dos
outros fazerem isso por mim!
E, dessa
percepção verdadeira e dolorosa, veio a realização clara de que, sim, eu estou
aqui para servir, em todo momento, em todo lugar. Mesmo quando isso me faz
sentir vulnerável. Mesmo quando estou pagando. Mesmo quando eu tenho poder.
Mesmo quando a bola está comigo. Não importa quão poderoso eu seja: eu não
estou aqui para abafar os erros e as fragilidades, e sim para jogar luz sobre
elas, para que possamos criar um mundo mais belo e feliz a cada segundo. E isso
implica sustentar a minha força amorosa como agende de transformação do mundo,
de sustentar essa força perante a vulnerabilidade minha e do mundo, e, também,
de atender cada vez mais minhas necessidades – mesmo quando estou servindo
voluntária ou remuneradamente – para que não haja nada a ser pago depois.
Nenhuma vingança oculta. Usar o poder para contribuir, e não para exigir. E foi
isso que fez com que, no final, eu conseguisse dar os feedbacks que precisava
de uma forma que criou conexão com os funcionários do hotel. Senti que saímos
com brilhos nos olhos de nossa breve, mas significativa, interação. E agora
quero mais disso.
5. Sustentar
e desenvolver minha força física e energética: já há algum tempo venho
falando, em diversos contextos, sobre sustentar o ponto basal de nossa
consciência em pontos mais sutis e expansivos, como o coração. Isso significa
buscar fazer com que, literalmente, cada pensamento e emoção sejam sentidos,
fisicamente, na altura do coração. Não se trata de reprimir ou negar os demais
sentimentos e pensamentos, mas de reconhecer que sempre estamos olhando as
coisas por algum filtro. Podemos aceitar nossa sombra, nosso ódio e nosso medo
a partir do filtro do amor, tanto quanto podemos receber o amor a partir do
filtro do ódio. Justamente, quanto mais sutil e expansivo o ponto basal, mais
dentro dele cabem todos os tipos de sentimentos e emoções. Os pontos basais
mais sutis não temem nada, e conseguem aceitar incondicionalmente e transmutar
todos os aspectos de nossa personalidade. Isso é o que eu já sabia. Agora,
percebi também a necessidade de desenvolver um tônus físico e energético para
sustentar esse ponto basal em mais situações, em especial em contextos mais
associados à energia masculina.
A luta pela
sobrevivência física, a guerra, a tirania, a repressão, a tortura física,
mental, emocional e espiritual, para dar alguns exemplos, fazem parte do drama
humano, em especial no aspecto do masculino desequilibrado e, em vez de fugir
dessas grandes fontes de vulnerabilidade, quero me sentir cada vez mais seguro
para abraça-las e contribuir para transmuta-las. E essa viagem me deu muitos
exemplos disso, pois tanto no Haiti, quanto nas Filipinas, entrei em contato
com pessoas e povos que precisam se readequar e escrever uma nova história a
partir de calamidades muito graves, como terremotos, tufões e ditaduras
violentas e sanguinárias. Impossível abraçar essas histórias e recriá-las de
forma positiva e empoderadora sem sustentar profundamente a força do coração.
E eu percebi que
se, por um lado, não quero desenvolver um complexo contrafóbico de mártir, de
me lançar em situações perigosas, por outro eu não quero viver como se eu fosse
apenas meu “eu individual”: eu sou o mundo todo. Negar ou se abster do que está
acontecendo no mundo é fechar os olhos não para o que está “acontecendo lá
fora”, mas para uma parte de mim. É deixar de me conhecer. E sinto que meu jeito
de me conhecer e me engajar com o que descubro não vem tanto pela leitura dos
jornais e pelo debate filosófico e macropolítico – ele vem, principalmente, por
interagir e cocriar com as diversas partes de mim mesmo – as diversas partes do
mundo. Para isso, preciso aumentar minha capacidade física e energética de ser,
lutar e empreender, a partir do coração. Até mesmo para lidar com coisas
menores, mas ainda assim significativas, no meu processo de lidar com minha
vulnerabilidade, como o medo de morrer sozinho numa viagem de avião ou de não
conseguir sustentar meu tônus como homem perante as mulheres e outros homens.
6. Abraçar
e expressar a minha sensualidade e a sensualidade da vida: como garoto que
cresceu com uma deficiência física, que tornava minha fala incompreensível e
minha aparência pouco atraente, cresci negando a sexualidade e a sensualidade
plena na minha vida, pois tocar nesses pontos me deixava extremamente
vulnerável. Aos poucos, fui curando a conexão e a expressão da sexualidade, mas
só nessa viagem percebi o quão profundamente eu negava minha sensualidade.
Sensualidade, aqui, entendida em seu aspecto amplo: a física, que gera
confiança para se embelezar, vestir-se, tatuar-se e se enfeitar para expressar
o prazer com o próprio corpo e com a própria aparência; a sexual, que gera empoderamento
e conforto com a sedução e a capacidade de ter prazer com as mulheres que
considero mais atraentes para mim, culminando na relação plenamente sensual com
minha esposa a partir de um lugar de atração plena, e não de gratidão por
alguém se sentir atraído por mim; a social, fazendo tudo que faço de forma
poética, inspiradora e prazerosa; e a espiritual, assumindo mais o aspecto Amado-Amante
na relação com Deus, descrito por tantos santos místicos, como São João da
Cruz, que em seu clássico “A Noite Escura da Alma” diz, para expressar sua
relação de amor com o Divino: “o meu amado beijou o meio seio”. É viver a vida
como se, com cada gesto – do trabalho que faço, à comida que como, ao amor que
compartilho com minha esposa – eu estivesse me preparando para a grande noite
de núpcias com meu Amor Maior. Como se cada sorriso fosse o perfume que coloco
para Ele. Cada ato de bondade, a melhor roupa. Cada momento de felicidade, o
banquete que preparo para nosso jantar.
7. Abraçar
o guerreiro que mora em mim: li uma vez no incrível livro “João de Ferro”
que, em algumas culturas, antes de usar a espada o homem precisa aprender a
dançar. Logo, junto com a percepção da necessidade de desenvolver minha força
física e energética e de abraçar e expressar a sensualidade, nasce a garra para
ser e viver o meu guerreiro. Um guerreiro forte, assertivo e luminoso, que não
tem medo de desagradar, que deixa suas crenças e posições claras, mas que não
faz isso com complexo de superioridade, imposição, ou julgando e reprimindo o
outro. Faz com o coração e o olhar limpos, com a certeza de estar construindo o
que é importante para si e para o outro, e aberto para se deixar tocar,
aprender e refazer suas certezas, a partir do que a vida traz. Antes, o medo
era de que meu guerreiro despertasse uma fúria (de Deus ou dos outros) que me
destruísse, e a estratégia, portanto, era ou negar e abrir mão desse guerreiro
ou expressá-lo de forma violenta. Agora, quero deixar ele se expressar e
aprender com ele, com como ele pode ser cada vez mais veículo de amor e luz,
mesmo que eu tropece um pouco até estar mais apropriado dele. Isso está me
fazendo com que, desde já, eu assuma com firmeza posições que, antes, eu titubeava
para afirmar.
Todos esses insights, juntos,
tornaram claro para mim o quanto meu movimento, agora, é de fazer o que faço,
assumindo a força do meu coração. Uma força que é muito poderosa, e também
muito amorosa. E que é essa força que vai potencializar o que já está aqui, o
que já estou fazendo, e que apenas estava precisando de mais espaço. Não para eu
poder ser maior, mas para poder ser pleno. Para poder cumprir o destino que me
colocou aqui, e dar vazão, por inteiro, ao desejo de iluminar meu espaço
interno e servir o mundo. Que venham os próximos passos da jornada!
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014
A partido do natural
Sou colecionador de livros infantis e, onde vou, sempre pesquiso um que seja realmente especial e compro. O mais recente, adquirido na minha passagem pelos Estados Unidos, foi “The Tao of Pooh” – “O Tao do Ursinho Puff”. Sim, é isso mesmo. Um autor, praticante do taoísmo, arriscou fazer a ponte entre os ensinamentos Taoístas e as atitudes do famoso ursinho, em suas histórias. Escrito de forma muito cativante, como se ele estivesse conversando com o próprio urso, já nas primeiras páginas o livro traz reflexões belas e interessantes, e algumas delas me inspiraram a pensar sobre a questão das ditas “minorias”, como o público LGBT.
Coloco “minorias” entre aspas
porque não acredito que exista nada fora que não exista dentro. Dentro de mim
mora o feminino e o masculino, a cor negra, amarela, branca e vermelha, a
limitação física e mental, a genialidade e a potência corporal, o amor e a
atração por pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto. O que chamamos de minorias
são apenas os pontos de maior expressão de características que moram em todos
nós, em diferentes graus. Porque nós somos tudo. E é a não aceitação do todo
aqui dentro que me faz querer destruir as partes lá fora que me lembram a
existência dessas partes em mim.
E é interessante, porque
justamente ao tentar “minorizar” e eliminar, justamente cristalizamos e
fortalecemos o que não toleramos. Eu cresci aprendendo a ser homofóbico – não
no sentido de agredir fisicamente mas, tão cruel quanto, de ridicularizar, de
considerar inferior e de excluir qualquer possibilidade de que a atração por
uma pessoa do mesmo sexo pudesse acontecer comigo ou qualquer pessoa da minha
família. No começo da faculdade, eu não me sentia confortável em compartilhar
em certos círculos que eu tinha amigos gays. Era uma tentativa de me libertar
do meu preconceito, mas pela metade: eu me sentia muito confortável com esses
amigos, mas não me sentia confortável com a possibilidade de ser julgado por ser
próximo deles.
E o resultado dessa cultura
homofóbica que me influenciou é que, na minha mente, e na de muita gente,
qualquer possibilidade de atração por alguém do mesmo sexo, mesmo que em
princípio não fosse uma atração sexual, virou sinônimo de que, no fundo, a
pessoa “é gay”. Qualquer proximidade maior que pudesse representar prazer em
estar com alguém do mesmo sexo era experimentada quase como um vírus que havia
entrado em nosso corpo e, uma vez identificado, iria se alastrar e não haveria
mais volta. E nossa vida seria destruída.
Logo, é claro, eu e um bocado de
gente teve que incorporar esse dilema em nosso processo de descoberta sexual,
porque eu não conseguia diferenciar prazer físico e afetivo de atração sexual.
Com isso, era difícil identificar o que era verdadeiramente meu, e o que era
uma crença adquirida, sobre minha sexualidade. Acredito que a grande maioria
dos homens sente isso, só que muitos evitam essa confusão não ficando
fisicamente perto de outros homens.
Essa não foi minha escolha. Eu
amo muitos homens – amigos, irmãos, parceiros – e gosto de beijá-los,
abraça-los e até deitar no colo deles. Imaginem então como ficou a minha
cabeça, que de um lado sentia a homossexualidade como algo muito natural e, por
outro, tinha medo de pensar se atrás daquele momento tão gostoso com um amigo não
estava a revelação definitiva e irrevogável da minha homossexualidade – e, por
isso, acabava ficando com raiva da homossexualidade existir e “não me permitir
viver em paz”. E isso veio muito mais da cultura homofóbica, que cria monstros
desnecessários na relação entre homens, que do homossexualismo em si, que é
apenas mais uma forma de afeto entre homens – e não a única.
Mas, graças à vida, a uma família
evolutiva e a ótimos processos de autodesenvolvimento pelos quais passei, eu
fui evoluindo em diversos sentidos – inclusive nesse. E o primeiro salto foi
perceber que eu não sou nenhuma categoria. Eu sou o que sou. O que meu corpo me
pede, aqui e agora. E que, no meu caso, neste momento, é viver minha energia
sexual com as mulheres – ou, melhor ainda, com minha mulher. Mas poderia ser
diferente. E tudo bem. Com isso, passei a gostar mais e mais de ver as pessoas
serem quem são. Seja o que for. E que isso vai muito além de “ser” ou “não ser”
gay. Diz respeito a seguirmos o que é natural para nós – a cada momento. Pois o
que é natural hoje pode não fazer mais sentido amanhã, e vice-versa.
E acho que é exatamente porque o
natural é tão múltiplo e mutável que, cada vez mais, lutamos para entender
todas as categorias de sexualidade que estão surgindo. Até a sigla LGBT não
está mais contendo todas as possibilidades de expressão da afetividade e do
desejo sexual. Simplesmente porque a verdade e o natural não estão nas
categorias. Está no que o corpo pede. Não só o corpo humano – mas o corpo dos
animais, da natureza, do nosso organismo social, do universo e da vida como um
todo.
As categorias podem servir, no
máximo, para nos ajudar a libertar algo que o corpo está pedindo. Quando eu
disse “eu te amo” pela primeira vez para minha esposa, algo que já estava no
meu corpo se libertou, e ganhou mais força. Eu pude ser mais eu. Quando as
pessoas que amam indivíduos do mesmo sexo deixaram de se ver como “bichas” ou “sapatões”
e passaram a se ver como pessoas com identidades sexuais próprias e valiosas, e
deram a isso o título de “homossexuais” ou “gays”, elas também se libertaram e,
junto com elas, libertou-se o potencial de normalidade e beleza dessa forma de
expressão da sexualidade. O único porém é que, uma vez cumprida a função de
libertar o que estava tentando se expressar, a categoria “estaciona” – ela fica
onde estava, enquanto o corpo, seus desejos e suas possibilidades de expressão
continuam evoluindo. Até que a categoria já não sirva mais para honrar o que
está ali agora.
Portanto, a categoria que ontem
libertou, hoje pode aprisionar. Pois o corpo já está pedindo mais coisas. E aí
vamos criando novas categorias, que deem contam do novo que está emergindo em
nós. Homosexualismo, bissexualismo, transexualismo, trânsgenero, homoafetivo, e
por aí vai. E, enquanto esse processo for libertador, ele precisa ser
legitimado e valorizado. E, quando ele for repressor, impositivo, tentar
maquiar verdades ou gerar estereótipos, deve ser desmascarado. De todo modo, o
que importa é dar espaço para que as pessoas – não só no campo da sexualidade,
mas em qualquer campo – tenham cada vez mais espaço para expressar quem são
naturalmente.
E é aí que entra o Tao do Ursinho
Puff. Como afirma o autor do livro, Benjamin Hoff, “de acordo com Lao-tse,
quanto mais o ser humano interferiu no equilíbrio natural e governado pelas
leis universais, mais a harmonia se retirou para longe. Quanto mais forçamos,
mais problemas geramos. Seja pesado ou leve, molhado ou seco, rápido ou lento,
tudo tem sua própria natureza intrínseca, que não pode ser violada sem causar
problemas. Quando regras arbitrárias e abstratas são impostas de fora para
dentro, o conflito é inevitável. Somente aí a vida passa a ter um gosto ruim.
(...) Ao trabalhar em harmonia com as circunstâncias da vida, o entendimento
Taoísta permite que transformemos em positivo o que outros podem perceber como
negativo. Do ponto de vista Taoísta, o gosto ruim e amargo da vida surge da
mente interventora e não-apreciativa. A vida em si, quando entendida e
utilizada pelo que ela é, é doce”.
Em outras palavras: o
desequilíbrio vem quando impomos categorias às pessoas que não libertam aquilo
que é natural para elas. O problema com conceitos como “macho” e “bicha” não
está tanto no teor de preconceito, mas no quanto eles escravizam e proíbem o ser
de expressar por inteiro suas leis naturais, como sugerido por Lao-Tsé. Se
estamos tentando obrigar os outros a se encaixar numa certa categoria, está
óbvio que a “lei” ou “verdade” que estamos tentando vender é arbitrária e
imposta de fora para dentro, e que o conflito será inevitável.
Talvez as pessoas possam se
deixar repreender por algum tempo (mesmo que isso signifique séculos), mas
inevitavelmente, a verdadeira lei – a que vem da vida e do corpo – irá se
impor. Não há ira divina que possa impedir esse processo. Nem a aterradora
destruição de Sodoma e Gomorra e sua perpetuação como ameaça divina, durante
séculos de dominação religiosa, foi capaz de impedir os indivíduos que amam
pessoas do mesmo sexo de, no final, vencerem e terem cada vez mais espaço para
expressar o que lhes é natural. Nem toda a repressão e medo da homosexualidade que
encontrei durante a descoberta da sexualidade foi capaz de me impedir de
encontrar (e me encontrar) com minha sexualidade e com o amor da minha vida.
Não porque eu estava seguindo algum preceito cultural homofóbico – mas
simplesmente porque isso é quem eu sou.
Como não aprendemos a respeitar o
natural e usar o nosso construto social, linguístico e simbólico para
libertá-lo – em vez de aprisiona-lo – nós acabamos perdendo essa harmonia e
esse equilíbrio de que fala Hoff em seu livro. Como temos dificuldade em
evoluir, o que implica dar nome para o que não foi ainda nomeado, dar espaço
para o que antes não existia e que ainda não entendemos, preferimos tentar
“congelar” a vida naquilo que já descobrimos e que, uma vez, no passado, funcionou.
E achamos que se todos forem e fizerem isso para sempre, tudo vai ficar bem...
Não à toa nossa noção de paraíso é, tantas vezes, a imagem de um lugar em que
nada nunca muda. Socorro!
Nessa cultura desconectada do
natural, não queremos que nossa expressão sexual mude, assim como não queremos,
por exemplo, que a medicina mude. Testemunhei curioso e atônito a batalha
travada por minha incrível mãe, Maria Teresa, enquanto ela se afastava da
medicina dita “tradicional” e incorporava inovações em seu jeito de praticar a
cura que, muito tempo depois, passaram (ou começam) a ser aceitas como
legítimas. Formas que, na prática, são tão eficientes, que têm atraído muita
gente que antes desacreditava desse novo jeito, e que agora não encontra mais
resposta no “tradicional”. Como militante de uma educação mais livre e
democrática, fico também atônito com a reação agressiva a qualquer tentativa de
que a estrutura formal de educação mude – resiste-se tanto aos movimentos de
desescolarização quanto a se falar de emoções na sala de aula. O que choca não
é o fato da mudança não acontecer – pois ela poderia ser um sintoma de que o
que está sendo proposto não é natural – e sim o nível de violência aberta ou
velada, pessoal e institucional, impedindo que a mudança aconteça, mesmo quando
muitos sinais mostram que ela é necessária. Mesmo quando as manifestações das
pessoas, nas redes sociais, nas ruas, nas conversas de bar, estão gritando que
há uma lei natural não sendo respeitada.
O que conforta é saber que,
silenciosa ou abertamente, tudo está mudando. Porque quando algo é natural no
processo evolutivo, ele se torna inevitável. Logo, a questão não está em saber
“se” o natural vai acontecer. Ele vai. Nunca esteve em nossas mãos impedir que
a homossexualidade se estabelecesse como opção legítima. Sempre foi e sempre
vai ser, e cada vez mais, pois a realidade do corpo e da vida (e não dos nossos
preconceitos morais e religiosos) têm mostrado que é assim. Que este é o
natural de milhões de pessoas ao redor do planeta. O que muda é “como” isso vai
acontecer: com uma percepção e aceitação mais rápida e fluida do que é, ou com
muita resistência, conflito, ataques histéricos e descabidos como o de Levy
Fidelix, sofrimento – e, como a história mostra, mortes. E se quisermos supor
que existe algo mais natural que essas diversas expressões sexuais que temos
hoje, não precisamos brigar – isso vai se impor, no momento certo. Se for
natural.
Portanto, minha busca tem sido a
de dar espaço para o natural, em todos os campos da vida, mesmo quando ele
choca com os valores e os conceitos que eu já havia construído antes. E para
isso, é preciso muito discernimento. Nem tudo que é novo é “natural”. Podemos
propagar algo bem diferente da cultura atual, algo inovador e chocante, e no
fundo isso não ressoar em ninguém, pois no fundo é apenas uma categoria
“diferente” que está tentando ser vendida, sem que ela responda ao que está, de
fato, querendo emergir. É apenas uma organização interessante de ideias, para
chamar atenção, gerar catarse emocional, satisfazer o desejo de rebeldia, ou
algo que o valha. Da mesma forma, nem tudo que é natural é “novo”. Respeitar o
natural não é negar a tradição. Mas a verdadeira tradição se perpetua
naturalmente porque é uma lei universal enraizada no corpo e na vida, e não em
nossas frágeis e datas crenças.
Por outro lado, temos de levar em
conta que nem sempre algo que não ressoa no coletivo não é natural. Às vezes
algo não encontra eco de imediato porque não estamos preparados para escutar,
ou porque o sistema social reprime e não oferece espaços para que a mensagem
seja escutada em larga escala, e como legítima – o que acontece frequentemente
em nossa cultura de mídia de massa, que antes ditava solitariamente o que podia
ser comunicado e agora, com o fenômeno da internet e das redes sociais, não determina
tudo o que pode ser dito, mas busca legitimar alguns discursos e deslegitimar outros,
e vencer pelo tamanho. A mídia de massa ainda chega em mais pessoas que os
guetos internéticos, infelizmente.
Também precisamos levar em conta
que o risco que existe em congelarmos o natural numa nova categoria, num
primeiro momento mais ampla e inclusiva, e que o impede de continuar crescendo.
Esse é um debate que ocorre, inclusive, entre alguns grupos de defesa das
“minorias”, quando sentem que a categoria “negro”, “gay” ou “deficiente” começa
a gerar mais estereótipo que esclarecimento. De certa forma, isso aconteceu
comigo, pois se um lado meu acreditava na lei imposta pela cultura dominante,
do “não devo ser gay”, outro lado já havia criado uma outra lei, também imposta
por uma cultura emergente, que dizia que “se eu não me abrir para ter uma
experiência homossexual, é porque eu sou preconceituoso ou conservador”. E
ambas as crenças não me libertavam para eu ser quem sou.
O natural está menos nessa ideia
de “minorias” e “maiorias”, de certos e errados, que ainda é baseado em
categorias, e tem mais a ver com o que pensamos, sentimos e fazemos quando
estamos em nosso estado de fluidez, de alegria e conexão com o que nos é
profundamente significativo. Para alguns, um casamento heterossexual monogâmico
pode ser o resultado natural de quando se está nesse estado. Para outros, um
relacionamento bissexual e aberto pode ser esse resultado. Mas se desconectados
desse estado verdadeiro de fluxo, ambos os cenários podem ser categorias buscadas
“de fora para dentro” e gerar conflito interno e externo, por nos impedir de
seguir a nossa lei universal para obedecer a uma lei “abstrata e arbitrária”, e
que pode ser criada por qualquer grupo, não importa se de esquerda ou direita,
da cultura da violência ou da cultura de paz. Todos estamos vendendo conceitos
que se propõem a dizer o que é natural independente do que nosso corpo sente.
Tocado por tudo isso, tenho
buscando aprofundar minha busca por aceitar e libertar o que é natural – e,
para isso, tenho conscientemente feitos de exercícios de reflexão interna, de
diálogos significativos e de experiências que me tiram da zona de conforto. No
campo da homossexualidade, isso significa, por exemplo, conversar com amigos
gays sobre coisas que ainda eram tabus para mim, como ser “passivo” durante o
ato sexual entre dois homens. Ouvindo intencionalmente como é isso para eles, e
que beleza e prazer eles encontram nisso, pude deixar de lado o preconceito
oculto que me fazia aceitar o homossexualismo como algo que eu respeito, desde
que eu não veja por inteiro, ou de achar que quem é ativo “é mais macho”, para
de verdade apreciar outras formas de amar que não estavam no meu escopo, encontrando,
inclusive, como essas formas se expressam em mim, dentro da minha realidade.
Significa também ir assistir
filmes de amor em que o casal central são pessoas do mesmo sexo e não sentir
que estou assistindo um “filme gay”, mas sim um filme de amor. É conversar
abertamente com amigos sobre as diferentes expressões de nossa sexualidade,
buscando legitimar as expressões próprias e empatizar com as expressões dos
outros, sem tentar chegar em certos e errados, em julgar um como mais puritano e
outro mais libertino. E, à medida que as categorias congeladas vão se
dissipando, e dando lugar a novos conceitos, que respeitam o orgânico e o
natural, uma apreciação da singularidade de cada ser, e das diversas formas da
felicidade se expressar, surge. E isso traz, internamente, muita felicidade
também, pois é uma delícia poder ser quem se é e, ao mesmo tempo, apreciar e
celebrar a beleza do outro. E, melhor ainda, por não estarmos presos a
conceitos, é delicioso deixar-nos surpreender por formas de beleza que nunca
havíamos experimentado antes.
Assim, ao mesmo tempo em que é
muito importante lutar para colocar limites nos crimes homofóbicos, é
igualmente essencial fazer o que idealizou Buckminster Fuller: em vez de lutar
contra a realidade que queremos mudar, lutar a favor da queremos estabelecer, e
deixar a outra morrer de inanição. Isso significa, para mim, deixar de colocar
energia nessas leis abstratas e arbitrárias, que tentam se legitimar como
“universais” porque algum dia algum deus, filósofo, cientista ou qualquer
figura legitimadora falou que “é assim”, e botar mais energia em nomear e viver
em consonância com as leis universais, essas que estão enraizadas no fluxo
natural do corpo e da vida – o que minha mãe chama de “zona de energia
correta”.
É importante se dar conta que
brigar contra as leis impostas é uma forma de dar energia para elas. Em geral,
brigamos tentando fazer valer outras leis, opostas às que estamos combatendo,
que podem até serem reflexo das leis universais. Mas, a própria energia de
raiva e de agressividade com que combatemos é sintoma da nossa dificuldade de
nos enraizar no que é natural, e só aumentamos o problema. Quando uma lei é
realmente natural, ela impera, e não o que temer. Não há espaço para debate
agressivo, não porque é “proibido”, mas porque a verdade já está no corpo – não
há nada para ser vencido, mas apenas para ser clareado. O debate, portanto,
ocorre não para derrotar ou convencer mas, para juntos, darmos nome para o que
já está aqui – um nome que faça sentido para todos, ou para a maioria. E,
novamente, não porque “acreditamos” naquilo. Mas simplesmente porque é. E
quando é, nosso corpo sabe. Quando nos alinhamos com o que é, ganhamos uma
força incrível para sustentar o que nos faz sentido (pois “o que é”, “o que nos
faz sentido” e “a força” são, na realidade, diferentes nomes para uma mesma
coisa).
E como nomear o que “é” pode ser complexo
e demorado, já que tateamos o emergente a partir das categorias e conceitos que
temos agora, dentro de nossa vivência pessoal, familiar e social, o debate
democrático tem importância vital. Ele nos dá a oportunidade de ver novas
camadas do que já está ali, à medida que nossas convergências e divergências
vão alargando nossa percepção do que é natural não só para mim, mas para o
outro, para um grupo, para uma nação. A lei universal, que já é, vai se tornado
clara à medida que vamos sentindo, nomeando e honrando o que é natural para
todos. Isso implica mais a assertividade, firmeza e dignidade de caráter do que
a agressividade e violência. Em princípio, mesmo um debate com muita
divergência pode ser amoroso e nutridor. Não precisamos xingar e destruir o
outro – mesmo que ele esteja sendo preconceituoso. Mas, a depender do nível de
repressão para que o natural emerja, precisamos sim ser vigorosa e
corajosamente assertivos em sustentar o que estamos vendo. O que está aqui. E
não o que deveria estar. A lei natural. E não a abstrata e arbitrária.
Entregando inclusive nossa vida em favor da verdade. Pois onde o natural
impera, impera também a verdade e a vida.
Isso, claro, é bem diferente do
debate político agressivo que temos hoje, e que encontra um de seus extremos no
discurso homofóbico. Esse debate é apenas a representação visível da tentativa
desesperada de fazer uma verdade artificial e construída, baseada em crenças
datadas, fazer valer sobre o que, de fato, é a demanda do corpo e da vida. E
isso se estende para muitas outras áreas do diálogo político. Se boa parte da
verdade vendida pelos partidos e candidatos fosse natural, não precisaria de
tanta parafernália de marketing, de tanta mentira, de tanta repressão, enfim,
de tanto esforço, para se fazer valer. E não haveria problema em deixar outros
candidatos e partidos, menores, terem mais espaço. Pois se os candidatos com
maior poder estão honrando a lei universal, o que temer? E se os demais
candidatos, com proposta alternativas, estão falando bobagem – algo que não
ressoa com o natural, o que temer? E se estamos todos trabalhando para permitir
a plena expressão daquilo que é natural e bom para todos e, portanto, tanto faz
quem ganha e quem perde, o que temer?
Portanto, a fúria de Levy Fidelix
e da massa homofóbica é, de fato, o desespero de uma classe desconectada de seu
fluxo natural, assustada com o ruir de suas verdades frágeis e inventadas, e que
está perdendo para aquilo que não se pode vencer: a lei natural e universal da
vida e do ser humano. Daquilo que é espontâneo e verdadeiro. E que, quando não reconhecido
e não honrado, gera dor, conflito, repressão, rebeldia e sofrimento, para todos
os lados. Mas quando reconhecido, honrado e amado, tal como é, torna a vida
extremamente doce, como os potes de mel que o Ursinho Puff tanto adora.
The Tao of Pooh, Benjamin Hoff
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terça-feira, 30 de setembro de 2014
O Propósito como força propulsora da Liderança do Coração
Quem já experimentou estar na liderança de um grupo, seja numa empresa, uma organização social, um projeto voluntário, ou mesmo na vida pessoal – numa viagem, no dia a dia com a família ou com os amigos – talvez tenha se deparado com a seguinte pergunta: como manter as pessoas motivadas, comprometidas e proativas?
Em
muitos momentos, nós entramos na investigação dessa pergunta com alguns
pressupostos, como:
·
Trabalhar em grupo é muito difícil
·
Lidar com “o ser humano” é muito difícil
·
Pouca gente é realmente comprometida e proativa
·
Se a gente relaxar, as pessoas só vão fazer o
mínimo
·
É difícil achar alguém que faça naturalmente
tudo que precisamos, com competência e motivação
·
As pessoas não se esforçam para superar as
dificuldades e os conflitos, mas preferem ficar na zona de conforto ou ficam
alimentando os conflitos nos bastidores
·
Quando as pessoas assumem poder ou liderança,
elas deixam isso “subir à cabeça” e se tornam arrogantes, manipuladoras ou autocentradas
·
As pessoas se comprometem quando recebem
motivações como maiores salários e melhores cargos
·
As pessoas se comprometem quando são bem
treinadas
·
Mesmo com salário e cargo bons e ótimos
treinamentos, algumas pessoas simplesmente não se comprometem
Quando
investigamos a pergunta acima com esses pressupostos, as respostas tendem,
inevitavelmente, a gerar soluções pouco sustentáveis, como:
·
Investir
na meritocracia: algumas pessoas, que agem mais de acordo com o que o líder
espera, são recompensadas com promoções ou são mais elogiadas e privilegiadas
com o afeto do líder, gerando divisões no grupo e criando espaço para que
algumas pessoas agradem o líder apenas para obter vantagens.
·
Investir
na autocracia: o líder entra numa modalidade de “comando e controle”, sendo
duro e autoritário com as pessoas que não parecem estar mobilizadas como o
líder gostaria e utilizando de ameaças explícitas ou sutis (nas entrelinhas do
discurso) para motivar as pessoas a produzirem e se comprometerem mais, gerando
um clima de medo e, em médio prazo, de ainda mais desmotivação, raiva e
conversas de bastidores.
·
Investir
o mínimo de energia para liderar o grupo: o líder entende que ele é
impotente diante dos conflitos e da falta de motivação do grupo, pois a
natureza das pessoas (ou de algumas pessoas), dos ambientes de trabalho (ou
daquele ambiente de trabalho) é assim mesmo, e se ocupa de fazer apenas “a sua
parte”, focando em se relacionar apenas com as pessoas com quem ele tem boa
relação e colocando mínimo esforço na relação com as demais pessoas, gerando um
clima de baixa energia e de pouca clareza nas relações, em que cada um faz o
que bem entende.
·
Investir
em ser popular: o líder busca ser gostado por todos, substituindo a
liderança refletida e o contato com suas emoções e percepções reais por uma
afetuosidade por vezes forçada e irrefletida, gerando um ambiente propício para
que o líder manipule e seja manipulado e, muitas vezes, gerando no grupo um
sentimento de exagero e hipocrisia (pois às vezes a afetuosidade não
corresponde às ações práticas e decisões tomadas pelo líder).
·
Substituir
liderança por treinamento: o líder acredita que se as pessoas forem
treinadas nas áreas em que ele percebe que elas precisam melhorar, ele
conseguirá liderar melhor, e gera às vezes uma rotina pesada de conteúdos e
treinamentos que nem sempre atendem às necessidades reais do grupo, e sem que o
próprio líder esteja às vezes preparado para ser exemplo e para sustentar o que
está se buscando com os treinamentos, gerando irritação e resistência nas
pessoas, tanto ao líder quanto aos treinamentos propostos. O líder, por sua
vez, não vendo o resultado esperado, por vezes opta por cortar os treinamentos,
responsabilizando-os pelo não alcance do objetivo esperado, em vez de
questionar a sua própria capacidade de liderança.
·
Desistir
de liderar: o líder se desespera e entende que liderar não é possível ou
não é para ele, e sai da posição, gerando um espaço de descrédito no trabalho
do líder e do grupo liderado.
Por
trás dessas estratégias, pouco sustentáveis, e das crenças limitantes que as
embasam, existe a falta de um ingrediente básico, que é a base do nosso
compromisso com qualquer situação em nossa vida e, portanto, da nossa
capacidade de liderar: o propósito.
O
que é propósito?
Existe
uma confusão muito grande para muitos de nós entre o que é objetivo e o que é
propósito. Por exemplo: pode ser que eu acorde todos os dias de manhã
disponível para trabalhar porque eu tenho o objetivo de crescer na carreira, de
ganhar dinheiro para pagar as contas e até de fazer um trabalho relevante, que
contribua socialmente. Mas se eu não tivesse que trabalhar, ganhar dinheiro,
ser reconhecido ou mesmo contribuir socialmente, e pudesse simplesmente fazer o
que eu quisesse, aquilo que me faz feliz, será que eu estaria fazendo o que
estou fazendo agora?
Se a
resposta for “não”, significa que eu faço tudo isso porque acho que é
importante, e não porque aquilo, naturalmente, me move. A próxima pergunta,
então, seria: por que eu faço tudo isso, então? Aí a gente começaria a entrar
no propósito. Eu levanto todos os dias, no fundo, porque... O trabalho
assalariado é o que me deixa seguro? Me sentir seguro é meu propósito. Eu
acredito que eu preciso subir na carreira para me sentir valorizado e
reconhecido? Conseguir valorização e reconhecimento é meu propósito. Ao fazer
algo útil para a sociedade eu me sinto uma pessoa boa? Sentir-me alguém bom é
meu propósito.
O
propósito não é o que quero alcançar (este é meu objetivo), mas é aquilo que me
move a fazer algo. Não é a estratégia que desenvolvo para atender minhas
necessidades (por exemplo, a estratégia do trabalho assalariado para atender a
demanda de segurança), mas é a necessidade em si. E quanto mais profundo e
significativo o propósito que nos move, quanto mais essencial a necessidade, maior
será o nível de motivação, pro-atividade e resiliência para enfrentar os
desafios.
Imagine
que uma casa começa a pegar fogo. Num primeiro momento, você sabe que ali tem
toda a mobília do escritório de uma empresa. Você se sentiria movido a entrar
no meio do fogo para salvar a mobília, arriscando sua vida, ou apenas pensaria
que é uma pena e sentiria compaixão de quem está tendo aquela perda? Em
seguida, você descobre que lá está preso o bichinho de estimação de uma
criança, e que o animal está prestes a morrer no fogo. Será que algo dentro de
você não começaria a se mexer e pensar que, se você soubesse como ou se tivesse
um pouco mais de coragem, talvez entrasse lá para ajudar, ainda que, dada as condições,
não tenha como fazer isso? E então você descobre que um ente muito querido – um
de seus filhos, um de seus pais ou seu companheiro(a) – está preso no fogo.
Será que você não se mobilizaria imediatamente para entrar ou garantir que
alguém mais capacitado entrasse lá para salvá-lo?
Quanto
mais profundo o que nos move, maior nossa motivação para empreender, superar
desafios e tornar o impossível possível. Maior nosso nível de comprometimento e
pro-atividade. E aí entra a questão da liderança: em geral, ou não temos
clareza do que nos move e do que move as pessoas que lideramos, ou as coisas
que achamos que movem a nós e às outras são, na verdade, motivações ilusórias e
pouco mobilizadoras.
Muitos
líderes e organizações acreditam que dinheiro e status são motivadores
importantes. Acreditamos que se ganharmos mais dinheiro e subirmos de cargo –
ou se abrirmos essas oportunidades para pessoas de nossa equipe – as pessoas
serão comprometidas e proativas. Mas talvez o fato de que mesmo pessoas em bons
cargos e ótimos salários às vezes são profissionais agressivos e mal-humorados,
ou passivos e pouco proativos, sejam um indicador de que esses não são
motivadores sustentáveis. Se dinheiro e poder fossem tão mobilizadores, a
promessa de tê-los nos empolgaria a ponto de verdadeiramente empreendermos a
vida e o planeta que queremos, inclusive enfrentando com determinação os
desafios que isso implica, em vez de nos motivar a fazer apenas o mínimo
necessário para nossa sobrevivência e dos nossos entes queridos. E,
principalmente, nós estaríamos sentindo altos níveis de felicidade e de
significado, e não uma infelicidade generalizada, experimentada por diferentes
pessoas com diferentes graus de intensidade. Nós apenas acreditamos esses são
fatores mobilizadores, sem que eles de fato realmente sejam.
Além
disso, frequentemente acreditamos que as pessoas se mobilizam por
responsabilidade e compromisso. Se contratamos alguém para uma certa função, e
a função está clara para ela, em teoria ele deveria se comprometer a cumpri-la.
Nós inclusive julgamos as pessoas que não cumprem sua função de irresponsáveis
ou antiéticas, acreditando que qualquer pessoa que assumiu um cargo deveria ser
responsável o suficiente para cumpri-lo. Só que, mais uma vez, as pessoas só se
comprometem e se responsabilizam profundamente pelo que as apaixona, pelo que é
sagrado para elas. E às vezes elas nem sabem o que as apaixona, e por isso
fazem as coisas do jeito que fazem e fingem – muitas vezes para si mesmas – que
estão dispostas a se comprometer. Só que como a falta de paixão não sustenta o
compromisso, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, uma escorregada maior no
cumprimento da função indicará o que ela de fato sente (mesmo que não saiba
disso). E quando cobramos as pessoas por não estarem cumprindo com sua função,
na verdade tudo que fazemos é fazer a pessoa esconder ainda mais o quanto ela
não é apaixonada por aquilo que faz – nós fingimos para não ser repreendidos ou
não perder o emprego. E assim, perdemos uma oportunidade riquíssima de usar o
não cumprimento da função para investigar qual é o propósito que a move e que
poderia leva-la a assumir naturalmente compromisso e responsabilidade nesta ou
em outra função – ou mesmo em outro emprego.
E aí
reside a arte de usar o propósito como força propulsora da liderança: quando
investigamos quais são nossos propósitos mais profundos (por exemplo, qual o
nosso propósito de vida), nós ganhamos clareza do que queremos empreender e dos
desafios que naturalmente topamos enfrentar; com isso, acabamos nos colocando
em lugares e relações que são significativos para nós; nutridos por isso,
queremos também abrir essa oportunidade para outros, e criamos espaços para que
as pessoas que lideramos investiguem e clareiem quais são seus propósitos mais
profundos; e uma vez que os propósitos vão ficando mais claros, questões como
dinheiro, status e responsabilidade serão definidas de uma forma que permitam
cada pessoa dar vazão para seu propósito, de forma que beneficie tanto a pessoa
quanto ao grupo, projeto ou organização em questão.
Num
ambiente cheio de propósito, e com contornos (salário, função, compromissos)
que permitam as pessoas viverem seus propósitos, o nível de comprometimento,
engajamento e pro-atividade será naturalmente alto e sustentável, pois quanto
mais eu faço o que amo, mais me comprometo. Num cenário como este, será bem
mais raro achar pessoas que confirmem os pressupostos listados no começo desse
texto. Percebemos que:
·
Trabalhar em grupo não é difícil, mas criar
espaço para que cada pessoa e o grupo como todo se alinhe em torno de seus
propósitos exige uma musculatura que somos nós, líderes, que precisamos
desenvolver
·
Lidar com “o ser humano” não é difícil, mas as
pessoas possuem diferentes níveis de clareza e de conexão com seus propósitos,
e somos nós, na posição de liderança, que precisamos desenvolver nossa
musculatura para lidar com pessoas que, por diferentes razões, têm menos
clareza e conexão com seus propósitos
·
A maior parte das pessoas têm um grande
potencial para serem comprometidas e proativas, e apenas algumas pessoas não
terão esse potencial, não porque ele não exista dentro delas, mas ou porque
estão num nível mais profundo de conexão com seu propósito do que conseguimos
dar conta como liderança, ou porque aquele emprego, função ou organização não
tem, de fato, conexão com seu propósito, e nada que façamos poderá, portanto,
despertar sua motivação profunda
·
As pessoas só vão fazer o mínimo se não virem
sentido no que fazem e, quando elas vêm, nós podemos justamente relaxar totalmente,
com a confiança de que o trabalho será produtivo
·
As pessoas que podem fazer naturalmente tudo que
precisamos, com competência e motivação, são aquelas cujos propósitos pessoais
coincidem com o propósito do trabalho ou função que estamos oferecendo
·
As pessoas se esforçam para superar as
dificuldades e os conflitos quando aquilo que está em jogo por trás dessas
dificuldades e conflitos é algo mais apaixonante que esses desafios, algo que
está conectado com seus propósitos mais profundos
·
As pessoas que assumem poder ou liderança só
deixam isso “subir à cabeça” e se tornam arrogantes, manipuladoras ou
autocentradas quando este poder ou liderança são apenas objetivos a serem
alcançados, e não ferramentas para expressar aquilo que elas consideram mais
sagrado, pois quando estamos em contato com o que é sagrado, sentimos o desejo
de servir, motivado pela gratidão, e não de ser servidos, motivado pela
carência
·
As pessoas se comprometem quando recebem
motivações profundas, como a oportunidade de realizarem seu propósito - maiores
salários e melhores cargos são úteis quando potencializam a expressão desse
propósito
·
As pessoas gostam de receber treinamentos que as
ajudam a lapidar e terem mais recursos para fazer aquilo que as apaixona, e não
que apenas as façam produzir mais
·
Mesmo com salário e cargo bons e ótimos
treinamentos, as pessoas só se comprometem se estão conectadas com seus
propósitos mais profundos
Como
usar o propósito como força propulsora da liderança?
O
processo de busca de propósito - seja o de nossa vida, de um projeto, de uma
organização, de um coletivo – pode ser complexo e longo, pois exige que
entremos em camadas mais profundas de nosso senso de identidade, de nossos
sonhos e, às vezes, de nossas sombras, pois olhar para o que nos apaixona pode
nos levar a entrar em contato com o que nos fez desconectar disso (nossos
traumas e bloqueios). Facilitar que outras pessoas trilhem esse caminho é ainda
mais sofisticado, pois implica, ao mesmo tempo, sermos exemplo de alguém que
está sinceramente nessa busca e desenvolver uma empatia profunda por quem é o
outro e o que o apaixona.
Portanto,
em vez de oferecer fórmulas prontas, que poderiam levar à frustração de não ver
resultados imediatos e gerar descrença no propósito como força propulsora da
liderança, podemos exercitar um primeiro e importante passo: começar a fazer
boas perguntas para nós e para as pessoas que lideramos. Perguntas abertas,
geradoras de reflexões, que nos levem a questionar num nível mais profundo o
que nos apaixona e o que nos move em certas áreas da vida ou na vida como um
todo. Essas perguntas podem ser feitas numa conversa informal ou em momentos
oficiais de reunião, planejamento estratégico ou treinamento.
Boas
perguntas abrem para muitas respostas, então as perguntas que irão nos ajudar
na investigação do propósito não são aquelas cujas únicas respostas são “sim”
ou “não”. Além disso, não vão implicar julgamentos, opiniões ou conselhos, como
quando começamos perguntando “mas você não acha que...” e terminamos com uma
opinião como “é melhor? é o certo? é o que você devia fazer?”, e por aí vai. Em
termos de propósito, alguns bons exemplos de perguntas são:
1.
Qual o meu / seu propósito de vida?
2.
O que me move / move você a estar aqui /
participar deste projeto / trabalhar com isso?
3.
O que mais me apaixona / apaixona você na vida /
nesta área da vida / neste projeto?
4.
O que me motiva / motiva você nisso que estou /
está fazendo? E o que desmotiva?
5.
Se eu / você tivesse carta branca para fazer o
que quisesse na vida / neste trabalho / neste projeto, o que eu / você faria?
6.
Em que momentos eu me sinto / você se sente mais
plena (o) e feliz na vida / neste trabalho / neste projeto?
7.
Que ações / funções / combinados poderiam ajudar
para que eu pudesse / você pudesse fazer mais aquilo que me apaixona / te
apaixona?
8.
Como este ambiente de trabalho tem me ajudado /
te ajudado a fazer aquilo que é realmente importante para mim / você? E como
poderia ajudar mais?
9.
Como posso / podemos dar conta, ao mesmo tempo,
daquilo que nos apaixona e de nossas responsabilidades?
Essas
são apenas algumas ideias, e é importante que cada pessoa explore as suas
próprias perguntas. Além disso, essas perguntas não são suficientes para
resolver todas as nossas questões como líder e em nossa equipe. São apenas
pontos de partida para boas conversas, que podem ajudar a clarear propósitos
pessoais e coletivos. E, tão importante quanto a qualidade das perguntas, é a
qualidade da escuta - ao ouvirmos as respostas, seja de nós mesmos ou de nossa
equipe, é importante manter uma postura aberta, sem julgamento, de verdadeiro
interesse em conhecer a si ou ao outro, e não de querer usar essa investigação
para rapidamente chegar numa solução para fazer nós ou os outros produzirem
mais.
Mesmo
porque às vezes nós ou o outro chegamos numa resposta que parece verdadeira e,
logo depois, a repetição do padrão de desmotivação revela que aquele foi apenas
o primeiro passo, e que precisamos voltar atrás e investigar um pouco mais. Se
entrarmos na investigação com a pressão de chegar num resultado rápido,
podemos, tão rapidamente quanto, desacreditar dessa investigação, por sentir
que mesmo depois da primeira, segunda ou terceira conversa, nós ou os outros
continuamos desmotivados ou descomprometidos. Um processo como esse exige
comprometimento com a pessoa, e não como o resultado que queremos para ela.
Além
disso, uma vez dado o ponto de largada, talvez haja muitos outros fatores e
questões que se abram e que precisem de cuidado, para que nós e os outros possamos
trabalhar a partir de nosso propósito. Também é importante levar em
consideração o contexto de cada organização, projeto, equipe e líder, para
saber como esse ponto de partida pode ser dado e quando – nem sempre podemos,
simplesmente, perguntar para uma pessoa qual é seu propósito de vida ou o que a
apaixona. Precisamos sentir qual é o nível de abertura da pessoa, como está
nosso vínculo com ela, quando e como é a melhor forma de perguntar, o que
queremos de fato com essa investigação, entre outros fatores.
Portanto,
caso haja necessidade de um olhar mais contextualizado e profundo sobre como
usar o propósito como força propulsora da liderança, é importante mergulhar
mais profundamente no estudo de como fazer isso, seja buscando conhecer e
praticar mais a Liderança do Coração ou qualquer outro contexto de liderança
que faça sentido para nós, ou seja pedindo ajuda para outros líderes que nos
inspirem ou de profissionais que possam dar assistência nesse processo. De todo
modo, sugerimos correr o risco de experimentar esse jeito de liderar que, quem
sabe, pode trazer resultados surpreendentes e mudar nosso olhar para a nossa
capacidade de criar equipes, grupos e relações motivadoras e motivadas.
Por
que não?
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