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sábado, 9 de maio de 2015

Ser um homem que monumenta a vida!

 

 
Após a participação num dos encontros do Círculo de Homens que sustento com alguns amigos, escrevi o texto “Velar o Fogo do Masculino Sagrado”, que expressa as reflexões que surgiram desse encontro, sobre como me tornar digno do Masculino Sagrado. Essa reflexão, depois desdobrou-se no que significa para mim Ser Digno.

Algum tempo depois, li este poema de Manoel de Barros, que começou a me dar algumas pistas sobre esse novo tema, e abriu um campo profundo de reflexão e percepção:

 “Venho de nobres que empobreceram

Restou por fortuna a soberbia.

Com esta doença de grandezas:

Hei de monumentar os insetos!

(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os

pés de seus discípulos.

São Francisco monumentou as aves.

Vieira, os peixes.

Shakespeare, o Amor, a Dúvida, os tolos.

Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)

Com esta mania de grandeza:

Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas

de orvalho.”

Fui arrebatado pela dignidade dessa postura – a de “monumentar” o pequeno, o insignificante, o marginal, o esquecido, o simples, o sutil – que é oposta à da cultura que valoriza que todos sejam O Maior e O Melhor. E esta é, certamente, uma maldição que nós, homens, conhecemos há muitos séculos, e que alimentamos diligentemente, em nossas famílias, na escola, no trabalho e na cultura de massa. Dignidade, em nossa cultura, significa, muitas vezes, mostrar para a sociedade que somos cada vez maiores e melhores.

Em nosso caso, homens, crescemos achando que temos de ter o melhor e o maior carro; ter o maior “pau” e ser o melhor de cama; ser o que ganha mais em nossa profissão e que é o mais reconhecido em sua área; que tem dinheiro suficiente para comprar a maior e a melhor casa – em outras palavras, ser um grande provedor; precisamos ser o que “comeu” mais mulheres, e o mais forte, gostoso e atraente; precisamos ser o melhor no futebol ou em qualquer outro esporte. E por aí vai.

Nem precisa dizer que, quando entramos nessa narrativa de dignidade, em vez de monumentar, desprezamos as coisas pequenas e simples como insignificantes – e ainda mais as que fogem do padrão desse mito do maior e melhor. E é aí que assumimos a sombra de um masculino violento, autocentrado, engolidor e atropelador das delicadezas e das fragilidades – essas mesmas delicadezas e fragilidades que, muitas vezes, são tão caras ao feminino. Pois assumi-las como nossas seria correr o risco de perder a nossa “dignidade”.

E se, em épocas anteriores a esta, todo esse discurso do “bonito, rico e viril” já era pesado, imagine agora, que temos de também ser bons moços, gentis com as mulheres, engajados em causas sociais, espiritualizados, e mais um bocado de coisa que nos qualifica como “atraente e de bom coração”. Para sermos dignos, não podemos ser nada menos que o doce e gentil Clark Kent e o corajoso protetor da humanidade Super Homem.

Mas quando li o poema de Manoel de Barros, entendi um aspecto muito importante do que é dignidade para mim, e para meu masculino: trazer grandeza para todos aspectos humanos – incluindo Ser Homem. Cada homem, com seu propósito, pode dignificar uma parte dessa experiência humana, e torna-la bela, valorizada, monumental. Não podemos, com nosso Masculino Idealizado, esmagar nem a sombra do velho mito – o feio, o pobre e o frágil – nem a do novo – o duro e o materialista. E tudo mais que não se encaixa nisso. Todo o espectro do Ser Homem precisa ser monumentado por alguém, seja porque é algo belo, e que precisa ser visto, seja porque é algo que gera sofrimento, mas que, se existe, existe devido a uma história, que precisa ser monumentada em sua dignidade.

Tenho em meu coração dois exemplos simples que, para mim, retratam essa capacidade de monumentar o que é belo, mas não é visto, e o que gera sofrimento, mas tem uma história. O primeiro é o filme brasileiro “Hoje Quero Voltar Sozinho”, que conta a história de amor entre dois rapazes adolescentes – um deles cego. Sem grandes dramas, e com muita poesia, a história traz grandeza e potência para a cegueira e o homossexualismo – dois aspectos que o mito dominante do masculino não quer monumentar. O outro é o livro “For Your Own Good - Hidden Cruelty in Child-Rearing and the Roots of Violence”, de Alice Miller (Para Seu Próprio Bem – Crueldade Velada na Criação de Crianças e as Raízes da Violência). Nesse fantástico livro, a psicanalista suíça Alice Miller descreve as bases do que chama de “pedagogia venenosa” e analista a infância de 3 controversas personagens da história alemã – uma delas, Hitler.

Ao narrar, a partir de dados históricos, a infância de Hitler, sem tentar nos convencer de que sua infância extremamente violenta “justifica” o que ele fez, mas apenas mostrando a contribuição que ela deu para seu caráter, ela monumenta Hitler, fazendo-o não só humano, mas parte do espectro do que é Ser Homem. Monumentar, aqui, não é vangloriar, concordar, enaltecer, mas apenas dizer: isso também tem importância. Por mais que Hitler tenha sido quem foi, sua infância sofrida – e ele, em si – têm importância.

Quando nós, como homens, monumentamos a vida, nós lhe damos importância, em todos os seus aspectos. Se é algo que é belo, mas estava esquecido, tiramos o pó, tornamos reluzente, trazemos para o palco, e celebramos, como no filme que citei. Se é algo revoltante, e que estava sendo demonizado de forma simplista e maniqueísta, corajosamente adentramos suas entranhas, conhecemos a sua história, choramos a dor que levou o belo a se tornar grotesco, e lhe devolvemos a humanidade, para que aquilo não se repita. E não pela repressão, mas pelo entendimento empático e profundo, e pelo desejo de servir a vida – como no livro mencionado.

Desde muito tempo nossos contos de fada e, mais recentemente, vários filmes e novelas, repetem incessantemente: homem, seja o príncipe, o rei, o líder! Se você nasceu no estábulo, certamente é por engano. No seu nascimento, alguém seguramente trocou os bebês, ou por algum motivo maior você foi mandado para longe, para um dia voltar e reassumir o seu lugar. Mas seu destino é ser rei, pois não é digno do homem ser apenas o rapaz do estábulo. Entretanto, o homem que monumenta a vida diz: sim, é digno ser o rapaz do estábulo. Ele também conta algo de belo sobre o Masculino Sagrado. Se os arquétipos do rei, do príncipe e do amante são tão desejados, não é porque eles sejam necessariamente superiores, mas simplesmente porque são eles que tem sido monumentados, de forma monopolizadora, durante séculos. Esses arquétipos são muito importantes, com certeza (pessoalmente, eu os adoro), mas não podem ser os únicos.

Quem de nós sentirá o chamado natural para monumentar o que o mito masculino que não funciona mais quer desprezar? Quem monumentará o rapaz que cheira a flor na calçada? Os amigos que se abraçam de forma doce e singelo? O que diz “eu te amo” olhando nos olhos do outro? Quem monumentará o mendigo? O gay? O travesti? O nerd? Ou, indo além dessas categorias, as diferentes e originais formas de ser homem? Quem monumentará as rodas de conversa profunda entre homens, que falam de sentimentos e vulnerabilidade? Quem monumentará o pau pequeno? A mulher que é taxada de velha, ou gorda, ou feia, ou deficiente, e que é igualmente uma representante legítima do Feminino Sagrado, tanto quanto as deusas gostosas que adoramos monumentar? Quem monumentará o homem que é amente dessas mulheres? Quem monumentará o carro usado e antigo? A casa simples? O faxineiro? O emprego desglamourizado e honesto? O chão de fábrica? O sonho de viver algo que não pertença a um destino masculino já pré-determinado, de futebol, carro, mulher e cerveja? Quem de nós sentirá o chamado para tornar grande algo pequeno, algo humano, mas que é nosso por direito?

Também vale dizer que o novo mito, do homem doce, emocionado e espiritualizado, também pode ser usado contra a monumentação do espectro completo de Ser Homem. Quando nos juntamos a um grupo espiritual e acreditamos que bons mesmos são os que falam de forma suave, não bebem, andam de branco, são vegetarianos, comem orgânicos, choram e abraçam todo mundo, deixamos de monumentar tudo aquilo que interpretamos como duro, forte, ríspido. Renegamos esses aspectos como antigos, ultrapassados ou ruins, mas eles também fazem parte de Ser Homem. Não à toa, mentores do masculino como Robert Bly, relatam sua preocupação ao ver círculos de homens desvitalizados, que falam de amor, porém mal conseguem segurar uma espada para expressar sua força masculina. Também é necessário monumentar nossa virilidade, mesmo que ela tenha se desviado em comportamentos machistas e agressivos. Não para validar esses desvios, mas para encontrar a história atrás desses comportamentos, onde mora algo digno de ser notado como importante.

Quando um homem Nova Era olha nos olhos de um clássico machão, com toda a sua aparente dureza, insensibilidade e voracidade sexual, entende a sua história e reconhece o que ele está guardando – ainda que mal guardado – e celebra esse seu esforço, uma cura se dá no mundo, e o que era grotesco se torna poesia. E talvez um dia essa cura faça com que essa essência mal guardada seja melhor guardada, na forma de rituais belos e profundos – e não de machismo - assim como hoje as guardiãs do Feminino Sagrado encontram poesia no ciclo menstrual e o guardam com carinho, transmutando o fato de que esse mesmo ciclo antes também era tido como grotesco. O mesmo se dá quando um homem dentro do antigo mito masculino celebra dois homens que se abraçam como amigos, ou que se beijam como amantes, ou que dançam com mulheres numa roda de cura.

Logo, a pergunta é: qual é o nosso papel na monumentação do Masculino Sagrado? Qual é esse pedaço que nos cabe guardar como também importante, tanto quanto todos os outros? Essa é justamente a pergunta que, agora, tem rondado minha jornada de assumir esse Masculino: qual é a minha parte nessa história, e que me dignifica como homem, pois só aquele que consegue enxergar o invisível é que verdadeiramente abriu os olhos?

Acredito que essa resposta só será encontrada no meu propósito de vida – no meu destino. Sendo eu, e vivendo a minha trilha – e não a trilha do sucesso programado – naturalmente o que devo monumentar se revelará. Sei disso porque já experimentei um pouco da água dessa fonte, quando, aos 21 anos, escrevi um livro-reportagem sobre pessoas que nasceram, como eu, com fissura labiopalatal. No encontro com essas pessoas, algumas que lidavam melhor e outras pior que eu com o fato de terem cicatriz no rosto, ou serem fanhos, ou terem o nariz torto, descobrimos muita, muita dignidade. Foi durante esse processo que comecei a namorar minha esposa, com quem já estou há 12 anos, e tive coragem de entrar num coral, para fazer algo que um fanho não-monumentado jamais faria em público: cantar. E, hoje, eu me sinto grato pela honra de poder ter monumentado essa história, e de outras pessoas como eu.

Tenho certeza que no coração de cada homem mora uma “pobre coisa do chão mijada de orvalho”, pedindo para virar poesia.

Qual é a sua?

Deixo, por fim, um poema de Bertrold Bretch, que questiona, de forma muito digna, este mito do Maior e Melhor, e monumenta os esquecidos:

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

 

 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


Um olhar para processos

Serviraser – educação & liderança


 


Estamos muito acostumados a refletir sobre “o que” fazemos. Por exemplo, discutimos muito na educação sobre quais as metodologias que utilizamos e as atividades que realizamos com os educadores, numa parada pedagógica, ou com os educandos, nos diversos espaços de aprendizagem que possuímos. Em contrapartida, não discutimos com a mesma frequência o “como” fazemos o que fazemos, ou seja, qual a nossa maneira de vivenciar e se apropriar dessas metodologias e atividades.

Fazendo uma analogia, podemos considerar que o “o que” é o instrumento (como um violão), a arma (como uma espada) ou o sistema operacional (do computador, por exemplo). Digamos que somos um violonista, um espadachim, ou um profissional de tecnologia da informação. O “como” está em nossa habilidade e maestria para tocar o violão, manejar a espada ou navegar no sistema operacional. O “como” vai depender da experiência acumulada de cada pessoa para usar esses recursos.

É importante entender que o “como” não está relacionado ao quanto a pessoa conhece teoricamente sobre um determinado assunto. A leitura completa de um manual para aprender a tocar violão, usar a espada ou navegar no computador não garante que a pessoa, no momento seguinte, tenha adquirido a maestria nesses contextos. Mesmo que sejamos ótimos autodidatas e consigamos dominar a teoria (o “o que”) em poucas semanas, será necessário, a depender da pessoa, meses e até anos de dedicado esforço para se alcançar algum nível de competência no “como”.

“Arte é tudo aquilo que não se aprende nos manuais”, diz um ditado. A arte é o que separa um excelente tocador de violão (que eventualmente nunca leu nenhuma teoria a respeito) e um tocador mediano (que pode dominar um grande conhecimento teórico a respeito do tema).  Ela é adquirida pelo suor e pelo esforço repetido do dia a dia, em que percebemos, por exemplo, que se mudarmos um pouco a posição da mão, se tocarmos com mais leveza ou se relaxarmos mais os ombros, o som do violão sairá mais fácil e suave. Que se mudarmos nossa intenção interna da raiva para o amor, se respirarmos fundo e ficarmos presente, o giro da espada sairá mais focado e assertivo. Que se fizermos um certo caminho de atalhos no computador, que não o que estava no manual, chegaremos mais rápido no programa que queremos abrir. E por aí vai.

E quando assumimos que o “como” é tão importante quanto o “o que”, começamos a pensar não somente em quais sãos as metodologias mais eficientes para alcançarmos o que queremos, mas também em quais são os processos mais eficientes para incorporarmos e nos desenvolvermos nessas metodologias. Quais os processos que farão com que o violonista cresça como pessoa capaz de tocar o violão, que o espadachim cresça como pessoa capaz de operar a espada etc? A isto chamamos “olhar de processo”, algo que tem crescido tanto entre pessoas e grupos que pensam inovações no campo do desenvolvimento humano, organizacional e social, que fez com que surgisse a máxima de que “o processo é o resultado”.

O que isto quer dizer?

Vamos imaginar um cenário, em que dois educadores têm uma meta: diminuir o número de conflitos na escola. Para isso, eles foram treinados numa metodologia: por exemplo, a Comunicação Não Violenta, de cujo passo a passo eles se apropriaram. Mas, no caso do primeiro educador, ao realizar o trabalho, mesmo seguindo todos os passos previstos pela metodologia, ele sente que os conflitos não diminuíram, ou que ele não está conseguindo resolver tantos conflitos quanto gostaria, ou ainda que o clima na escola não está melhorando, mesmo com a sua atuação. Ao mesmo tempo, numa outra escola, o outro educador, com o mesmo objetivo e a mesma metodologia nas mãos, está alcançando resultados excelentes.

Digamos que, certo dia, os dois sentam para conversar e trocar sobre sua prática. O primeiro se queixa dos resultados insatisfatórios que está alcançando, os quais não consegue compreender, uma vez que está seguindo à risca o que aprendeu. O segundo lhe pede que conte um pouco de como está utilizando a metodologia, solicitando que conte a história de um momento em que tentou fazer uma mediação de conflito.

Ouvindo a história, vai se revelando que, embora os passos da CNV estivessem sendo seguidos à risca, o educador os estava aplicando com dureza, sem que as palavras de apreciação e a expressão de sentimentos viessem de um lugar de verdadeiro contato com os próprios sentimentos, mas a partir de uma conexão meramente racional e superficial com seu próprio corpo e suas necessidades; que ele estava enrijecido no passo a passo, inclusive dando “bronca” nas pessoas que não seguiam os passos corretamente, fazendo-as sentirem que a CNV era uma obrigação e algo chato; que a metodologia estava sendo imposta às pessoas, em vez de haver um trabalho gradativo de convidar as pessoas a perceber, no seu próprio ritmo, a importância deste tipo de comunicação; que ele reclamava quando as pessoas não respondiam positivamente ao passo a passo, transferindo o resultado negativo do processo para as pessoas, fazendo-as se sentirem mal por não estarem conseguindo se comunicar de maneira não-violenta.

Em resumo, o educador estava usando um “o que” não violento (a metodologia da CNV) com um “como” violento, que não tem a ver com a metodologia em si, mas com a habilidade da pessoa em operá-la. Este “como” é o processo. Como eu faço o que eu faço? Como eu opero uma metodologia como a CNV? Se meu processo é duro, rígido, superficial, e pouco auto-responsável, meus resultados serão incipientes, não importa quão eficiente for a minha metodologia, e quão nobres forem os resultados que eu estou tentando alcançar.

Digamos que este educador, agora, pede ao seu colega, que está alcançando resultados extraordinários, que lhe conte o que tem feito. Este lhe relata histórias em que ele mesmo buscou praticar a CNV consigo, aprofundando em suas feridas e seus sentimentos; em que exercitou a empatia para saber quando era o momento certo de usar a ferramenta, para que as pessoas não se sentissem obrigadas a seguir o passo a passo; em que ultrapassou preconceitos internos e suas questões com tocar e ser tocado fisicamente, buscando expressar e verdadeiramente sentir amor pelo outro, ao sorrir e abraçar; relata que intensificou processos pessoais de autoconhecimento, seja pela terapia, pela meditação ou qualquer outro recurso, para perceber mais quando ele está usando o CNV de forma positiva e quando está usando de forma violenta; explica como está buscando olhar para suas próprias falhas quando o outro não responde como esperado. E por aí vai.

O educador, neste caso, está usando um “o que” não violento com um “como” igualmente não violento. Neste caso, a efetividade será máxima. O processo é tão importante que poderíamos até dizer que mesmo que este educador não tivesse qualquer conhecimento de CNV, se ele estivesse fazendo o que estivesse fazendo de uma maneira (com um “como”) amoroso, flexível, receptivo, conectado, profundo etc, que ainda assim ele obteria ótimos resultados.

Embora, certamente, “o que” e “como” tenham ambos a sua importância. Um péssimo espadachim com uma ótima espada pode fazer estragos. Um ótimo espadachim com uma péssima espada pode fazer milagres e tirar leite de pedra. Mas um ótimo espadachim com uma ótima espada pode atingir resultados extremamente poderosos – para si e para os outros.

Portanto, o olhar de processos implica questionar-se sobre a maneira como fazemos as coisas – qualquer coisa. Por exemplo, como damos limites a nossos filhos e educandos. Praticamente qualquer educador concorda que dar limites é importante. Dentro disto, há os que consideram que uma certa metodologia é mais efetiva que outra para alcançar este resultado. E, uma vez escolhida a metodologia, a maneira como cada um a opera é o que, de fato, vai gerar o resultado esperado – ou não.

Cultivar o olhar de processos não é simples, contudo, por diversas razões:

1)      Ele considera a subjetividade como importante: quem eu sou, minha história, meus padrões emocionais e minha experiência são inevitavelmente questionados como parte essencial dos resultados que atinjo. Isso, obviamente, mexe com o medo que todos temos de olhar para nossas falhas, de receber feedbacks e de eventualmente perceber que não podemos nos esconder atrás de nossos certificados ou de nosso nível de conhecimento sobre um assunto. Quando questionamos o processo, muitas vezes nos damos conta de que não precisamos aprender novos conhecimentos: necessitamos praticar o que já sabemos ou, o que pode ser ainda mais desafiador, temos de fazer mudanças (às vezes grandes) em nosso senso de identidade, transformando a maneira como pensamos, sentimos, nos relacionamos e até mesmo mexendo em histórias pessoais (que, aparentemente, não têm nada a ver com nosso trabalho) e que determinam nossas crenças sobre as pessoas, o mundo e a vida, bem como a maneira como fazemos o que fazemos.

 

2)      Ele nos leva para observar e perceber o sutil e o intangível, o que é cada vez mais desafiador numa sociedade que privilegia o concreto e o tangível. A tangibilidade tem a ver com o “gabarito” ou com a “formação” (que vem da palavra “forma”). Ou seja, tudo que precisamos fazer é ver se o que fizemos corresponde a um resultado já esperado (o gabarito) ou a algo que já foi pensado e que já é conhecido (a forma). O tangível é válido e importante como um “norteador”, assim como um mapa, para termos alguma ideia de para onde estamos navegando. Entretanto, como o mapa jamais corresponde 100% ao território real, quando os dados reais não correspondem ao gabarito ou à forma, ou nos sentimos inseguros e sem saber o que fazer, ou violentamos o processo para que ele se transforme artificialmente no resultado esperado – por exemplo, obrigamos a criança a pedir desculpas para o colega, independente dela estar verdadeiramente vendo sentido naquilo. Sentimos um breve alívio por ver o resultado visível e tangível do que esperávamos, mas a repetição da mesma situação (o menino que volta a brigar, às vezes com ainda mais violência, ou que passa a esconder mais o que faz) comprova que o processo utilizado não trouxe, de fato, o resultado esperado – ao menos não em longo prazo, de forma sustentável. Como o intangível não é padronizado e repetitivo, pois cada pessoa tem uma história, uma identidade, e terá um jeito único de fazer as coisas, sentimos que não temos tempo ou paciência de observar os detalhes e as sutilezas de cada pessoa e sua maneira de fazer o que faz. Por isso, “chapamos” nosso olhar para poupar energia – basta esperar que todos ajam de acordo com o gabarito. Observar e dar nome para o intangível, ou seja, diferenciar, de forma racional, qual é o jeito da pessoa “A” para operar a CNV, em relação à pessoa “B”, implica muita escuta, receptividade, capacidade de pensamento abstrato, de pensar o que não foi ainda pensado, entre outros, e atualmente não só temos pouco costume de fazer isso mas, principalmente, não temos muitos espaços onde essa habilidade pode ser cultivada.

 

3)      Ele coloca o corpo e o aqui e agora como o centro do processo que nos levará a atingir os resultados que queremos. Mesmo que eu, como professor de violão experiente, já tenha várias dicas de processo para dar para meu aluno (como, por exemplo, um detalhe de posicionamento de mão que pode ajuda-lo a avançar mais rápido), o aluno terá de criar suas próprias conexões neurais, exercitando em seu corpo as dicas que dou como professor, experimentando outras que sejam suas, e avançando um pouco mais a cada momento. O processo acontece no corpo, e este não pode ser acelerado, tal qual uma planta não pode crescer de um dia para o outro. E mesmo que tentemos acelerar artificialmente esse processo (tal qual uma planta cresce mais rápido a base de fertilizantes e agrotóxicos), o resultado final será um aluno pouco apropriado do processo, pouco empoderado e pouco seguro para fazer o que faz. A perspectiva do corpo como centro do processo traz, novamente, o desafio da subjetividade, numa sociedade que busca ignorar o corpo e privilegiar os processos puramente mentais. Mexer no corpo, como já dito, é mexer nas emoções, nas histórias do passado, e isto é algo que não desejamos fazer conosco muitas vezes – no máximo, queremos fazer com o outro. E focar no aqui e agora é admitir que o “o processo é o resultado”, ou seja, que em vez de apostar todas as nossas fichas no resultado que vimos ali na frente (por exemplo, o aluno tocando belamente uma música), estamos apostando todas as fichas nos avanços que podem ser alcançados neste exato momento – e, portanto, mesmo que aos olhos do resultado (do “o que”) avancemos pouco, acreditamos na importância de garantir que aquele exato momento seja o mais inesquecível possível, cuidando do processo (o “como”). Só que isto, mexe com a nossa ansiedade, que pode ser enraizada em expectativas unicamente nossas ou alimentada pelas expectativas do nosso trabalho, da sociedade etc, que exigem que mostremos resultados tangíveis para que sejamos reconhecidos pelo que fazemos.

Com todos esses desafios à nossa frente, fica evidente que aprender a cultivar um olhar de processos só fará sentido se realmente nos apropriarmos, em nosso corpo, dos benefícios profundos que esse olhar traz. Quando temos algumas experiências de viver um processo poderoso e sustentável e, em longo prazo, percebermos o resultado em nós, começamos a perder o medo de “soltar” os velhos padrões e nos habituar a estar sempre nos renovando e refinando nossos processos. Pois, diferente do “o que”, que pode ser o mesmo para sempre (eu posso tocar violão a vida inteira), o “como” evolui a cada instante (eu posso aprofundar minha maestria no instrumento e aprender novas formas de usá-lo até meu último suspiro).

Também é importante entender que o olhar de processo, justamente por não se basear em gabaritos e formas, não é um olhar julgador. Em teoria, ninguém deveria ser “condenado” por conduzir um “mau” processo. Não existem maus processos. Existe o melhor processo que conseguimos sustentar, considerando nossa história e o que vivemos até agora. Nós sempre estamos utilizando a melhor estratégia que temos, dentro das melhores crenças que conseguimos cultivar até o momento, para atender as necessidades que possuímos.

Por isso, se observamos em nós pontos a serem melhorados (ou até totalmente modificados) em nossa maneira de fazer o que fazemos, em vez de nos fechar, pelo medo das mudanças que teremos de fazer, podemos olhar para isso com compaixão. Inclusive porque mesmo o ato de mudar é um “o que”, que pode ser vivido por meio de diversos “comos”. Podemos incorporar e nos mover para o olhar de processos nos criticando e nos julgando, exigindo de nós mesmo que desenvolvamos esta habilidade muito rápido, ou nos acolhendo com empatia e nos dando o tempo parar errar, aprender com o erro, observar quais são nossos velhos processos e construir, com calma e carinho, os novos processos que queremos sustentar. Só isto, por si só, já trará  mudanças poderosas em nossas vidas.

E, se sentirmos que já sustentamos os processos que gostaríamos, que já fazemos o que fazemos como acreditamos, que possamos então nos unir, cada vez mais, em redes de troca onde possamos aprender um com o outro, para que alcancemos níveis de maestria cada vez maiores na habilidade de conduzir processos poderosos que geram resultados sustentáveis. E quem sabe, assim, consigamos construir uma educação que reconhece e enxergue quem as pessoas são agora, e não o que elas deveriam ser, e que se sente empoderada para implementar, de fato, as metodologias nas quais acreditamos.

 

 

A pedagogia do círculo na educação

Serviraser – educação & liderança

Conversar em círculo pode ser uma poderosa ferramenta pedagógica, tanto nos processos educativos que sustentamos com nossos educandos quanto no trabalho de desenvolvimento de nossa equipe educativa. O círculo é uma forma eficiente de cultivar os diversos dons da Liderança do Coração, e aqui destacaremos a Cocriação, a Empatia, a Integridade e o Empreendedorismo.

Essa metodologia de conversa é uma das mais antigas de nossa história humana – muito provavelmente os primeiros agrupamentos humanos sentavam em círculo, ao redor da fogueira, por exemplo, para conversar sobre temas que lhe fossem importantes. Atualmente, redes que investigam formas mais eficientes de conversar têm jogado luz sobre quais são as características e benefícios do círculo e a que demandas ele atende, e o têm recuperado como uma prática que serve a diversos públicos e contextos.

Quais as características do círculo?

·         Num bom círculo, todos conseguem se olhar nos olhos

·         Todos estão equidistantes do centro – portanto, todos têm igual importância na hierarquia

·         Todos têm a oportunidade de falar, portanto a liderança é rotativa e circular

Que demandas o círculo atende?

·         Como todos estão no mesmo nível hierárquico, permite que todos tenham a oportunidade de contribuir para investigar algum tema ou questão importante, portanto abre espaço para a Cocriação

·         Como todos se olham nos olhos, falando e ouvindo o compartilhar uns dos outros, o círculo permite que cada pessoa se reconheça um pouco na outra, aprofundando a Empatia

·         Como, no círculo, cada um fala mais profundamente de sua própria perspectiva sobre um tema ou questão, ele estimula que cada pessoa entre em contato com seus pensamentos, emoções e sensações, e que o grupo também identifique o que está vivo para o coletivo como um todo, desenvolvendo a Integridade

·         Como o círculo é um espaço para conversar sobre temas importantes para um grupo, naturalmente ele faz com que todos tenham mais clareza de seus propósitos individuais e do propósito do grupo, que é uma parte essencial para o desabrochar do Empreendedorismo

Quais os princípios básicos do círculo?

·         Falar com intenção: significa falar a partir do “eu” (eu sinto, eu acho, na minha vida...) e não projetando a fala em outras pessoas (as pessoas hoje... porque você sabe... a gente precisa...) e buscando falar daquilo que é importante para si, conectado com os próprios sentimentos.

 

·         Escutar com atenção: significa estar plenamente presente na hora da escuta, sem dispersar, fazer outras coisas ou se perder nos próprios pensamentos.

 

·         Diminuir o julgamento e aumentar a curiosidade: significa não interpretar o que o outro está falando, não emitir opinião (mesmo que sejam conselhos bem intencionados), não achar que “entendeu” ou “sacou” quem é o outro e porque ele está falando o que está falando, e sim ouvir com neutralidade ou se fazendo perguntas que lhe ajudem a querer conhecer mais o outro e sua realidade, buscando investigar o porquê dele estar falando o que está falando e dele ser quem é.

 

·         O silêncio também faz parte da conversa: significa permitir que haja momentos de silêncio durante a conversa, seja no espaço entre a fala de duas pessoas ou durante a fala de uma pessoa, sem interpretá-lo como “desconfortável”, pois é no silêncio que, muitas vezes, podemos nos conectar com níveis mais profundos do que estamos sentindo e do que queremos falar.

 

·         Existem outros princípios e compromissos, que podem ser estudados com mais profundidade em cursos como A Arte da Liderança Colaborativa ou A Arte de Anfitriar Conversas Significativas (Art of Hosting) ou em livros como XXXXX.

 

Quando e como usar o círculo no trabalho com a equipe?

·         Sempre que for iniciar qualquer reunião. Neste caso, sugerimos fazer um círculo com as perguntas: “Como chegamos nesta reunião? Sobre o que queremos conversar hoje?”. Essas perguntas ajudarão o grupo a se desconectar das outras demandas e ficar mais presente na reunião, conectar com o que é importante para cada um e deixar mais claro quais são as pautas prioritárias para aquele dia.

 

·         Sempre que for terminar qualquer reunião. A pergunta “Como saio desta reunião hoje?” ajuda a gerar clareza sobre o que de fato assentou em cada um do que foi conversado, ajudando a firmar os compromissos de cada um e ajudando a pessoa a fechar o ciclo energético daquela conversa para que ela possa ir tranquila para suas próximas atividades. Além disso, esse círculo ajuda a perceber se ficou algum ruído não expresso durante a reunião, que, se não trabalhado, poderá gerar as já conhecidas “conversas de bastidores”. Quando não for possível fazer um círculo mais longo de finalização (pois às vezes a reunião está atrasada), pode-se fazer um círculo em que cada pessoa fala apenas uma frase ou uma palavra sobre como está saindo. Outras perguntas que podem ser feitas num círculo de encerramento podem ser: “Com que compromissos saio desta conversa?”, “O que mais me tocou nessa conversa?”, “Quais são os próximos passos?”, entre outras.

 

·         Sempre que houver necessidade de aprofundar vínculos. Quando a liderança sentir que existem muitos conflitos numa equipe, ou que há vontade de celebrar os vínculos, ou checar como cada um está naquele momento em sua vida ou em relação à organização, ou ainda apenas para nutrir regularmente as relações, é muito saudável conduzir círculos mais longos, em que cada um pode falar mais profundamente sobre como está e como está se sentindo em relação ao grupo, à organização onde trabalha ou ao trabalho em si. Nestes casos, é importante ritualizar o círculo, para criar um campo sagrado que valorize a conversa que vai acontecer – por exemplo: arrumar a sala de um jeito especial, com cores e cheiros, arrumando o centro do círculo com flores, vela e objetivos significativos, escrevendo de forma bonita e colocando no centro a pergunta que será feita para o círculo, etc. Perguntas que podem ser úteis para esse tipo de círculo são: “Qual a coisa mais importante que está acontecendo em minha vida hoje?”, “Como estou me sentindo em relação a este grupo?”, “Como estou me sentindo em relação a trabalhar aqui?”, “Como está minha vida hoje?”, entre outras.

 

·         Em momentos de planejamento estratégico. Sempre que houver a necessidade de iniciar um planejamento – seja o planejamento anual, de um novo projeto, de uma festa para a comunidade – o círculo pode ser muito útil para o grupo se conectar com os sonhos de cada pessoa para aquela nova ação, num nível mais profundo. Aqui, novamente, pode ser útil ritualizar o círculo, a depender do grau de importância do planejamento. É bastante produtivo colher as informações que forem saindo num papel ou computador, para depois partir para outros momentos de conversa que ajudem a detalhar mais o planejamento. A conversa do círculo tende a ser menos prática, então, em casos de planejamento é importante que ele aconteça como a primeira conversa, para conectar as pessoas entre si e com o propósito do que vai ser planejado num nível mais profundo, gerando ideias mais criativas e motivação para seguir para as próximas etapas, em que o planejamento poderá ser detalhado num nível mais prático, usando outras técnicas de conversa. Perguntas que contribuem para este tipo de círculo são: “Qual o nosso sonho para (o que vai ser planejado)?”, “Qual, na minha opinião, é o propósito de (o que vai ser planejado)?”, “ O que / Por que queremos fazer (o que vai ser planejado)?”, “O que me inspira a querer (o que vai ser planejado)?”, entre outras perguntas.

 

·         Em momentos de feedback de equipe. Momentos de avaliação são quase sempre muito difíceis e tensos. Uma forma de trazer mais segurança e empatia para este tipo de momento é fazê-lo em círculo, da seguinte forma: primeiro, é importante que toda a equipe construa junto um grupo de combinados (relativos a procedimentos, normas, metas, entre outros), pois se os combinados vêm só das lideranças centrais, as pessoas tendem a não se apropriar tanto deles; segundo, é importante ritualizar o círculo, criando um ambiente favorável, e dando tempo para que surja o que for preciso, sem que a conversa tenha de ser interrompida no auge; terceiro, é importante começar pelo autofeedback, deixando que cada pessoa se avalie a partir dos combinados que ela mesma (junto com o grupo) criou, em vez de começar com as pessoas dando feedback umas para as outras – isso ajuda a diminuir resistências, aumentar a humildade, a sinceridade e a auto-responsabilidade e, muitas vezes, ao final, resta pouco a ser criticado no outro; quarto, é importante que as lideranças centrais participem em pé de igualdade, dando o exemplo honesto de auto-avaliação e sem “aproveitar” para sutilmente dar bronca ou lição de moral no grupo; em quinto lugar, ajuda muito se antes da segunda rodada, em que cada um poderá dar feedback para outra pessoa ou para o grupo, seja frisado a importância da fala positiva e apreciativa – por exemplo, em vez de “eu não gosto que você fale alto”, dizer “eu gostaria que você falasse mais baixo” – trazendo o foco para o potencial que gostaríamos que o outro expressasse, em vez de o defeito que gostaríamos que ele corrigisse; sexto, nas rodas de feedback, as críticas e os elogios devem ser igualmente valorizados – é importante que todos se sintam apreciados em algo, de forma verdadeira; em sétimo lugar, é importante que os combinados, os exemplos de frase apreciativa, as perguntas que nortearão o círculo etc estejam visíveis para todos, em flip charts, power point ou outros; em oitavo, é muito importante que alguém colha (se possível, de forma bonita e visual) as coisas mais bonitas que surgirem desse círculo, e que possa ser revisitado depois, seja enviando-o para as pessoas ou deixando esta colheita pregada na parede; por último, ajuda muito que ao final se faça um fechamento que ajude as pessoas a aliviar a tensão (com algum exercício físico ou de relaxamento, por exemplo) e a conectar com algo muito positivo (fazendo uma fala final profundamente poética e apreciativa). Círculos de feedback, quando bem conduzidos, são experimentados como algo inesquecível, gerando cura e aprofundamento de vínculos.

 

Quando e como usar círculos no processo educativo?

·         Círculos com crianças: existe uma técnica muito simples e efetiva para usar o círculo com crianças (mesmo aquelas de 3 ou 4 anos de idade), que consiste em pedir para que as crianças sentem em círculo e, segurando a ponta de um barbante, jogar o rolo para uma criança e pedir que ela fale qualquer, por exemplo, coisa sobre o dia dela (pode ser também sobre qualquer outro assunto – seus pais, algo que ela aprendeu etc). Em seguida, ela joga para outra criança, que fala sobre ela, e assim sucessivamente. Quanto menores as crianças, mais rápidas precisam ser as falas, pois elas facilmente se dispersam. Ao final, forma-se uma teia, com todas as crianças segurando uma ponta do barbante. Além de ser divertido, o ato de segurar a corda faz com que as crianças não dispersem e fiquem presentes na roda. Outra forma de manter o círculo lúdico e divertido é ter um bastão da fala (veja mais abaixo) lúdico, que possa ser jogado de pessoa para pessoa – por exemplo, uma bola colorida.

 

·         Círculos com jovens: conversas em círculo funcionam bem com jovens, e podem ser feitas em moldes bem parecidos com os sugeridos mais acima, para o trabalho de equipe. Conversas sobre temas e angústias dessa fase podem ser muito profundas quando feitas em círculo, desde que não se façam perguntas num nível muito técnico ou formal (por exemplo, “Qual a importância da sexualidade?”), mas num nível mais pessoal, que permita ao jovem falar sua opinião sobre o assunto (por exemplo, “O que é sexualidade para você?”). Ao mesmo tempo, perguntas muito pessoais (por exemplo, “Como você tem vivido sua sexualidade?”) tendem a não funcionar, salvo em grupos já bem trabalhos ou com alto nível de vínculo, pois muitos jovens não querem se expor tanto. Mas quanto é pedido aos jovens sua opinião sobre um assunto (seja sexualidade ou vida familiar), muitos tendem a contar um pouco da sua história, e nesse processo, a cada fala que se sucede, o círculo começa a se aprofundar. É importante o educador entender que existe uma “musculatura” da conversa a ser trabalhada, e que pode demorar até se chegar num círculo profundo e concentrado – os primeiros círculos podem ser permeados de risos nervosos, brincadeiras, ou simplesmente de falas rápidas e curtas. E o educador não deve repreender ou recriminar o grupo se isso acontecer, pois neste caso ele corre o risco de perder a confiança do grupo para trazer essa atividade de novo (que pode ser classificada, neste caso, como “obrigação” ou “chata”). Em vez disso, o melhor é apreciar o mínimo de avanço na capacidade de concentração ou de profundidade que for alcançado naquela conversa em específico. Aos poucos, o grupo vai se acostumando – e até se afeiçoando – a conversar deste jeito, e vai trazendo historias e temas cada vez mais profundos.

 

·         Círculos com adultos: no caso de processos educativos com adultos, o círculo pode funcionar de forma bem parecida com alguns dos círculos sugeridos mais acima, para trabalho em equipe. Os adultos, em geral (mesmo os de origem mais simples e com dificuldade de se expressar) gostam muito de contar sua história, então perguntas pessoais sempre caem muito bem, por exemplo: “Quem sou eu?”, “O que eu mais valorizo na vida?”, “Por que (tema em questão) é importante para mim?”, “Como eu tenho vivido (tema em questão)?” e por aí vai. O único cuidado aqui é que, no caso de grupos com nível educacional muito simples, é melhor evitar perguntas que exijam abstração, do tipo “O que este tema que estamos trabalhando conta sobre mim mesmo?”, pois muitas vezes as pessoas ficam confusas e se desconectam. Adultos que cresceram com poucos estímulos educativos tendem a ter mais dificuldade para abstração (embora isso não seja uma regra) e, por isso, perguntas mais simples e concretas como “O que você mais gosta na vida?”, “Quem são as pessoas mais importantes para você?”, “Qual seu maior sonho?”, “Qual sua maior dificuldade?” costumam funcionar melhor.

 

Dicas para conduzir círculos

·         Bastão da fala: muitos grupos têm dificuldade de sustentar uma conversa profunda, em que as pessoas não se interrompem e em que o silêncio é respeitado como parte da conversa. Por isso, atualmente, muitos círculos são conduzidos com a ajuda de um bastão da fala – um objeto que é segurado pela pessoa que deseja falar e, enquanto ela estiver segurando o objeto, somente ela fala.  É importante que o facilitador assegure que o bastão da fala seja respeitado, convidando gentilmente as pessoas a silenciarem quando elas falarem enquanto a pessoa que está com o bastão está falando. O bastão da fala pode ser: (i) um objeto ritual levado pelo facilitador (algo com uma aura sagrada, seja um símbolo religioso, algo de muito valor sentimental para o facilitador ou um bonito objeto da natureza); (ii) um objeto lúdico, como um boneco, uma bola colorida, um objeto engraçado; (iv) qualquer objeto que esteja disponível, como uma caneta ou uma caneca (não indicado se o facilitador quiser ritualizar o círculo, mas útil em reuniões cotidianas); (v) um ou vários objetos dos participantes, que podem levar algo significativo para eles (quando avisados com antecedência) e colocar esses objetos no centro do círculo, para que sirvam de bastão da fala. Neste caso, é interessante convidar os participantes a colocarem seus objetos no centro da roda com a intenção de que, ao fazer isto, eles estejam investindo sua energia naquela conversa. O facilitador pode escolher usar um único bastão da fala para todos os participantes ou eles podem escolher, na sua vez de falar, trocar o objeto por outro que esteja no centro do círculo. O bastão não é um pré-requisito do círculo, e é importante que ele não vire uma “muleta” em que a conversa só é possível com ele, mas ele pode ser uma ferramenta útil para: treinar a capacidade de falar com intenção e escutar com atenção; ritualizar a conversa; trazer um aspecto “sensorial” para a fala; ou para momentos em que a conversa “esquentou” e o grupo está se interrompendo muito.

 

·         Circulando a fala entre as pessoas: o facilitador pode escolher deixar a fala livre: quem quiser, pega a palavra (ou o bastão da fala), expressa-se, e depois devolve o bastão (ou silencia) e espera a próxima pessoa falar. Este tipo de círculo tem a vantagem de permitir que cada pessoa fale no seu tempo, mas pode ser muito mais longo, pois às vezes há períodos grandes de silêncio entre uma fala e outra. Outra opção é pedir que, após a primeira pessoa falar, ela passe o bastão (ou a palavra) para a pessoa a seu lado (à sua direita, por exemplo) e assim sucessivamente. Se alguém não desejar falar, essa pessoa passa a palavra para a pessoa do lado, e assim por diante, até a palavra ou o bastão retornarem para a primeira pessoa que falou. Se a intenção do círculo for fazer com que todos falem, a palavra (ou o bastão) pode dar mais de uma volta no círculo, dando oportunidade para que aqueles que preferiram passar sua vez na primeira rodada possam falar na segunda.

 

·         Tempo do círculo: o tempo do círculo depende, principalmente, de três fatores: o tipo de pergunta (quanto mais profunda, maior o tempo de fala de cada um); o número de pessoas; o perfil do grupo (pessoas com maior capacidade de abstração e com maior nível de autoconhecimento tendem a falar por mais tempo). Embora cada círculo tenha um tempo único, só como uma referência, é comum círculos de 25 pessoas, quando colocada uma pergunta mais profunda, demorar cerca de 2h. Embora não seja convidativo falar para as pessoas que elas têm um número máximo de minutos para falar, o facilitador pode manter em mente, na hora de calcular o tempo do círculo, uma média de 4 a 6 minutos por pessoa que, embora nem sempre pareça, é bastante tempo para uma única pessoa falar. Quando a pergunta é menos profunda ou o grupo não tem o perfil de falar muito, ou quando a proposta for responder a pergunta com uma frase, o círculo pode ser bem mais curto – neste caso, pode-se pensar numa média de 1 a 3 minutos por pessoa. De todo modo, só com a prática chegamos a ter uma noção mais exata do tempo médio de círculo para cada grupo.

 

·         Preparação do espaço: como já dito, círculos que se propõem a conversas mais profundas ganham quando os ambientes em que as conversas acontecerão são melhor preparados. O tipo de preparação vai depender da cultura do grupo em específico – em alguns lugares, incensos, velas e outros arranjos serão bem recebidos e, em outros, apenas um vaso de flor no centro ou apenas a pergunta central que servirá de base para a conversa, escrita de uma forma atraente e bonita. Caso os participantes tragam objetos pessoais para colocar no centro, vale colocar uma toalha bonita e criar um ambiente convidativo para que eles queiram colocar o seu objeto.

 

·         Sustentação da energia: durante os círculos, diversas coisas que influenciam a energia do grupo podem acontecer: o tempo do círculo ser muito longo, e as pessoas começarem a se desconectar; alguma fala mais emocionante impactar o grupo; as pessoas se desconectarem dos princípios e começarem a se interromper, dar conselhos, julgar etc. Por isso, é muito útil que o círculo tenha ao menos um guardião (que pode ser o próprio facilitador ou um co-facilitador) que desde o princípio se apresenta como alguém que buscará cuidar da integridade da energia do círculo. Esse cuidado deve ser feito de forma gentil – ou seja, o grupo não deve tomar “bronca” por estar quebrando os princípios do circulo, por exemplo. Uma forma de fazer isso é combinar com o grupo que sempre que o guardião sentir que a energia está caindo, por causa do tempo, ou porque as pessoas começaram a se interromper etc, ou em momentos de uma fala mais tocante, que ele tocará um sino para que todos possam fazer alguns minutos de silêncio, seja para poder voltar a uma atitude mais centrada, seja para digerir a fala emocionante que acabou de acontecer. Ao segundo toque do sino, o círculo pode continuar.

Embora todas as dicas e princípios explicados nesse texto sejam úteis, o que é realmente determinante para aprender a facilitar círculos e usá-los de forma apropriada em cada contexto é praticar, praticar e praticar! Por isso, convidamos todos os praticantes da Liderança do Coração a arriscar-se e chamar círculos em seus diversos contextos pessoais e profissionais, ousando criar novas culturas nos grupos em que participamos, onde a Integridade, a Empatia, a Cocriação e o Empreendedorismo são forças vivas, e não apenas teorias escritas num papel.

sábado, 20 de agosto de 2011

A aventura de se relacionar

Somos capazes de tolerar a dor e o desespero? O discurso nas ruas e nas mídias diz que não: por isso precisamos nos anestesiar, comendo, bebendo, fumando, comprando, enfim, aliviando o “sofrimento do dia a dia”. Com humor, estampamos em camisas: se não fumo, não bebo e não trepo, então não vivo. A vida se iguala ao prazer de anestesiar uma existência sem significado, e como não é possível tolerar o contato com essa dura realidade nem um segundo, temos que nos anestesiar com cada vez mais intensidade e mais rápido, sem dar uma chance sequer para a consciência e a verdade.

Eu fui uma criança viciada em televisão, um adolescente viciado em revistas que incitavam o sexo e um jovem fumante e beberrão. Depois, larguei tudo isso e fui viver a vida como ela é, com cada vez menos anestesias, e querem saber a verdade da minha experiência? Nós somos capazes de tolerar a dor e o desespero. No começo, parece que não, que o mundo vai acabar. Como diz a literatura que trata das situações de “despertar espiritual”, é a tal “morte do ego”, a perda total da identidade construída até então, e que pode se manifestar com sensações de morte ou de loucura iminente. Passada essa fase (para quem a passa), vem a verdade: sofrimento e anestesia são pura ilusão.

Dor e desespero são palavras grandes apenas quando a verdadeira base da vida, que é amor e felicidade, está tão fora do foco que detalhes como esses se tornam a única possibilidade de concentração de nossa mente. Um punhado de sujeira dentro de uma xícara de água faz uma grande diferença – dentro de um oceano, muito pouca. Mas aprendemos que a sujeira é a principal e maior realidade, e que o gosto da água pura é experiência rara e para poucos. Mentira.

Mas acreditamos nisso, e por considerar intolerável a possibilidade de entrar em contato com a podeira, ou seja, de acessar os sentimentos densos da vida, nós nos impedimos de nos relacionar com profundidade – com o outro e conosco. Não há possibilidade de aventura se cada mal-estar é interpretado como um sinal de que devemos parar e recomeçar tudo de novo. Se nossa vida fosse um vídeo game, seria como mudar de jogo eternamente, sem nunca passar da primeira fase por não conseguir sequer encarar frente a frente o primeiro vilão – que é em geral o mais fraco, mas que aos nossos olhos iludidos parece o maior e mais fatal de todos. Que aventura é essa, que não passa do nível básico?

E nem estou dizendo que precisamos mergulhar no lado denso da vida. Não. Isso é simplesmente o reverso da moeda – em vez de fugir, perder tempo lutando. O que digo é que podemos juntos cultivar o oceando de amor infinito que faz o punhado de poeira parecer absolutamente insignificante para nossa consciência mais profunda, mesmo quando no nível superficial de nossa experiência, ele parecer enormemente gigante. O que digo é que podemos encontrar tamanho entusiasmo na aventura de se relacionar conosco, com o outro e com o mundo, que os grandes perigos se tornam estimulantes desafios. Eu sou o herói de uma história deliciosamente perigosa.

Para não falar sobre isso sozinho, faço o convite para assistirmos juntos o vídeo da pesquisadora Brene Brown no TED, com seu discurso sobre o poder da vulnerabilidade, e em seguida chocar-se com o poder anestesiante e emburrecedor da publicidade e do consumo direcionado para crianças, assistindo o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, da diretora Estela Renner. E aí podemos conversar mais – me escreva!